2.4. Adsorpsiyon
2.4.5. Adsorpsiyon İzotermleri
A Vila Carioca é um bairro da cidade de São Paulo que integra o distrito do Ipiranga (PONCIANO, 2001, p. 100). A história do Ipiranga é marcada por sua posição geográfica de caminho do mar, trecho obrigatório nos deslocamentos rumo à baixada santista. A despeito de haver registro de ocupação na região desde o início da colonização da cidade (PONCIANO, 2001, p. 98), sua integração mais efetiva à malha urbana foi impulsionada pela construção da São Paulo Railway, posteriormente denominada Estada de Ferro Santos-Jundiaí (EFSJ), aberta ao tráfego em 1867. A facilidade de transporte trazida pela ferrovia também explica a ocupação industrial no Ipiranga, que remonta aos primeiros anos do século XX (VALENTIM, 2007, p. 109).
À época, ocorria o processo que Rolnik (1997, p. 28) denomina de segunda fundação da capital paulista, a passagem de burgo acanhado à metrópole do café. Notadamente em virtude da imigração estrangeira, a população da cidade passa de 47.697 habitantes em 1886 para 130.775 habitantes em 1893.
Na esfera territorial, essa explosão vem acompanhada de segregação urbana. Se na São Paulo escravocrata residências senhoriais compartilhavam o espaço com casas populares, comércio, mercados e oficinas, com a presença de escravos como constante e a rua como principal espaço de socialização, perto da virada do século passa a ocorrer esforço de redefinição progressiva do espaço, pela edição de normas direcionadas a garantir fluidez do trânsito nas ruas e regular a construção de cortiços e casas de operários, incluindo sua vedação em determinadas áreas, entre outras medidas de urbanismo sanitarista que também procuravam assegurar tom de respeitabilidade burguesa ao espaço urbano (ROLNIK, 1997, p. 34-37).
A segregação urbana tem como elemento importante os diferentes padrões de parcelamento, uso e ocupação que se configuram historicamente em cada região da cidade. Com o tempo, a geografia social da cidade de São Paulo, reforçada por posturas e outras normas municipais, divide-se em territórios da riqueza e da pobreza. Em esquema que se repete em muitas outras realidades urbanas no nosso país e no plano internacional, aos pobres foi destinada sobretudo a periferia. Nas palavras de Rolnik (1997, p. 48), traçou-se uma linha imaginária, colocando-se “[...] para dentro, o comércio, as fábricas não incômodas e a moradia da elite; para fora, a habitação popular e tudo que cheira mal, polui e contamina (matadouro, fábricas químicas, asilo de loucos, hospitais de isolamento etc.)”.
A mesma autora traz comentário de interesse que apresenta relação direta com a ocupação às margens da EFSJ:
Nas várzeas do Tamanduateí e Tietê, junto às estações ferroviárias, ao longo das estradas de ferro, desenvolveu-se, em face do baixo preço dos terrenos e da facilidade do transporte dos produtos, o parque industrial paulistano, constituído principalmente por empresas de porte médio e pequenas oficinas, fabriquetas e ateliês, muitos deles de caráter doméstico. Assim Brás, Bom Retiro, Mooca, Água Branca, Lapa, Ipiranga foram loteados e cresceram rapidamente, marcados por uma paisagem de fabriquetas, casebres, vilas e cortiços. Por volta de 1901, concentravam-se nesses núcleos as indústrias mais expressivas, coexistindo ao lado de um incalculável número de tendas de sapatarias, marcenarias, fábricas de macarrão, graxas, óleos, tintas, fundições, tinturarias, fábricas de calçados, roupas, chapéus, além de ateliês domésticos que produziam alimentos, bebidas e produtos químicos como sabão e velas. (ROLNIK, 1997, p. 78).
Conformaram-se nessas regiões industriais bairros de trabalhadores formais e informais, com grande número de imigrantes e especificidades que colidiam com a orientação das recentes normas de uso e ocupação então em voga. A rua e o espaço doméstico constituíam também lugar de produção. Parte considerável desses “subúrbios” populares foi edificada sem a observância das normas de cunho urbanístico (ROLNIK, 1997, p. 123).
Mais importante do ponto de vista da pesquisa aqui exposta, é nesses bairros que primeiramente são explicitados problemas relacionados ao desconforto advindo das chaminés, ao barulho do tráfego e do maquinário pesado, ao mau cheiro de corpos d´água poluídos e a terrenos contaminados por rejeitos da produção (VALENTIM, 2007, p. 20).
No que toca especificamente ao Ipiranga, se na primeira década do século XX, apesar da tendência à industrialização, ainda não se configurava assentamento significativo de moradores, esse quadro passa a sofrer rápida alteração, com os operários sendo atraídos tanto pela vizinhança das fábricas quanto pelo baixo preço dos terrenos. Diferentemente de bairros como Brás, Bom Retiro e Mooca que não tinham potencial para expansão em sua ocupação, o Ipiranga continuará a despertar o interesse do setor industrial nas décadas seguintes. A inauguração da rodovia Anchieta em 1947 reforçou ainda mais essa vocação.
Cabe registrar que, nos primeiros anos do século XX, ocorreram tentativas, respaldadas pelo poder público, de valorização da área próxima ao Museu do Ipiranga para fins residenciais da aristocracia. Essa ocupação, contudo, não se conseguiu firmar, provavelmente em razão da distância da região de concentração da elite paulistana. (VILLAÇA, 1998, p. 197).
Entre 1920 e 1940, a região compreendida pelos distritos do Ipiranga, Vila Mariana- Saúde e Vila Prudente aumenta sua população de 34.676 para 189.654 habitantes, em taxa de crescimento que superou todas as demais regiões do município. Essas áreas eram então consideradas como periferia na capital. (VALENTIM, 2007, p. 111).
No processo de ocupação do Ipiranga também esteve presente o modelo segregador. As famílias mais abastadas instalaram-se preferencialmente nas áreas mais altas, expulsando os mais carentes para locais próximos que irão consolidar as futuras vilas Independência, Dom Pedro, Carioca e outras que circundam o Ipiranga (BARRO; BACELLI, [s.d.], apud VALENTIM, 2007, p. 111). Ponciano (2001, p. 100) traz preocupação explícita com os excluídos que residem nos pequenos bairros, vilas e favelas que integram o distrito do Ipiranga ao lado das áreas mais tradicionais.
Apesar da intensificação da ocupação de seus arredores, especificamente na Vila Carioca o quadro urbano estava longe de se consolidar no início da década de 40. Ainda havia no bairro muitos terrenos vazios propícios à ocupação industrial. É nessa década que a empresa Shell do Brasil instala-se na confluência do ribeirão
dos Meninos com o rio Tamaduateí, em gleba naturalmente sujeita a enchentes, objetivando estocar e distribuir por via férrea derivados de petróleo, provenientes do porto de Santos. A partir de 1958, uma parte da área ocupada pela empresa foi destinada à produção de agrotóxicos organoclorados. (VALENTIM, 2007, p. 116).
Na década de 50, ganha destaque a implantação de fábricas e galpões relacionados ao setor automobilístico, como a Vemag, Toyota e outras. Os ramos fabris implantados na área, contudo, são bastante diversificados, englobando produção têxtil, plásticos, siderurgia e metalurgia, alimentos etc. (VALENTIM, 2007, p. 116 e 117).
Figura 01 – Entrada principal da Vemag na Vila Carioca [1956?].
Fonte: maxicar.com.br. Acesso em: 06 jan. 2010.
Figura 02 – Vista aérea da Vemag na Vila Carioca [1956?].
Figura 03 – Primeiro galpão da Toyota no Ipiranga (1958).
Fonte: blog estadao.com.br. Acesso em: 06 jan. 2010.
Até a década de 70, a região do Ipiranga ainda era considerada vantajosa para a destinação industrial, contando à época com cerca de quatro mil fábricas. Na Vila Carioca, estavam instaladas mais de quinhentas indústrias. Data de 1972 a instalação na Vila Carioca, em área de 220.000 m2, da base de distribuição de combustíveis da Petrobrás. Toda a conformação da região e especialmente a da Vila Carioca apresenta vínculo com esse histórico industrial. (VALENTIM, 2007, p. 117).
A partir de então, a região passa a perder indústrias para outras regiões e, principalmente, para outras cidades na área metropolitana e no estado. Cabe lembrar que, se já na década de 60 estava clara na capital paulista a tendência de transferência de empreendimentos industriais para núcleos urbanos integrantes de sua região metropolitana, nos anos 80 o vetor da concentração industrial havia sido efetivamente deslocado para as regiões como Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e outras (BALDONI, 2002, apud VALENTIM, 2007, p. 37).
Decorrendo da reestruturação e desconcentração das atividades produtivas, há um processo natural de reordenação urbana, em que ocorre substituição de usos anteriormente consolidados. Cumpre comentar que, apesar de a região do Ipiranga ter atraído bastante o mercado imobiliário nas últimas décadas, com a implantação de empreendimentos residenciais e comerciais, a Vila Carioca, provavelmente por
influência de seus sérios passivos ambientais, manteve-se e ainda se mantém distante desse dinamismo (VALENTIM, 2007, p. 122).
A ocupação da Vila Carioca permanece calcada nos galpões industriais acompanhados de residências unifamiliares e comércio de pequena escala, e apresenta problemas graves de degradação urbanística e ambiental. Sem a remediação dos passivos ambientais existentes, parece inviável promover a requalificação urbana da área.
Figura 04 – Estado atual das antigas instalações da Vemag na Vila Carioca.
Fonte: colunistas.ig.com.br/flaviogomes. Acesso em: 06 jan. 2010.
Em uma visita ao local no dia 19 de janeiro de 2010, pôde-se constatar que a propriedade da Shell faz divisa diretamente com os muros das casas, não havendo uma rua que separe as moradias da área industrial.
A rua Colorado é a mais próxima: é pequena, começando na rua Lício de Miranda e terminando na rua Auriverde. A entrada da Shell é no final da rua Auriverde, logo depois da confluência com a Colorado. A rua Colorado é tranqüila, com pouco movimento. É predominantemente residencial (provavelmente classe D, com algumas residências maiores e melhor acabadas); existem também algumas indústrias pequenas. Não havia estabelecimentos comerciais abertos; eles foram observados, em pequeno número, nas ruas Lício de Miranda e Auriverde.
A rua Auriverde é a mais importante da área. Existem ainda pequenas ruazinhas, como a Maracatu e a Santa Águeda, que ligam a Colorado à rua Brás de Pina, de caráter predominantemente residencial.
Figura 05 – Entrada da Shell ao final da rua Auriverde.
Fonte: Foto de Silvia Fazzolari Corrêa.
Figura 06 – Entrada da Shell vista do final da rua Colorado.
Figura 07 – Casas na rua Colorado com tanques ao fundo.
Fonte: Foto de Silvia Fazzolari Corrêa.
Figura 08 – Centro de Educação Infantil “Semente da Esperança” com tanque ao fundo.
Fonte: Foto de Silvia Fazzolari Corrêa.
Figura 09 – Vista da rua Colorado em direção à rua Lício de Miranda. Os eucaliptos à esquerda parecem delimitar a área dos tanques.
Figura 10 – Rua Maracatu.
Fonte: Foto de Silvia Fazzolari Corrêa.
Figura 11 – Rua Auriverde.
Fonte: Foto de Silvia Fazzolari Corrêa.
Figura 12 – Entrada industrial na rua Colorado, com área de eucaliptos ao fundo.
Figura 13 – Vista Panorâmica da Vila Carioca.
Figura 14 – Detalhe da área ocupada pela Shell na Vila Carioca.