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Como já afirmado anteriormente, a principal estratégia metodológica utilizada para a realização desta pesquisa está centrada na assistência ao texto televisivo escolhido, com um grupo de trabalhadores rurais maranhenses, seguido de conversa em grupo de discussão e também por intermédio de entrevistas individuais.

Dividimos o trabalho empírico em duas principais etapas de campo. Durante a primeira, realizada em agosto de 2013, testamos nossos instrumentos e oportunizamos o contato com um grupo de trabalhadores. Chamamos esta etapa de piloto, uma vez que nos deu subsídios para construirmos os instrumentos utilizados no trabalho de campo. Todavia, não utilizamos os seus resultados como dados a serem analisados neste trabalho. O principal motivo de não misturarmos os dados recolhidos no campo durante as duas etapas justifica-se pela modificação do instrumental (Ver roteiros de entrevistas em Apêndices B e C). Modificadas as perguntas (ou a abordagem), consequentemente não daria para sistematizarmos as respostas com os mesmos critérios. Dessa forma, optamos por utilizar a primeira etapa para amadurecermos o contato com os sujeitos e com os instrumentos de pesquisa. E utilizamos apenas os dados primários recolhidos durante o segundo encontro, realizado em dezembro de 2014, para análise neste estudo.

Para a realização do trabalho de campo, os trabalhadores foram convidados e intermediados pela equipe do Centro de Defesa de Açailândia, que cedeu uma sala de suas instalações e deixou sempre um de seus integrantes à disposição para acompanhar o trabalho. Vale destacar que os trabalhadores egressos do trabalho escravo foram convidados, por telefone, e a partir de visitas em domicílios, posto que o Centro de Defesa tem os contatos, por acompanhar os desdobramentos de rescisões trabalhistas ou processos judiciais. Esses trabalhadores residem em Açailândia e em alguns outros municípios adjacentes. Tanto na etapa piloto quanto na principal, custeamos o transporte e foi também oferecido um lanche aos participantes. O critério de escolha de participação, portanto, foi ter sido submetido a condições de trabalho escravo e concordar em participar de uma pesquisa71.

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Vale destacar que todos os entrevistados assinaram o Termo Livre e Esclarecido. O documento submetido à assinatura dos entrevistados pode ser encontrado em Apêndice A.

Quadro 4 – Etapas do trabalho de campo

Período Descrição/pontos principais

1ª ETAPA (PILOTO) Agosto de 2013 Observação participante.

Realização de grupo de discussão piloto. Teste dos instrumentais (roteiros de entrevistas e formas de abordagem junto aos entrevistados)

Visitas a algumas residências de trabalhadores com conversas informais (preparação para entrevistas individuais) Participaram, ao todo, 10 trabalhadores. Pesquisadora estava acompanhada de integrantes do grupo de pesquisa da UFMA.

Grupo de discussão teve duração de aproximadamente três horas.

2ª ETAPA Dezembro de

2014

Observação participante.

Realização de grupo de discussão com instrumentais reformulados (roteiros de entrevistas)

Realização de entrevistas individuais. Participaram, ao todo, oito trabalhadores, sendo cinco presentes grupo de discussão na sede do CDVDH/CB e três

entrevistados individualmente em suas residências, em Açailândia.

Grupo de discussão teve duração de aproximadamente uma hora e meia e as entrevistas individuais, uma hora em média.

Fonte: A autora, 2015.

Em agosto de 2013, realizamos a etapa piloto do trabalho de campo, da qual participaram, ao todo, dez trabalhadores. Iniciamos com um grupo de discussão, realizado na sede do Centro de Defesa de Açailândia, que foi dividido em dois momentos. Inicialmente, o grupo de pesquisadores e os colaboradores do CDVDH/CB receberam os trabalhadores, apresentando os objetivos da pesquisa e o funcionamento do grupo de discussão. Participaram da realização do grupo de discussão eu e mais quatro alunos de iniciação científica do Departamento de Comunicação Social da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), que ajudaram a documentar as atividades desta etapa do campo empírico.72

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Este trabalho de campo fez parte de uma das etapas da pesquisa empírica do projeto de pesquisa

Após as apresentações, foram feitas algumas perguntas aos trabalhadores, no intuito de se ter uma visão geral do perfil de cada um, bem como da percepção deles sobre o trabalho escravo. O objetivo era entender a representação deles como escravos. Num segundo momento, introduzimos a questão da mídia e as representações sobre o trabalho escravo em reportagens televisivas.

Após um breve intervalo, numa proposta de estimulá-los a falar sobre o assunto, foram exibidas cinco reportagens veiculadas em TV aberta brasileira no período de 2009 a 2013, que tratam de questões relacionadas ao trabalho escravo73. Logo em seguida, foi aberta a discussão sobre o que foi assistido. Na ocasião, foram realizadas algumas perguntas aos trabalhadores (ver Roteiro para entrevistas – Primeira etapa de trabalho de campo em Apêndice B), buscando identificar a percepção deles sobre o conteúdo das matérias, concluindo assim o grupo de discussão com os agradecimentos. A entrevista coletiva teve duração de aproximadamente três horas, com um intervalo para lanche.

Além do grupo de discussão, ainda durante o trabalho de campo piloto, realizamos algumas visitas em residências de trabalhadores no bairro da Vila Ildemar, em Açailândia, um dos principais locais de residência do grupo entrevistado. Na ocasião, realizamos conversas informais na tentativa de aprofundar algumas questões colocadas pelo grupo, em conjunto.

Em dezembro de 2014, retornamos a Açailândia, para a realização do trabalho de campo, a partir das reformulações do roteiro de entrevista, bem como para maior amadurecimento da pesquisadora sobre as questões levantadas pelos trabalhadores, durante o primeiro contato realizado em etapa piloto, no ano anterior (2013).

Na ocasião, participaram, ao todo, oito trabalhadores, sendo cinco do grupo de discussão, realizado na sede do Centro de Defesa de Açailândia, e três de entrevistas individuais em suas residências, no mesmo município. Estavámos sem o acompanhamento de alunos da UFMA, mas contamos com a presença de integrantes do Centro de Defesa, que acompanharam o trabalho. Vale destacar que nenhum trabalhador que participou da primeira etapa foi entrevistado durante a segunda; o que nos deu mais

comunicação em redes de denúncia no Maranhão” (2012-2014), financiado pela FAPEMA (Fundação de

Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Tecnológico no Maranhão) e coordenado pela pesquisadora, autora desta tese.

73 As cinco reportagens compõe o corpus documental proposto para análise na tese, formado por sete ao todo. Na ocasião, não foram exibidas duas delas - uma veiculada no Bom Dia Maranhão e outra no Jornal da Record - a fim de não excedermos o tempo combinado com os participantes do grupo de discussão.

tranquilidade para mudar algumas estratégias de abordagem entre uma etapa e outra, como, por exemplo, não detalhar nossos objetivos de pesquisa logo no início e, dessa forma, tentarmos interferir o menos possível nas respostas dos participantes.

Iniciamos o grupo de discussão com a apresentação dos participantes e da pesquisadora, bem como o objetivo do trabalho de campo, de forma genérica, na tentativa de não conduzir as respostas logo de início. Ainda neste momento de apresentação, deixamos bem claro que a identidade dos trabalhadores seria preservada por questões de segurança e solicitamos a assinatura de todos do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A), documento a que eles tiveram acesso e ficaram com uma cópia.

O roteiro de perguntas que orientou nosso trabalho estava dividido em dois principais momentos. No primeiro, que durou aproximadamente quarenta minutos, continha questões relacionadas às trajetórias de vida e de trabalho, bem como as noções que eles tinham de trabalho, isto é, qual a concepção de trabalho para eles.

Após essa rodada de questões, fizemos um breve intervalo, para um lanche, de aproximadamente quinze minutos, e voltamos para o grupo de discussão, reiniciado com a exibição das sete reportagens escolhidas para a realização deste estudo.

Durante a exibição, que durou aproximadamente trinta minutos, retomamos algumas questões, no segundo momento do nosso roteiro de entrevista. As questões agora versavam sobre o que eles percebiam do material exibido, do que as reportagens abordavam, se eles se identificavam com alguns aspectos tratados e o que faltava para retratar a “realidade” deles e, finalmente, se eles fossem produzir essas reportagens, como fariam. Neste contexto, foi aparecendo, aos poucos, a questão do trabalho escravo sem precisarmos pautar, como feito na etapa piloto. Ao final, retomamos a apresentação dos objetivos da pesquisa.

Também na ocasião deste trabalho de campo (dezembro de 2014), realizamos entrevistas individuais com três trabalhadores, em suas residências, no município de Açailândia. Para tanto, seguimos o mesmo roteiro de entrevista do grupo de discussão e realizamos a exibição dos materiais jornalísticos televisivos, a partir do computador levado até as casas dos trabalhadores pela pesquisadora.

Os dados sistematizados no Capítulo 5 foram organizados a partir do grupo de discussão e das entrevistas individuais realizadas especificamente durante este trabalho de campo, realizado em dezembro de 2014. (ver Roteiro para entrevistas – Segunda etapa de trabalho de campo em Apêndice C),

A primeira experiência de campo (piloto/agosto de 2013) nos serviu para avaliarmos questões objetivas e subjetivas do campo empírico. No que tange às questões objetivas, avaliamos que o tempo de realização do primeiro grupo de discussão se alongou (quase três horas), o que gerou certo desconforto e cansaço por parte dos participantes. Dessa forma, elaboramos o roteiro de perguntas, para a segunda etapa do trabalho de campo de forma a objetivar mais as falas e também tivemos mais preocupação em mediar o debate, principalmente quando as questões começavam a fugir do foco de nosso interesse. Todavia, o lanche oferecido num intervalo de quinze minutos, entre o debate e a assistência das reportagens, foi mantido, uma vez que percebemos que ele reanimou o grupo. Dessa forma, o grupo de discussão realizado no trabalho de campo durou, aproximadamente, uma hora e meia e as entrevistas individuais em torno de uma hora.

Sobre as questões subjetivas, principalmente relacionadas ao roteiro de perguntas, avaliamos que, durante o trabalho de campo piloto, apressamo-nos em entrar logo na temática do trabalho escravo e, diante disso, utilizamos a estratégia de tratar as questões relacionadas ao trabalho, antes de pautar a escravidão contemporânea, durante a segunda etapa. Além disso, sentimos a necessidade de ouvir mais os trabalhadores sobre suas trajetórias de vida para melhor compreensão de seus contextos sociais, culturais e históricos, o que acrescentamos no roteiro da segunda etapa. Da mesma forma, deixamos os objetivos de pesquisa mais detalhados para o final do grupo de discussão, para não induzirmos o debate logo de início, como na primeira experiência. O ponto que avaliamos com o de maior dificuldade, durante a abordagem, está relacionado à questão da noção de trabalho. Quando questionamos os trabalhadores sobre qual a noção, mais ampla, que tinham de trabalho, eles tiveram um pouco de dificuldades para começar a responder, uma vez que a pergunta abria um campo de possibilidades, o que dificultou um pouco a interlocução. Fato que foi logo contornado com esclarecimentos e intervenções no ato da entrevista.

Outro ponto importante que serviu para tomarmos a decisão pelo acréscimo de entrevistas individuais, além do grupo de discussão, durante a segunda etapa do campo,

está relacionado à substituição de algumas falas de trabalhadores por outras, posto que aquelas deixavam a desejar no entendimento dos relatos, o que ficou explícito durante o trabalho de transcrição. Aliado a isso, percebemos pontos de diálogo interessantes que seriam mais produtivos na ocasião de entrevistas individuais, para aprofundamento de algumas questões colocadas.

A escolha por realizar entrevistas individuais e coletivas, no decorrer do trabalho de campo, está relacionada ao fato de cada tipo de entrevista ser particularmente importante como fonte de informação, e sua combinação resultar numa estratégia extremamente valiosa: a informação mais dirigida, a mais livre e associativa, a produzida individualmente e a de grupo, cada uma revelando ângulos específicos e que só uma longa convivência no campo permite aglutinar. (LOPES; BORELLI; RESENDE, 2002)

Dessa forma, a observação participante é uma das estratégias utilizadas durante todo o percurso do campo empírico, seguida das entrevistas individuais e coletivas, ambas semiestruturadas e temáticas (LOPES; BORELLI; RESENDE, 2002), sempre focalizadas no nosso objetivo de pesquisa. Vale destacar que tivemos a preocupação de não fazer nossas perguntas de pesquisa aos trabalhadores, mas sim adequar sempre a conversa ao ambiente e à linguagem adequada, favorecendo a interlocução e fortalecendo nossa relação com os sujeitos da pesquisa.

Durante todo o trabalho de campo, realizamos anotações em cadernos de campo, tanto do que observamos como de alguns aspectos tratados em conversas informais com os trabalhadores e também com os agentes do movimento social de combate ao trabalho escravo, no caso, os representantes do Centro de Defesa de Açailândia, que nos acompanharam durante a maior parte do tempo em que estivemos em contato com os trabalhadores.

Também tivemos a oportunidade de participar do 1º Encontro de Trabalhadores e Trabalhadoras Resgatados da Escravidão Contemporânea, que aconteceu em maio de 2014, no município de Santa Luzia (MA), próximo a Açailândia74, promovido pelo Centro de Defesa. O objetivo da reunião era discutir a melhor forma dos trabalhadores se organizarem em seus municípios para enfrentar as formas de aliciamento, identificar

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Na ocasião do encontro, participamos da relatoria como voluntária e ficamos responsáveis em editar o relatório final do evento, entregue ao Centro de Defesa para fins de documentação das atividades.

casos e fazer denúncias. Também foram discutidas as condições socioeconômicas atuais, os riscos de serem aliciados novamente, e os indicativos e as formas para fortalecimento do combate. Na ocasião, participamos do evento, mas não tivemos a oportunidade de realizar nenhuma entrevista. Mesmo assim, a mídia (e mais propriamente o telejornalismo) apareceu nas falas, principalmente como aliada da divulgação das condições precárias de trabalho, sendo eficaz, segundo os participantes, na divulgação das denúncias do crime de trabalho escravo e na pressão social junto aos órgãos competentes de fiscalização.

Descrito o trabalho de campo, traçamos, a seguir, um perfil dos sujeitos investigados nesta pesquisa. Para tanto, lançamos mão de dados primários, recolhidos no campo empírico, e de dados secundários, encontrados em relatórios e levantamentos, para contextualizar o grupo, no âmbito do trabalho escravo contemporâneo no Brasil e no Maranhão.

Benzer Belgeler