Schopenhauer percebe que a ciência segue o princípio da razão e está sujeita ao tempo, deste modo não é algo próprio ao puro sujeito do conhecimento, pois o que nela predomina são as relações peculiares às leis e as conexões entre os diversos fenômenos sujeitos ao devir.
O autor está à procura de um saber independente de toda relação, aquele que só se atenha ao essencial do mundo, algo que não esgote a validade e que seja reconhecido pela idéia, aquilo que é a objetividade imediata. Por fim, ele chega à conclusão que isto tudo seria apenas viável através da Arte, pois esta consegue repetir as idéias eternas que apreende através da contemplação, exteriorizando-as, como ocorre nas artes plásticas, na música e na poesia. Já a ciência se guia pelos fundamentos e, por este motivo, é lançada num ciclo que nunca se concretiza por completo, como o que se segue: “A ciência segue a torrente infinda e incessante das diversas formas de fundamento a conseqüência: de cada fim alcançado é novamente atirada mais adiante, nunca alcançando um final, ou uma satisfação completa, tão pouco quanto, correndo, pode-se // alcançar o ponto onde as nuvens tocam a linha do horizonte.” 131
A Arte é aquela que se depara a todo instante com a completude, se afastando do devir do mundo e encontrando a si mesma, de modo a se tornar componente do todo. Pode-se dizer que o artista consegue fazer as engrenagens do tempo pararem e as relações desaparecerem, restando apenas o essencial, a idéia, que, por conseguinte, é objeto da arte. Assim, Schopenhauer coloca:
A arte, ao contrário, encontra em toda parte o seu fim. Pois o objeto de sua contemplação ela o retira da torrente do curso do mundo e o isola diante de si. E este particular, que a torrente fugidia do mundo era uma parte ínfima a desaparecer, torna-se um representante do todo, um equivalente no espaço e no tempo do muito infinito. A arte se detém nesse particular. A roda do tempo pára. As relações desaparecem. Apenas o essencial, a Idéia, é objeto da arte. 132
Enquanto o princípio da razão é utilizado na vida prática ou na ciência, como previsto nos ensinamentos de Aristóteles, os da Arte são comuns às doutrinas de Platão. Schopenhauer faz uma comparação entre ciência e arte; a primeira é comparada à uma tempestade violenta, que desaba sem começo nem fim, que a tudo entorta, invade e agita; a segunda é comparada ao calmo raio de sol que transita em meio à tempestade, mas sem ser atingido por ela. Assim:
131 op. cit. p. 253.
O primeiro é o modo comparável a uma tempestade violenta que desaba sem princípio e nem fim, a tudo verga, movimenta e arrasta; o segundo ao calmo raio de sol que corta o caminho da tempestade, totalmente intocado por ela. O primeiro é comparado às gotas inumeráveis de uma cascata que se movimentam violentamente e que, sempre mudando, não se detêm um único momento; o segundo, a um calmo e sereno arco-irís que paira sobre esse tumulto. – Apenas pela pura contemplação (antes descrita) a dissolver-nos completamente no objeto é que as Idéias são apreendidas.133
No homem comum, a faculdade do conhecimento é comparada à lanterna; já o homem genial se guia pela intuição ou contemplação se conduzindo pelos singelos raios de sol, conforme se confirma a seguir:
O homem genial, ao contrário, cuja faculdade do conhecimento, pelo seu excedente, furta-se por instantes ao serviço da vontade, detém-se na consideração da vida mesma e em cada coisa à sua frente esforça-se para apreender a sua idéia, não as suas relações com as outras coisas. Por isso negligencia freqüentemente a consideração do seu próprio caminho na vida, trilhando-o na maior parte das vezes com passos desajeitados. Para o homem comum, a faculdade de conhecimento é a lanterna com a qual ilumina o seu caminho, para o homem genial é o sol com qual revela o mundo. Essa maneira tão diferente de ver a vida logo se torna evidente na expressão de ambos. O olhar do homem no qual vive e atua o gênio o distingue facilmente, visto que, ao mesmo tempo vivaz e firme porta o caráter da intuição, da contemplação; vemos isso nos retratos pictóricos das poucas cabeças geniais que a natureza criou aqui e ali entre incontáveis milhões de homens. Ao contrário, o olhar do homem comum, quando não se mostra, como na maioria das vezes, obtuso e insípido, faz visível o verdadeiro e oposto da contemplação, o espionar.134
A maioria das pessoas se encaixa na linha daqueles que não conseguem conjeturar algo sem intencionalidade, como a contemplação. Para estes homens, o conforto que proporciona o conceito é essencial, já a intuição é vista sem interesse, pois não traz nem segurança e muito menos contentamento. Somente o homem genial consegue evadir-se da vontade e captar a idéia, sem tentar considerar a relação desta com outras coisas.
133 op. cit. p. 254.
Aqueles que se dedicam às Artes, de modo geral, utilizam muito mais a intuição do que o conceito, pois este último lhes parece desbotado demais. Em virtude disto, os artistas são erroneamente classificados de incoerentes e subjugados ao instintivo e às paixões. A intuição é um instrumento que não deve ser negligenciado. É evidente que não se deva utilizar a intuição apenas nas artes, mas também na ciência, como também presumia Peirce em sua lógica da abdução, pois através desta chega-se de imediato àquilo que somente se comprova tardiamente por meio da experiência, como:
Uma concepção intuitiva imediata, do entendimento foi a descoberta da lei de gravitação por R. Hookes, bem como a remissão de tantos e grandes fenômenos a essa lei,o que foi confirmado pelos cálculos de Newton. Também nesses moldes foi a descoberta de Lavoisier do oxigênio e seu papel significativo na natureza. Exatamente nos mesmos moldes foi a descoberta de Goethe da origem das cores físicas.135