As negociações de posicionamentos entre os participantes ao longo das oficinas aconteciam não só nos momentos em que o grupo todo discutia diretamente os temas propostos. Durante a pesquisa-intervenção, outras atividades discursivas, como as que eram realizadas antes das discussões, também davam indícios relevantes de que esses processos de negociação aconteciam a todo momento.
Esse ponto de vista pode ser ilustrado a partir de uma leitura das interações durante a “atividade do repolho33”. Esta atividade deu início à segunda oficina e seu objetivo foi propiciar um espaço mediante o qual os participantes pudessem se aproximar mais e conhecer melhor uns aos outros.
(Com o “repolho” na mão, peço para que os participantes se levantem para que eu explique a atividade e para que ela tenha inicio após a explicação)
JLaura: Os idosos podem ficar sentados (risos, referindo-se ao professor, Ivan) JP: Vocês já brincaram da brincadeira do repolho?
( vários respondem ao mesmo tempo que não) Mariana: Eu já brinquei na sexta série.
Laura: (fala para Ivan) É do teu tempo é (risos)?
(A atividade começa. O repolho pára na mão de Mariana, que tira a primeira folha do repolho e lê em voz alta a pergunta)
Mariana: O que mais te deixa contente no seu dia-a-dia?
Camila: Sim, se ela responder... A gente vai passar a noite todinha aqui. (Risos) Mariana: Deixa eu ver... Valha, mulher, o que é que eu vou responder... O que mais me deixa contente é quando eu venho para a escola.
Ivan: Sinceridade! (ironia). (risos)
Mariana: Eu disse quando eu venho pra escola, não quando eu venho estudar. É diferente.
(risos)
Lia: Gravou? (risos) JP: Gravou! Gravou! (risos)
Mariana: É, porque... porque, assim (Não dá pra entender) no colégio, né, é mais legal.
Ivan: Vê os amigos, né?(risos)
Mariana: Os amigos, né, conversar um poquim.
Como visto, logo no começo da atividade, Ivan foi sutilmente posicionado de maneira diferenciada no grupo. Neste caso, a ironia de Laura – “Os idosos podem ficar sentados” e “É do teu tempo, é?” – pode ser interpretada como uma forma de posicionar o outro, mediante a ativação de um arguto esquema de inclusão/exclusão nas interações.
33 Como esclareci no capítulo metodológico, a atividade tinha esse nome porque, nela, participantes respondiam a perguntas escritas em folhas de ofício, sendo que as folhas foram agregadas uma a uma, assemelhando-se ao formato de um repolho de verdade.
Contudo, Ivan, neste primeiro momento da atividade, mesmo parecendo não estar tão à vontade quanto os outros participantes, talvez por ser o único professor, procurou assumir uma postura semelhante à dos demais, entrando “no clima despojado da atividade”. Seu engajamento na brincadeira pode ser lido, então, como uma reação de contraponto à posição enunciativa na qual uma das alunas, neste caso, buscava lhe colocar.
Sobre isso, a noção de posicionamento realça a dinamicidade das interações sociais, haja vista que, nestas, são várias as posições possíveis. Segundo Oliveira, Guanaes e Costa (2004, p. 78), “estamos sempre posicionando a nós mesmos e aos outros em determinadas categorias sociais e negociando posições em nossas práticas discursivas, estejamos ou não conscientes de quais são essas posições em curso e suas consequências”.
No decorrer da atividade, ficava ainda mais clara a posição diferenciada de Ivan frente aos demais. Mas, ao contrário do que ocorria no início da atividade, o trecho a seguir aponta como esse movimento de diferenciação tornava-se recíproco:
(Inicia-se uma nova rodada. Dessa vez, O repolho fica entre Ivan e Renata. Renata tira a folha do repolho para que os dois respondam à mesma pergunta).
Renata: O que mais me dá prazer? Posso responder? (risos) JP: Pode!
Renata: Beijar na boca. (risos). Ivan: Só isso? (expressão de espanto) (risos)
Renata: Não, tem tanta coisa: beijar na boca, namorar... Pedro: Para por aí...
(risos)
Renata: Deixa eu continuar...Conversar com as amigas, estar de bem com a vida, tudo isso é bom.
JP: Certo.
Renata: Ivan, viu?!(reiterando que Ivan deveria responder também àquela pergunta) Ivan: Eu preciso responder?
Laura: Precisa que nem a Renata. Ivan: Concordo com tudo que ela falou. (risos)
Mariana: O que foi que ela falou?
Pedro: Ele ta com vergonha de falar. O que foi que ela falou? A primeira coisa que ela falou, o que foi?
Ivan: Pra gente... assim, eu vou falar do lado profissional, você falou do lado pessoal (dirigindo-se a Renata).
Laura: Ah tá!
Ivan: Quando você, quando cê prepara uma aula, uma aula legal, cê consegue transmitir todo aquele conhecimento...
Nessa interação, foi Ivan quem se posicionou frente aos demais recorrendo à sua posição de professor, negando-se a responder questões pessoais e direcionando a resposta à questão profissional, a despeito dos apelos de parte dos participantes. O lugar diferenciado de Ivan se exemplifica a partir de outro momento desta mesma atividade.
(O “repolho” pára em Laura, que lê a pergunta para os demais)
Laura: Uma qualidade e um defeito meu. Qualidade... defeito é mais que um.. Falar de mim é difícil.
JP: Não precisa ser a maior qualidade, não. Alguma que você lembra agora. Laura: Qualidade, tipo assim... ser comp...
Mariana: É estudiosa?
Laura: Pode ser, né? Quem tem que falar é o professor (apontando para Ivan)... é... ser responsável, ser amiga, gosto de olhar meus e-mails quando precisa. E meu defeito, às vezes, é que eu sou muito perfeccionista...
Este trecho sugere, mais uma vez, que a forma como cada um posicionava a si e aos outros, assim como por estes era posicionado, variava de acordo com a situação específica de enunciação e com o contexto sociocultural dos participantes. Nesse evento, Laura posicionou Ivan no lugar de quem tinha a autoridade para falar de qualidades e defeitos dos jovens, tendo em vista sua condição de professor da escola.
Contudo, ainda no trecho em exame, ficava implícito que nem todas as pessoas ali presentes poderiam assumir o lugar que Laura deu a Ivan. Isso, por sua vez, indica que
[...] nem todas as pessoas podem assumir qualquer posição, pois, embora exista potencialmente a possibilidade de múltiplos posicionamentos, uma posição define-se também em relação aos direitos e às obrigações de fala e ação, associados ao que pode ou não ser dito/feito e, por quem, em uma interação. (OLIVERIA; GUANAES; COSTA, 2004, p. 77).
O lugar diferenciado de Ivan ficava ainda mais evidenciado nos momentos de discussão, podendo ser observado, sobretudo, na discussão sobre o que seria saúde. Um episódio ilustrativo disso foi o que se deu em torno de uma das fotografias escolhidas por Laura, que acabou estimulando discussões sobre exercícios físicos. Nessa discussão, atentar para a participação de Ivan é importante para compreender como os demais se posicionavam:
Laura: Porque nem todo mundo faz, né? (referindo-se à prática de exercício físico) Porque, assim, nossa sociedade de hoje é muito aquela pressão, não tem tempo pra nada, nem pra família não tem, nem pra almoçar junto, não tem mais aquele tempo, né, só no domingo e se tiver tempo no domingo. É uma sociedade muito apressada. Sempre quer tempo, mas não tem tempo. Aí não pratica... é... exercício físico, esporte, e prejudica muito a saúde. Aí então uma, uma alimentação balanceada e um exercício físico, né, porque eu vi uma... um jornal, um programa na televisão, um homem de 70 anos como corpo de um homem de 30 anos, porque desde os 14 anos ele pratica exercício físico, pra elasticidade da pele... tem tudo a ver o exercício físico.
Pedro: Eu também já vi uma propaganda que passa na televisão que fala também quase o contrário do que ela falou, que “nem todo mundo faz exercício físico”(referindo-se à opinião de Laura). Na propaganda que eu assisti, já falou que nós estamos o tempo todo fazendo exercício físico. Tipo, só a vinda ao colégio já é uma caminhada, aí...
(Antes de Pedro concluir, Mariana e Renata já levantavam o braço pra falarem. Pedro olha para elas, ri, mas continua sua argumentação, olhando para elas e, em seguida, para mim, dando mais exemplos sobre o que está querendo dizer).
Pedro: E vários outros tipos de coisas que a gente não percebe, tipo assim, pegando o filho, se abaixando com o filho, levantando, tipo como se fosse... passou, né, sei lá, assim...
Laura: Eu não tenho filho, né, esse exercício eu não pratico (ri)
Mariana: A minha tia uma vez foi ao médico e ele mandou ela fazer caminhada. Até um dia desse eu tava falando pra Renata...
Renata: Eu ia falar disso aí mesmo, ó. (ri)
Mariana: (ri) Aí ela disse que ia pro trabalho dela a pé, justamente pra fazer a caminhada. Ele disse que não adiantava porque ela ia apressada, ia pensando “ai meu Deus, tenho que chegar logo”, então acabava prejudicando ela e não beneficiando igual o exercício físico.
Pedro: E se ela saísse no horário certo e ela fosse andando sem preocupações? Mariana: Mas não tem como. Você já vai com o intuito de você... “eu vou pra’quele lugar, eu tenho que chegar aquele horário”. Ninguém vai sair mais cedo, “ai vou fazer exercício físico”. Além dela ir sem tênis, sem roupa apropriada, ela ia preocupada, ele disse que não adiantava, você tem que realmente reservar um tempo pra fazer exercício físico.
Pedro: Pois, ave maria, quando eu saio... as vezes quando eu venho pro colégio, eu saio cedo, eu venho andando normal, sem preocupação nenhum.
Laura: Tu vem de tênis?
Pedro: Não. (fala olhando pros pés, calçados com chinelos) Mariana: Por isso.
Laura: Então, já faz mal pra coluna. Faz mal pra coluna (fala rindo).
Ivan: Eu acho assim, não adianta você fazer um exercício físico, mas tem que ter uma qualidade aí. Não adianta você fazer por fazer, igual a tua tia. (fala em tom de pergunta sobre a tia de Mariana) Pois é, tem até um exercício físico, só que não tem a qualidade. No caso do nosso amigo aqui (Pedro), ele vem pro colégio de sandália, de calça, vem com 5/6 quilos de livros, caderno, pode ter o que, um papel contrário, ao invés de trazer um benefício vai trazer um malefício, pode ter um problema de coluna.
Pedro: É um exercício mal feito (olhando para Ivan).
Ivan: Exatamente (fazendo movimento com a cabeça, em sinal de que Pedro entendeu o ponto de vista predominante).
Pedro: Um colega meu, ele só queria ser o fortão e tal, ele começou a malhar, a fazer exercício físico, esse tipo de coisa muito novo. No dia de hoje ele não cresceu e é todo corcunda (olhando para Ivan).
Ivan: Sem orientação, né, de um profissional também. Pedro: Fez mal foi pro corpo dele, foi querer se apressar.
Neste episódio, chamou-me atenção a mudança de posicionamento de Pedro na discussão, após a intervenção de Ivan. Em grande parte da situação, Pedro se contrapôs à ideia apresentada por outras participantes sobre a prática de exercícios físicos. As réplicas de Laura e Mariana evocavam as recomendações atinentes ao discurso científico, a fim ratificar e legitimar seus pontos de vista, o que não foi suficiente para que Pedro cessasse suas objeções.
Todavia, no final do episódio, Ivan endossa as argumentações de Laura e Mariana, fazendo uso das mesmas recomendações médicas trazidas por aquelas jovens. A partir daí, Pedro muda seu posicionamento, passando a citar exemplos que vão ao encontro do ponto de vista da maioria, dirigindo-se, no entanto, especificamente ao professor.
Para compreender essa questão, é necessário enfatizar os elementos que compõem o contexto enunciativo, conforme a perspectiva de Bakhtin (2002, 2004). Entre esses elementos, destacarei dois: os gêneros de discurso acionados e os aspectos pragmáticos relativos às posições sociais dos interlocutores.
Acerca dos gêneros discursivos acionados, Bakhtin (2004, p. 294) lembra que
Em cada época, em cada circulo social, em cada micromundo familiar, de amigos e conhecidos, de colegas, em que o homem cresce e vive, sempre existem enunciados investidos de autoridade que dão o tom, como as obras de arte, ciência, jornalismo político, nas quais as pessoas se baseiam, as quais elas citam, imitam, seguem. Em cada época e em todos os campos da vida e da atividade, existem determinadas tradições, expressas e conservadas em vestes verbalizadas: em obras, enunciados, sentenças, etc.
Esses e outros processos enunciativos permitiam entrever que a ativação de gêneros discursivos caracterizados por recomendações e pareceres científicos sobre saúde naquelas interações geralmente conferia posição de especialista a quem deles fazia uso de forma eficaz. Já sobre os aspectos pragmáticos envolvidos nas posições sociais dos interlocutores, o final da discussão permite supor que os enunciados de Pedro não apenas expressavam um significado acerca da questão discutida. Eles visavam, ainda, à produção de um efeito de sentido – como um sinal de concordância, por exemplo - sobre o interlocutor que lhe parecia ocupar uma posição enunciativa de destaque no grupo.
Outra forma interessante de compreender o resposicionamento de Pedro é considerando a “linha da história” que permeia a negociação de posicionamentos naquela interação. Essa linha caracteriza-se como o conjunto de significações
[...] associado pelos falantes à posição negociada, e que permite definir o sentido de uma posição em uma determinada interação. Ela é desenvolvida tanto a partir da
história conversacional imediata, ou seja, do desenvolvimento da conversa entre os
interlocutores naquele momento interativo específico; bem como da seqüência de
coisas já ditas em outros relacionamentos, ou seja, das experiências anteriores de
significação (GUANAES; JAPUR, 2003, p. 139).
Portanto, as negociações de posições dos participantes entre si, da mesma forma como a produção de sentidos sobre aquele tema, remetiam aos discursos culturalmente estabelecidos e às significações construídas em experiências anteriores. Assim, as negociações de posicionamento entre Ivan e os demais, em muitos momentos, projetavam as posições institucionais assumidas cotidianamente por cada um na escola.
Isso atesta novamente que as interações no âmbito daquele grupo estavam atravessadas pela cultura escolar. Ivan não era só mais um participante; pelo contrário, ali também ora se posiciona, ora é posicionado como “professor”; os outros participantes, por seu turno, além de posicionarem Ivan assim, posicionavam-se frente a ele como “estudantes”, tal como em sala de aula.
Não obstante, na oficina seguinte, astutos reposicionamentos dos “estudantes” frente ao “professor” podem ser identificados, principalmente na atividade de elaboração de cartazes em subgrupos sobre o tema saúde mental, que serviu de mote para a discussão do grupo sobre o tema. Nessa atividade, Ivan - que ficou no mesmo grupo que Laura, Ronaldo e Camila - demonstrou inclinação a ficar de fora da realização da atividade.
(Carla propõe uma forma de organização dos subgrupos para a elaboração dos seus cartazes)
Carla: Não é bom tirar as cadeiras e ficar só no chão, não? JP: Pode também. Vocês se organizam como quiserem. Laura: No chão?
Renata: É! Por causa do papel madeira.
Carla: É, tira as cadeiras e fica no chão. Fica melhor. JP: Vocês se organizam como quiserem.
(O grupo afasta as cadeiras. Em seguida, os dois subgrupos se encaminham para lugares diferentes da sala, a fim de iniciarem a atividade).
JP: Aí, depois que vocês se organizarem no canto... Quem quiser ficar em cadeiras pode ficar.
(Todos sentam no chão, mas Ivan continua de pé. O professor vai se encaminhando para sentar em uma cadeira afastada de onde já estavam os participantes do seu subgrupo, bem como os materiais a serem usados utilizados para a feitura do cartaz. Aquilo pareceu para seu grupo que Ivan iria apenas acompanhar a construção do cartaz. Laura interpela Ivan, antes que ele tenha se sentado definitivamente)
Laura: Não, num pode não, Ivan! Tem que ficar no chão! (fala de modo incisivo, mas rindo)
Camila: É, vem Ivan!
(Ivan deixa lentamente a cadeira e se junta a Laura, Ronaldo e Camila. A partir daí, começa a procurar fotografias para inserir no cartaz).
Nessa ocasião, os participantes do grupo de Ivan, especialmente Laura e Camila, contestaram seu lugar diferenciado frente aos demais, passando a encará-lo naquele momento como mais um colaborador na realização da atividade. Tal contestação, inclusive pelo desenrolar do episódio, desestabilizou o status de “observador” que a posição de “professor” poderia conferir a Ivan em alguns momentos nas interações, status comum nos enquadres de sala de aula, por exemplo. Mais claramente a partir de então, na negociação de posições, passava a pairar a ideia de que Ivan deveria se implicar nas interações não só expressando eventualmente suas opiniões nas discussões, mas, inclusive, “trabalhando” junto com – e “assim como” - os alunos na realização das outras atividades durante as oficinas.
Por conseguinte, este episódio exemplifica a ambivalência que marca esse processo de negociação entre Ivan e os demais. Ao mesmo tempo em que buscam definir seus lugares no grupo com base nas posições que já ocupam em outros âmbitos na dinâmica escolar, há momentos nos quais usam as interações do grupo para transgredir as delimitações existentes entre as posições convencionalmente assumidas por cada um na instituição. Ainda sobre a negociação de posicionamentos entre professor e estudantes no grupo, há que se destacar, por último, o papel mediador das atividades que eu propus ao longo das oficinas, as quais visavam, sobretudo, a oportunizar trocas e experimentação de novos lugares simbólicos.