Alguns exemplos práticos servem para ilustrar as aplicações possíveis do critério do núcleo fático essencial (causa de pedir como mesmo evento da vida, ou mesmo segmento da história ou mesmo complexo fático) para a identificação do concurso de demandas e, quando cumuláveis estas demandas concorrentes, também para a incidência do efeito extintivo da primeira sobre as seguintes.
Suponha-se o concurso a que tradicionalmente se denomina de concurso impróprio. Se alguém adquire um veículo de outra pessoa, pagando-lhe determinada soma de dinheiro, mas descobre a existência de determinado vício oculto, pode ajuizar uma demanda contra o vendedor, pedindo, em cumulação alternativa662, ou o abatimento proporcional ou a resilição. Mas se formular apenas um dos pedidos, terá perdido o direito de demandar o outro, porque ambos os pedidos têm por fundamento o mesmo núcleo fático essencial. Mesma coisa em relação à alternativa entre a complementação da área, a redução do preço ou a extinção do contrato na venda ad mensuram663.
Suponha-se agora o concurso próprio de demandas. Se alguém sofre um acidente ferroviário, atingido por uma placa de sinalização operada por um preposto do transportador, poderá pedir indenização pelos danos que sofrer, cumulando dois fundamentos distintos: a responsabilidade aquiliana do preposto, que operava a placa de sinalização, e a responsabilidade objetiva, nos termos do Decreto nº 2.681/12. Mas se omitir um destes fundamentos, não poderá posteriormente fundamentar nele uma nova demanda, porque o núcleo fático essencial de ambas as demandas será o mesmo: o acidente, ocorrido em determinada composição ferroviária, em determinado dia e em determinada hora. A espécie de responsabilidade, por se tratar de uma categoria jurídica, não integra o conceito de núcleo fático essencial.
Mesmo caso quando alguém empresta um imóvel a outra pessoa, e esta pessoa causa danos ao bem emprestado. Aquele que empresta a coisa pode pedir a condenação daquele a que a
662 A cumulação alternativa é autorizada pelo próprio direito material. Neste caso, pelo Código Civil: Art. 441. A
coisa recebida em virtude de contrato comutativo pode ser enjeitada por vícios ou defeitos ocultos, que a tornem imprópria ao uso a que é destinada, ou lhe diminuam o valor. Parágrafo único. É aplicável a disposição deste artigo às doações onerosas. Art. 442. Em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato (art. 441), pode o adquirente reclamar abatimento no preço.
663 Art. 500. Se, na venda de um imóvel, se estipular o preço por medida de extensão, ou se determinar a respectiva
área, e esta não corresponder, em qualquer dos casos, às dimensões dadas, o comprador terá o direito de exigir o complemento da área, e, não sendo isso possível, o de reclamar a resolução do contrato ou abatimento proporcional ao preço.
coisa foi emprestada, com fundamento na responsabilidade fundada no contrato de locação e, em cumulação eventual, na responsabilidade fundada no contrato de comodato. Mas se não cumular estes fundamentos, não poderá ajuizar uma segunda demanda, baseada no fundamento omitido, a não ser que o faça em relação a outro evento da vida: se afirmar, por exemplo, que o dano cujo ressarcimento ele pede não é mais aquele mencionado na primeira demanda, mas algum outro. Neste caso, a fundamentação jurídica da nova demanda será livre, porque se trata de um novo núcleo fático essencial.
Quando alguém promete pintar um quadro em troca de determinada soma de dinheiro, e recebe o pagamento por meio de um cheque, embora sejam duas as obrigações, uma cambiária e outra causal, haverá também, sem dúvida alguma, apenas um único núcleo fático, porque único o evento da vida. Esta hipótese é mais complexa, todavia, porque a cobrança judicial desta dívida cambiária dispensa o processo de conhecimento. E o procedimento comum, adequado ao primeiro caso, e executivo, para o segundo, são incompatíveis entre si664. Conquanto havendo concurso, a eficácia extintiva não se operará, ao menos até o início da execução, em caso de vitória do credor na fase cognitiva. Isso porque apenas quando iniciada a execução judicial poderá haver cumulação entre as demandas, ambas agora executivas, nunca antes. De todo modo, não será a satisfação de um direito que determinará a extinção de um direito concorrente, mas a própria eficácia extintiva do concurso sobre a demanda concorrente, liberada pela cumulabidade superveniente entre ela e a demanda fundada no direito causal.
Este conceito de concurso de demandas acaba por abarcar também, por fim, hipóteses que tradicionalmente não são classificadas como de concurso, nem próprio nem impróprio. É o caso da cumulação simples de pedidos (condenação por dano moral e condenação por dano material), na hipótese de um acidente automobilístico. Como o núcleo fático essencial é único - o evento da vida acidente de trânsito, no entroncamento da rua tal com a avenida tal, em determinado dia e em determinada hora -, a vítima não poderá pedir a condenação pelo dano moral em uma nova demanda, se já houver pedido a condenação pelo dano material em outra. Ou a vítima cumula os pedidos, ou perde o direito de pedir aquilo que não pediu quando podia ter pedido.
664 "Como ao pedido de tutela executiva de pagamento de soma, fundado em título executivo, corresponde um tipo
de procedimento totalmente incompatível com o procedimento relacionado ao pedido de cobrança (demanda de rito ordinário), não se poderia admitir a cumulação em tais casos" (Didier Jr., Curso de direito processual civil, v. I, p. 432).
E a razoabilidade deste verdadeiro ônus de cumular demandas cumuláveis, nesta hipótese, revela-se ainda mais óbvia, diante do hábito, frequentíssimo na prática judiciária brasileira, consistente no ajuizamento de duas demandas, uma para cobrar dano moral, outra para cobrar dano material, contra o mesmo demandado, perante os juizados especiais cíveis. É uma maneira eficiente, embora repudiável, de fraudar a alçada do procedimento sumaríssimo, evitando-se a "renúncia ao crédito excedente" imposta pelo art. 3º, §3º, da Lei nº 9.099/95. O critério do núcleo fático essencial serve para remediar esta prática reprovável.
E é correto denominar esta hipótese de concurso de demandas, porque o concurso pressupõe unicamente o mesmo núcleo fático essencial, e não a identidade de escopos ou a equivalência econômica entre os pedidos cumulados.