1.1. Öğrenme Güçlüğü
1.1.3. Akademik faktörler
Levando-se em consideração o instrumento utilizado para a coleta de dados e que se subdividiu em questionário e entrevista semiestruturada, apresentaremos a seguir a análise dos dados obtidos a partir do questionário, que contemplou informações pessoais e da família dos entrevistados, bem como informações de escolarização, de modo a oferecer o perfil socioeconômico e demográfico dos oito alunos que fizeram parte da nossa amostra.
De modo complementar à análise, apresentamos abaixo o quadro-síntese (quadro 2) da informação extraída por aluno, de modo a oferecer não apenas uma visão geral dos sujeitos entrevistados, mas um indicativo do perfil socioeconômico dos mesmos.
Como se nota, compõem o nosso grupo investigado em profundidade oito alunos, pertencentes aos cursos de Letras, Ciências Biológicas, Medicina, Direito, Engenharia Ambiental, Ciências da Computação, História e Ciência e Tecnologia de Alimentos. Eles são representantes, portanto, respectivamente, das áreas de Linguística, Letras e Artes, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Sociais Aplicadas, engenharias, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas e Ciências Agrárias.
Desses oito alunos, quatro são do sexo masculino e quatro do sexo feminino, sendo que se definem como brancos (n=dois), pardos (n=quatro) e negros (n=dois), não havendo predomínio da presença de uma etnia/raça em relação à outra. Essa autodefinição étnica e racial, diz, igualmente, do tipo de cota utilizada, pois encontramos a utilização de cotas com
critério étnico-racial em seis dos oito casos. E para os alunos que se consideravam brancos, a modalidade de cota incidia sobre o fator financeiro.
Todos os oito alunos são jovens, estando 87,5% deles com idade entre 19 e 21 anos, predominando a faixa etária de 19 anos. Há apenas uma aluna com trinta anos, mas que está cursando sua segunda graduação atualmente. São todos solteiros, sem filhos e moradores, em sua maioria, de repúblicas particulares. Fato que pode ser explicado pelo fato de não morarem na cidade de origem. É curioso notar o fato de não utilizarem as repúblicas federais, que, a princípio, seriam destinadas àqueles que necessitariam de suporte econômico para manterem- se na universidade. Apenas dois alunos moram com a família, sendo um deles morador de uma cidade vizinha a Ouro Preto e próxima do Campus onde estuda, não havendo necessidade, portanto, de buscar moradia fora do ambiente familiar. Já o outro aluno que mora com a família, apesar de ter se mudado de sua cidade natal, permaneceu residindo com a mãe e os irmãos, pois esses vieram morar com ele em Ouro Preto.
Desses seis alunos, portanto, a grande maioria não mora em casa própria, mas em imóveis alugados. Fato que pode, novamente, ser explicado pelo fato de não estarem em sua cidade de origem, tornando-os dependentes de opções como repúblicas. Relatam, no entanto que, nas cidades de origem, as famílias, moram em casa própria. Talvez para uma melhor análise, seria necessário examinar se há alguma relação entre os alunos que recebem auxílio moradia e custeio de repúblicas privadas.
Quanto à renda familiar, há um predomínio da faixa de renda de R$ 1.085,00 A R$ 1.734,00, classificando-os como pertencentes à classe D. Encontrou-se, ainda, um aluno pertencente a classe E, ou seja, com renda familiar de até R$ 1.085,00 e duas alunas, pertencentes a classe C, com renda familiar de R$ 1.734,00 e R$ 7.475,00.
Quadro 2 - síntese das informações socioeconômicas dos entrevistados
Fonte: elaborado pela própria autora a partir das entrevistas realizadas
F a b ríc io C a rlo s T ia g o A n d re a D a n ie la J o s é M a ria n a A lin e
C u rs o C iê nc ia da
C om puta ç ã o
C iê nc ia e T e c nologia de
A lim e ntos
C iê nc ia s B iológic a s D ire ito E nge nha ria
A m bie nta l H is tória L e tra s M e dic ina
S e x o M a s c ulino M a s c ulino M a s c ulino F e m inino F e m inino M a s c ulino F e m inino F e m inino
I d a d e 19 21 19 19 21 20 30 19 E s t a d o c iv il e N º d e filh o s S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . S olte iro. S e m filhos . T ip o d e M o ra d ia M ora a pe na s c om a m ã e M ora a pe na s c om a m ã e R e públic a P a rtic ula r R e públic a P a rtic ula r R e públic a P a rtic ula r R e públic a P a rtic ula r R e públic a
P a rtic ula r K itine te a luga da
M o ra e m c a s a p ró p ria ? S im N ã o N ã o N ã o N ã o N ã o N ã o N ã o R e n d a fa m ilia r* e ntre R $ R $1.085,00 a R $1.734,00 e ntre R $ R $1.085,00 a R $1.734,00 e ntre R $ R $1.085,00 a R $1.734,00 e ntre R $ R $1.085,00 a R $1.734,00 e ntre R $1.734 a R $7.475,00 a té R $ 1085,00 e ntre R $ R $1.085,00 a R $1.734,00 e ntre R $1.734 a R $7.475,00 Q u a n t id a d e d e irm ã o s 2 2 0** 1 2 1 2 2 P o s iç ã o n a fra t ria F ilho m a is
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N ív e l d e e s c o la rid a d e d a m ã e E ns ino M é dio C om ple to E ns ino M é dio
C om ple to 1º gra u inc om ple to
E ns ino S upe rior e m
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E ns ino S upe rior e m c urs o 1º gra u c om ple to E ns ino S upe rior e m c urs o
E ns ino S upe rior e m A dm inis tra ç ã o de E m pre s a s P rin c ip a l a t iv id a d e p ro fis s io n a l d a m ã e T é c nic o e m E nfe rm a ge m E m pre ga da D om é s tic a D ia ris ta P rofe s s ora do E ns ino F unda m e nta l P rofe s s ora do E ns ino F unda m e nta l
D ona -de -c a s a R e pos itora e m S upe rm e rc a do A uxilia r de E s c ritório N ív e l d e e s c o la rid a d e d o p a i 1º gra u inc om ple to E ns ino M é dio
C om ple to 1º gra u inc om ple to
1º gra u inc om ple to E ns ino M é dio C om ple to 1º gra u c om ple to E ns ino M é dio C om ple to E ns ino M é dio C om ple to P rin c ip a l a t iv id a d e p ro fis s io n a l d o p a i
M e c â nic o E le tric is ta P e dre iro L a vra dor M a rc e ne iro A s s is te nte de
L a tic ínios T orne iro M e c â nic o E le tric is ta N ív e l d e e s c o la rid a d e d o s a v ó s N ã o c onhe c e u os a vós m a te rnos . A vós pa te rnos tinha m o 1º gra u inc om ple to C onhe c e u a pe na s a a vó m a te rna que e s tudou a té a 4º s é rie A té a 4º s é rie A té a 4º s é rie N ã o s e le m bra s e c he ga ra m a fre que nta r e s c ola . S e s im , no m á xim o a té a 4º s é rie . T odos os a vós e s tuda ra m a té a 4 s é rie , c om e xc e ç ã o da a vó pa te rna que e ra a na lfa be ta . A té a 4º s é rie N ã o s e re c orda . M a s s e le m bra que a a vó tra ba lhou c om o profe s s ora . P rin c ip a l a t iv id a d e p ro fis s io n a l d o s a v ó s A vós e ra m dona s de c a s a ; A vô m a te rno e ra a rte s ã o e o pa te rno m e c â nic o de c a rros . C onhe c e u a pe na s a a vó m a te rna que tra ba lha va c om o e m pre ga da dom é s tic a . N ã o s e m le m bra m uito be m . R e c orda -s e dos a vós já a pos e nta dos . T e m a le m bra nç a de que os a vós m a te rnos e pa te rnos tra ba lha va m c om a gric ultura . A s a vós e ra m dona s de c a s a e o a vô pa te rno e m a te rno tra ba lha dore s
rura is . A s a vós e ra m dona s de c a s a . O a vô m a te rno fe rre iro e o a vô pa te rno tra ba lha dor rura l.
A s a vós e ra m dona s de c a s a . O a vô m a te rno e ra func ioná rio da
pre fe itura e o pa te rno tra ba lha dor
rura l. A vó m a te rna é d o na d e c a sa . A vó p a te rna e ra la va d e ira . O a vô m a te rno é serralheiro e o a vô p a te rno e ra sa p a te iro A vós e ra m dona s de c a s a ; A vô m a te rno e ra fis c a l e o pa te rno tra ba lha va na Im pre ns a ofic ia l S it u a ç ã o a t u a l E s tuda e
tra ba lha E s tuda e tra ba lha E s tuda e tra ba lha A pe na s e s tuda A pe na s e s tuda
A pe na s e s tuda
E s tuda e
tra ba lha A pe na s e s tuda
C u rs o u p ré - e s c o la r? S im . E m e s c ola públic a m unic ipa l S im . E m e s c ola públic a e s ta dua l S im . E m e s c ola públic a e s ta dua l S im . E m e s c ola públic a e s ta dua l S im . E m e s c ola priva da S im . E m e s c ola públic a e s ta dua l S im . E m e s c ola públic a e s ta dua l S im . E m e s c ola priva da T ip o d e e s c o la fre q u e n t a d a n o e n s in o fu n d a m e n t a l E s c ola públic a m unic ipa l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola priva da e públic a e s ta dua l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola públic a e s ta dua l T ip o d e e s c o la c u rs a d a n o e n s in o m é d io E s c ola públic a fe de ra l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola P úblic a M unic ipa l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola públic a fe de ra l E s c ola públic a fe de ra l E s c ola públic a e s ta dua l E s c ola públic a e s ta dua l T ip o d e e n s in o
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P ré - v e s t ib u la r? N ã o N ã o N ã o N ã o N ã o N ã o N ã o S im
**Irm ã o fa le c ido
P a rdo P a rdo B ra nc o
* A s fa ixa s de re nda a pre s e nta da s re fe re m -s e à c la s s ific a ç ã o c ria da pe lo C e ntro de P olític a s S oc ia is da F unda ç ã o G e túlio V a rga s (C P S /F G V ), do a no de 2011. P a ra m a iore s de ta lhe s ve r pá gina 9.
A u t o d e fin iç ã o
A princípio poder-se-ia pensar que o valor da renda familiar apresentada por essas duas alunas, poderia torná-las não participantes das camadas populares. No entanto, há outros elementos que as classificam como oriundas de camadas populares, como pai ou mãe com baixa escolaridade, exercendo, por conseguinte, atividades profissionais pertencentes ao estrato social médio-inferior ou médio-médio, segundo a classificação proposta por Pastore (1979); terem estudado em escola pública grande parte do período escolar ou, mesmo, terem avós com baixa escolaridade e com atividades profissionais também caracterizadas como pertencentes ao estrato social médio-inferior. Ademais, pertencer à classe C, segundo Neri (2014), em função do enquadramento de renda, torna-as pertencentes à nova classe média, caracterizada pela inclusão de pessoas antes pertencentes às classes D e E e que vêm fazendo essa transição a partir dos anos 2000.
Identificou-se que todos os oito alunos possuem irmãos, sendo mais frequente o relato de possuírem dois irmãos, ou seja, três filhos por família, contando-se com o entrevistado. Apenas um aluno relatou a situação de falecimento de seu irmão, tornando-o filho único desde então. Geralmente, ocupam a posição de filho mais velho. Houve apenas dois relatos de ocupação da posição de irmão mais novo e um relato da posição de irmão do meio. Como se vê, não há, nessa amostra, a presença de famílias numerosas. A relação entre o tamanho da família e o sucesso escolar dos filhos já havia sido identificada pela Sociologia da Educação, a partir dos anos 1950, e apontava o número de filhos como um dos fatores importantes das disparidades escolares (NOGUEIRA, 1998). Marteleto (2002), por sua vez, também encontrou evidências da relação entre o tamanho da família e o sucesso escolar dos filhos, ao considerar que quanto menor o número de irmãos, maiores seriam os recursos familiares investidos nos filhos. Identificou, igualmente, que a escolaridade média do jovem diminui proporcionalmente ao crescimento do tamanho da família e que a desvantagem escolar de jovens de famílias grandes é menor quando outros fatores são controlados, mas que a desvantagem persiste (MARTELETO, 2002). Resultados semelhantes foram encontrados por Hasenbalg e Silva (1999) e Laurens (1992).
Em geral, os indivíduos entrevistados relatam que a família como um todo pratica alguma religião, em sua maioria católica (n=cinco), seguida da religião evangélica (n=três). Percebe-se que essa predominância segue o curso das religiões no Brasil, ainda com predominância católica (64,6%), mas com um aumento da participação das religiões evangélicas (22,2%). (IBGE, 2010)
Quanto ao nível de instrução da mãe, encontramos duas mães com ensino superior completo, nas áreas de Administração de Empresas e Normal Superior. É importante ressaltar que, ambas, fizeram o curso já em idade adulta e quando casadas e que as graduações escolhidas possuem relação com o trabalho que exercem. Há, igualmente, duas mães com ensino superior incompleto, ou seja, em curso. Uma delas cursando História à distância e a outra, cursando Pedagogia. Essa última mãe já possuía a formação em magistério, em nível de formação de segundo grau, motivo pelo qual passou a ocupar, posteriormente, a função de professora do ensino fundamental. Verificaram-se, ainda, duas mães com ensino médio completo, tendo uma delas concluído essa etapa de ensino, posteriormente, por meio do programa de Ensino de Jovens e Adultos (EJA), e a outra com formação em Técnico de Enfermagem. Encontraram-se apenas duas mães com nível de ensino equivalente ao fundamental, sendo uma em situação de incompleto e a outra, de completo.
Sobre a presença dessas mães no ensino superior, há de se pensar o entorno dessa inserção, tendo em vista o longo período de discriminação das mulheres nos espaços acadêmicos e seus resquícios sobre a escolha do curso e da carreira, que, tal qual em nossa amostra, levam as mulheres a cursarem o ensino superior em escolas privadas, ligadas às áreas “femininas”, de pouca concorrência e de pouco prestígio, como as licenciaturas. Sobre a escolha do curso e da carreira em mulheres de camadas sociais menos favorecidas, Ávila e Portes (2009) relacionam-na como decorrente daquilo que Bourdieu (1998) denominou de “causalidade do provável”. Isto é, baseando-se em um conhecimento prático, fruto da realidade social em que estão inseridas, calculam-se as chances de adquirir bens que estariam, via de regra, fora do alcance de seu grupo social. É o que parece ter acontecido com essas quatro mães. Pois, parecem ter acessado o curso de graduação dentro de um campo “possível”, ou seja, factível diante das condições materiais e expectativas de classe. Além de ser uma escolha ligada às atividades laborais que já exerciam. Isso pareceu uma exceção apenas para a mãe que iniciou o curso de História. Pois, não há relação do curso com sua ocupação profissional, mas apresenta todas as outras características, como estar matriculada em rede privada, na modalidade de curso à distância, e graduar-se muito tempo após a idade ideal, de 18 a 24 anos, considerada pelo Plano Nacional de Educação de 2001.
A qualificação materna, por sua vez, pareceu refletir, geralmente, a ocupação profissional das mesmas. Pois, foram relatadas as ocupações de: auxiliar de escritório, para aquela formada em Administração; Professora do ensino fundamental, para aquela que cursou o Normal Superior e para a que está cursando Pedagogia. Para as mães que cursaram até o
ensino médio, há uma que exerce a função de técnico de enfermagem e há outra que trabalha como empregada doméstica. As mães que cursaram apenas até o ensino fundamental possuem a ocupação de dona de casa, para aquela que concluiu essa etapa de ensino, e de diarista, para aquela que o possui em nível incompleto.
Já a escolaridade dos pais oscila entre ensino fundamental incompleto, completo e segundo grau completo, com formação em nível técnico, inclusive, para um deles. Esses mesmos pais ocupam funções que exigem baixa escolaridade como eletricista, marceneiro, mecânico de carros, auxiliar de análises clínicas em laticínio e lavrador, torneiro mecânico e pedreiro.
Não diferente, verificou-se a presença da baixa escolaridade das avós e avôs, que, geralmente, foram identificados como tendo cursado apenas até a 4ª série. Alguns relataram, ainda, a existência de uma avó analfabeta, avós com ensino fundamental incompleto, além de muitos que não conheceram os avós, ou não se lembraram da escolaridade dos mesmos. Por conseguinte, verificou-se a ocupação profissional desses avós como dependente de pouca titulação acadêmica. Pois, encontraram-se, em geral, as avós como donas de casas ou empregadas domésticas. E os avôs como mecânicos de automóveis, ferreiro, serralheiro, sapateiro, trabalhador rural, funcionário da Prefeitura ou da Imprensa Oficial ou na função de fiscal.
Como se nota, identifica-se, a partir das informações extraídas do questionário respondido pelos alunos, que eles possuem características próprias a camadas populares, como, terem pais com ocupações manuais ou com nível de formação técnica, comumente associados a uma baixa posição social. Característica essa observada também nos familiares de gerações anteriores como os avós. Ainda dizendo da “herança familiar” desses alunos observam-se os pais, geralmente, com baixa escolaridade, assim como os avós. Verifica-se, igualmente, uma baixa renda familiar e o fato de terem estudado, em sua grande maioria, integralmente no sistema de ensino público. Tais características, portanto, caracterizam-nos como pertencentes a camadas populares tal qual o sentido atribuído por Charlot (2000), em que considera esse estrato social como“categorias sociais populares que englobam as famílias ditas ‘populares’ e ‘desfavorecidas’. Essas que ocupam uma ‘posição dominada’ na sociedade, vivem em situações de pobreza ou precariedade, produzem uma configuração teórica e prática do mundo que traduz ao mesmo tempo sua posição dominada e os meios
implementados para viver ou sobreviver nessa posição e, às vezes, transformar as relações de força” (p. 11).
No entanto, ainda que no aspecto macroscópico eles se agrupem em uma mesma camada social, identificam-se traços heterogêneos entre eles, no sentido de que se diferem, individualmente, do grupo ao qual pertencem. Pois, encontramos mães com escolaridade de nível superior e o fato de não terem, em sua maioria, cursado o pré-vestibular como condição niveladora e imprescindível para entrada na universidade; ou mesmo a circunstância de alguns terem cursado o ensino médio em escolas técnicas federais, o que pressupõe terem passado no concorrido vestibular dessas instituições, driblando, quem sabe, uma primeira barreira da seleção escolar, já problematizada por Bourdieu e Passeron (1975) como um aspecto da reprodução das desigualdades sociais presente nas instituições escolares e suas práticas educativas. Outro elemento diferenciador incide sobre o fato de esses alunos terem escapado da estrutura de funcionamento contraditória do nosso sistema educacional. Mencionada por Souza (1990/1991) e por Nogueira (2003) como “circuito vicioso”, essa estrutura contraditória, própria aos mais desafortunados, diz da existência de trajetórias escolares que passam pelo ensino fundamental e médio em escolas públicas, mas que acessam somente o ensino superior privado. No caso de nossos entrevistados, encontramos o chamado “circuito virtuoso”, que, atípico nas camadas populares, acontece quando se frequenta o ensino fundamental e médio em escolas públicas e, posteriormente, o ensino superior público.
Percebe-se, ainda, como traço heterogêneo a camada social a qual pertencem, a presença de famílias pouco numerosas, o fato de não trabalharem e estudarem, em sua maioria, simultaneamente, e de estarem, predominantemente, na faixa preconizada pelo Plano Nacional de Educação (PNE) de 2001, para entrada no ensino superior, qual seja, 18 a 24 anos.
No tópico seguinte, serão apresentadas as análises das entrevistas semiestruturadas, de modo a aprofundarmos as particularidades, observadas acima, das trajetórias escolares desses sujeitos investigados.