• Sonuç bulunamadı

A. Kıta Avrupası Hukuku

1. Almanya

A confluência entre convicções religiosas e conquistas seculares resultou na constituição de

um “credo” nacional: uma teologia “civil” na qual patriotismo e religião, Deus e

democracia, liberdade e santidade são cultuados como obras da providencia divina, cujas sementes foram plantadas por Deus no Novo Mundo, berço de uma nova civilização. (FONSECA, 2007, p. 178)

Os mitos fundacionais protestantes, as narrativas sobre os pais peregrinos, a presença da linguagem religiosa na política e a mistura entre liturgias civil e religiosa são componentes bastante

particulares do amálgama identitário da “América profunda”. A forma como os processos políticos

foram assimilados e impulsionados pela simbologia religiosa em diversas passagens históricas é a essência da chamada “religião civil” americana.

35 Destaque para o crescimento da Assembleia de Deus, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Segundo Robert Bellah (1967), sociólogo que popularizou o conceito36 para a análise dos Estados Unidos, a religião civil seria uma somatória de mitos organizados à maneira de instrumento discursivo que vincula política e moralidade, facilitando o consenso social e oferecendo um sentido à existência da comunidade. A teia simbólica é tecida por invocações de Deus nos discursos oficiais, citação de textos religiosos por líderes políticos em ocasiões públicas, pelo uso de símbolos religiosos em prédios governamentais, ou mesmo pelo uso de instalações públicas para prática de rituais religiosos.

Para Bellah, o exemplo central para entender a religião civil americana é a cerimônia de posse do presidente da República Americana, que assume um compromisso ao mesmo tempo com o Governador do Universo e com seu povo. O líder eleito faz o juramento sob uma Bílbia, e pede ajuda a Deus para seguir seu mandato. Da mesma forma, muitos outros atos solenes invocam ao Ser Supremo e sua benção. (SILVA, 2009, p.)

A religião civil seria, portanto, um conjunto de expressões ritualísticas do patriotismo que auxiliam no desafio nacional de autoadoração. Ou seja, o hino nacional, exibição da bandeira, paradas em feriados patrióticos, mitificação de passagens marcantes da história com monumentos que celebram líderes ou soldados de guerra, o uso de suas vidas para transmitir ideais morais, a veneração de textos fundacionais como a Declaração de Independência e a Constituição, são elos constituintes da religião civil dos EUA como de tantos outros países.

Diferentemente da religião civil francesa, por exemplo, aquela desenvolvida nos Estados Unidos foi profundamente marcada pelo cristianismo e pelo protestantismo. A Revolução Francesa de 1789 foi bastante anticlerical e o abismo entre os símbolos católicos tradicionais e o simbolismo revolucionário é imenso. A religião civil americana nunca foi militantemente secular. Pelo contrário, foi construída sem entraves entre os símbolos de solidariedade nacional da igreja. “O

puritanismo se “seculariza” ao fazer desaparecer seus significados religiosos, gerando a

naturalização da ideologia puritana sob o mito da América: uma religião que se converte em nação sem deixar de perder seus elementos ideológicos intrínsecos.” (RESENDE, 2009, p.222)

A religião civil americana teve sua origem marcada pelo imaginário revolucionário visto como o ato final do êxodo iniciado no velho continente. A Declaração de Independência e a Constituição são consideradas escrituras sagradas e Washington o Moisés nomeado por Deus para tirar seu povo das garras da tirania inglesa. “As palavras e atos dos pais fundadores, especialmente

36 A religião civil é um termo cunhado por Jean-Jaques Rousseau, no quarto capítulo do Contrato Social. Para o

filósofo, a religião civil seria a base moral comum às sociedades modernas, uma forma de cimento social que ajudaria na coesão do Estado, fornecendo-lhe autoridade sagrada. Esta base moral universal seria, por exemplo, a existência de uma divindade e a crença no pós-morte, na recompensa da virtude e no castigo do vício.

os primeiros presidentes, moldaram a forma e o tom da religião civil americana até os dias atuais.”

(BELLAH, 1967)

Posteriormente, com a Guerra de Secessão americana (1861-65), a religião civil passou a ser influenciada pelos temas do sacrifício e do renascimento. O novo simbolismo ganhou materialidade através dos discursos de Lincoln, cuja morte logo foi associada à redenção de Cristo, dos cemitérios que homenagearam as perdas da guerra (principalmente o Gettysburg National Cemetery), e dos feriados nacionais como o Memorial Day, que logrou integrar as comunidades locais ao culto nacional.

Atualmente, a religião civil é descrita por ritos e símbolos que perduraram no “espírito

americano”. Dentre elas, pode-se mencionar o “mote oficial” do país, In God we trust. A expressão

foi calcada pela primeira vez nas moedas de dois centavos em 1864. O início da prática data da guerra civil e foi proposta por um reverendo da Pensylvannia, acreditando que o conflito era um castigo porque os americanos não mencioram Deus na Constituição. Em 1905, Theodore Roosevelt tentara retirar a expressão das moedas e cédulas, mas a opoisção popular foi tamanha que ele recuou. (SILVA, 2009, p.91) Em 1956, o próprio Congresso norte-americano aprovou o lema nacional, que continua ilustrando os dólares, adesivos de carros e discursos oficiais nos Estados Unidos.

Também a expressão under God está presente no Voto de Fidelidade (Pledge of Allegiance) dede 1954, quando foi aprovado pelo Congresso. Todas as crianças do sistema público

de ensino americano afirmam diariamente ser “uma nação sob Deus”. Apesar do esvaziamento do

contexto de sua aprovação, a ameaça do ateísmo comunista nos anos de chumbo da Guerra Fria, a expressão materializou-se no imaginário norte-americano e é um dos maiores símbolos da religião civil americana.

Outro exemplo clássico é o God bless America, fórmula constante nos cumprimentos de encerramento que vão de telejornais a discursos presidenciais. A religião civil tem a função, portanto, de reunir os americanos de todas as religiões e denominações em torno de uma narrativa sobre sua origem, em processo que dá aura religiosa para patriotismo e legitimidade nacional para as crenças. É uma forma de superar a competição entre lealdades, gerando coesão social. Nas

palavras de Huntington: “A religião civil americana provê benção religiosa àquilo que os americanos sentem ter em comum.” (2004, p. 103)

Para abrigar sentimento universal desejado, a religião civil americana exclui automaticamente os particularismos religiosos, transformando indivíduos religiosos de várias

denominações “em uma nação com alma de igreja.” (HUNTINGTON, 2004, p.106) A única palavra

lado, o credo americano é o protestantismo sem Deus, por outro a religião civil americana é o cristianismo sem Cristo.

Segundo Huntington, único grupo excluído de antemão são os ateus, já que a religião civil seria marcada pelo pressuposto de um Ser Supremo. Para o autor, a religião civil tem quatro principais elementos: a ideia de um Pai criador, a designação dos americanos como povo escolhido com a missão de fazer o bem na Terra, o predomínio de símbolos e alusões religiosas nos rituais públicos dos EUA, e a própria aura religiosa que assumem as cerimônias nacionais (passam a representar funções religiosas). Como exemplo, podemos citar a veneração da Constituição e da Carta de Direitos (Bill of Rights) que assume a forma de textos sagrados na definição da identidade americana. (HUNTINGTON, 2004, p.104)

Esse entrelaçamento entre o civil e o religioso cria uma fé híbrida sustentada por um excepcionalismo que alega que os Estados Unidos foram escolhidos por Deus para cumprir um papel único no mundo. Toda vez que o Juramento de Lealdade é recitado ou A Bandeira

Estrelada37 cantada, essas crenças são reforçadas. (MERSDEN, 2008, p.14)

Para Lee Marsden, a atual tendência plurirreligiosa norte-americana, que antes era pluridenominacional, faz com que a religião civil se aproxime cada vez mais dos valores

compartilhados no “credo americano”. Este credo é composto pelo comprometimento ideológico

com a democracia, com os princípios políticos e legais consagrados na Constituição e na Declaração de Independência. Consiste da crença na sabedoria dos pais fundadores38 e seu projeto de liberdade, igualdade, individualismo e laissez-faire.

Em suma, o papel da religião na sociedade americana pode ser visto como um cimento que lhe garante coesão flexibilidade. Os mitos religiosos fundacionais, que no início serviram como estímulo e conforto aos colonos, acabaram sendo introjetados pelas sucessivas gerações, agregando doses de idealismo à nascente comunidade imaginada, e formando um projeto de país associado à religião civil.