• Sonuç bulunamadı

“Poema-manifesto”,105 “Canção do tempo”106 e “Canto cristão”107 constituem as composições poéticas em que Tasso da Silveira incorpora uma tendência fortemente pedagógica, visando a divulgar sua proposta estética ancorada nos valores cristãos. A marca básica das referidas composições corresponde ao tom incisivamente doutrinário. Nelas, o poeta explicita os valores a partir dos quais propõe a reconstrução da sociedade, os quais se resumiriam em dois signos, alegria e esperança, caracterizando a percepção do autor em relação à época vivenciada e seu intuito de divulgar tal percepção, a fim de angariar adeptos para o empreendimento por ele almejado.

105 SILVEIRA, Tasso da. Poema-manifesto. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 1, ago., 1927, p. 1. 106 SILVEIRA, Tasso da. Canção do tempo. Festa: revista de arte e pensamento, n. 6, jan., 1935, p.1. 107 SILVEIRA, Tasso da. Canto cristão. Festa: revista de arte e pensamento, n. 7, mar., 1935, p. 1-2.

Líder do grupo, Tasso se coloca em posição de anunciador e propagador dos princípios e valores por ele defendidos. Nos três poemas mencionados, identificam-se tais princípios. Manifesta-se a consciência de que o Brasil e o mundo viviam um momento “de tumulto e de incerteza”, “de graves ameaças para o homem”, mas que também correspondia ao momento da busca de um “equilíbrio novo”, de esperança em relação a um novo tempo que se configurava. O tempo é tomado em sua dimensão física, correspondendo à existência efêmera da matéria, um tempo transitório “que modela, com mão paciente e sábia, a pureza das formas.”108

Tanto o “Poema-manifesto” como “Canção do tempo” são construídos a partir de dois planos que configuram o eixo das referidas composições, o plano temporal e a esfera transcendental. Nesse duplo movimento, pelo processo de raciocínio lógico-dedutivo, as imagens surgem, estabelecendo contraste entre o momento de desacerto, de inquietude, insatisfação e angústia vivenciado, no presente da enunciação, e a esperança e certeza de que um novo mundo se construiria, calcado nos valores do espírito.

Nos dois poemas, são várias as imagens que traduzem a polarização existente na estrutura textual. De um lado, o momento sombrio e de angústia do presente e, de outro lado, a certeza da ocorrência de uma transformação maior no plano espiritual. Entretanto essas imagens são grandiloqüentes e de sentido vago, buscam convencer o leitor não pela evidência, mas pelo jogo de palavras, pela imposição retórica como em: “rodopio dos sentimentos” e “torvelinho trágico” que se “desencadeiam em fúria”.

Em contrapartida ao caos configurado, ocorreria a transformação desejada cujos mecanismos de instalação também se traduzem, de forma um tanto indefinida, pela atuação dos “espíritos legítimos” e pelo “brado de alerta das sentinelas perdidas.” Numa concepção idealista, o artista é considerado profeta, aquele que anuncia a boa-nova, devendo ser seguido por “todos os homens” que colaborariam com o processo de reconstrução da sociedade.

Em “Canção do tempo”, os processos de organização do texto exploram semelhantes mecanismos de convencimento. O “nós” inicial estabelece uma proposta de diálogo e participação ampla. Todos os seres são convocados e envolvidos num compromisso coletivo de reconstrução e esperança. O poema se desdobra em dois planos, remetendo ao mundo caótico do presente e ao novo tempo que está prestes a ser configurado. O presente, caracterizado como “o caminho das sombras do não-ser” marca o percurso, a transição obrigatória para o “milagre do ser”.

Em sua evolução, o texto assume um tom bíblico, aproximando a cena focalizada ao momento de criação do universo. As analogias são evidentes e o tom é solene em todo o poema. Como no início da criação, tudo se encontra em estado de potência, de vir- a-ser. Com a mesma força e poder do Criador, o “Tempo”, elevado à condição da divindade e destacado em todo o poema pela letra maiúscula, se encarregaria de transformar esse caos, modelando-o, atribuindo-lhe contornos e formas definidas. Vários são os versos que trabalham as imagens de transmutação das formas. O elemento humano, introduzido no texto, se coloca em estado de contemplação cuja única tarefa consistiria em cantar ante as transformações que vão se operando.

Na percepção do sujeito do enunciado, por um mecanismo mágico, uma vez que não fica bem definido o processo, o tempo se encarregaria de promover essa transformação, pois ele “é o caminho das sombras do não-ser ao milagre do ser.” O estilo lógico-dedutivo se impõe, no intuito de encontrar uma justificativa de convencimento satisfatória. Nesses termos, evidencia-se um raciocínio estranho, uma vez que o pensamento transita, de forma inexplicável, da instância histórica para a esfera transcendental.

Segundo o raciocínio configurado, o tempo, que atuou na esfera natural, durante “as formações milenárias e profundas” e articulou “os elementos dispersos em ilhas, montanhas e continentes”, torna-se “indefectível e eterno”, na medida em que configura o próprio “Deus agindo.”

A linguagem discursiva e retórica traduz o tom eloqüente do estilo tassiano. O recurso lógico-dedutivo, utilizado largamente em seus poemas, denuncia a função específica de sua obra: exercer influência, convencer os leitores, convocá-los à participação no projeto de reconstrução da sociedade numa perspectiva do dogma católico. A própria retomada romântica da imagem do poeta como aquele que anuncia a boa-nova, devendo ser seguido por todos, se enquadra nesse caso.

O artista, transformado em profeta, intui a nova realidade, em meio ao horizonte sombrio predominante, e é incumbido de divulgá-la a todos os homens, no intuito de formar uma legião de adeptos para a obra de reconstrução geral da mesma. Percebe-se nitidamente a base romântica de tal concepção, ocorrendo, pois, uma mera reapropriação idealista do passado, destituída de qualquer componente crítico que venha a revitalizar, renovando, a tradição.

O tom pedagógico, que é o instrumento insistentemente utilizado por Tasso da Silveira, para divulgar seu ideário, se mantém no poema “Canto cristão”,109 publicado em 1935. Como em “Canção do tempo”, o emprego da primeira pessoa do plural, mais uma vez, propõe uma interlocução de âmbito amplo e genérico a um interlocutor tratado pelo signo de “companheiros”. O texto aborda uma temática que não é comum ao universo lírico de Tasso da Silveira. Está relacionada a questões sociais que envolvem o trabalhador proletário, sua revolta e sua angústia em face do trabalho escravo.

Lendo e relendo o poema, por várias vezes, no intuito de encontrar indícios de uma proposta de discussão da problemática social vigente, constato que tal possibilidade não existe. Trata-se apenas de um recurso de retórica, pois, na realidade, a discussão não se efetiva. Embora o momento fosse propício para um debate nessa direção, uma vez que se configurava a consciência da condição do país, como assinala Antonio Candido,110 o mesmo não se instala. Ao contrário, Tasso desvia o foco da questão, atribuindo os males da sociedade ao esquecimento de Deus por parte dos homens. Num momento em que a sociedade brasileira se vê às voltas com graves problemas sociais que exigiam soluções no plano temporal, o poeta vai na contramão da história, numa atitude que caracteriza a alienação.

Um novo bloco temático é trabalhado por Tasso da Silveira e aparece, na revista, em um conjunto de cinco poemas articulados sob o mesmo título, “Quatro carvões e uma aguarela”.111 Em todos eles, observam-se cenas da vida cotidiana, traduzidas em pequenos cromos, tal o traço vigoroso de forte apelo visual com que os mesmos são elaborados.

Em princípio, os textos surpreendem pela ausência de reflexão filosófica, dentre outros aspectos freqüentes na produção tassiana. No caso em questão, trata-se da representação de algumas cenas do dia-a-dia, captadas pelo olhar do poeta e transpostas ao plano da linguagem, com fortes traços de cores e dinamismo intenso. Configuram-se, nos poemas, o trabalho do pedreiro, preparando a argamassa para erguer o muro, a exposição das hortaliças, ainda frescas, em tabuleiros, as “laranjas douradas e redondas” cujo peso é suportado pela laranjeira e, por fim, a preparação da terra para a sementeira, exibindo, ao toque da enxada, o húmus negro que pulsava “de desejo criador...”

109 SILVEIRA, Tasso da. Canto cristão. Festa: revista de arte e pensamento, n. 7, mar., 1935, p. 1-2. 110 CANDIDO, 1989, p. 182.

111 SILVEIRA. Quatro carvões e uma aguarela. Festa: mensário de pensamento e de arte, n. 3, dez., 1927, p. 5.

Além do título geral dado ao conjunto, cada poema recebe outro título específico que, na seqüência, corresponde a Gênese, As cabras, Feira, As laranjas e Húmus.

Embora cada composição busque representar uma cena da realidade exterior, sendo forte o apelo visual, traduzido nas imagens utilizadas, também essas composições vão se encaminhando para um plano mais abstrato e atingem esferas de natureza espiritual. Na verdade, toda a produção lírica de Tasso da Silveira tende a buscar sempre a dimensão transcendente dos seres e das coisas, conforme assinala Leodegário A. de Azevedo Filho112 e se confirma no estudo dos textos que já ressaltei até o momento.