BÖLÜM 2: EBÛ BEKİR B. ABDURRAHMAN’IN HADİS İLMİNDEKİ
2.1. HADİSÇİLİĞİ
2.1.1. HOCALARI
2.1.1.1. Kütüb-i Tis’a’daki Rivayetlerde Adı Geçen Hocaları
2.1.1.1.12. Mervân b. el-Hakem
Cunha e Menezes era filho de família de reconhecido prestígio na Bahia e em Portugal. Sua mãe era de família abastada e de boa linhagem e seu pai, membro da nobreza portuguesa, terceiro Conde de Lumiares, que ocupou o cargo de Governador e capitão general da Capitania da Bahia. Herdara grande fortuna de seu tutor e padrinho, o Mestre de Campo Fortunato José Rodrigues Pinheiro, o que o levara a abdicar da herança paterna em favor de seu irmão José Manuel da Cunha e Menezes Faro Portugal da Gama Souza e Silveira.
Quando da passagem da Família Real portuguesa em 1808, pela Bahia, foi Cunha e Menezes quem a hospedou, demonstrando o seu prestígio e condição de abastado, o que depois lhe permitiu autorização para criar, às suas custas, uma companhia de cavalaria de linha, ficando sob seu comando por oito anos.
A administração de seus bens o desviou de freqüentar a Universidade de Coimbra, mas isto não o distanciou de uma formação ilustrada, o que lhe garantia, também, reconhecimento por seu saber e inteligência, possibilitando-lhe assumir vários cargos na Província. Ele foi membro da Junta Provisória do Governo da Bahia em 1821, vereador157 em 1823, Provedor da Santa Casa de Misericórdia entre 1827-28, membro do Conselho Geral de Província a partir de 1828, Senador do Império a partir de 1827, apesar de ficar mais tempo na província do que na Corte. Posteriormente, no governo regencial, seria Comandante da Guarda Nacional na cidade de Salvador.
Seu prestígio também está referendado na política de distribuição de títulos nobiliárquicos do Imperador. Em outubro de 1830, foi agraciado com o título de Visconde do Rio Vermelho, área de Salvador onde tinha vasta propriedade.
O governo de Cunha e Menezes foi, sem dúvida, marcado pelo conflito na bacia platina. Segundo Lucas Junqueira (2005, p.48), “a província fora uma das províncias que
157 Sobre a importância das Câmaras no período colonial, nos diz Avanete Pereira Sousa que ela “projetava-se
como um dos principais pilares em que se estruturava o poder político da Coroa na cidade. Seus membros pertenciam a grupos familiares fechados e tradicionais, selecionados a partir de suas origens nobiliárquicas, posições na estratificação social, decorrentes, na maioria das vezes, da riqueza e linhagem familiar, conforme critérios constantes das sucessivas regulamentações régias, como também dos estabelecidos pelo próprio núcleo dirigente local. Esses grupos, formado de pessoas identificadas como principais da terra, monopolizavam as instituições políticas locais, conformando uma elite camarária que, rotativamente, ocupava o conjunto dos cargos públicos municipais, criando barreiras ao acesso de outros segmentos sociais ao poder decisório sobre a coisa pública”. Cf. Sousa (2005, p.316-317). Por causa desses critérios, é que Cunha e Menezes figurava entre os principais da província.
mais contribuíram com tropas para o conflito na Cisplatina”, apesar das dificuldades de garantir o número de voluntários necessários.
Passado o entusiasmo inicial da presença do Imperador na Bahia, o número de voluntários reduziu-se muito, obrigando as autoridades provinciais a lançarem mão do recrutamento forçado, motivo de sérias tensões158. Não era incomum o pedido de dispensa do serviço militar, desde que alguém pudesse assumir o lugar do pleiteante:
Manda Sua Majestade Imperial pela Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra participar ao Vice-presidente da província da Bahia, que conformando-se com a sua informação de 17 de janeiro corrente sobre o requerimento de João Gualberto Nunes dos Reis e João Nunes dos Reis os quais pedem isenção do Serviço Militar, oferecendo dois homens para assentar praça na 1ª Linha. Há por bem conceder a graça pedida uma vez que se verifique o oferecimento, e que sejam os homens oferecidos aptos para o serviço e que não estejam sujeitos ao recrutamento159.
O recrutamento atingia, principalmente, as camadas menos favorecidas da população, ao tempo em que também funcionava como uma espécie de controle social. “Tratava-se de expurgar da sociedade civil elementos tidos como perigosos à ordem pública, submetendo-os à disciplina militar escravista e aos rigores da vida nos quartéis” (JUNQUEIRA, 2005, p. 12).160 Foram justamente estas condições que alimentaram a participação assídua dos militares nos movimentos da população livre baiana durante o Primeiro Reinado. Segundo Reis (2003, p. 53), “a caserna representava uma instituição insatisfeita internamente e permeável às influências do clima de descontentamento social generalizado”.
Além do envio de tropas, uma outra contribuição da Bahia para a da Cisplatina diz respeito ao papel desempenhado pelo Arsenal da Marinha, de onde saíram novos vasos de guerra, e onde também eram feitos os reparos, suprimentos e armação das embarcações da Armada Imperial, no decorrer do conflito. No entanto, se a contribuição material do Arsenal aconteceu sem grandes empecilhos, apesar das despesas, o mesmo não se pode dizer com relação à oferta de marujos. O número de voluntários era ainda menor do que no Exército e o caráter correcional do recrutamento na Marinha era ainda mais radicalizado:
158Os principais motivos de ordem prática para a falta de voluntários no pós-independência estão relacionados
com o longo tempo de serviço, as dificuldades de promoção na carreira para os que eram incorporados como praça de soldado, os baixos soldos e constantes atrasos de pagamento, o desamparo das famílias devido aos deslocamentos para as várias partes do Império e a difícil vida nos quartéis, o que contribuía para o desprestígio da carreira militar tanto entre os mais nobres quanto a camada popular. Cf. Junqueira (2005, p.70-86).
159 APEB. Seção Colonial e Provincial. Avisos Ministeriais-1827, maço 757, doc.65 p. 69.
160O autor discute, no capítulo 2 de sua dissertação, o regulamento sobre o recrutamento e o seu descumprimento
a partir da forma como ele acontecia, das arbitrariedades cometidas pelos responsáveis, das resistências e do perfil dos recrutados.
“Se recrutar para o Exército era tido como meio de expurgar da sociedade civil elementos “marginais”, de “vagabundos” a “criminosos”, pondo-os em reclusão nos quartéis, o recrutamento na Marinha tinha a função expressa de depurar as fileiras deste mesmo Exército, livrando-os daqueles ditos “incorrigíveis”. Era duplo o objetivo das autoridade, subtrair do convívio social tais elementos, pondo-os no mar, tendo a útil conseqüência de preencher as lacunas das tripulações dos vasos
imperiais” (JUNQUEIRA, 2005, p.121).
Diante dessa situação, ficava cada vez mais difícil garantir o recrutamento de marinheiros como se pode constatar a partir do Aviso encaminhado ao vice-presidente da Bahia, noticiando sobre oficio encaminhado pelo Intendente da Marinha, “ponderando sobre os embaraços que ocorrem e se opõem ao bom recrutamento de Marinhagem, a que tinha mandado ali proceder”.161
O envio dos corpos militares da província começara antes mesmo da declaração de guerra. Entendendo o movimento dos orientais, inicialmente, como uma revolta provincial, o Governo do Rio de Janeiro iniciou suas providências com o envio de tropas. Da Bahia, foram embarcados o 7º Corpo de Artilharia e o esquadrão de Água de Meninos, entre setembro e novembro, respectivamente, e efetivadas mudanças nos postos de comando.
A troca no Comando das Armas da Bahia indica a preocupação dos presidentes de província e a sua importância, ainda mais em momentos delicados como os de conflitos internos ou externos. Em setembro de 1825, ainda no governo de Maciel da Costa, fora nomeado, para Governador das Armas, José Manoel de Almeida, em substituição a José Egídio Gordilho de Barbuda162, que fora designado para assumir a presidência da Província
do Rio Grande de São Pedro. Mudança importante para o governo de D. Pedro I, pois Gordilho de Barbuda, além de representar uma pessoa de sua estrita confiança, tinha como militar vasta experiência no campo de combate e na repressão de revoltas, haja vista sua atuação na Bahia, após a revolta dos Periquitos.
A guerra também motivou a necessidade de se conhecer o real efetivo das Forças Militares do Brasil. Para isso, foi
“ordenado por circular a todos os governadores e comandantes de armas da Província do Império, que por todo o mês de março do ano futuro remetam à Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, e assim em regra para todos os anos, que se seguirem, um mapa anual das Forças Militares e de todos os mais objetos de guerra pertencentes a cada uma das Províncias. 163
161 APEB. Seção Colonial e Provincial. Avisos Ministeriais-1827, maço 757, doc.227, p. 234. 162 APEB. Seção Colonial e Provincial. Avisos Ministeriais-1825, maço 755, p. 177.
Como tal medida implicava na colaboração entre as principais autoridades das províncias, na mesma circular, alertava-se para que “os Presidentes ou vice-presidentes das Províncias se prestem a qualquer requisição do respectivo comandante das Armas, sobre esclarecimentos dos artigos de despesas militares, armazéns e depósitos”.164
Sabia o Imperador que a relação entre essas autoridades não era das melhores, haja vista a resolução de 1825, que fixara a autoridade entre os Presidentes de Províncias e os Governadores das Armas165, mencionada no capítulo anterior, e que, mesmo assim, não
resolvera os problemas, ao menos na Bahia, comunicado que foi dos desentendimentos entre o Comandante das Armas e o vice-presidente, em janeiro de 1827:
Foi presente a sua Majestade o Imperador o oficio nº 09, de 20 do corrente, em que o vice-presidente da Província da Bahia se queixa de que o Comandante das Armas da mesma província, longe de cooperar para a boa harmonia e inteligência que deve existir entre as respectivas jurisdições. E manda o mesmo Augusto Senhor pela Secretaria de Estado dos Negócios do Império participar ao referido Vice- presidente que ficou inteirado de tão desagradáveis contestações, sempre perniciosas ao sossego geral, cuja conservação lhe é a primeira necessidade para a prosperidade da Província. Palácio do Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1827.166
Em agosto, o Governo Central acusou recebimento dos ofícios encaminhados em julho, pelo vice-presidente Cunha e Menezes, comunicando desentendimentos entre os médicos do Hospital Militar, os doutores Antonio Policarpo Cabral e Francisco de Paula d’Araujo e Almeida com o comandante José Manoel de Almeida.167 Infelizmente, não foram encontrados na Bahia os ofícios encaminhados, o que nos permitiria conhecimento dos motivos de tal desentendimento, mas “as precisas providencias dadas pela Repartição dos Negócios da Guerra” foi a nomeação, no mesmo mês, de José de Sá de Bitencourt Câmara, Coronel do Estado Maior do Exército, para Comandante das Armas, em substituição a José Manoel de Almeida.168
Ao que parece, o Imperador entendia que, em tempos de guerra e de várias insatisfações com o recrutamento, não era interessante que desentendimentos entre autoridades pudessem comprometer, ainda mais, a delicada manutenção da ordem, quando a província da Bahia também se encontrava desfalcada de suas forças de segurança, encaminhada para o Sul do Brasil.
164 Idem.
165 Paula Fernandes também registra os desentendimentos entre essas autoridades em várias províncias de Brasil,
com destaque para as divergências entre o Presidente da província de Goiás, Caetano Lopes da Gama e o Comandante das Armas, Raimundo Cunha Matos. Cf. Fernandes (2000, P. 224-226).
166 APEB. Seção Colonial e Provincial. Avisos Ministeriais-1827, maço 757, doc.07, p. 07. 167 APEB. Seção Colonial e Provincial. Avisos Ministeriais-1826, maço 757, doc. 35, p. 40. 168 APEB. Seção Colonial e Provincial. Avisos Ministeriais-1826, maço 757, doc. 100, p. 105.
Situação semelhante também aconteceu na província de São Pedro do Rio Grande, e os desentendimentos entre o presidente e o comandante das Armas Francisco de Paula Rosado trouxeram de volta à Bahia José Egidio de Barbuda, agora na condição de presidente da província.