“Nesse contexto, grande parte da literatura internacional contemporânea, adotada de forma mecânica e indisciplinada no país – e que informa parcela majoritária das ações públicas em âmbito subnacional –, proclama que bastaria cumprir as ‘exigências’ da globalização desse novo imperialismo da ‘partilha de lugares eleitos’, ajustando-se, adaptando-se e submetendo-se a essa inexorável ‘fatalidade’, para tornar-se um espaço receptivo e conquistador da confiança dos agentes econômicos mais poderosos. Negando completamente a natureza das hierarquias (impostas em variadas escalas) de geração e apropriação de riqueza, segundo esse ‘pensamento único’ que invade o debate do desenvolvimento territorial, regional, urbano e local na atualidade, teria ocorrido o fim das escalas
intermediárias (e das mediações) entre o local e o global.
Se, por um lado, houve a revalorização do território, do que se convencionou chamar de ‘geografia econômica’, e da dimensão espacial do processo de desenvolvimento, por outro, ocorreu a completa banalização das questões que, malgrado sua natureza estrutural, histórica e dinâmica, foram deslocadas para o lugar-comum do voluntarismo, cristalizando um grande consenso, um verdadeiro “pensamento único localista”. Quase toda a literatura aborda, e as políticas ‘publicas’ implementam, ações em alguma medida orientadas, em parte ou no todo, por essa concepção teórica e analítica.”
Para ilustrar o casamento de idéias resultantes deste cenário e que tiveram grande expressão no Brasil, foram trazidas para o detalhamento as propostas de Sassen (1991), Borja e Castells (1997a). Esta combinação, somada à idéia do desenvolvimento de mini-distritos industriais (reflexo incompleto da proposta de desenvolvimento de distritos industriais avançados tecnologicamente) e à força e influência das elites locais trouxeram à realidade um dos cenários vistos no Brasil: a tentativa de se estruturar as propostas estrangeiras no contexto brasileiro.
Como resultado, foram encontradas propostas e implementação de políticas que acabaram por validar velhos hábitos em práticas, sob o novo discurso de renovação e modernidade. Legitimados, os processos passaram a ser contexto e prática de políticas urbanas e regionais (quando estas existiam). Pesquisa anterior a esta, elaborada por Petisco (2002), constituiu uma das contribuições que evidenciaram este processo, para o caso de São José do Rio Preto, cidade do interior do Estado de São Paulo.
Uma das idéias que contextualizam a cidade em tempos de globalização – a de que a cidade é um ator social da qual decorrem estratégias que lhe asseguram espaço num mercado competitivo – foi colocada por Sassen (1998), em seu livro “As cidades na economia mundial”. Nele, Sassen apresentou as condições às quais as cidades estariam subordinadas, na nova lógica global e internacional e quais características possuíam para serem “classificadas” como “cidades globais”.
investimentos, localização de escritórios, prestação de serviços e consultoria financeira a vários mercados do mundo tornou-se predominante no mundo e também no Brasil. Estas cidades, no entanto, assim se caracterizam por possuírem um acúmulo de condições, equipamentos, infra-estrutura e cultura historicamente construídos. Locais próprios para o desenvolvimento de atividades que, por sua vez, só podem ser realizados em centros mundiais, cosmopolitas e de altas rendas.
Em quaisquer outras cidades, estas condições não estão “naturalmente” presentes. As cidades “superiores” são os postos de comando por excelência da economia mundial que tem como tendência mais característica o movimento de concentração da riqueza. São lugares-chave, praças fundamentais para as indústrias financeiras e de serviços especializados, porque nelas estão localizadas todas as condições necessárias para esta nova fase do capitalismo. A dinâmica pressuposta por Sassen é a de que quanto mais globalizada for a economia, maior será a convergência de funções centrais nas cidades globais. Diante das crises econômicas enfrentadas em todo o mundo nas últimas décadas (cujas consequências sociais são sentidas na esfera local), as cidades são ideologicamente conduzidas a buscar se tornarem uma cidade global, o que as leva a travar uma competição entre si. Isto faz delas mercadorias a serem negociadas em um mercado de locações potenciais, privilegiadas neste cenário global, a fim de que possam inserir suas economias neste mercado. Os investimentos que passam a ser priorizados têm como critério torná-las atraentes aos investidores, segundo os predicados alegadamente característicos das cidades globais. Porém, estes esforços não colocarão entre
as cidades globais aquelas cidades que não dispõem dos recursos mínimos já acumulados, como as condições de controle, o perfil ocupacional, a renda, a infra-estrutura, e tantos outros itens característicos das cidades globais. Afinal, o controle e gerenciamento de fábricas, escritórios e empresas prestadoras de serviços não ocorrem espontânea ou rapidamente, como parte de um “sistema global”, e sim intencionalmente, tendo como pontos de apoio algumas cidades notáveis para o sistema, no que se refere à sua mediação e reprodução. Neste sentido, fala-se também de hierarquia e hegemonia, conceitos que serão explorados ainda neste capítulo.
Por um lado, algumas teorias – e respectivas propostas de planejamento e ação – corroboraram com as idéias de Sassen. Borja e Castells (1997b) propuseram estratégias e ações a partir desta fundamentação, incorporando na administração e construção das cidades a lógica da estrutura capitalista. Abordaram tais possibilidades para as cidades “centrais” (globais) e para áreas metropolitanas, que já possuíam parte das estruturas de suporte para os novos empreendimentos, mas não só.
Propuseram também idéias, diretrizes e ações para as cidades que não se enquadravam nestas condições já favoráveis e, neste sentido, apontaram como “fazer a cidade”, no sentido de dotá-la de alguns elementos estruturadores que permitiriam a participação na situação histórica e econômica identificada. Atendendo aos preceitos colocados por Borja e Castells, os lugares passariam a ter algo que originalmente/anteriormente não possuíam e, assim, poderiam se inserir na lógica econômica global.
Borja e Castells (1997a) ressaltaram então a necessidade de re-estruturação física das cidades para atender a estes novos padrões – internacionais – e sugeriram a realização de ações, procedimentos e projetos de re-estruturação urbana para fazer, de uma cidade, uma cidade global. Os “planos estratégicos locais” de Borja e Castells seriam
“uma ‘grande operação comunicacional, um processo de mobilização’, com o fim não declarado de tratar a cidade ou região com uma mercadoria, dotada de boa imagem, símbolo ou marca, a ser ‘bem vendida’ no mercado mundial, isto é, ter alta atratividade de capitais”
como ressalta Brandão (2007: 39). A condução das cidades daria espaço para receber estruturas urbanas e investimentos semelhantes às que Sassen destaca nas cidades globais, ou seja, buscariam assemelhar-se às “metrópoles que estão no topo da rede urbana mundial e que concentram o terciário avançado, grandes corporações centros de tecnologia, cultura e ciência”. Assim, cidades conduzidas a partir de tais orientações poderiam se inserir na
rede de cidades mundiais da qual, de acordo com a proposição então
colocada, tanto precisavam para se desenvolver.
O contexto da relação estava colocado entre o global e o local, sendo pouco ou nada mencionadas as escalas nacionais ou sub-nacionais (estaduais, para o caso da estrutura brasileira) de planejamento ou intervenção. Estas escalas, quando mencionadas ou envolvidas no processo, muitas vezes se limitavam a validar ou chancelar o vínculo entre os interesses globais e os locais. A autonomia das cidades começava a ter, em algumas localidades, outras feições em sua base de identificação de necessidades e tomada de decisões.
Não que as esferas nacional e sub-nacional não fossem importantes no processo. Ao contrário, foram fundamentais. De acordo com Brandão (2007), somente houve a possibilidade da construção da ponte, da ligação direta entre intenções e interesses globais e locais, por conta das estruturas e diretrizes macroeconômicas nacionais, as quais permitiram (com a intencionalidade de querer que estas relações se estabelecessem).
Com estes poucos argumentos colocados aqui, é possível apreender a diversidade em torno dos debates, tanto no que se refere à conceituação e fundamentação sobre a globalização, quanto pela apresentação dos modelos espaciais que surgiram ao mesmo tempo, dentro deste processo.
Apesar da polêmica e das dissonantes opiniões, é possível tecer uma conclusão parcial. As teorias apresentadas para os novos arranjos espaciais e para a elaboração de políticas foram assimiladas e aplicadas em várias situações. Destas, é possível apreender que os arranjos espaciais associados à teoria do desenvolvimento endógeno são uma forma de compreender a relação entre as cidades e as regiões, aplicando-lhes seus conceitos e provocando, com isto, as interações necessárias para fazer com que estes princípios entrem em operação.
No entanto, apesar se constituírem uma polêmica forma de arranjo econômico, político e espacial, os propósitos do desenvolvimento endógeno também esbarram em um outro limite: relegando os princípios macroeconômicos e a importância da formulação de políticas nacionais - com inserção destas regiões em um cenário mais amplo – passam a depender muito e unicamente
estas situações operem como se desejaria – ou, por fim, operem sim de acordo com o desejo de algumas forças que coroam estas alianças, solapando, temporariamente, os interesses nacionais e coletivos.
Como lembrou Fernandes (2001) ao observar a inversão de prioridades e concentração de riqueza por intermediação do poder público, a exemplo da tendência internacional, mais apropriado às características da sociedade brasileira e ao compromisso com a ampliação do direito à cidade teria sido o caminho mobilizado por vários segmentos sociais em defesa do direito à cidade sugerido pela agenda da Reforma Urbana, ainda nos anos 1980, durante a Assembléia Nacional Constituinte, quando então formulava-se as bases da Política Urbana brasileira.
No mesmo sentido e complementando a crítica apresentada, Arantes, Vainer e Maricato (2000) criticaram o modelo proposto, suas práticas e a ausência do Estado, ao mesmo tempo em que as ações urbanas relacionadas a este contexto estavam sendo difundidas e aplicadas no Brasil e no mundo. Em “A cidade do pensamento único: desmanchando consensos”, os autores compreenderam, evidenciaram e detalharam as influências, assim como seus impactos urbanos e sociais e procuraram desvelar as intenções colocadas como “consenso”, propondo que sejam seguidos outros caminhos.
Em 2000, Ermínia Maricato foi convidada a escrever novo livro, que abordasse os problemas urbanos e suas soluções. Nesta publicação, de 2001, Maricato procurou construir uma ponte entre pensamento crítico a respeito do processo de desigualdade e segregação territorial da urbanização no Brasil e as propostas urbanísticas que visavam superar esta desigualdade e segregação.
Antes de oferecer os pressupostos para uma reorientação democrática sustentável para as cidades brasileiras, destacou que o impacto dos acontecimentos internacionais sobre as cidades é bastante admitido por vasta bibliografia e alinhavou, em torno da pergunta “o planejamento urbano é possível?”, as limitações do planejamento democrático e abordou aspectos do Consenso de Washington e dos Planos Estratégicos, decorrentes do processo, além de apontar as possibilidades e resistências encontradas na escala local. Neste sentido, questionou e debateu também “qual é o poder do poder local”24 – assim como Vainer (2002) e Brandão (2007), e mencionou que Jeroen Klink (2000 apud Maricato, 2001) discorreu sobre a importância da macroeconomia para a instância local e lembrou que, contrariamente ao que estava sendo apregoado sobre o fim do Estado-Nação, nos países do Primeiro Mundo o Estado continuava a dirigir a política macroeconômica (e observou o exemplo da União Européia); a implementar políticas regionais e a implementar, inclusive, políticas fordistas/keynesianas. Finaliza este breve raciocínio sobre a presença do Estado mencionando que Klink reuniu
“dados para mostrar o quanto a experiência brasileira dos anos 1980 e 1990 comprometeu o desempenho das cidades, inclusive devido a uma tradição de ausência de autonomia financeira no nível local, decorrente de um processo incompleto de formação da federação. Os governos municipais sentiram o impacto do corte dos recursos destinados às políticas sociais tradicionalmente (pelo menos a partir de 1930) concentradas na esfera federal que passaram por um movimento ambíguo a partir de 1988.25 (...) Nota-se mesmo uma tendência para a
e conseqüentemente perda de autonomia na gestão financeira dos municípios e governos estaduais.” (Maricato, 2001: 63-64)
O enfoque crítico descritivo a respeito do quadro urbano brasileiro, abordado por Maricato, foi seguido de sugestões de alternativas para superar os problemas apontados, com enfoque na atuação da escala intraurbana (espelhada em possibilidades de ação encadeadas com as esferas superiores), quais sejam:
1) criar consciência da cidade real e indicadores de qualidade de vida26; 2) criar um espaço de debate democrático: dar visibilidade aos conflitos27; 3) reforma administrativa28;
4) formação de quadros e agentes para uma ação integrada29; 5) aperfeiçoamento e democratização da informação30;
6) um programa especial para regiões metropolitanas31;
7) a bacia hidrográfica como referência para o planejamento e gestão32; 8) formulação de políticas de curtíssimo, médio e longo prazos33.
Entre as possibilidades globais e as dificuldades (ou limites) locais ou, entre os potenciais locais e os entraves globais, encontra-se uma escala intermediária e, de acordo com as reflexões apresentadas, é possível encontrar uma mediação entre as esferas que interagem e se completam. Neste sentido, até mesmo as cidades “não globais” e as interações regionais – como se quer aqui identificar – podem ter lugar de destaque nesta conjuntura.
Diante do debate exposto e dos questionamentos colocados, uma questão ficou colocada para a elaboração desta tese: teria a cidade perdido os vínculos com a região? Gonçalves afirma que, se assim for, a questão haveria de ser posta às claras por significar notável mudança de paradigma. Se não, se for uma questão teórica ou de abordagem metodológica, requer-se reintegrar objetos indevidamente separados. Gonçalves (2003: 13)pondera ainda que
“num Brasil 80% urbano, não se pode discutir desenvolvimento regional dissociado do desenvolvimento das cidades; e vice-versa. Somos desafiados a pensar como se articulam ‘regional’ e ‘urbano’ hoje, num contexto territorial tão amplo e diferenciado – física, social e culturalmente.”
A hipótese aqui colocada está calcada nos argumentos apresentados e acredita que as cidades não perderam o vínculo com as regiões. É no sentido de buscar estas conexões, considerando as relações entre as partes, que se procurou encaminhar o desenvolvimento desta tese, observando as condições colocadas pelo debate apresentado e atentando para as orientações sobre as questões teóricas e metodológicas, apresentadas a seguir.