O têmenos, pelo espaço delimitado que compreende, cai dentro do simbolismo do mandala abordado por Jung. Existem imagens claramente mandálicas na poesia de São João da Cruz, as quais, através da explicação que ele dá de seus significados, permitem compreender a relação que possuem com a totalidade psíquica e com a proteção contra a dispersão e as influências maléficas. Duas destas imagens serão abordadas aqui, e uma terceira, por se inserir em um contexto específico, será abordada mais adiante.
Em uma das imagens poéticas, dizem os versos: "Caçai-nos as raposas, /Que está já toda em flor a nossa vinha; /Enquanto destas rosas /Faremos uma pinha; /E ninguém apareça na colina!"122. A alma pede aos anjos que cacem as raposas, ou seja, "os invejosos e maliciosos demônios", os "furiosos apetites da sensualidade" e as "vagueações da imaginação", para que não penetrem o espaço interior e íntimo da alma123. O símbolo mandálico refere-se à pinha, que é a reunião compactada de todas as virtudes da alma. A introversão do recolhimento místico, como se vê, produz a ativação do inconsciente coletivo e dos arquétipos, produzindo as rosas, ou virtudes, de que tratam os versos.
Dá o nome de pinha a esse conjunto de virtudes, por ser a pinha um fruto maciço que contém em si muitos pedaços compactos e fortemente ligados uns aos outros,
121 JUNG. Psicologia e Alquimia (OC 12), §104s.
122 SÃO JOÃO DA CRUZ. Cântico Espiritual, Canção XVI.
onde estão as sementes. De modo análogo, esta pinha de virtudes feita pela alma, para seu Amado, é um só todo, compreendendo a perfeição da mesma alma, a qual, forte e ordenadamente, abraça e contém em si muitas perfeições e virtudes fortes, além de riquíssimos dons. Na verdade, todas as perfeições e virtudes estão ordenadas e contidas na única e sólida perfeição da alma (...).124
Existe mais uma passagem semelhante, mas esta traz, na explicação, outros símbolos mandálicos de importância elevada para o esclarecimento de representações religiosas fundamentais. Diz a estrofe: "De flores e esmeraldas, /Pelas frescas manhãs bem escolhidas, /Faremos as grinaldas /Em teu amor floridas, /E num cabelo meu entretecidas"125. O mandala expresso na imagem é o mesmo da passagem anterior: trata-se da reunião de todas as virtudes, simbolizadas pelas flores que compõem a grinalda. No entanto, é acrescentada, na explicação do verso, a comparação com outra imagem mandálica:
Podemos também entender por estas formosas grinaldas, as que por outro nome se chamam auréolas, feitas igualmente em Cristo e na Igreja, e são de três qualidades: a primeira, de lindas e níveas flores, que são todas as almas virgens, cada uma com a sua auréola de virgindade, as quais, unidas juntamente, serão uma só auréola para coroar o Esposo Cristo; a segunda, de resplandecentes flores, formada pelos santos doutores, os quais todos unidos formam outra auréola para sobrepor à das virgens, na cabeça de Cristo; a terceira, de rubros cravos que são os mártires (…).126
Com isto, se manifesta que as auréolas dos santos são da mesma natureza do arquétipo expresso pelo mandala. Outro símbolo correspondente a essa série circular é o da flor por si mesma. No simbolismo da flor se encontra de maneira recorrente o tema do nascimento da divindade no centro desta flor, especialmente nas culturas orientais (embora Jung também se refira à evocação da Virgem Maria como "Rosa Mística"). Jung comenta, então, a respeito do sonho do seu estudo de caso (onde aparece a forma do quadrado, também um símbolo mandálico):
O quadrado corresponde ao temenos (...). O interior da "Flor de ouro"é um "lugar de germinação", e nele é concebido o "corpo diamantino". Seu sinônimo, "terra dos ancestrais", talvez indique que esta criação é o resultado de uma integração dos estágios ancestrais.
Nos ritos primitivos de renovação, os ancestrais representam um papel significativo. (...) A retroidentificação com os ancestrais humanos e animais significa, no plano psicológico, uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida, onde se é novamente peixe, isto é, inconsciente, como no sono, na embriaguez e na morte; (...).127
A reunião dos aspectos parciais da psique em torno do centro do Si-mesmo produz o "corpo diamantino", que é uma imagem da personalidade total. Jung chega à conclusão de que
124 SÃO JOÃO DA CRUZ. Cântico Espiritual, Canção XVI, 9. 125 SÃO JOÃO DA CRUZ. Cântico Espiritual, Canção XXX. 126 SÃO JOÃO DA CRUZ. Cântico Espiritual, Canção XXX, 7. 127 JUNG. Psicologia e Alquimia (OC 12), §170s.
esta é a meta última da alquimia, esta arte que expressa em termos simbólicos o processo de individuação da psique:
Ela [a alquimia] procurava produzir um "corpus subtile", o corpo transfigurado da ressurreição, isto é, um corpo que fosse simultaneamente espírito. Através desta tendência ela encontrou-se com a alquimia chinesa, tal como a conhecemos no texto do Segredo da flor de ouro. Nesta obra trata-se do "corpo diamantino", isto é, da imortalidade que se alcança através da transformação do corpo. O diamante, por sua transparência, fogo e dureza, é um símbolo adequado.128
Assim, o têmenos e a circumambulatio visam a uma concentração total no ponto psíquico certo a fim de produzir esse "corpo diamantino", tal como o diamante mesmo é produzido mediante elevada pressão sobre um ponto do grafite. Não se deve desprezar este paralelo natural, por mais que a apressada atitude dita científica tenda a rechaçar qualquer forma de intuição neste sentido. Além do mais, o próprio Jung está atento aos paralelos da psique com as leis naturais, mesmo as que só se tornaram conscientes para o ser humano recentemente. Ele se refere ao simbolismo do número quatro, que expressa a totalidade, e nota sua relação com a química do carbono:
Não posso silenciar a seguinte observação: o fato de o principal elemento químico constitutivo do organismo físico ser o carbono – caracterizado por quatro valências
– é sem dúvida um "lusus naturae" (um jogo da natureza) bastante estranho; além
disso, o "diamante" também é um cristal de carbono, como se sabe. O carbono é preto (carvão, grafito), mas o diamante é a "água mais límpida". Sugerir tal analogia seria um lamentável exemplo de mau gosto intelectual, se o fenômeno do quatro representasse uma mera invenção da consciência e não um produto espontâneo da psique objetiva.129
Jung refere, como se vê, a validade da analogia em função do fato de estar pautada na psique objetiva (o inconsciente coletivo). Isto mostra que a ideia de uma física a priori deve ser construída não apenas sobre a razão pura, mas também a partir de intuições arquetípicas do inconsciente. Os símbolos psíquicos que o inconsciente projeta a fim de torná-los conscientes são correspondentes aos fenômenos materiais físicos 130 , em função da proveniência da consciência humana a partir da sensibilidade. A abstração, se é capaz de retirar a essência do fenômeno material, e se essa essência exprime efetivamente o seu ser, é capaz então de compreender o funcionamento físico da matéria. E se a evolução é o processo de transformação da matéria em direção ao espírito, é nessa intuição dos processos materiais que o psiquismo extrai os símbolos que moverão seu ser para a autotranscendência. Neste sentido, a alquimia foi uma tentativa muito relevante do ponto de vista evolutivo, e felizmente
128 JUNG. Psicologia e Alquimia (OC 12), §511. 129 JUNG. Psicologia e Alquimia (OC 12), §327.
suas ideias foram trazidas novamente à tona por Jung. Nesses símbolos que a alquimia produziu a respeito da matéria se encontra uma resposta, ainda que preparatória, ao desejo de Rahner de "poder mostrar de maneira mais concreta quais as estruturas comuns que existem no devir da realidade material, da realidade viva e da realidade espiritual"131.
Tendo-se retornado, neste momento, à questão da abstração, convém explorar mais detalhadamente ainda seu processo. A abstração, segundo o que está sendo discutido, se mostra como uma atividade vital do organismo material, na qual a busca pela totalidade e unidade se manifesta. Trata-se de uma operação, portanto, na qual se unem dinamicamente o material (sensível) e o espiritual.