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O advogado do proprietário, pelo que foi relatado nas entrevistas dos advogados do EFTA, inicialmente resistiu em entrar com o procedimento judicial, afirmando que “não tinha necessidade”, visto que se tratava de “um procedimento muito demorado”. Tratava-se, então, de retirar a população a qualquer custo, e de preferência à margem da lei. Ao perceber a organização do movimento e o seu poder de articulação com várias entidades de direitos humanos da cidade, a assessoria jurídica do proprietário resolveu ingressar com a ação de reintegração de posse.

Restou clara a vontade em não se recorrer ao Judiciário, mediante a recusa da utilização de meios legais para a afirmação do seu direito. Manifestou-se a disposição em efetivar o seu direito por meio de atos arbitrários e ilegais, sendo tal opinião manifestada publicamente, sem qualquer tipo de constrangimento, conforme se depreende dos relatos dos entrevistados.

O enfrentamento dos limites da legalidade pelas famílias forçou a “legalização” da ação do proprietário. A força da resistência das famílias às primeiras investidas do grupo de segurança privado levou o conflito ao alcance do Poder Judiciário. Infere-se que, se as famílias não resistissem às primeiras ameaças, nada aconteceria ao proprietário e aos envolvidos na ação ilegal de expulsão da comunidade.

Sob o argumento da morosidade da justiça, o proprietário respaldou-se em seu poder econômico e político, por se tratar de um dos maiores grupos empresariais da cidade, para se utilizar de meios ilegais e clandestinos visando remover a população a todo custo e proteger seus interesses particulares.

Naquele momento, a possibilidade de discussão do conflito na esfera judicial não representou, para aqueles que apoiavam a ocupação e para o próprio movimento, uma possibilidade de reconhecimento, pelo Judiciário, do direito à moradia das famílias. No entanto, em uma perspectiva mais imediata, significou que os atos ilegais de violência a que estavam sendo submetidos chegaria a um fim, por meio da intervenção do aparelho oficial. Essa expectativa não se concretizou completamente porque as famílias ainda sofreram, durante os primeiros três meses, com a presença constante do grupo de seguranças no local. Para a comunidade, entre a tentativa de retirada mediante violência, procedimento totalmente irregular executado com a conivência do Estado, e o

62 enfrentamento de uma ação judicial de reintegração de posse, era preferível a segunda, e não a primeira opção.

Na petição inicial apresentou-se apenas a certidão da matrícula do imóvel expedida pelo cartório como forma de comprovação da posse43. Mesmo em uma análise estritamente formal esse tipo de comprovação mostra-se completamente insatisfatória para o remédio processual requisitado pelo autor. A matrícula do imóvel por si não comprova que os direitos inerentes à propriedade estão sendo visivelmente exercidos e que a posse existe.

De acordo com César Fiúza (2009, p. 718):

O elemento objetivo (da posse) é a atitude externa, visível do possuidor para com a coisa. Traduz-se no exercício de direito pelo possuidor sobre a coisa, que pode ser usar, fruir, dispor, dentre outros. É neste ponto que se diz, com razão, ser a posse a visibilidade do domínio.

Astolpho Rezende (2000, p. 313) assevera que “O primeiro requisito para que se

possa intentar qualquer destas ações e de que o autor tenha a posse da coisa, móvel ou imóvel, que constitui objeto da ação.”. A apresentação da certidão comprobatória do

domínio não garante a comprovação da posse ou mesmo do cumprimento da função social da propriedade. Sendo assim, sem uma audiência de justificação de posse ou a visita do Juízo ao local, a posse não poderia ser comprovada somente por esse meio.

O EFTA, em nome da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, juntou ao processo um documento, assinado pelo seu então presidente, o Deputado Heitor Férrer, expondo a utilização ilegal de seguranças privados e policiais militares para a expulsão das famílias e informava sobre a negociação já em curso com o Poder Público.

A magistrada, no primeiro momento, decidiu marcar uma audiência de justificação de posse. Entretanto, uma semana mais tarde, publicou novo despacho no qual afirmou ter reavaliado os autos e entendido pela concessão da liminar de reintegração de posse, no dia 31 de agosto de 2009.

Cumpriu-se parcialmente a ordem de reintegração de posse no dia 04 de setembro de 2009. A equipe do EFTA, presente no momento, intermediou o contato entre o

43 Anexo 7 – Documentos referentes ao processo judicial. Na inicial, ainda, o proprietário afirma que os ocupantes

adentraram o terreno através de um buraco que fizeram no muro. Os danos ao muro, que o proprietário afirma terem sido feitos pelas famílias na verdade já existiam antes da entrada delas, conforme se constata das fotos que foram tiradas pelos militantes do movimento antes da ocupação.

63 oficial de justiça e os representantes da HABITAFOR. A intervenção do órgão mostrou- se fundamental no processo de negociação para o não cumprimento da liminar. Várias pessoas, representantes de entidades de defesa dos direitos humanos, movimentos sociais, igreja entre outros estiveram presentes para também expressar a impossibilidade de o conflito ser resolvido daquela maneira, com o cumprimento da ordem judicial e o abandono completo das famílias que não tinham onde morar. Diante do conflito, o oficial de justiça recuou no cumprimento da ordem.

Destaque-se que os autos foram designados à 9ª Vara Cível da Justiça Estadual. De acordo com o relato dos advogados, em conversa com um funcionário da Vara à época do início do processo ele afirmou que provavelmente o processo seria redistribuído, pois a juíza sempre se declarava suspeita em processos de autoria daquele grupo econômico. Encontrou-se, em outro processo acompanhado pelo EFTA, de autoria do mesmo grupo e que fora autuado naquela Vara, a declaração de suspeição da juíza: “[...] considerando a estreita relação de amizade existente entre a minha família

e a parte promovente, não me sinto à vontade nem com a necessária e indispensável isenção de ânimo para presidir o processo” 44. No caso da ocupação Raízes da Praia

não houve declaração de suspeição, e sim a mudança radical de postura, imediatamente após se concluir pela realização de audiência de justificação de posse.

Na sentença de julgamento de mérito, expedida mediante o acolhimento imediato do pedido do autor para a sua expedição o mais rapidamente possível, destacam-se os seguintes trechos:

Registra o B.O, de fls. 13, por outro lado, que numa atitude própria dos irresponsáveis, dos que não respeitam a propriedade alheia dos invasores, enfim, algumas pessoas quebraram o muro ou derrubaram parte do muro existente no local, adentrando no imóvel como se fosse res nullius e dele se apossando.

(...) a entidade nominada na petição de fls. 30-33, numa atitude tipicamente eleitoreira e até irresponsável, pois afirmando que “assessora extrajudicialmente” o grupo invasor, se queixou de que “seguranças privados” dos proprietários do imóvel – os requerentes, no caso – estariam “ameaçando” os invasores, como se fosse um crime proteger a sua

propriedade, o seu patrimônio.

Registra aludida entidade ter recorrido – juntamente com outro grupo, igualmente protetor e apoiador dos que não respeitam o patrimônio alheio – ao Município de Fortaleza, destacando existir “uma negociação para a solução pacífica” do problema, através da Fundação Habitacional de Fortaleza – HABITAFOR. (grifo nosso)

64 A magistrada entendeu que o ofício apresentado pela Comissão de Direitos Humanos45 representou a contestação dos réus, negando, assim, a possibilidade real de contestação dos fatos apresentados na inicial. Afrontaram-se os direitos constitucionais do devido processo legal e a garantia do contraditório e da ampla defesa.

Causa estranhamento, sob a lógica processual, que um ofício, sem quaisquer dos requisitos legais para este tipo de peça (a contestação) tenha sido acatado como tal. Ainda que pretendesse considerar a peça para o desenvolvimento da lide, essa deveria ser utilizada em prol da proteção dos direitos dos réus, assegurando-se o devido processo legal, e nunca em seu prejuízo. Não houve prazo para a contestação porque a juíza não citou os réus. Com essa decisão, a magistrada negou diretamente o direito dos réus em contestar o que fora alegado na inicial, por admitir, sem apresentar qualquer justificativa, um ofício de expedido por uma das Comissões da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará como contestação, sem que houvesse sido feita citação para tanto ou mesmo abertura de prazo.

A decisão ofende os princípios constitucionais que devem orientar o processo civil, bem como o princípio de cooperação, segundo o qual o magistrado deve orientar- se pelo dever de esclarecer as partes sobre qualquer decisão de fato ou de direito, intimando-as a manifestaram-se e consultando-as quando existem questões não abordadas no processo em manifestação do contraditório. Para Rangel, (2004, p. 349) pode-se considerar que:

A dialética do processo, que é fonte de luz sobre a verdade procurada, expressa-se na cooperação mais intensa entre o juiz e os contendores, seja para a descoberta dos fatos que não são do conhecimento do primeiro, seja pra o bom entendimento da causa e dos seus fatos, seja para a correta compreensão das normas de Direito e apropriado enquadramento dos fatos nas categorias jurídicas adequadas. O contraditório, em suas mais recentes

formulações, abrange o direito das partes ao diálogo com o Juiz. (grifo

nosso).

Após a publicação da sentença, os advogados do EFTA impetraram agravo de instrumento com pedido de efeito suspensivo e os autos encontram-se Tribunal de Justiça para julgamento. O outro lote do imóvel, de propriedade do mesmo grupo, não foi desapropriado pelo Poder Público e sua posse continua sendo discutido em sede da ação de reintegração impetrada no dia dois de fevereiro de 2010.

45 Mesmo sem terem sido citados, os advogados do EFTA elaboraram um ofício, em nome da Comissão de Direitos

Humanos da Assembléia Legislativa, expondo a gravidade do conflito fundiário, devido às tentativas violentas de despejo forçado que as oitenta famílias estavam sofrendo. Pode ser lido na íntegra no Anexo 7 – Documentos referentes ao processo judicial.

65 Neste ínterim, o movimento continuou organizando a permanência das famílias no terreno e as estratégias de pressão ao Poder Público. Após diversas negociações, no dia vinte e quatro de agosto, publicou-se na página 1 do Diário Oficial do Município o Decreto 12.566 de dezoito de agosto de 200946, especificando a desapropriação de um dos lotes do imóvel.

2.2.2 O Poder Judiciário na visão dos moradores e militantes da ocupação Raízes

Benzer Belgeler