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Allah’a Đmanın (Tevhidin) Đç Anlamı

“A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte” (Titãs)

Antes de ingressarem no ensino superior, os estudantes obtinham os primeiros ensinamentos na Princesa do Sul através de instituições que se diferenciavam em ensino privado e público. Dessa maneira, já se evidenciava a distinção social, uma vez que a elite frequentava cursos e instituições particulares e o restante da população frequentava as escolas públicas.

Desde 1832, quando foram fundados os primeiros colégios particulares, Pelotas já afigurava-se como um importante centro educacional da Província290 e o número de instituições de ensino e de alunos aumentavam progressivamente (Tabela 01).

Tabela 01: Número de alunos(as) frequentes nas aulas particulares e públicas entre os anos de 1832- 1891. Acervo: BPP. Fonte: Revista do 1º Centenário de Pelotas. Fundo: Álbuns e periódicos. Série: Pelotas. (AP – 209e).

Como se observa, durante a segunda metade do século XIX, a cidade manteve uma série de instituições de ensino. Obviamente o predomínio de estudantes do sexo masculino era uma constante, mas impulsionadas pela criação

290 REVERBEL, Carlos. Um Capitão da Guarda Nacional – vida e obra de J. Simões Lopes Neto. Caxias do Sul: Martins Livreiro, 1981, p. 35.

Ano Aulas Alunos Alunas

1832 05 particulares 209 35 1834 07 particulares e públicas 210 48 1847 11 particulares e públicas 359 164 1861 14 particulares e públicas 521 362 1873 28 particulares e públicas 767 623 1891 46 particulares e públicas 1.560 1.199

das escolas femininas, houve um significativo aumento de mulheres em busca do letramento.

Contudo, ainda faltava em Pelotas uma instituição que tivesse como prioridade o conhecimento, a erudição da elite pelotense e dos bacharéis em direito. Por conseguinte, a criação da Bibliotheca Pública Pelotense, em 1875, pelo jornalista Antônio Joaquim Dias, foi um marco cultural para a urbe.

O espaço não foi criado apenas para contemplar o letramento, o prédio possibilitou a realização de concertos, reuniões, palestras, entre outros eventos como: a discussão dos estatutos da sociedade literária Culto as letras, o bazar de prendas em benefício ao Asilo de Mendigos, a discussão sobre a fundação da primeira associação abolicionista e a criação (1878) de um curso noturno de alfabetização voltado para a população pobre. Em 1887, Bernardo Taveira Junior oferece um hino à instituição:

Entrai no grande cenáculo/Onde o pensamento é luz,/Aqui onde o sol da ciência/Atrai, cativa e seduz./É o livro a nova bíblia/Do progresso a florejar;/Fortalece, educa espíritos,/Fá-los livres caminhar/Dos prélios da inteligência/Ninguém se deve eximir;/Sorrir-nos em cada vitória/A linda flor do porvir291.

Em certo ponto, esse hino dedicado a biblioteca reforça o papel de Bernardo como membro da elite intelectual. Além disso, o escritor contribuía para a instituição criando poesias para serem vendidas no bazar, como em 1878 com a poesia A

inteligência e o livro que foi adquirida por Manuel de Deus Dias por 60$292.

Outra instituição de ensino sumariamente importante foi à escola Eliseu Maciel293. Por conta dela, Bernardo Taveira Junior se envolveu em uma grande discussão junto ao periódico Correio Mercantil a respeito da organização da instituição, na qual exercia o cargo de diretor. A matéria foi publicada no periódico e

291 Diário de Pelotas, 08/10/1887. Acervo: Hemeroteca da BPP. 292 Correio Mercantil, 02/06/1878, p. 01. Acervo: Hemeroteca da BPP.

293 A instituição foi proposta a câmara de vereadores pela família Maciel que visava construir uma escola municipal homenageando o recém-falecido Coronel Eliseu Antunes Maciel. Cf. MAGALHÃES,

propunha contrapontos às declarações do professor. Para auxiliar o leitor, a matéria principia com a apresentação de Bernardo ao público:

Está conosco, no pátio, debaixo de uma parreira que teve uvas e folhas, junto a uns canteiros sem flor, o Sr. Bernardo Taveira com as suas botas enlameadas e um aspecto de meter medo a crianças. Custou a entrar e entrou descontente. Esperava talvez que o recebêssemos no escritório ou na sala de visitas. Já se foi esse tempo. No estado em que se apresentou, com grosserias e atrevimentos, muito favor lhe fazemos ainda em prestar-lhe alguma atenção294.

Percebe-se que o periódico não estava nada satisfeito com a posição do escritor frente às decisões tomadas para a instituição de ensino e, indo mais longe, eles não simpatizavam com ele. Essa constatação é corroborada pela publicação de uma notícia anterior com a afirmação de que o escritor era um dos desafetos do jornal295. Possivelmente, essa desavença tivera origem após a publicação de um folhetim, no qual Bernardo acusou o proprietário do Correio de envolvimento no assassinato de um escravo – como será abordado no próximo tópico.

Na matéria intitulada O mercantil e o Sr. Taveira296, o redator afirma que Bernardo não era forte nas discussões de imprensa, provavelmente o seu único defeito. Por isso, fica o questionamento: será que o escritor era fraco, usando as palavras do periódico, porque precisava rebater opiniões e não queria se mostrar para o público, a fim de manter a sua postura de bom professor, cronista e escritor?. Ele era fraco de argumentos ou queria impor a sua opinião?

“Aplaudimos a fundação da escola Maciel, louvamos o patriotismo da ilustre família que por aquele meio perpetuou a memória de seu venerando chefe, mas discordamos da organização que se pretende dar a essa importante instituição”297. A crítica do jornal era em decorrência da extinção das aulas públicas, uma vez que a escola Maciel empregaria os professores que lecionavam nessas instituições. Por conta disso, as aulas públicas ficariam sem mestres e seriam extintas.

294 Correio Mercantil, 21/06/1882, p. 01. Acervo: Hemeroteca da BPP. 295 Correio Mercantil, 18/06/1882, p. 02. Acervo: Hemeroteca da BPP.

296 A coluna não foi assinada por nenhum jornalista, sendo impressa nas primeiras páginas do Correio

Mercantil durante três dias: 21, 22 e 23/06/1882.

“Como, pois, vem vmce. dizer perante esta população ilustrada que não se trata de extinguir as aulas públicas? Pensa acaso que todos são beócios? Que não veem o que está escrito?.”298 Segundo o periódico, o escritor encontrava-se mais preocupado com os valores do aluguel ou estaria envergonhado pela sua organização.

A outra questão criticada pelo Correio foi a criação de aulas mistas (com homens e mulheres). O periódico entra em uma constante discussão com o escritor, pois o jornal concebia as aulas mistas como uma afronta aos bons costumes da época, além de “odioso, vexatório e contrário a civilização”299. Em contrapartida, o autor defendia que a mistura era edificante e que tinha bons resultados em outros países. “Não andaria aí uma imagem de sonambulismo, ou uma ilusão de poeta? Está a parecer-nos que o Sr. Taveira procura assunto para romances ou personagens para comédia.”300

Essa conduta somente seria aceita, conforme o jornal, em casos de cidades que não possuíssem número suficiente de meninos e meninas para criar uma escola separadamente. Porém, em Pelotas, segundo o Correio Mercantil, essa prática jamais seria aceita, pois acarretaria em consequências terríveis para a instrução das mulheres, “visto que ninguém se pode sujeitar a mandar suas filhas as escolas dos rapazes”301.

Para se defender, Bernardo afirma que, apesar do ensino misto, as mulheres aprenderiam os trabalhos com agulha e de costura usual com uma senhora habilitada e uma professora, ou seja, seria mantido o ensinamento das “lidas domésticas”. Para ele, o estudo das ciências não tinha o mesmo prestígio das artes entre as mulheres:

Por que razão gostam tanto as moças do pó de arroz, dos brincos, dos pregadores, das pulseiras, dos anéis? Dos fantásticos penteados e estudados adornos de cabeça? [...] Porque o fim de tudo isto é brilhar, excitar as admirações de quem as contemplam. Bem se vê que em nada disso predomina uma ideia de utilidade; pelo contrário,

298 Correio Mercantil, 21/06/1882, p. 01. Acervo: Hemeroteca da BPP. 299 Correio Mercantil, 22/06/1882, p. 01. Acervo: Hemeroteca da BPP. 300 Idem, ibidem, p. 01.

não há em tudo isso senão elementos de doença, luxo e vaidade [...]. Porque razão na educação da mulher, ainda mesmo pertencendo esta às de mais modesta classe, concede-se muito mais lugar à dança, às etiquetas de salão, a melhor maneira de sentar-se ao piano, ao canto, ao desenho, etc.302.

O cronista criticava e indagava-se sobre o motivo de ensinar essas superficialidades as mulheres e não concordava com o excesso de instrução no que se refere aos modismos e refinamentos. Até certo ponto, ele tentava se mostrar como um autor de vanguarda, que via nas mulheres um direito de igualdade para aprender os mesmos ensinamentos “científicos” dos homens.

Ademais, o autor questionou o motivo dos pais, e principalmente das mães, fazerem tanta questão que suas filhas aprendessem outros idiomas, como o alemão e o italiano. Ora, aprender outra língua tinha uma forte relação com a cultura europeia, com a qual a cidade se inspirava e exaltava. Dessa forma, uma estudante que se preze deveria conhecer diversos idiomas para ler os livros importados do continente europeu, bem como para se mostrar como verdadeiras damas aos futuros pretendentes.

Reforçando essa perspectiva o anúncio da escola de Mme. Jeanneret afirmava que além de instruir as alunas sobre os trabalhos com agulhas, ensinava outras disciplinas, como o inglês e o francês303. Para o escritor, essa erudição servia apenas para:

[...] produzir efeito... porque a moda olharia com desdém para toda a moça de educação que não soubesse dançar, portar-se nas reuniões segundo certos fff e rrr, sentar-se ao piano com certa elegância, cantar em duas ou mais línguas, o que tudo, certo, é imersamente idôneo para despertar murmúrios de pasmo e admiração da parte de quem as pode observar.304

302 Ideias sobre educação II, Diário de Pelotas, 25/01/1881. Acervo: BPP. Fundo: Bernardo Taveira Junior. Série: Recortes de jornais. Material encadernado (BTJ – 005).

303 Correio Mercantil, 06/01/1876, p. 03. Acervo: Hemeroteca da BPP.

304 Ideias sobre educação II, Diário de Pelotas, 25/01/1881. Acervo: BPP. Fundo: Bernardo Taveira Junior. Série: Recortes de jornais. Material encadernado (BTJ – 005).

Contudo, é interessante perceber a partir da Tabela 01 o crescente número de mulheres matriculadas junto às instituições de ensino. Talvez esse fato tenha sido impulsionado pelo sucesso da pelotense Antonieta Cesar Dias e da rio-grandina Rita Lobato – residente em Pelotas. Ambas formaram-se em medicina no Rio de Janeiro e Bahia, respectivamente e tornaram-se as primeiras médicas do Brasil.

Ainda com relação a Tabela 01, notabiliza-se o crescente número de instituições. Para se distinguirem, as escolas buscavam os melhores professores para o seu corpo docente. Por conta disso, as instituições competiam entre si para ficar com determinado professor e utilizavam o nome dele para promover e dar credibilidade ao estabelecimento:

Porém se isso não fosse bastante para garantir a utilidade e vantagens do colégio francez, tínhamos outro nome, não menos respeitável e conhecido, que por si só era suficientemente para firmar créditos do estabelecimento. Esse nome é o do Sr. Bernardo Taveira Junior [...]305.

Dessa forma, constata-se que certos professores foram muito valorizados no sistema educacional local, sendo um dos fatores para atrair novos alunos. Após a conclusão do ensino, os estudantes iam para a capital Porto Alegre a fim de realizar os exames preparatórios – uma espécie de vestibular da época. Sobre esses exames, escreveu o periódico A Penna:

A nossa gentil Princesa-Pelotas é, depois da capital, a cidade que mais contribui para o desenvolvimento da instrução na Província [...] daqui vão todos os anos 40 estudantes e mais, que não cedem o passo aos da capital. [...] É que os estabelecimentos de instrução de Pelotas estão a par dos melhores da capital, e podem fornecer a instrução da mesma forma.306

Bernardo Taveira Junior acompanhou diversos alunos a capital da Província para prestar os exames e os resultados puderam ser acompanhados a partir da

305 Correio Mercantil, 18/02/1876, p. 01. Acervo: Hemeroteca da BPP.

imprensa local307. O escritor defendia a importância da educação para a população e como ela não deveria ser ignorada, pois era capaz de melhorar a sociedade:

Ninguém deve ignorar que a educação é que faz o homem. Ela tem tanto império sobre ele, que até mesmo nos ímpetos do coração o homem cede ao seu prestígio. Quanto melhor for a educação num povo, tanto mais rápido será o seu desenvolvimento no caminho do progresso; ele terá mais fé nas suas crenças, mais moralidade em seus costumes, mais firmeza no caráter, mais clareza e vigor nas ideias, mais tendências para a perfectibilidade. Não há que duvidar portanto, que os destinos mais ou menos brilhantes de um país dependem da educação de seus filhos. É só por ela que o homem se pode tornar bom cidadão308.

O cronista defendia que se a população fosse educada, grandes transformações seriam conquistadas no país, por exemplo, a abolição dos escravos. Contudo, embora o discurso do cronista fosse muito bonito e bem intencionado, na realidade, apesar do número de escolas, o percentual de leitores em Pelotas era irrisório.

Ao ampliar o campo de visão e focalizar a Província do Rio Grande do Sul, a discrepância torna-se evidente, uma vez que somente 35% da população era alfabetizada.309 Em Pelotas, os números apontam uma relativa aproximação com os dados da Província: em 1872, a cidade contava com 14.762 habitantes e, destes, 4.655 eram leitores e 10.107 eram analfabetos.310 Já em 1891, existiam 22.919 habitantes na área urbana, dos quais 11.164 sabiam ler e 11.755 não sabiam.311

307 Por exemplo: Correio Mercantil, 29/11/1879, 02/12/1879, 07/12/1879. Acervo: Hemeroteca da BPP.

308 Emancipação servil VI, Diário de Pelotas, 19/05/1870. Acervo: BPP. Fundo: Bernardo Taveira Junior. Série: Recortes de jornais. Material encadernado (BTJ – 005).

309 De acordo com o censo de 1872, na Província do Rio Grande do Sul 95.303 indivíduos sabiam ler e escrever e 271.719 eram analfabetos. Fonte: Censo de 1872. Dados ajustados a partir das pesquisas do Núcleo de 72 História Econômica e Demográfica. Disponível no site do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica: http://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/pop72/ Acesso em: 30 mar. 2013

310 Segundo os dados ajustados a partir das pesquisas do Núcleo de 72 História Econômica e Demográfica. Disponível no site do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica: http://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/pop72/. Acesso em: 30 mar. 2013

311 De acordo com o Boletim apresentado a Intendência Municipal da cidade de Pelotas em sessão de 12 de maio de 1891 por Euclides B. de Moura, diretor da repartição de estatística da mesma intendência. Os números apresentados não contemplam 4.082 crianças, menores de 8 anos, que não consideram-se analfabetas em virtude da sua pouca idade. Acervo: BPP. Fundo: Documentos públicos municipais. Série: Intendência Municipal de Pelotas. (DPM – 027).

Apesar das lutas defendidas por Bernardo, poucos indivíduos tinham acesso as reivindicações, críticas, sugestões, folhetins, crônicas e obras do autor. Além disso, embora os jornais fossem mais baratos do que os livros e, na teoria, alcançavam um público mais abrangente, a população de massa não lia seus textos, principalmente pela falta de instrução. Por conseguinte, os textos dele acabavam destinados a um público restrito, provavelmente formado somente por seus pares.