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Alışveriş Merkezlerinin Sınıflandırılması

B. ORGANİZE PERAKENDE FORMATI OLARAK ALIŞVERİŞ MERKEZİ

3. Alışveriş Merkezlerinin Sınıflandırılması

John Locke estabeleceu, em seu Segundo Tratado, um direito conferido a quem detivesse o poder executivo, denominado de “prerrogativa”. Tratava-se de casos em que o executivo, baseado na figura do rei, poderia tomar medidas do âmbito do poder legislativo, posto que a urgência e o bem público o demandassem:

88 A sexta atribuição do poder moderador era a que dispunha sobre a demissão dos ministros. Os conselheiros

provavelmente não possuíam o direito de opinar sobre ela porque, ao tempo da feitura da Constituição, eles eram ministros de Estado, assim como continuaram sendo por alguns anos. Tal fato, se diferente, colocá-los-ia na inusitada situação de, eventualmente, opinarem sobre a própria demissão. BRASIL. Constituição política do Império do Brasil: promulgada em 25 de março de 1824. In: BARRETO, Carlos Eduardo (Org.). Constituições do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1971. v. 1. p. 34.

Esse poder de agir conforme a discrição em prol do bem público, sem a prescrição da lei e por vezes até contra ela, é o que se chama prerrogativa. Isso porque, como em alguns governos o poder legislativo nem sempre está em função e é, em geral, por demais numeroso e lento para a presteza exigida pela execução, e também porque é impossível prever e, conseqüentemente, prover pelas leis todos os acidentes e necessidades que possam interessar ao público [...] deixa-se ao poder executivo uma certa liberdade de ação para deliberar a seu critério acerca de muitas questões não previstas em leis.89

O poder da prerrogativa, de acordo com Locke, possuía, então, um caráter extraordinário. Ele servia ao rei, naqueles assuntos em que não se podia esperar as decisões do poder legislativo a respeito. No entanto, afirma Locke – em uma passagem carregada de sentido histórico – o mau uso desse direito pelos reis, usurpando-o na direção do que configura o absolutismo, predeterminando o uso da prerrogativa no sentido contrário ao do bem público, forçou a sociedade política a impor limites a tal direito. Linhas abaixo da sua definição, ele prescreveu o remédio à situação configuradora do poder absoluto dos reis:

[...] quando o engano ou a adulação prevaleceram sobre príncipes fracos no sentido de fazerem uso desse poder para seus próprios fins privados e não para o bem do público, o povo decidiu-se a determinar a prerrogativa por leis expressas nos pontos em que a julgou desvantajosa. Assim, o povo se viu necessitado de declarar limites de prerrogativa, em casos que eles ou seus ancestrais tinham deixado, com a mais ampla liberdade de ação, à sabedoria dos príncipes, que dela faziam uso correto e para o bem do povo.90

No tempo do funcionamento do Conselho de Estado, na primeira metade do século XIX, esses limites estavam postos pela Constituição. A Constituição surgiu na cena pública como aquele documento fundamental, onde estavam explicitadas as bases sob as quais o governo de determinada sociedade deveria se curvar: “As primeiras Constituições se inseriram no quadro de um processo de limitação e fragmentação do poder absoluto, tal como o que se consolidou nas monarquias européias.”91

A Constituição do Império de 1824 explicitava, de maneira clara, os momentos nos quais era fornecido ao governo o poder de agir em determinado assunto que demandasse urgência. Tratava-se do parágrafo 35, do artigo 179, que dizia que os poderes constitucionais poderiam suspender a Constituição nos seguintes casos:

89 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

p. 531.

90 Ibid., p. 531.

91 VERGOTINNI, Giuseppe de. Constituição. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO,

Nos casos de rebelião, ou invasão de inimigos, pedindo a segurança do Estado, que se dispensem por tempo determinado algumas das formalidades, que garantem a liberdade individual, poder-se-á fazer por ato especial do Poder legislativo.92

Mas o artigo ainda previa a hipótese de que acontecimentos graves poderiam ocorrer no tempo em que o poder legislativo não estivesse trabalhando. Nesse caso, a Constituição poderia ser suspensa da seguinte maneira:

Não se achando porém a esse tempo reunida a Assembléia e correndo a Pátria perigo iminente, poderá o Governo exercer esta mesma providencia, como medida provisória e indispensável, suspendendo-a imediatamente que cesse a necessidade urgente que a motivou; devendo num e outro caso remeter à Assembléia, logo que reunida for, uma relação motivada das prisões e de outras medidas de prevenção tomadas, e quaisquer autoridades que tiverem mandado proceder a elas serão responsáveis pelos abusos que tiveram praticado a esse respeito.93

Mesmo tendo os artigos constitucionais delimitado as prerrogativas que o governo poderia exercer em casos extraordinários, os estudiosos do Primeiro Império acreditam que eles nunca foram respeitados. A assertiva de Isabel Lustosa sobre o período, por exemplo, configurando-o como um tempo no qual “[...] a Constituição permanecia de fato letra morta”,94 resume bem o modo como o período é visto pela maior parte da historiografia. Ao Conselho de Estado foi imputada parte da responsabilidade nessa versão negativa da política da época, na medida em que assessorava diretamente o monarca designado “absolutista”. No entanto, a leitura das atas da instituição enseja uma outra interpretação sobre esse tempo, bem como sobre as medidas que o governo, assessorado pelo Conselho de Estado, tomou, em caráter extraordinário. Longe de contrariar a lógica de ver no governo de dom Pedro I aspectos autoritários que engendraram graves crises políticas, as atas do Conselho que se referem a tal assunto podem, contudo, negar assertivas sobre o imputado absolutismo do Imperador e seus cortesãos.

A Constituição de 1824, como visto anteriormente, era fruto da reflexão dos conselheiros e, talvez mais do que isso, objeto da bem sucedida disputa travada pelo grupo

92 BRASIL. Constituição política do Império do Brasil: promulgada em 25 de março de 1824. In: BARRETO,

Carlos Eduardo (Org.). Constituições do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1971. v. 1. p. 46.

93 Ibidem.

94 LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I: um herói sem nenhum caráter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p.

que a elaborou nas contendas entre setores políticos da época da Independência.95 Tal fato pressupõe um entendimento que tisna aquele que acredita num desrespeito total aos preceitos constitucionais por parte dos setores governamentais da época. Como afirmou Salles Oliveira: “[...] o texto (da Constituição) configurava-se como instrumento de luta, na defesa e imposição de interesses e propostas específicos” 96, o que consubstancia a idéia de que, para

os conselheiros e para o próprio Imperador, a tessitura das suas ações políticas, mesmo numa conjuntura de crise, sempre necessitaria de um respaldo legal daquela que era a obra máxima do ideário liberal, do qual não poderiam prescindir. O entendimento da complexidade do jogo político, no qual o Conselho de Estado estava enredado, parece residir justamente nesse ponto: compreender que as soluções para as crises políticas, aqueles momentos extraordinários nos quais o governo fez uso de suas prerrogativas, no sentido lockeano, passavam por uma articulação que exprimia uma reverência ao estado de direito que se tentava implementar.

O debate travado em 26 de fevereiro de 1829, em reunião do colegiado, foi crucial nesse sentido. Nela, os conselheiros de Estado tomaram conhecimento de uma “rebelião” que rebentara na longínqua província de Pernambuco, no dia 1º daquele mesmo mês. Pernambuco era uma província problemática para Dom Pedro I, desde a independência, pois não aceitava a hegemonia da corte do Rio de Janeiro. Por serem contrários aos artigos constitucionais e à nomeação do presidente feita pelo governo central, grupos fizeram a Confederação do Equador – insurreição armada reprimida, violentamente, pelas tropas imperiais de Dom Pedro I. Pernambuco ficou sujeito ao governo do Rio de Janeiro, mas ao preço do desrespeito à Constituição por parte do governo. Comissões militares condenaram os réus à morte e a província parece ter vivido em instabilidade, durante todo o reinado de Dom Pedro I.

Em 26 de fevereiro de 1829, portanto, ouvindo o Conselho de Estado, o Imperador achou por bem exercer o poder de prerrogativa e agir para findar a situação infensa ao governo da corte no norte do país, que, de acordo com a explanação do ministro da Guerra, Joaquim de Oliveira Álvares, – que fazia o relato por intermédio de um ofício que havia recebido da autoridade militar de Pernambuco – era grave. No interior de Pernambuco, homens haviam cometido roubos, haviam soltado presos das cadeias, como também se apoderado de armas e pretendido “[...] instalar um governo contra o sistema adotado e

95 Sobre as disputas políticas na época da feitura do documento constitucional ver OLIVEIRA, Cecília Helena

Lorenzini de Salles. A Astúcia liberal: relações de mercado e projetos políticos no Rio de Janeiro, 1820-1824. Bragança Paulista: Edusf, São Paulo: Ícone, 1999.

96 Id. O poder moderador e o perfil do Estado imperial: teoria política e prática de governar (1820-1824). In:

MALATIAN, Teresa; LEME, Marisa Saenz; MANOEL, Ivan Aparecido. (Org.). As múltiplas dimensões da política e da narrativa. São Paulo: Olhos d’Água, 2003. p. 46.

jurado”, o que configurava um caso exemplar de “rebelião”.97 No entanto, nas palavras de Pereira da Silva, historiador estudioso dos acontecimentos políticos dos anos finais do Primeiro Império, o fato, que teve lugar em Pernambuco, tratou-se de “[...] um acontecimento de pequena importância”, pelo qual “[...] o governo surpreendido pelas comunicações do seu delegado, deixou-se arrastar a lamentáveis erros.”98

As ações que dom Pedro I conjeturou, nessa ocasião, para manter a estabilidade do Império não eram propícias numa conjuntura de crise política como era aquela dos anos finais do Primeiro Império porque elas poderiam radicalizar a oposição, fragilizando ainda mais a base de sustentação do governo. Diante do relato em sessão, dom Pedro I fez três inquirições aos componentes de seu Conselho. A primeira delas era se a rebelião que aparecera em Pernambuco exigia a suspensão das formalidades que garantiam a liberdade individual “[...] para serem presos e tratados como rebeldes os que nela se achassem implicados.”99 A segunda

envolvia a questão se, caso a resposta da primeira fosse afirmativa, não seria de bom alvitre ampliar também a suspensão das ditas formalidades a outras províncias do norte do Império, “[...] autorizando por decreto os seus presidentes para porem em prática esta dispensa”.100 Por fim, o Imperador perguntou se era necessário criar comissões militares nessas províncias para “[...] serem punidos os réus de tão enorme crime.” A discussão no seio da instituição processou-se da seguinte forma:

Votou em primeiro lugar o Marquês de Santo Amaro e disse que por ora lhe não parecia necessária a suspensão das formalidades que garantem a liberdade individual dos habitantes de Pernambuco, nem fazer extensiva esta providência às outras Províncias [...] O Marquês de Inhambupe votou, que suposto se mostrava que esta rebelião não afetava a toda a Província de Pernambuco, lhe parecia contudo que era indispensável ali a suspensão das ditas formalidades [...] porém não julgava conveniente que esta providência fosse confiada aos Presidentes das outras Províncias [...] O Marquês de Queluz expondo a necessidade de suspenderem as formalidades que garantem a liberdade individual na Província de Pernambuco, assentou que esta medida de prevenção devia ser igualmente confiada aos Presidentes das Províncias, aonde se receasse uma semelhante insurreição [...] E votando seguidamente o Conde de Lages, o Marquês de Caravelas, o Marquês de Paranaguá, o Marquês de São João da Palma e o Marquês de Maricá se conformaram em ambos os artigos com o Marquês de

97 BRASIL. Atas do Conselho de Estado. Sessão 24ª, de 26 de fevereiro de 1829. Brasília, DF: Senado Federal,

1973. p. 67.

98 SILVA, João Manuel Pereira da. Segundo período do reinado de Dom Pedro I no Brazil: narrativa histórica. Rio

de Janeiro: B.L. Garnier, 1871. p. 353.

99 BRASIL. Atas do Conselho de Estado. Sessão 24ª, de 26 de fevereiro de 1829. Brasília, DF: Senado Federal,

1973. p. 68.

Queluz [...] convindo mais em que esta providência se fizesse praticável assim nas Províncias do Norte e limítrofes de Pernambuco, como também nas do Sul. 101 De acordo com o subscrito em ata, três conselheiros, os marqueses de Santo Amaro, Inhambupe e Queluz, se dispuseram a dar suas opiniões, com o objetivo de convencer seus pares. Santo Amaro mostrou-se, totalmente, contrário às proposições do governo e Inhambupe foi, parcialmente, favorável à suspensão das formalidades individuais. Quem eram esses nomes do Conselho?

O Marquês de Santo Amaro nasceu José Egídio Álvares de Almeida em 1767, na Bahia. Seguiu para Portugal, onde se formou no famoso curso de Direito, na Universidade de Coimbra, em 1789. Já de volta ao Brasil, sua carreira política deu-lhe o posto de primeiro presidente do Senado, tendo sido eleito como senador pela província do Rio de Janeiro. Antes de se tornar presidente do Senado, ocupou, por poucos meses, o cargo de ministro dos Estrangeiros do 4º gabinete do curto reinado de Dom Pedro I. Tavares Lyra disse que o Marquês de Santo Amaro, juntamente com Carvalho e Melo, “[...] foi um dos negociadores do tratado pelo qual Portugal reconheceu nossa independência, em 1825.”102 Argeu Guimarães também destacou suas atividades no Ministério dos Estrangeiros: “[...] assinou com o conde de Gestas, a 8 de janeiro de 1826, o tratado de Amizade, Navegação e Comércio entre o Brasil e a França.”103

Marquês de Santo Amaro

101 BRASIL. Atas do Conselho de Estado. Sessão 24ª, de 26 de fevereiro de 1829. Brasília, DF: Senado

Federal, 1973. p. 68.

102 LYRA, Augusto Tavares. Instituições políticas do Império. Brasília, DF: Senado Federal: Ed. UnB, 1979. p.

128.

103 GUIMARAES, Argeu. Dicionário bio-bibliográfico brasileiro de diplomacia, política externa e direito internacional. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1938. p. 426.

Já o Marquês de Inhambupe nasceu na Bahia em 1760, com o nome Antonio Luiz Pereira da Cunha. Na Universidade de Coimbra, freqüentou os cursos de Direito, Matemática e Filosofia, quando se formou em 1787. Foi nobilitado com o título de Marquês de Inhambupe em 1826, mesmo ano em que lotou uma vaga no Senado pela província de Pernambuco. Durante o 4º e 5º gabinetes de dom Pedro I, nos anos de 1824 e 1825, foi ministro dos Estrangeiros, tendo ocupado também, em caráter interino, a pasta da Fazenda. “Durante a sua breve gestão, recebeu a notificação do reconhecimento do Império pela Suissa, as Republicas Hanseaticas, os Paízes Baixos, o Hanover e a Prussia.”104 No auge da crise do Primeiro Império, em 5 de abril de 1831, foi nomeado ministro do Império pelo Imperador, naquele que ficaria conhecido pelo nome de “ministério dos marqueses”. Dois dias após, dom Pedro I abdicou do trono brasileiro. “Assinou alguns tratados importantes e, entre eles, o de 28 de novembro, elaborado com a Grã-Bretanha para pôr fim ao comércio da escravatura na costa da África.”105

Marquês de Inhambupe

Contudo, foi o voto do Marquês de Queluz que arregimentou boa parte dos conselheiros. Cinco dos conselheiros presentes argumentaram em favor de suas idéias. A influência do posicionamento de Maciel da Costa, o Marquês de Queluz, vai ao encontro do que argumenta a historiografia. Tobias Monteiro relatou que ele era considerado “[...] pelo seu saber e experiência o de maior capacidade entre os colegas e apto para dirigi-los.” Disse ainda que Mareschal, plenipotenciário da legação austríaca, no Rio de Janeiro, “[...] julgava-o o

104 GUIMARÃES, Argeu. Dicionário bio-bibliográfico brasileiro de diplomacia, política externa e direito internacional. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1938. p. 228.

105 Lata 479 pasta 4 - IHGB - Galeria de ministros do Exterior do Brasil. Recortes de jornais com dados

mais hábil e respeitável, quer como ministro, quer como conselheiro de Estado, único capaz de falar com franqueza ao Imperador.”106

Queluz nasceu em Mariana, Minas Gerais, em 1769, e tivera uma formação no curso de Direito da Universidade de Coimbra, assim como Santo Amaro e Inhambupe, antes de tomar parte no governo de Dom Pedro I. Lá se formou em 1792. Durante o reinado de dom Pedro I, lotou as pastas do Império, dos Negócios Estrangeiros e da Marinha e se tornou senador, em 1826, quando foi inaugurado o poder legislativo. Nesse mesmo ano, adquiriu o título de Marquês de Queluz. Segundo Guimarães, mesmo tendo permanecido na pasta dos Estrangeiros por menos de um ano, “[...] celebrou tratados de Amizade, Navegação e Commercio com a Austria, a Prussia, a Grã-Bretanha e as cidades Livres e Hanseaticas de Lubeck, Bremen e Hamburgo.”107 Também tomou conhecimento dos problemas que envolviam o conflito da Guerra da Cisplatina.108

Marquês de Queluz

A fiar-se no entendimento da maioria dos conselheiros com relação ao acontecimento em Pernambuco, prevaleceu o pensamento de que o fato era uma rebelião, o que remetia ao artigo 35 da Constituição. Classificada como “rebelião”, as ações aconselhadas pelo Conselho

106 MONTEIRO, Tobias. História do Império: o primeiro reinado. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed.

USP, 1982. v. 2. p. 21.

107 GUIMARÃES, Argeu. Dicionário bio-bibliográfico brasileiro de diplomacia, política externa e direito internacional. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1938. p. 375.

108 Lata 324 doc 58–IV – IHGB - Memória sobre a Guerra do Sul pelo coronel engenheiro Victor Lourenço La

Beaumelle ‘Reservado para o Exmº Sr. João Severiano Maciel da Costa’. Colônia do Sacramento, 22-07- 1827.

Lata 324 doc. 58-VI – IHGB – Carta de Victor Lourenço La Beaumelle ao Marquês de Queluz, ministro dos Negócios Estrangeiros dizendo que a Cisplatina é a chave do rio da Prata e que, portanto, o interesse das nações é não manter a porta fechada. Colônia do Sacramento, 22 de julho de 1827.

Lata 324 doc 58-VII – IHGB - Ofício do coronel engenheiro Victor Lourenço La Beaumelle ao marquês de Queluz, dando algumas idéias para acabar com essa nociva guerra e oferecendo-se para esboçar os tratados de paz. Colônia do Sacramento, 22 de julho de 1827.

de Estado estavam dentro da esfera legal. Na resposta à terceira inquirição feita por dom Pedro I, os conselheiros ainda mostraram que todas as ações da Coroa deveriam estar respaldadas pela Constituição, marcando o redator da ata, explicitamente, que “[...] quanto porém à criação de Comissões militares votaram todos os conselheiros de Estado uniformemente que por ora não tinham lugar [...].”109 Os conselheiros obviamente tinham em

mente a letra do parágrafo 17 do artigo 179 que rezava que: [...] à exceção das causas, que por sua natureza pertencem a Juízos particulares, na conformidade das Leis, não haverá foro privilegiado, nem comissões especiais nas causas cíveis ou crimes.110

É certo que a locução adverbial “por ora” pode revelar uma atenuação da rígida postura dos conselheiros como guardiães da Constituição de 1824, tentando manter as prerrogativas do Executivo naqueles limites que lhe foram impostos. Contudo, é fato que, numa sessão cujas discussões a respeito das outras inquirições do Imperador tenham ensejado tão amplas divergências, a terceira hipótese para solucionar a possível “anarquia”, em Pernambuco, foi refutada pela unanimidade da composição da instituição. O Imperador Dom Pedro I decidiu que “[...] depois de reunir os Seus Ministros de Estado resolveria o que lhe parecesse mais conveniente”.111

Essa discussão não terminou com o encerramento da reunião do Conselho naquele dia. Isto porque, como visto, o citado artigo 35 arrolava que, somente por ato especial do poder legislativo, poder-se-ia suspender as garantias constitucionais. Previa-se que, caso a Assembléia Legislativa não estivesse aberta, o governo poderia suspender a Constituição por si mesmo, mas, quando a Câmara voltasse a funcionar, deveria comunicá-la de tudo o que fora feito, fornecendo uma relação circunstanciada.

A sessão do colegiado aconteceu em fevereiro de 1829, num tempo em que o poder legislativo estava sem exercer os seus trabalhos. A Assembléia Legislativa começava a desempenhar suas funções todos os anos no dia 3 de maio, como rezava o artigo 18 da Constituição – “A sessão imperial de abertura será todos os anos no dia três de maio”112 – e os

finalizava no início do mês de setembro, de acordo com o artigo 17 – “Cada legislatura durará quatro anos e cada sessão anual quatro meses.”113 O fato fez com que o Conselho de Estado

109 BRASIL. Atas do Conselho de Estado. Sessão 24ª, de 26 de fevereiro de 1829. Brasília, DF: Senado

Federal, 1973. p. 69.

110 Id. Constituição política do Império do Brasil: promulgada em 25 de março de 1824. In: BARRETO, Carlos

Eduardo (Org.). Constituições do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1971. v. 1. p. 44.

111 Id. Atas do Conselho de Estado. Sessão 24ª, de 26 de fevereiro de 1829. Brasília, DF: Senado Federal, 1973.