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2.1. Akarsular ve Özellikleri

2.1.1. Akarsularda kirlenme

Fundada em meados do século XVI, a partir da disputa colonial entre duas potências europeias, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi se sedimentando ao longo do século XVII, nas palavras de Maria Fernanda Bicalho, como um dos “principais polos de articulação da vasta região do Atlântico meridional.”1 Sobretudo

durante a primeira metade do século XVII, a capitania do Rio de Janeiro tinha uma economia marginal às principais rotas de comercialização, cuja produção esteve centrada no cultivo de cana-de-açúcar de menor qualidade. Embora o açúcar produzido na Guanabara não fizesse frente ao da Bahia ou ao de Pernambuco, era este produto o grande dinamizador da economia local. Na segunda metade do século XVII, os engenhos representavam 43% a 69% das escrituras públicas lavradas. Junto com o

1 BICALHO, Maria Fernanda Baptista. A cidade do Rio de Janeiro e a articulação da região... p. 07-36,

111 açúcar e seus subprodutos, como a aguardente, produziam-se também diversos gêneros agrícolas e criava-se gado.2

O Rio de Janeiro estava localizado numa formidável posição geográfica que lhe garantiu, durante todo o século XVII, condições privilegiadas de trânsito entre os territórios espanhóis do estuário do Prata e os enclaves negreiros na África. Dessa forma, principais da terra terminaram por furar o bloqueio metropolitano e realizar o comércio entre diferentes possessões coloniais lusas e hispânicas.3 Segundo Carlos Jucá, na segunda metade do século XVII, o Rio de Janeiro já era o principal polo do centro-sul e tinha a segunda frota comercial mais importante da América portuguesa, chegando a equiparar-se à Bahia, durante o último quartel da centúria, em volume de açúcar exportado,4 muito em virtude da desarticulação do nordeste açucareiro, invadido pelos holandeses.

A produção de açúcar e a importância política da região iam garantindo às principais famílias da terra o acesso ao mercado atlântico, que articulava o contato com Angola, Buenos Aires e diversos outros pontos comerciais do império. Diante de uma produção econômica secundária, mas de uma posição geográfica estratégica, o sistema de mercês foi um dos recursos utilizados para garantir a preservação do território sob o domínio português. Assim, à semelhança do que era feito nas demais possessões ultramarinas, a monarquia tratou de reconhecer a importância social dos primeiros conquistadores de forma a incluí-los na política de privilégios que os aproximava da hierarquia do Antigo Regime.5

Mais do que a endogamia, era o acesso a redes de clientela que abria consideravelmente o crédito aos neófitos. Portanto, a hierarquia social também estava intimamente ligada à legitimidade alcançada localmente. O acesso ao crédito, por exemplo, era facilitado pelos contatos com os descendentes dos primeiros conquistadores, que tendiam a monopolizar o capital político. Segundo Fragoso, entre

2 FRAGOSO, João Luís Ribeiro. À espera das tropas... p. 37-134.

3 BICALHO, Maria Fernanda Baptista. A cidade do Rio de Janeiro e a articulação da região... p. 07-36,

1998. BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola...

4 SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na encruzilhada do império... p. 139-184.

5 Segundo Fragoso, é possível definir a elite fluminense ao longo do século XVII, a partir dos serviços

prestados ao rei e a participação nos cargos da Câmara. O cabedal para poder servir à coroa e a participação no Concelho garantiam aos principais da terra o domínio econômico e político da região. Dentro dessa perspectiva, acrescente-se o fato de as famílias se utilizarem também de um recurso específico como forma de ampliar seu acesso aos regimes de mercês régias: os pais privilegiavam os dotes das mulheres em detrimento das heranças aos homens, frequentemente deslocados para a fronteira ou o sertão, em busca de terras e índios. Por meio de um ajuste tácito, os colonos angariavam mercês por serviços prestados e a monarquia referendava o acréscimo de novatos às elites locais. FRAGOSO, João Luís Ribeiro. À espera das tropas... p. 37-134.

112 1671 e 1680, cerca de 44,8% dos empréstimos feitos pela arca dos órfãos eram fiados pelos descendentes de conquistadores. Outro ponto a ser destacado é o fato de as primeiras elites fluminenses não serem infensas aos comerciantes. Era típico o acúmulo de afazeres mercantis com o exercício de atividades nobilitantes como a participação nas Câmaras.

Esse dinamismo que a cidade foi adquirindo ao longo do seiscentos poderia ser percebida na delegação de benefícios: em 1642, os membros da Câmara receberam os mesmos privilégios dos cidadãos do Porto; em 1676, a cidade, que até então sediava uma prelazia, subiu na hierarquia eclesiástica e passou a abrigar um bispado com vasta jurisdição. Em 1679, uma ordem régia consubstanciava o antigo desejo dos colonos fluminenses e autorizava a fundação de um porto fortificado em Sacramento, fomentando o comércio e o contrabando da prata peruana em troca de africanos escravizados e mercadorias europeias.6

A Colônia de Sacramento ficou à cargo da administração do governo do Rio de Janeiro, possibilitando-lhe um comércio aberto e uma dinamização considerável da cidade. Paulatinamente, o porto afirmava-se como principal espaço de trocas, não apenas do interior da região centro-sul, mas de todo o Atlântico subequatorial. A descoberta do ouro, na década de 1690, nas Minas Gerais, foi uma espécie de coroamento do protagonismo fluminense, inaugurando uma nova fase de prosperidade que deslocou o eixo administrativo, fiscal e militar da colônia para aquela região do continente.7 Em 1718, o então governador Antônio Brito de Meneses definiu a cidade como a mais opulenta do Brasil “por razão do seu largo comércio e serem os seus gêneros os mais preciosos”.8 A relação privilegiada com o território das minas, atestada

pela inauguração do Caminho Novo, ainda na primeira década do século XVIII, confirmou a cidade do Rio de Janeiro como o centro da rota de povoamento, abastecimento e circulação mercantil da região mineradora, suplantando os demais espaços e portos, nomeadamente os de Parati, Santos e Salvador.9

Em paralelo ao novo papel que a cidade assumiu, modificou-se também, na virada do século XVII para o XVIII, a composição social das elites. A descoberta do ouro, num primeiro momento, agravou as crises econômicas por que passava o

6 SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na encruzilhada do império... p. 139-184.

7 BICALHO, Maria Fernanda Baptista. A cidade do Rio de Janeiro e a articulação da região em torno do

Atlântico-Sul... p. 07-36.

8 Citado em SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na encruzilhada do império... p. 148.

9 Ver edição comentada por Andrée Mansuy Diniz Silva de ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil... Especialmente p. 263-269.

113 recôncavo, atraindo famílias e fortunas para a região mineradora, mas abrindo espaço para o surgimento mais pronunciado, sobretudo a partir da década de 1720, dos chamados homens de negócio, que fariam fortuna com a exploração direta do rico comércio que se estabelecia no Rio de Janeiro. Segundo Carlos Jucá, ao longo do século, acentuou-se a diferenciação entre os homens de negócio e os senhores de engenho. O declínio dessa elite agrária abriu espaço, tanto no mercado de crédito, quanto na participação política, para o papel decisivo das ascendentes elites mercantis.10

A cidade do Rio de Janeiro foi um local de franca expansão demográfica ao longo do todo o setecentos. As mudanças por que passavam a localidade provocaram um verdadeiro engrandecimento populacional: calcula-se que tenha saído de 12 mil habitantes em 1700 para mais de 24 mil, em 1749;em 1799, contavam-se 42.168 e em 1821, 112.695 habitantes.11 Na década de 1740, o tráfico de escravos na cidade ultrapassava a quantia de 6 mil almas por ano.12 A crescente importância política foi se confirmando ao longo do século, na esteira do dinamismo econômico de suas elites: em 1752 , a localidade passou a sediar um Tribunal da Relação; em 1763, tornou-se a capital administrativa da América; em 1808, foi a escolhida para abrigar a Corte portuguesa.13

A cidade e seu entorno também complexificaram a rede assistencial, tanto sob patrocínio religioso, quanto leigo, aumentando as possibilidades de inserção institucional da população. Em 1733, foi fundada a Casa dos Meninos Órfãos de São Pedro, mais tarde conhecida como seminário São Joaquim, destinado a meninos pobres. Em 1739, d. frei Antônio de Guadalupe fundou o seminário São José; em 1751, foi criado o seminário de Nossa Senhora da Lapa; em 1752, por iniciativa do bispo frei Antônio do Desterro foi deu-se início ao recolhimento de Nossa Senhora do Parto destinado a “mulheres não virgens (...) que deixando a perversidade do século, reformaram a vida e costumes antigos, trocando-os por santa e regular conduta”;14 em

1763, foi criado em Itaipu (Niterói), o recolhimento de Santa Teresa, também para

10 SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na encruzilhada do império... p. 200-201.

11 MARCÍLIO, Maria Luíza. Mortalidade e morbidade da cidade do Rio de Janeiro... p. 53-68.

12 CAVALCANTI, Nireu. O comércio de escravos novos no Rio setecentista. In: FLORENTINO, Manolo

(Org.). Tráfico, cativeiro e liberdade... p. 15-78.

13 Ver a interessante relação de imagens do Rio de Janeiro ao longo do século XVIII na conclusão do

livro de CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista... p. 373-404.

14 Monsenhor Pizarro citado em FRIDMAN, Fania; MACEDO, Valteir L. A ordem urbana religiosa no

114 mulheres casadas e moças solteiras.15 A Misericórdia do Rio de Janeiro tratou de criar

novas instituições: em 1738, foi fundada a roda dos expostos e, em 1739, o recolhimento das órfãs.

Essa evolução no quadro assistencial não era resultado, necessariamente, de demandas sociais, mas fruto de um crescente cosmopolitismo, marcado pela maior capacidade financeira das elites e pela importância social que a cidade ia ganhando. A Misericórdia soube instrumentalizar seu papel de exclusividade em determinados serviços e, valendo-se do dinamismo local, tornou-se um exemplo grandioso para os padrões americanos. Enquanto a maior parte das congêneres do império dava sinais de exaustão financeira, a Santa Casa do Rio, em meio a descalabros e desorganizações, dava prova inconteste de desenvolvimento.

Benzer Belgeler