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Assim como as demais mulheres participantes desta pesquisa, dona Ciça é de origem de uma pequena cidade do interior do nordeste. Quando entrevistada possuía 67 anos e estava “encostada” pelo INSS de onde recebia uma renda mensal de um salário mínimo. Em suas narrativas dona Ciça se reporta a sua infância ainda na cidade de Araruna, no brejo paraibano. Lembra que uma epidemia de esquistossomose atingiu essa cidade, devido a “sujeira do rio” do qual a maior parte dos habitantes retirava água para consumo doméstico. Tal problema motivou seu pai entre outros moradores daquela região a mudar-se para outra cidade próxima, no interior do Rio grande do Norte. Seu pai era agricultor e barbeiro e sua mãe dona de casa. Somente aos dez anos, dona Ciça entrou na escola. Segundo ela, sua infância foi de muita pobreza, mas de muita segurança, sob a proteção da família e da comunidade onde morava.

Dona Ciça: Minha mãe era uma mulher muito boa, e meu pai

também, mas eles não sabiam nada da vida não, era tudo assim leigo das coisas, sem estudo, e gente assim do interior, de cidade pequena não é muito bem desenvolvido. Meu pai trabalhou muito na vida, mas a gente vivia numa pobreza que, meu Deus, era difícil viu, mas a comida tinha, não tinha assim casa boa, nem as coisas que a gente tem hoje, televisão, geladeira. Mas sabia que lá a gente vivia em paz? Ninguém via essa violência não, de uns tempo pra cá, foi que esses negócio de droga, de gang veio aparecer. No interior a gente tinha uma vida simples, mas de muita paz dentro de casa. Diferente do tempo de hoje, que é filho desobedecendo aos pais, a falta de respeito, a violência solta no meio do mundo, é pai prendendo filho e matando filho, filho batendo em pai e mãe, não é? Isso é muito triste minha filha, mas é a realidade, é só o que a gente vê aí na rua e na televisão também.

Ao narrar sua vida familiar na infância dona Ciça faz comparações entre a realidade no interior junto pequena comunidade com o “tempo de hoje” na cidade grande. Observa as mudanças sócio espaciais especialmente no que diz respeito ao

avanço da violência nos centros urbanos e aos problemas ligados as drogas e suas repercussões na realidade social dentro e fora do ambiente doméstico. Dona Ciça chama atenção para os problemas intergeracionais na família, e relaciona-os com a “falta de respeito”, na tentativa de apresentar a desestruturação das hierarquias sociais, abalando o sistema de autoridade da família, modificando os padrões morais que deveriam orientar os comportamentos de seus membros e abrindo espaço para a violência.

Aos dezoito anos conheceu seu primeiro companheiro, e com ele teve seu primeiro filho aos vinte anos. Saindo da casa dos pais, nesse período de sua vida dona Ciça passou a viver com maiores privações materiais chegando a passar fome. As dificuldades financeiras terminaram afetando seu relacionamento, pois seu companheiro partiu para São Paulo em busca de trabalho e nunca mais retornou. Dona Ciça voltou para a casa dos pais com sua filha. Que após alguns anos deu para um casal sem filhos que moravam em Natal. Aos trinta anos dona Ciça conheceu um senhor dezoito anos mais velho que ela e com ele foi “viver junto” em Solânea. Suas condições materiais melhorou expressivamente pois esse senhor possuía melhores condições econômicas.

Dona Ciça: Arrumei esse velho, e fui morar mais ele em Solânea.

Ele era até mais ou menos, tinha casa alugada no centro, tinha umas terrinhas e gado, a gente vivia bem, não faltava nada. Com ele eu tive Josi e esse galego, vivia dentro de casa. Não podia sair de jeito nenhum que ele não deixava. Era uma prisioneira dele, não botava nem a cara na rua.

No entanto, apesar da considerável melhora de suas condições de habitação, alimentação e cuidados com os dois filhos que com ele veio a ter, sua liberdade foi reprimida ao ponto dela sentir-se prisioneira do companheiro. Tal convivência durou oito anos, tempo este em que dona Ciça foi vítima de muita violência física assim como seus filhos.

Dona Ciça: Vivi mais ele oito anos, mas minha filha foram oito anos

de pau que eu levava dele, apanhei muito, sofri demais na mão desse homem, porque ele arrumava homem pra mim. Não podia me ver nem varrendo a calçada que ele reclamava, era um ciúme doente que ele tinha. Eu sei que eu fugi pra não morrer, porque ele puxou uma faca pra cima de mim, quase que me mata, o filho dele foi quem me defendeu. Eu sei que um dia ele viajou, eu arrumei dinheiro emprestado e vim embora pra Araruna mais os meninos, voltei pra

casa de mãe de novo. Parecendo uma esmolé, somente com a roupa do couro e os meninos.

Ao chegar em Araruna dona Ciça deixou seus filhos aos cuidados de sua mãe e na companhia de uma comadre, dona Maria, conterrânea sua, veio para João Pessoa para trabalhar em “casa de família”. Ainda no primeiro ano de trabalho como doméstica nesta cidade, dona Ciça “perdeu” sua mãe. De tal forma, precisou retornar a sua cidade de origem para buscar os filhos que haviam ficado sozinhos. Trazendo-os para João Pessoa, dona Ciça deixou-os aos cuidados de sua comadre, que neste tempo tinha ido morar no Timbó, em “terreno invadido”, ela também participou da invasão e fez uma casa de taipa, com a ajuda de seu compadre, seu Miguel. Foi trabalhando como faxineira e lavadeira que dona Ciça conseguiu comprar os materiais para sua casa de alvenaria, contando também com a solidariedade dos moradores daquela comunidade para sua construção.

Desde então dona Ciça se voltou para o trabalho e para a criação dos filhos, também criou elos importantes com suas ex patroas mantidos até hoje. Seus domingos ela “curte” nas casas onde trabalhou por muitos anos em Bancários. Gosta de sair para visitar suas ex patroas e para “jogar conversa fora”. Durante os dias da semana dona Ciça cuida de seus netos para que sua filha consiga trabalhar e estudar. Ela é quem leva e traz as crianças ao colégio, arruma as refeições e faz todos os serviços de casa. Em seu dia a dia, volta-se a tais atividades, mas nos finais de semana, antes que sua filha “invente de sair” ela diz que sai primeiro.

Dona Ciça: Quando chega domingo de manhã bem cedinho, eu me

arrumo, bem caladinha, e ganho o mundo, saiu de casa e deixo todo mundo dormindo, vou pra missa, depois vou pra casa de minhas ex patroas, num domingo vou em uma, noutro domingo vou pra casa da outra, gosto demais, porque elas saem e me levam junto. Elas tudinho gostam de mim e gosto muito delas também. [...] Só tenho o domingo pra sair, e saio logo cedo, porque senão um menino acorda, aí tem que fazer mamadeira, tem os serviços de casa, termina o dia e não falta serviço, eu digo a Jose domingo a casa é sua, porque em dia de domingo, eu quero sair, aí a gente escapole de casa. E mesmo que eu fique em casa ela é quem cuida das coisas, não faço não, tenho que ter um dia pra descansar. Fico a semana toda pra ela estudar e trabalhar, ela tem que ficar ao menos no domingo.

A partir de tal narrativa observa-se que entre as regras domésticas na casa de dona Ciça estão as que dizem respeito as de convivência de coabitação

entre as gerações da família. A negociação entre ela e sua filha se faz de maneira amigável, baseando-se na mútua solidariedade e no mútuo benefício.

Dona Ciça: Olhe eu vou lhe dizer uma coisa, imagine se não fosse

essa minha filha, como eu não estaria, quem ia querer uma velha aleijada como eu pra trabalhar? Quem ia cuidar de mim quando eu precisar? Ela cuida de mim, ela me leva no médico, quando eu fico doente, ela compra meus remédios, ela cuida de mim, é por isso que eu cuido dela e dos meninos dela. Ela me ajuda e eu ajudo ela, ela precisa muito de mim, se não fosse eu que ficasse com os meninos pra ela trabalhar e estudar ela ia fazer como? Ela sabe que ela precisa de mim. Sou velha, mas sou eu quem seguro as pontas aqui da casa. Levo os meninos pro colégio, vou para as reuniões quando tem, levo eles no posto, quando adoecem, tudo isso é comigo. Faço as compras de casa, meu rojão é grande.

A solidariedade prestada por dona Ciça a filha, que com ela habita, não somente se reduz a perspectiva do benefício do cuidado que dela recebe. Mas também relaciona-se profundamente ao sonho de que a jovem consiga realizar os projetos que ela mesma não alcançou. De acordo com Lahire (2004, p. 42) “os sonhos acordados são oportunidades de expressar crenças (modelos, valores, normas) cujas disposições correspondentes ainda não se constituíram, ou de atualizar disposições incorporadas que já não encontraram contextos favoráveis à sua atualização”. No caso de dona Ciça tais sonhos foram construídos com base em processos reflexivos, influenciados pelos referenciais de suas relações sociais com suas ex patroas da classe média, processo estes que levam a reformulação de projetos e no redirecionamento se não de sua própria trajetória, vista como limitada pela velhice, mas ao menos na de sua filha, uma jovem mãe de quatro filhos, que como ela, trabalha em “casa de família” para se manter.

Como se verá nos trechos a seguir dona Ciça atenta para a capacidade da filha em trabalhar e estudar simultaneamente. Destaca não somente as diferenças sociais de seu tempo de juventude em que às mulheres caberia tão somente a vida doméstica e o tempo atual em que as trajetórias femininas são mais flexíveis. Mas também as perspectivas de mudanças de vida de toda a família, a partir da ascensão profissional da filha, que pretende deixar de fazer faxinas, para trabalhar como enfermeira, expressa fortemente a tônica do investimento na realização profissional da filha, evidenciando a solidariedade intergeracional como elemento para ascensão profissional e de individualização feminina.

No imaginário de dona Ciça a ideia de “melhora de vida” está muito associada a maiores condições de consumo de bens do tipo, boa alimentação, eletrodomésticos, melhorias nas condições de habitação. Apesar de receber um salário mínimo, ela organiza suas despesas a fim de sempre possuir uma reserva. Dona Ciça nos revela que sua lógica de consumo não é a do descarte tão comum na realidade contemporânea. Ao contrário ela sabe que sua estratégia é fundamental para sua sobrevivência material e para a reprodução de seu grupo. Ainda que dentro de um espectro de consumo bem limitado, e controlado estrategicamente, é possível identificar nas escolhas desta senhora, um espaço para o consumo próprio, para aquilo que identifica como “minhas coisinhas”. Revelando que apesar das privações e que moralmente a família tenha lugar de destaque, inclusive nos auxílios financeiros, é relevante se preservar um espaço para o consumo consigo mesmo, apresentando o consumo não somente como meio de suprir necessidades gerais, mas também de suprir vontades próprias.

Dona Ciça: Quando a gente vai ficando velha tem muita coisa que a

gente deixa de se preocupar, vou tá comprando roupa, calçado direto pra quê? Compro só assim de vez em quando, não mais como antigamente que eu me arrumava principalmente nas festas de Natal, de ano, de São João, hoje não tenho isso mais não, gasto pouco comigo, é mais assim um remédio, quando não tem no posto. Ou quando me programo pra viajar, quando vou pro interior visitar meus parentes, que eu vou pelo menos uma vez no ano não sabe? Mas coisa assim de tá me enfeitando mais não, porque não tenho mais nem o que esconder, é isso mesmo que você tá vendo a velhice chega pra todo mundo e eu vou esconder isso é? Como? Tem como não. A primeira coisa que acontece é que você não aguenta mais o rojão de trabalhar, de tá pra lá e pra cá, e depois que as pessoas mesmo já dizem logo tá ficando velha. Aí é melhor você se aquietar, e procurar fazer o que está ao seu alcance. Eu cuido dos meus netos, ensino a eles a respeitarem as pessoas, a ser educados, a ser homens que saibam respeitar as mulheres, que hoje em dia as pessoas não tem mais isso, os homens e as mulheres perderam o respeito é tudo de cabeça pra baixo.

Segundo dona Ciça a velhice representa o declínio do corpo, a convivência com problemas de saúde, a falta de vitalidade. Ela define-se como velha principalmente por que sente chagado um tempo em que o corpo fragilizado a impede de desenvolver um trabalho remunerado fora de casa e por sentir-se dependente em alguma medida dos cuidados de terceiros. Ressalta alguns atributos negativos: a pele enrugada, a deformação do corpo, a limitação dos esforços, mas

ao mesmo tempo salienta alguns atributos positivos que, segundo ela, somente a velhice pode trazer, principalmente os anos vividos a experiência acumulada e a possibilidade de compartilha-la com as demais gerações de sua família. Além de alguns direitos adquiridos, como acesso ao transporte urbano gratuito, direito ao benefício do INSS, entre outros.

Benzer Belgeler