• Sonuç bulunamadı

Conforme pôde se verificar através da análise das duas parcerias em questão, a formação de alianças se mostra como uma estratégia bastante atrativa para firmas que procuram ganhar eficiência e competitividade. Em ambos os casos, a formação das parcerias se mostrou como uma alternativa que gerou ganhos efetivos para os produtores.

A análise dos dados mostrou que diversos aspectos da Economia dos Custos de Transação foram determinantes para a formação e o desenvolvimento das cooperativas em estudo, tais como os ganhos de escala e o conseqüente aumento do poder de barganha, a redução da probabilidade de comportamentos oportunistas ou mesmo a minimização dos problemas decorrentes da racionalidade limitada e a conseqüente redução das incertezas de mercado.

Por outro lado, essa análise também mostrou que uma série de aspectos da imersão social explicam a formação e o desenvolvimento dessas cooperativas. Fatores como a existência de laços sociais de reciprocidade e confiança se mostraram determinantes para a escolha dos parceiros e para a estrutura de governança a ser adotada. O desenvolvimento da cooperativa, sua evolução e desempenho também foram fortemente influenciados por fatores relacionados à imersão social, como nível de confiança entre os parceiros, o fortalecimento dos laços sociais e o posicionamento na rede.

No que se refere à formação da parceria, percebeu-se que em ambos os casos as motivações que levaram as firmas a aderir à cooperativa passam por questões relativas a questões abordadas pela Economia dos Custos de Transação. Verificou-se que o aumento do poder de barganha decorrente de ganhos de escala através da compra de insumos e da venda de produção em conjunto foram fatores motivadores para a decisão de muitos produtores no sentido de aderir à aliança em ambos os casos.

Outro fator que se mostrou determinante para a decisão de produtores no sentido de aderir à parceria se refere à questão da redução das incertezas de mercado. A racionalidade limitada dos agentes econômicos, segundo Williamson (1991), é um

dos fatores que podem levar organizações a optarem por estruturas de governança alternativas ao mercado, como a formação de alianças ou o estabelecimento de hierarquias. Nesse sentido, a formação da parceria se mostrou como um mecanismo eficiente na busca por reduzir as incertezas de mercado decorrentes da racionalidade limitada. Em ambos os casos, a inserção na cooperativa levou a uma maior previsibilidade no que se refere a questões comerciais e de produção.

A troca de informações se mostrou, no caso da Coopercam, um fator motivador para a entrada de muitas firmas nessa cooperativa e foi, desde sua formação, um dos seus objetivos centrais. No caso da Unipesca, verificou-se que a troca de informações entre os produtores não era um objetivo estabelecido quando da formação da cooperativa. A Unipesca, desde sua criação, teve um foco mais comercial, visando ganhos de escala através da comercialização em conjunto. Porém, não se pode desconsiderar o papel da troca de informações entre os produtores no desempenho dessa cooperativa, que acabou por se tornar bastante intensa, mas de maneira informal.

O compartilhamento de ativos específicos foi outro ponto abordado como relevante para a decisão de entrar, no caso da Unipesca. Conforme apontado na análise dos dados, a idéia inicial quando a cooperativa foi criada seria investir na produção de ração, de pós-larva e até mesmo do beneficiamento do camarão. Contudo, como já colocado anteriormente, essa idéia acabou não se concretizando, muito em virtude da conjuntura de turbulência pela qual passa o setor. No caso da Coopercam, o compartilhamento de ativos específicos não foi um objetivo inicial para a formação da cooperativa. No entanto, constatou-se que o compartilhamento de assistência técnica, que seria inviável para os pequenos produtores atuando de forma individual, se mostrou como um fator motivador para a entrada na cooperativa.

A redução da possibilidade de comportamentos oportunistas também foi um fator apontado como determinante para a decisão de formar a Coopercam. Conforme indicam os dados, essa é uma característica muito comum no setor. A formação de uma cooperativa com um grande número de pequenos produtores se mostrava como uma maneira eficiente de reduzir os efeitos negativos decorrente de guerras de preço. No caso da Unipesca, contudo, a redução da probabilidade de comportamentos

oportunistas não foi um fator apontado pelos produtores como determinante para a formação da cooperativa. Isso pode ser compreendido na medida em que a formação da Unipesca se deu baseada na existência de relações sociais de reciprocidade e confiança pré-existentes, o que levou à desconsideração, por parte dos produtores, da possibilidade de ocorrência desse tipo de comportamento, mesmo antes da formação da cooperativa.

Portanto, o que podemos concluir ao analisar a decisão de entrar na aliança é que, em ambos os casos, essa decisão passou por questões de ganhos de eficiência, indo de acordo a diversos aspectos abordados pela Economia dos Custos de Transação.

No que concerne à escolha dos parceiros, a análise dos dados mostrou que tanto no caso da Coopercam quanto no caso da Unipesca essa escolha se pautou na existência de relações sociais prévias. Porém, ao analisarmos a questão relativa à escolha dos parceiros em ambas as cooperativas, fica claro que no caso da Unipesca há um nível muito maior de reciprocidade e confiança entre os parceiros, o que veio ser um fator facilitador para a realização das transações dentro dessa parceria. Esse caso, portanto, se encaixaria dentro da definição de laços fortes (GRANOVETTER, 1973).

No caso da Coopercam, a aproximação entre os parceiros se deu muito em função da pré-existência de laços sociais. No entanto, pela amplitude da cooperativa, muitos dos produtores não se conheciam ou tinham um nível de relacionamento bastante superficial, o que se mostrou como um fator limitador para a realização de uma série de atividades cooperativas na medida em que havia um baixo nível de confiança entre os parceiros, limitando muitas das possíveis vantagens decorrentes da formação dessa aliança. Nesse caso, portanto, verificamos a existência de laços fortes entre pequenos grupos de produtores e a existência de laços fracos entre os produtores dessa aliança de uma forma mais geral (GRANOVETTER, 1973).

Sobre a estrutura de governança das cooperativas em estudo, constatou-se que, no caso da Unipesca, ela baseia-se fundamentalmente na existência de confiança entre os parceiros, o que torna a tomada de decisões mais ágil e dinâmica, reduzindo os custos das transações. As decisões quase sempre são tomadas por consenso, o que mostra o alto nível de integração entre os parceiros. Da mesma forma, realiza-se a

compra e a venda em conjunto. Dessa forma, a confiança acaba por servir como um mecanismo de governança alternativo à formulação de contratos ou outros mecanismos formais, reduzindo também a possibilidade de comportamentos oportunistas (GULATI, 1998).

No caso da Coopercam, verificou-se que há um nível de confiança muito superficial entre os parceiros de uma maneira geral, o que torna essa estrutura de governança mais rígida, se comparada com o caso da Unipesca. No caso dessa cooperativa, a compra não é feita em conjunto, cabendo apenas a orientação em relação aos processadores, ração e pós-larva. Contudo, constatou-se a existência de um pequeno grupo de cerca de 20 produtores, que tem uma atuação mais participativa nessa cooperativa. Dentro desse grupo, as relações sociais de reciprocidade e confiança se mostram bem mais altas do que no restante da cooperativa, gerando flexibilidade, dinamismo e, portanto, ganhos de eficiência. Assim, esse grupo, ao contrário do que ocorre no restante da Coopercam, realiza compra e venda em conjunto, obtendo ganhos de escala o que, por conseqüência, aumenta seu poder de barganha. Ademais, o nível de troca de informações dentro desse grupo se mostrou bem mais alto do que no restante da cooperativa.

Em relação à escolha dos fornecedores, esta se dá baseada em critérios de eficiência em ambas os casos, sendo a relação entre as cooperativas e os fornecedores ou beneficiadores baseada em questões estritamente de mercado, que Uzzi (1997) classifica como arm’s-length ties.

Sobre a dinâmica evolutiva de cada uma dessas cooperativas, percebeu-se que, em ambos os casos, suas estruturas foram influenciadas pela conjuntura de crise no setor, que gerou perdas substanciais para todos aqueles que estão inseridos na atividade. No caso da Unipesca, houve uma substantiva redução do número de cooperados de 2006 para 2007, tendo abandonado a aliança aqueles com uma menor escala de produção. Segundo um entrevistado, isso poderia ser interpretado, de certa forma, como uma reestruturação no sentido de buscar um perfil que seja compatível com a proposta comercial da cooperativa.

As relações sociais e o nível de confiança entre os produtores da Unipesca se mostraram em ascendência ao longo da existência da cooperativa. Caminhando no

mesmo sentido, o fluxo de informações entre os cooperados se mostrou cada vez maior ao longo do tempo, o que indica o papel do fortalecimento dos laços sociais para a troca de informações. No caso da Coopercam, contudo, não se verificou um fortalecimento das relações sociais e do nível de confiança, se analisarmos a cooperativa como um todo. Ademais, percebeu-se que o fluxo de informações entre os cooperados se reduziu substancialmente com a crise no setor. Contudo, no ‘grupo dos vinte’, pôde-se verificar justamente o contrário: um fortalecimento das relações sociais e do nível de confiança entre os parceiros e um aumento do fluxo de informações entre eles.

Ao se realizar uma analise do desempenho, percebeu-se que em ambos os casos houve bastante influencia das variações no mercado de camarão, tanto no que se refere ao boom, a partir de 1999 até 2003, para o caso da Coopercam, quanto para a crise que se instalou a partir de 2004, para o caso das duas cooperativas.

No caso da Unipesca, tornou-se limitada qualquer análise mais profunda em relação à influência da formação da aliança no desempenho dos produtores em função do pouco tempo de existência da cooperativa. Contudo, pôde-se chegar a algumas conclusões em relação à variação no desempenho decorrente da formação da aliança: primeiramente, houve ganhos de eficiência decorrentes do aumento do poder de barganha em virtude do aumento da escala gerado pela compra e venda em conjunto; ademais, a retirada de atravessadores permitiu a obtenção de ganhos na venda do produto; em terceiro lugar, a troca de informações reduziu a chance de erros, aumentando a eficiência tanto na parte comercial quanto no que se refere à produção. Assim, quando questionados sobre uma possível projeção de sua atuação de forma individual atualmente, todos os entrevistados foram unânimes: acreditam que estariam em situação muito pior.

Já no que se refere à avaliação de desempenho para os produtores no período posterior à formação da Coopercam, algumas conclusões puderam ser tiradas: primeiramente, obtiveram-se ganhos de escala inicialmente, em virtude da compra e venda em conjunto, o que gerou ganhos de eficiência decorrente do aumento do poder de barganha. Contudo, essa venda em conjunto não se manteve, conforme indicam os dados, muito em função da desagregação e do baixo nível de interação social e de

confiança entre os parceiros. Pela mesma razão, percebeu-se uma redução do nível de fluxo de informações entre os cooperados ao longo dos anos, reduzindo as possibilidades de ganhos de eficiência decorrentes da formação da aliança.

Porém, ao analisarmos o ‘grupo dos vinte’, verificamos que a idéia de venda e compra em conjunto para se obter aumento do poder de barganha acaba ressurgindo, muito em função do bom relacionamento e do alto nível de confiança existentes entre eles. Da mesma forma, percebe-se que o fluxo de informações entre esses cooperados é alto, se comparado ao restante da cooperativa, gerando ganhos no desempenho.

O quadro abaixo resume cada um dos aspectos analisados em cada cooperativa de acordo com as abordagens da ECT e da imersão social:

Economia dos custos de transação

Unipesca Coopercam

Decisão de entrar

• Aumento do poder de barganha • Redução das incertezas

• Compartilhamento de ativos específicos • Aumento do poder de barganha • Compartilhamento de processos operacionais • Troca de informações • Redução das chances de

comportamento oportunista Escolha dos

parceiros - -

Estrutura de

governança • Aumento do poder de barganha

• Comportamentos oportunistas • Não há compra em conjunto da

cooperativa como um todo, reduzindo a poder de barganha • Compra e venda em conjunto

no “grupo dos vinte”, aumentando o poder de barganha

• Troca de informações de maneira formal e, em menor quantidade, de maneira informal, que se reduziu ao longo dos anos,

particularmente após o início da crise no setor

Evolução • Escala de produção

• Aumento e posterior redução no poder de barganha

• Aumento no poder de

Desempenho • Aumento no poder de barganha • Redução das incertezas

• Aumento e posterior redução do poder de barganha

• Aumento e posterior redução do fluxo de informações • Aumento do poder de

barganha no “grupo dos vinte” • Aumento do fluxo de

informações no “grupo dos vinte”

Quadro 2 – Fases de Gulati (1998) para a formação de alianças: análise a partir da ECT Fonte: dados da pesquisa

Imersão Social

Unipesca Coopercam Decisão de

entrar - -

Escolha dos

parceiros • Laços sociais pré-existentes • Confiança

• Laços sociais pré-existentes • Confiança (em menor escala se

comparada ao caso da Unipesca)

Estrutura de

governança • Confiança • Posicionamento na rede

• Baixo nível de confiança na cooperativa como um todo • Alto nível de confiança dentro

do “grupo dos vinte”

Evolução

• Fortalecimento dos laços sociais • Fortalecimento da confiança • Aumento do fluxo de

informações

• Redução no fluxo de informações entre os cooperados ao longo dos últimos anos

• Critérios de seleção de novos parceiros passam por questões relacionadas às redes sociais • Confiança existente no “grupo

dos vinte” permite um aumento do fluxo de informações de maneira informal

Desempenho

• Fortalecimento dos laços sociais • Fortalecimento da confiança • Aumento do fluxo de

informações

• Reduzido nível de confiança entre os parceiros

• Desenvolvimento da confiança no “grupo dos vinte”

Quadro 3 – Fases de Gulati (1998) para a formação de alianças: análise a partir da Imersão Social

Fonte: dados da pesquisa

Assim, conclui-se que a formação de alianças pode ser analisada segundo aspectos tanto da Economia dos Custos de Transação quanto da imersão social. A

ECT, ao expor questões relacionadas à eficiência, como a redução das incertezas, o aumento do poder de barganha e a redução da possibilidade de comportamentos oportunistas, mostra que a formação de alianças tem objetivos claros de ganhos de competitividade. Isso ficou evidente ao se analisar as motivações que levaram à formação das duas parcerias estudadas: essas motivações estão ligadas a aspectos relacionados aos custos de transação. Contudo, ao analisarmos a escolha dos parceiros, percebemos que essa escolha pode ser compreendida de acordo com aspectos da imersão social, como a existência de relações sociais anteriores a formação da aliança. Da mesma forma, ao analisarmos a estrutura de governança dessas alianças, suas dinâmicas evolutivas e seus desempenhos, percebemos a existência de aspectos de ambas as abordagens. Nesse sentido, percebe-se que a o estabelecimento de arranjos cooperativos não se dá por acaso: há, por trás de uma aliança, a busca por ganhos de competitividade e eficiência. Contudo, não se pode desconsiderar o papel das relações sociais nas relações econômicas, pois ficou claro que, conforme afirma Granovetter (1973), os agentes econômicos estão imersos em uma teia de relações sociais que influenciam diretamente suas decisões.

A partir dos resultados deste estudo, apresentam-se as seguintes recomendações para estudos futuros:

1) Compreender mais a fundo até que ponto o estabelecimento de parcerias, em detrimento de formação de hierarquias ou da atuação de forma independente, se torna mais vantajoso no sentido de reduzir os custos de transação;

2) Analisar o papel da confiança no sucesso de uma aliança, que se mostrou, nos casos em questão, uma variável bastante influente para o desempenho das cooperativas;

3) Investigar os motivos que fazem com que muitas das possíveis vantagens que podem ser obtidas para as organizações que optam pela formação de alianças acabem sendo subutilizadas, conforme ficou claro nos casos abordados nesse trabalho.

Sobre as cooperativas em questão, os dados confirmaram a proposição de Waak e Machado Filho (1999), que afirmam que em cooperativas com grande número de cooperados, a grande diversidade de interesses pode gerar problemas de escala e

falta de foco em negócios. Dessa forma, sugere-se, no caso da Coopercam, uma redução no número de associados, mantendo apenas aqueles que atuam de forma mais efetiva. De acordo com os dados, isso já é uma tendência. Caso se concretize, facilitará a compra e venda em conjunto e o fortalecimento dos laços sociais de reciprocidade e confiança entre os parceiros, o que esse estudo mostrou trazer vários benefícios para a parceria.

No caso da Unipesca, aconselha-se a associação junto a alguns novos produtores, de maneira que essa cooperativa possa ter um volume de produção que justifique investimentos na produção de ração e pós-larva, como era a idéia inicial na formação da aliança. Contudo, é importante que essa adesão não faça com que a cooperativa fique demasiadamente inchada, gerando problemas de tamanho e falta de confiança entre os parceiros.

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