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2.2. AHLAKIN KAYNAĞI

2.2.2. AHLAK-DĠN

O texto, resultado das (co)relações entre contexto e contexto, comunica uma informação que gerará um sentido para o leitor/ouvinte/receptor. O sentido trata da significação dentro de um contexto linguístico (cotexto) em função da intenção do enunciador em sua comunicação (CÂMARA JÚNIOR, 1970, p. 348). Em outras palavras, pode-se dizer que o texto deve trazer em si elementos que possibilitem ao leitor/ouvinte/receptor produzir a significação da mensagem transmitida, o sentido. Contudo, o sentido não reside apenas no texto, mas constrói-se em parceria com aquele que ouve ou lê o texto. Isto é, a produção do sentido extrapola os limites dos texto.

Considerando-se essa questão, é mais adequado dizer-se da produção

de um sentido e não do sentido, uma vez que, por envolver o sistema de

conhecimentos do outro, um texto pode produzir mais de um sentido, além daquele esperado ou almejado pelo enunciador (KOCH; ELIAS, 2012, p. 19). A figura a seguir ilustra tal ideia:

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Figura 7 – Esquema de produção de sentido por dois ouvintes

Fonte: elaboração própria.

Diante de um contexto situacional, comum aos ouvintes A e B – em um mesmo escritório, A e B estão em mesas dispostas em frente à mesa de X – ouvem o colega produzir o texto “É fogo! Esse computador ainda vai me matar!”. O ouvinte A, com base em seu sistema de conhecimento, bem como suas vivências, decodificou o sentido literal do texto de X, ou seja, entendeu que o computador dele estava pegando fogo e que o incêndio poderia matá-lo.

Já o ouvinte B, por sua vez, também com base em seu sistema de conhecimento e suas vivências, decodificou o sentido abstrato do texto de X. Assim, compreendeu que se tratava de um desabafo por parte de X que, considerando o ambiente coorporativo, optou por uma exclamação que não fosse uma palavra de baixo calão e emendou-a a uma hipérbole de modo que ficasse evidente sua insatisfação com a perda do trabalho realizado por “culpa” da falha da máquina.

Conforme argumentam Koch e Elias (2012, p. 21), “a leitura e a produção de sentido são atividades orientadas por nossa bagagem sociocognitiva: conhecimento da língua e das coisas do mundo (lugares sociais, crenças, valores, vivências)”. No caso do exemplo, o enunciador X não se dirigia especificamente a nenhum dos dois ouvintes, por isso, não se preocupou em produzir seu texto de

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modo tal a considerar não deixar margem à produção de sentidos que não aquele que seria o correto.

As questões de sentido podem variar conforme a modalidade do texto – falado ou escrito –, bem como seu caráter e objetivo. Cervoni (1989, p. 19) assevera que o sentido do texto é determinado “essencialmente pelo contexto situacional”, além disso, “os aspectos da significação e do sentido são, portanto, múltiplos” e constrói-se na situação e para a situação. Assim, um texto jornalístico que tem como finalidade a informação, deve preocupar-se com o máximo de clareza e precisão, visando a minimizar sobremaneira a possibilidade de produção de sentidos que não o da notícia9. Por outro lado, uma piada encontra no desvio do sentido óbvio a fonte de sua graça. Assim como a poesia, que comumente se vale de metáforas para expressar ideias, deixando ao leitor a produção do sentido conforme a bagagem de cada um.

Cumpre observar que no caso de textos orais, a compreensão do sentido pode ser verificada em tempo real. Assim, retomando o exemplo ilustrado na Figura 7, o ouvinte A poderia verificar junto a X se o sentido por ele produzido corresponde ao pretendido por X antes de correr para pegar o extintor de incêndio ou mesmo de espalhar a espuma química desse equipamento de segurança por toda a mesa de seu colega.

Por outro lado, X, percebendo a falta de reação de B, em sendo um incêndio, de fato, poderia reforçar a informação e pedir ajuda de maneira mais clara “Alguém me ajuda! Meu computador está pegando fogo!” ou “Alguém sabe como recuperar arquivo perdido? Meu computador apagou meu trabalho!”. Por outro lado, os textos escritos, em virtude da distância entre escritor e leitor, ficam mais vulneráveis à produção de sentidos que não o pretendido pelo escritor. Eis o porquê da necessidade da verificação da clareza do conteúdo exposto.

O sentido, por mais que o texto possa cercar-se de cuidados para produzir aquele pretendido, ainda assim depende do ouvinte ou do leitor, do que ele compreenderá, dos sistemas de conhecimento que ele acionará para constituir o

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Frequentemente as manchetes jornalísticas valem-se da multiplicidade de sentidos para chamar a atenção do leitor para a notícia. Ver Nóbrega (2008).

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sentido. Vale acrescentar que, de maneira diferente atua a coesão textual, que está

no texto.

A coerência textual integra o conjunto de fatores que contribuem para uma comunicação efetiva e eficaz. Pode ser sintática (relacionada à estrutura linguística, a ordem dos elementos, à seleção lexical), semântica (relacionada ao sentido entre as estruturas), temática (relacionada à conexão do ou dos temas abordados), pragmática (relacionada à sequência dos atos de fala e sua sequência de realização), estilística (relacionada à variedade linguística adotada) e genérica (relacionada à adequação na escolha do gênero do discursivo para realização do texto). Koch e Travaglia (1989, p. 53-54) afirmam:

[...] é a coerência que faz com que uma sequência linguística qualquer seja vista como um texto, porque é a coerência, através de vários fatores, que permite estabelecer relações (sintático- gramaticais, semânticas, pragmáticas) entre os elementos da sequência (morfemas, palavras, expressões, frases, parágrafos, capítulos etc.), permitindo construí-la e percebê-la, na recepção, como construindo uma unidade significativa global. Portanto, é a coerência que dá textura ou textualidade à sequência linguística, entendendo textura ou textualidade aquilo que converte uma sequência linguística em texto. Assim sendo, podemos dizer que coerência dá origem à textualidade [...]

A obtenção da coerência irá depender não apenas do texto em si, mas do receptor a que se destina aquele texto. Considere-se o seguinte texto extraído de um e-mail pessoal trocado entre duas amigas: “Também saí andando, nem quis ver no que ia dar. Comprei o sapato que tinha te falado, viu?! Me sentindo péssima”.

A princípio, o excerto acima parece um agrupado de frases que não faz o menor sentido. Contudo, considere-se que, para o receptor, a mensagem foi perfeitamente compreendida. Isso foi possível porque aquele que recebeu a mensagem partilhava do mesmo conjunto de informações necessárias para a mensagem emitida fosse recebida e entendida. Ainda que aparentemente incoerente, o texto do exemplo é coerente àquele que o produz, considerando quem o irá recebê-lo. Koch e Travaglia (1989, p. 55), resumindo Charolles, mencionam que “[...] é sempre possível pensar (ao menos em abstrato) uma situação na qual elas [as frases] são interpretáveis como exprimindo uma relação plausível entre o conteúdo dos enunciados”. Assim, frases que, em teoria, não apresentam sentido

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para um terceiro, externo a um diálogo, pode ter todo sentido para aqueles que participam da conversa. O exemplo a seguir ilustra esse raciocínio:

Figura 8 – Quadro de diálogo entre dois indivíduos e ouvido por um terceiro.

Fonte: elaboração própria.

Antes de analisar, explique-se que se trata do diálogo, entre dois indivíduos A e B. O terceiro indivíduo, C, não participa do diálogo entre A e B, chega ao local em determinado ponto da conversa e apenas escuta o trecho contido no retângulo tracejado. As setas indicam o diálogo. Por fim, 1p. refere-se à pergunta cuja resposta é 1r.; logo, 2p. é a segunda pergunta e 2r., sua respectiva resposta.

Entre A e B, tendo em vista as trocas de perguntas e respostas, a conversa foi claramente entendida, embora se tratasse de dois tópicos completamente diversos: uma invasão de ratos e uma receita de bolo.

O indivíduo C, ao ouvir “Matei! Não, melhor dizendo, mandei matar. Contratei um profissional e mandei dar fim na invasão. Cento e oitenta graus. Fica ótimo”, considerando as constantes notícias sobre ocupações de terra e terrenos, poderia pensar que B, por seus motivos, resolveu tomar medidas drásticas para preservar seu patrimônio e mandou exterminar o grupo “invasor”. Quanto aos “Cento e oitenta graus”, duas interpretações seriam possíveis: C poderia concluir que os (i) “invasores” foram carbonizados ou (ii) que a medida tomada promoveu uma

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mudança radical – de cento e oitenta graus – na vida de B. Já o “Fica ótimo” serviria para qualificar tanto um quanto o outro cenário.

Diante disso, algumas inferências são possíveis. A primeira delas refere- se à possibilidade de haver uma conversa coerente, ainda que haja uma mudança ou sobreposição de tópicos, desde que aqueles que participam da conversa tenham conhecimento daquilo que cada tópico trata. A segunda é que um indivíduo que não participa da conversa e que capture apenas um trecho dessa, como é o caso de C, pode compreender aquilo que está sendo enunciado, ainda que sua interpretação, por carecer de informações anteriores (ou posteriores), não corresponda ao sentido real do enunciado completo. Nesse sentido, Koch e Travaglia (1989, p.60-61) acrescentam:

[...] o produtor do texto, em função de sua intenção comunicativa, levando em conta todos os fatores de situação e usando seu conhecimento linguístico, de mundo etc., constrói o texto, cuja superfície linguística é construída de pistas que permitem ao receptor calcular o (um) sentido do texto, estabelecendo sua coerência, através de considerações dos mesmos fatores que o produtor e usando os mesmos recursos (conhecimento linguístico, de mundo etc.).

Atente-se que o texto, para que haja sentido àquele a quem se destina, deve contar não apenas com os conhecimentos de quem o produz, mas deve trazer em si o que os autores citados chamam de “pistas” na superfície linguística para que seja compreendido. O texto, assim, é uma via de mão dupla sobre a qual transitam os conhecimentos de produtor e receptor de modo que, em havendo compartilhamento desses, é possível estabelecer comunicação por intermédio da compreensão de sentido(s).

Na mesma direção, Kato (2001, p. 97) destaca o seguinte:

a meta principal e inconsciente do leitor e do redator é conseguir que o texto faça sentido. [...] A escritura é bem-sucedida se o redator consegue traduzir suas intenções ilocucinárias, proposicionais e perlocucionárias de forma que o leitor possa recuperá-las sem dificuldade.

A autora, no excerto acima, refere-se aos termos “ilocucionárias” e “perlocucionárias”. Destarte, antes de seguir adiante, é preciso preliminarmente para essas noções na chamada Teoria dos Atos de Fala, advinda da Filosofia da Linguagem e, posteriormente, apreendida pela Pragmática. Tal teoria considera que

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“todo dizer é um fazer” e, por isso, volta-se à investigação das ações humanas e, por conseguinte, às ações que se realizam por intermédio da linguagem. Daí ser uma teoria dos “atos de fala”.

Muito há o que se dizer acerca dos estudos desenvolvidos pioneiramente por John Langshaw Austin, entretanto, tendo em vista o foco desta pesquisa, por ora, interessa tão somente uma breve abordagem acerca dos principais pontos da referida teoria.

Austin (1962) identifica e organiza três Atos de Fala10 que ocorrem simultaneamente em todo enunciado, a saber:

(i) locucionário – que consiste na transmissão da informação da sentença por meio da enunciação de cada elemento linguístico nela contida. Por exemplo: “Hoje não choverá”;

(ii) ilocucionário – que, por sua vez, é a força que o enunciado produz, ou seja, é o ato que se realiza na mensagem. Por exemplo: “Pegue um guarda-chuva porque hoje vai chover”; e

(iii) perlocucionário – que é o ato realizado não na, mas pela linguagem. Por exemplo: “Eu os declaro marido e mulher”.

Apresentada a breve explicação, retome-se o excerto de Kato, supracitado, no qual a autora declara que um texto, no caso escrito, somente alcançará seu objetivo se o escritor for capaz de expressar seu propósito e pensamento na e pela mensagem, desde que esses possam ser captados, retomados e compreendidos pelo leitor. Acrescente-se que tal ideia pode, perfeitamente, ser estendida aos enunciados orais, uma vez que a compreensão é, sem dúvida, o objetivo de qualquer comunicação. Desse modo, o texto, seja ele falado ou escrito, alcança seu objetivo como unidade linguística quando se faz compreender por seu(s) interlocutor(es).

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Vale aqui o registro de que Cervoni (1989, p. 90-95) acrescenta a esses atos também os “enunciados perfomativos”, “atos de fala indiretos e máximas conversacionais” e ainda propõe algumas questões. Todas tratam das sutilezas dos mecanismos interpretativos envolvidos na comunicação banal.

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Ainda que não seja o foco desta pesquisa, é importante lembrar que os elementos não verbais atuam, por vezes, de maneira determinante, na construção do texto. Nesse sentido, os textos orais podem ser constituídos não apenas pelos elementos verbais do enunciado, mas também por todos aqueles elementos não verbais que circundam a enunciação. Assim como os textos escritos podem ter seu sentido complementado por uma figura. É o que acontece, por exemplo, nas histórias em quadrinhos e nas tiras cômicas. Acerca disso, Ramos (2007), em sua tese, dentre outros aspectos correlatos, trata das questões da imagem como um dos elementos utilizados no processo de construção do sentido.

Acerca da coesão e coerência, Koch e Travaglia (1989, p. 68-69) pontuam:

[...] os estudos da coerência e coesão nos textos orais têm demonstrado que nestes, em comparação com os textos escritos, os usuários utilizam recursos diferenciados na superfície linguística, de modo que sua coerência tem de se estabelecer e ser julgada por mecanismos e critérios diversos dos utilizados para o texto escrito, sob pena de incorrer em falhas de julgamento.

Isso porque fala e escrita são produzidas em condições diferentes. Se por um lado, a coesão na escrita, como mencionado, está no texto e, para isso, o escritor deve cercar-se de cuidados na elaboração de seu texto de maneira que o resultado seja coeso e para que o leitor possa compreendê-lo. Na fala, por outro lado, a coesão pode ou não estar presente, contudo, a presença de falante e ouvinte no momento da produção do texto permite que se desfaçam, em tempo real, quaisquer pontos que não tenham ficado claros e que prejudicariam o entendimento do texto produzido.

Se já se sabe o que é o texto, é possível passar a discorrer mais objetivamente acerca de sua produção e dados que devem ser observados a fim de que o conteúdo produzido seja efetivamente compreendido pelo receptor. A subseção a seguir tratará de alguns aspectos concernentes ao planejamento do texto.

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Benzer Belgeler