O antigo Parque Estadual de Jacupiranga (PEJ) ocupava mais da metade da área do município de Barra do Turvo (73% do território) e se estendia ainda pelos municípios de Cajati, Eldorado, Jacupiranga, Cananéia e Iporanga. Na região foco deste estudo – Barra do Turvo e Cajati - o PEJ abrigava mais de 1.800 famílias. Estes municípios, conforme já apresentado no Capítulo anterior, apresentam um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado de São Paulo, além de integrarem o grupo de municípios onde se concentram os piores indicadores avaliados pelo Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS). Estas condições, associadas às restrições impostas pela existência de uma Unidade de Conservação de proteção integral – o Parque Estadual de Jacupiranga – ajudaram a compor o cenário de pobreza e conflitos apresentado na região.
As principais ameaças ao manejo (ou à integridade da área natural protegida) estavam relacionadas aos seguintes fatores: a falta de gestão e manejo efetivo por parte do Estado, que deixou a área abandonada desde a criação do Parque, em 1969, até a década de 1990; a presença de uma das mais importantes e movimentadas rodovias brasileiras, a BR-116, que corta o PEJ; a retirada de madeira; os desmatamentos para formação de pastos e estabelecimento de propriedades rurais; o extrativismo predatório; e a ocupação da área por mais de 2 mil famílias.
Atraídos à região por causa do baixo valor de mercado das terras locais, os agricultores migrantes se desfaziam de seus bens nas cidades de origem, se instalavam na região e iniciavam as atividades agrícolas. Mas, por estarem em área de Parque, eram surpreendidos pela fiscalização e multados “porque nada podia ser feito naquele local”. Alguns até eram presos, pois não conseguiam entender a situação: se compraram e pagaram pela terra, como não poderiam utilizar a área da forma que lhes fosse mais adequada?
Afirmação presente no Atlas de Unidades de Conservação Ambiental do Estado de São Paulo, publicado pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, retrata a situação existente no antigo Parque.
(....) Apesar da legislação que protege o parque, desde o inicio da década de 70, existem vários problemas relacionados á ocupação humana devido a precária situação fundiária. Em função de sua extensão, há grande dificuldade de fiscalização e manutenção. Em algumas áreas, o desmatamento é marcante, principalmente nas bordas, resultantes da questão da posse da terra e do cultivo da banana (São Paulo, 1996, p. 18)
A Construção do MOJAC – Iniciando a caminhada
As condições existentes criaram um campo fértil para a ocorrência dos conflitos sociais na área. As comunidades residentes se organizaram e realizaram manifestações na sede da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e na Assembleia Legislativa do Estado. O movimento social local passa a exercer uma grande pressão política visando a resolução dos problemas enfrentados na Unidade de Conservação.
Influenciadas pelas discussões que ocorriam em nível nacional sob a perspectiva de garantir a possibilidade de populações ocuparem o território de Unidades de Conservação - no contexto da discussão da lei que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), conforme já descrito anteriormente – as lideranças dos sindicatos, organizações não governamentais e associações de moradores locais desencadeiam o processo de questionamento sobre a forma de criação do PEJ e das adversidades a que os moradores foram submetidos durante sua implantação.
A principal critica à concepção tradicional das unidades de conservação é a de que essas áreas são criadas e geridas sem consulta a sociedade, especialmente as comunidades mais diretamente atingidas, vale dizer, aquelas que vivem dentro ou no entorno das unidades. Os Parques e Reservas permanecem assim isolados, sem se integrarem à dinâmica sócio econômica local e regional. (...).O isolamento das unidades de conservação gera uma série de problemas que impossibilitam sua adequada implantação (...) Sem o apoio local, e considerando as já referidas crônicas limitações dos órgãos governamentais para uma fiscalização eficaz, torna- se quase impossível, muitas vezes, impedir a depredação dos parques e reservas (MERCADANTE, 2001)
Esta posição defendida no relatório do projeto de lei que criava o SNUC era muito presente nas discussões das lideranças da região de estudo, e o movimento pelas mudanças do PEJ vai ser fortemente influenciado por esta posição, a ponto de, nos anos de 1994 e 1995, serem realizados dois encontros de moradores de Unidades de Conservação para discutir a sua organização e buscar mudanças na situação existente.
Na época, numa parceria entre a União dos Moradores da Juréia, a REBRAF e o PROTER foram feitas várias reuniões, as primeiras ainda em parceria com a Comissão Pastoral da Terra da Diocese de Registro. Eu comecei participar das reuniões em meados de 1992. Havia muita participação dos moradores da EE Juréia Itatins e do PE Jacupiranga. Mais tarde visitamos outros moradores em situação similar, como os moradores do PE Jurupará em Ibiuna e do Serra do Mar em Ubatuba e participamos de encontros sobre o tema em São Sebastião e no Rio de Janeiro. Para dar suporte aos trabalhos foi fundada a Comissão dos Moradores de Unidades de Conservação do Estado de São Paulo que deu continuidade aos encontros e buscou, com apoio da REBRAF e do PROTER, o diálogo com o Instituto Florestal para conseguir melhorias para os moradores na situação de sobreposição com as UCs de proteção integral. (Informação de Armin Deitenbach, 2012).
Apesar de toda a mobilização e dos diálogos, a situação de conflito perdurava e se agravava com a inoperância da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Diante deste quadro, a sociedade civil se organiza e propõe a mudança dos limites do PEJ com exclusão e recategorização de áreas. Por meio de seus representantes políticos, liderados pelo deputado estadual Hamilton Pereira, o movimento social encaminha o projeto de lei n° 984/03 para o Parlamento Estadual, propondo a exclusão da área do Parque de mais de 40 bairros existentes, onde já funcionavam 12 escolas, 4 postos de saúde, 4 postos de combustível, vários pequenos mercados, uma intrincada rede de estradas rurais com mais de 200 km de extensão, além de salões de baile, restaurantes, lanchonetes, enfim, uma gama de serviços e atividades que não se enquadram no manejo de uma área protegida da categoria de proteção integral. O projeto de lei propunha que as áreas a serem excluídas do Parque seriam transformadas em Unidades de Conservação de uso sustentável:
PROJETO DE LEI Nº 984, de 2003 Altera os limites do Parque Estadual de Jacupiranga, criado pelo Decreto-Lei nº 145, de 8 de agosto de 1969, exclui áreas ocupadas pelas populações que especifica, incorpora área e dá outras providências.
A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo decreta: Artigo 1º - Ficam excluídas dos limites do Parque Estadual de Jacupiranga, criado pelo Decreto- Lei nº 145, de 8 de agosto de 1969, as áreas ocupadas pelas
seguintes populações:
I - No Município de Barra do Turvo, as conhecidas por: Pinheirinho dos Franco, Conchas, São Pedrinho, Rio Pardinho, Anhemas, Pinheirinho das Dúvidas, Areia Branca, Paraíso do Cedro, Cedro, Rio Vermelho, Barreiros, Água Quente, Descampado, Forquilha, Santiago, Taquarão, Rio Turvo, 270, Paraíso, Bela Vista, Santa Marta, Ribeirão Grande e Reginaldo;
II - No Município de Cajati, as conhecidas por: Capelinha, Lavras, Vila Lucas ou Anta Gorda, Vila Tatu, Pinheiro ou Queimado ou ainda Assentado, e Braço Feio;
III - No Município de Cananéia, as conhecidas por: Santa Maria, Varadouro, Mandira, Rio das Minas e Ariri;
IV - No Município de Eldorado, as conhecidas por: Ribeirão dos Porcos, Córrego das Onças, Areadinho e Barra do Braço.
Artigo 2º - As áreas elencadas no artigo anterior serão transformadas em Unidades de Conservação de Uso Sustentável, de acordo com as características sócio-ambientais de cada uma delas. (ALESP, 2003).
O projeto é aprovado em 2003 pela Assembleia Legislativa em sessão extraordinária. No ano de 2004, muda a direção da Unidade de Conservação, coincidindo com a chegada deste pesquisador ao Parque como pesquisador científico do Instituto Florestal. A nova direção do Parque, que acompanhava o desenrolar da mobilização social, nos solicita o apoio à criação dos Conselhos dos Núcleos Cedro e Caverna do Diabo, e o início de um processo de gestão marcado por maior diálogo com a sociedade.
Em fevereiro de 2005, com a presença de 170 pessoas - moradores, lideranças comunitárias, organizações não governamentais e órgãos do Estado - é criado o Conselho Consultivo do Núcleo Cedro do Parque Estadual Jacupiranga (Ata da 1º reunião PEJ, 2005). No mesmo ano são criados os Conselhos dos Núcleos Caverna do Diabo e Cananéia.
A formação e o funcionamento do Conselho Consultivo do Parque Estadual do Jacupiranga exigiram muito trabalho, dedicação, estudo e articulação institucional, em se tratando de uma área tão complexa, onde a comunidade praticamente era toda residente no Parque e onde não havia diálogo entre Estado e sociedade. Os sérios problemas existentes eram resolvidos ou na Delegacia ou no Fórum, os únicos locais de encontro entre representantes do Estado e da sociedade. A constituição do Conselho marca o momento em que este paradigma foi quebrado. Dava-se início a um novo processo de gestão na área.
Apesar deste movimento de promoção do diálogo que estava iniciando seu curso na base da gestão do Parque, no dia 16 de agosto de 2005 o projeto de lei n° 984/03 que revia os limites do PEJ é vetado pelo Governador do Estado, Geraldo Alckmin. O ato do governador acirra o ânimo nas comunidades. São realizadas manifestações, numa demonstração da insatisfação geral não apenas das comunidades locais, mas também de representantes de prefeituras e câmaras municipais - agentes públicos que se integraram ao movimento pela mudança dos limites do Parque (Informação Verbal)31. O governo do Estado recua e cria, por meio do Decreto Estadual n° 50.019, de 20 de setembro de 2005, o Grupo de Trabalho
Intersecretarial do Parque Estadual de Jacupiranga (GT-PEJ)32. O Estado começa a reconhecer, então, que os quase 8 mil moradores do Parque deveriam ser, pelo menos, ouvidos em suas reivindicações e anseios. Fortalece-se o diálogo que estava em curso na base, fundamental para o processo de construção do consenso visando a elaboração da proposta da nova lei do Mosaico de Unidades de Conservação do Jacupiranga. O quadro abaixo apresenta os membros que participaram formal e informalmente do Grupo de Trabalho (RBMA, 2008).
Pelo Gabinete da SMA Clayton Ferreira Lino José Pedro Oliveira Costa
PGE-PPI
Pedro Ubiratan Escorel de Azevedo – Procurador / PPI Alexandre Moura de Souza – Procurador PR2 - Santos Dra. Cristiana Corrêa Conde Faldini – Procuradora/ GPG INSTITUTO FLORESTAL Dr. João Batista Baitello – Diretor Geral
José Luiz de Carvalho – Diretor Técnico da Divisão de Reservas e Parques Estaduais Arlete Ohata – IF/PGE Francisco Eduardo Silva Pinto Frederico Alexandre Roccia Dal Gláucia Cortez Ramos de Paula Hélio Yoshiaki Ogawa Isadora Le Senechal Parada Joaquim de Britto Costa Neto José da Silva
Josenei Gabriel Cará
Maria Aparecida Cândido Salles Resende
Mario José Nunes de Souza Ocimar José Baptista Bim Roney Perez dos Santos – GSMA
Valdely Cardoso Brito
FUNDAÇÃO FLORESTAL