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ADALET DAİRESİ’NİN OLUŞUMUNA ZEMİN HAZIRLAYAN

No Brasil, uma importante etapa do processo de conformação do capitalismo industrial iniciou-se na Era Vargas, que durou por quase 20 anos, em suas diferentes fases: o governo provisório, de 1930 a 1934; o governo constitucional, de 1934 a 1937; a ditadura do Estado Novo, de 1937 a 1945; e o mandato por voto direto, de 1951 até o suicídio do presidente.

Segundo Eli Diniz (2005), após a Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas emergiu na política nacional para se tornar o “grande arquiteto de uma nova ordem econômica e social”, as imagens associadas à sua controvertida figura foram as mais diversas – e a polêmica se refere não só à sua personalidade como líder político, mas também ao seu papel na história e ao teor das políticas econômicas, sociais e culturais que implementou (DINIZ, 2005, p. 119).

Uma das faces de Vargas é a do líder progressista e reformista, que, conforme Diniz, rompeu com as oligarquias e os privilégios de uma elite rural avessa aos novos tempos e abriu o caminho para a modernidade. Nessa transição para a era urbano-industrial,

O Estado foi o agente deste esforço de transformação, mobilizando os recursos externos e internos, criando incentivos à produção doméstica, apoiando a indústria nacional, buscando ao mesmo tempo atrair os investimentos externos necessários. Sob o impacto deste conjunto de políticas, observou-se a incorporação dos principais atores da ordem capitalista em formação, empresários e trabalhadores industriais (DINIZ, 2005, p. 122-123).

Segundo a autora, o processo de industrialização desencadeou-se no país, de forma objetiva, entre 1933 e 1939, quando o crescimento da indústria ultrapassou o da agricultura, alcançando taxa de 11,28% ao ano. O novo modelo econômico brasileiro assentava-se sobre três bases: empresa nacional privada, empresa estatal e empresa estrangeira. Uma estrutura corporativa de representação de interesses caracterizou a articulação entre o Estado e a

sociedade, possibilitando a incorporação política do empresariado industrial e dos trabalhadores urbanos, “numa estrutura hierárquica e verticalizada, sob a tutela do Estado”.

As reformas da Era Vargas introduziram e aperfeiçoaram a legislação social nas áreas sindical, trabalhista e previdenciária. De acordo com Diniz, a imagem do presidente como “líder carismático”, dotado de sensibilidade para conquistar a simpatia e o apoio popular, relacionava-se à sua capacidade de “traduzir as aspirações das classes desvalidas, tirando-as do limbo e do anonimato em que se encontravam, como reflexo da situação de extrema exclusão política” (DINIZ, 2005, p. 120).

Por outro lado, houve também restrição de direitos políticos e civis, com maior intensidade após o golpe que implantou o regime ditatorial do Estado Novo (1937). A aliança do Estado com o setor empresarial seria abalada ao final da Segunda Guerra Mundial, em um momento em que o contexto internacional tornava-se desfavorável aos regimes autoritários, após a vitória dos aliados contra o nazi-fascismo, o que suscitou uma reestruturação das relações mundiais de poder (DINIZ, 2005, p. 126).

No período ditatorial do Estado Novo, com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), em 1939, a censura passou a ser exercida com “mão de ferro” por Getúlio Vargas, reverenciado, na propaganda oficial, com reflexos no imaginário popular, como “o trabalhador número 1 do Brasil”.

Em Os desafinados: sambas e bambas no Estado Novo, original artigo sobre as perseguições aos conspiradores do “ideal patriótico” trabalhista, Adalberto Paranhos demonstra, com base em pesquisa, as estratégias dos compositores populares, sobretudo os sambistas, para driblar a vigilância dos censores e a repressão aos “malandros”, aos que cultuavam a malandragem, a “vadiagem” e o “não-trabalho” (PARANHOS, 2005, p. 105-117).

Segundo Paranhos, a ofensiva “antimalandragem” incluía integrantes do próprio meio musical da década de 1930, que defendiam a “higienização poética do samba” ou o “saneamento e a regeneração temática”. As composições eram, em geral, de autoria de homens, mas cantadas por mulheres, versando sobre figuras que davam as costas para o trabalho, mesmo que de forma dúbia.

Interpretada por Dircinha Batista, “cheia de bossa”, Sete e meia da

manhã14“registra a via-crúcis de uma operária na luta pelo pão-nosso-de-cada-

dia” – é um samba que escapa do discurso governamental e das análises que sugeriam que a ideologia trabalhista havia sido assimilada pelos compositores:

Estou atrasada

E se não for para o batente Ele vai me dar pancada Estou tão cansada De ouvir todo dia A mesma toada

O apito da fábrica a me chamar Levanta da cama e vem trabalhar Mas que viver desesperado

Aqui, como afirma Paranhos, “em vez de ser encarado como atividade humanizante e regeneradora, o trabalho é percebido como fonte de sacrifício que se impõe aos que vivem atracados com a luta pela sobrevivência”. Ao final, a melodia adquire ritmo de seresta e a cantora conclui, num lamento: “Se Deus um dia olhasse a terra/E visse o meu estado”. E então toca o despertador.

Já o samba O amor regenera o malandro15, cantado por Joel e Gaúcho, tem a malandragem disfarçada por um detalhe que pode nem ser percebido por ouvintes menos atentos. A primeira estrofe diz:

Sou de opinião De que todo malandro Tem que se regenerar Se compenetrar

Que todo mundo deve ter

O seu trabalho para o amor merecer

Até esse ponto, parece uma composição bem “afinada” com a ideologia governamental vigente. Ao final da segunda estrofe, a impressão é outra:

Regenerado Ele pensa no amor Mas pra merecer carinho Tem que ser trabalhador (Breque) Que horror!

14Sete e meia da manhã (Pedro Caetano e Claudionor Cruz), Dircinha Batista, 78 rpm, Continental, 1945. 15O amor regenera o malandro (Sebastião Figueiredo), Joel e Gaúcho, 78 rpm, Colúmbia. Relançado no LP Foi uma pedra que rolou, Revivendo, s/d.

Conforme Paranhos, a frase final não constava da letra que foi encaminhada aos censores do DIP, tampouco da partitura original. O breque a duas vozes “põe por terra todo o blábláblá estado-novista que aparentemente havia contagiado a gravação” (PARANHOS, 2005, p. 115-116).

As reações populares contrárias às imposições estatais indicam que, de fato, os trabalhadores submetem-se a rígidos contratos de trabalho quando esta é a única alternativa para a sua sobrevivência. “O que o trabalhador vende e o que o capitalista compra não é uma quantidade contratada de trabalho, mas a força para trabalhar por um período contratado de tempo” (BRAVERMAN, 1987, p. 56).