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A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre Tráfico de órgãos concluiu um relatório, em 2004, sobre vários casos envolvendo o comércio de órgãos no Brasil. Enumeraram alguns tipos de doação e os classificaram43, conforme se observa a seguir: a) doações entre parentes vivos;

b) doações de pessoas emocionalmente relacionadas com o receptor; c) doações altruísticas;

d) doações com incentivos para o doador (‘rewarded donors’); e) as doações recompensadas ou remunerada (‘rewarded gifting’);

f) comércio desmedido (como no caso de Recife-PE); e g) a doação por coerção criminosa.

Os três primeiros tipos de doação estão previstas pela legislação, enquanto que as quatro últimas categorias são mercantilistas. Nenhuma delas é aceita pelo ordenamento jurídico brasileiro, uma vez que, no país, existe um consenso majoritário no sentido da rejeição da venda de parte do corpo, mesmo em situação de extrema necessidade terapêutica de transplante. (RELATÓRIO DA CPI, 2004, p. 07)

O Brasil possui uma legislação voltada ao tráfico de órgãos ainda com lacunas, e o que parece é que esse discurso vem sendo utilizado por outros países para se discutir uma abertura para a discussão da compra e venda de partes específicas do corpo ainda em vida.

Nesse sentido, Berlinguer (1993, apud HELLMANN; FINKLER; VERDI, 2012, p. 125) descreveu o termo ‘Bioética Justificativa’ para apresentar algumas correntes da bioética. O comércio de partes de corpo seria legitimado como algo mais ‘leve’ e ‘moralmente válido’. A venda de partes do corpo seria chamada de rewarded gifting e o vendedor rewarded donor (doador remunerado). Para o autor, a nova denominação levaria a um comércio ainda considerado de altruísmo indireto, porque permitiria um “mercado humano mais digno entre doadores vivos que vendem órgãos específicos a compradores com os quais não possuem relação de parentesco”.

Vários argumentos de que a venda de órgãos seria em prol do bem comum estão elencadas abaixo, com um breve comentário a respeito:

a) a expectativa de diminuição da fila de espera para transplantes: nesse ponto, podemos considerar que há uma preocupação com os receptores de órgãos e não, com as condições de miséria que vivem os vendedores de órgãos, população muito numerosa nos países subdesenvolvidos, cada vez mais desesperada, frente à falta de perspectiva de melhoria de sua condição.

b) diminuição no número de problemas oriundos de transplantes clandestinos: não existe essa certeza de que a abertura para o comércio de órgãos diminuiria a ocorrência de transplantes clandestino. A argumentação centra-se novamente no receptor e não se destaca que uma pessoa que doa ou vende um rim pode ter sua expectativa de vida reduzida. (HELLMANN; FINKLER; VERDI, 2012, p. 127).

c) os transplantes a partir de doadores vivos são bem melhor sucedidos: o discurso é correto, procede a afirmação de que os transplantes renais possuem melhores resultados quando o doador é pessoa viva, no entanto, outra vez, evidencia-se o receptor do órgão. São considerações em defesa da comercialização, que, em momento algum pontua que a melhoria de vida de uns não pode justificar eticamente a diminuição da expectativa de vida de outros, isto é, dos ‘falsos doadores’ ou vendedores de órgãos, normalmente pessoas socialmente em situação de vulnerabilidade.

d) a diminuição dos custos envolvidos nos tratamentos dos pacientes que aguardam transplantes (como, por exemplo, a hemodiálise): essa alegação não parece tão plausível, porque em algumas situações, como nos casos de países em desenvolvimento, seriam afirmativas frágeis, porque ao passo em que se sacrificaria a saúde de populações mais pobres em detrimento da vida de algumas pessoas ricas com condições de arcar com o pagamento de transplantes, deixar-se-ia de incluir no debate ético sobre os transplantes as taxas de mortalidade nesses países, que poderiam ser combatidas com

medidas básicas de atenção primária. (HELLMANN; FINKLER; VERDI, 2012, p. 126). Que é custoso cuidar de pacientes que estão à espera de um transplante não resta dúvida, mas, do mesmo modo, o custo é também muito alto para as pessoas que sobrevivem marginalizadas, na pobreza extrema, esse prejuízo é para toda a vida.

e) o argumento de que a não liberação do comércio de órgãos humanos é um obstáculo ao desenvolvimento científico: os autores ressaltam que “garantir vantagens à economia era um dos mais populares argumentos sobre a importância da escravidão. O bem comum, necessário ao desenvolvimento econômico, era ainda considerado um ato de compaixão aos servos, do qual também se beneficiariam.” (HELLMANN; FINKLER; VERDI, 2012, p. 127). Os autores complementam: “No caso em pauta, os ‘novos escravos’ [vendedores de órgãos] ganhariam dinheiro e não morreriam de fome.”

Tais justificativas demonstram uma dicotomia entre pontos favoráveis e contra a comercialização de órgãos. Entretanto, colocam em foco apenas amenizar o sofrimento do receptor do órgão. Não existe qualquer argumento que demonstre que haverá uma melhoria da condição social ou econômica do doador, que ele ganhará um emprego através do qual poderá usufruir de uma vida plena com saúde e dignidade ou que indique que o doador estará a salvo da exploração de organizações criminosas. Certamente a legalização no todo ou em parte, parece apenas facilitar a vida de quem deseja um algo que, no momento, não dispõe.

Pela relevância do tema, há debates acerca da legalização, proibição parcial ou total do comércio de órgãos. Essa discussão ocorre, sobretudo, no âmbito na bioética. Existem algumas tendências discutidas em relação ao tráfico que se volta à extração de órgãos, sendo ainda pouco discutidas: a tendência Abolicionista, a Reguladora ou moderada e a Proibicionista, atualmente em vigor no país.

A primeira corrente, denominada ‘Abolicionista’, tem entre seus adeptos médicos e cientistas. Eles defendem a descriminalização total da compra e venda de órgãos, deixando a cargo do indivíduo a decisão por sua integridade, esta, porém, não é uma tendência muito aceita, exatamente pelas estatísticas dos relatórios internacionais indicarem que pessoas das periferias do mundo estão servindo de banco de órgãos para indivíduos ricos de países desenvolvidos que podem pagar por um órgão.

Aqueles que são a favor da legalização desse comércio, defendem o direito de usar seu corpo como desejar e justificam que esses órgãos aumentariam o número de transplantes, diminuindo a mortalidade na fila de espera. (ANDRADE, 2013, p. 570)

A segunda corrente, ‘Reguladora ou Moderada’, incentiva à doação com recompensas para o doador (‘rewarded donors’), ou a doação presenteada (‘rewarded gifting’). De acordo com Garrafa (2009, p. 03) desde a década de 80 há discussões internacionais, em especial promovidas pelos Estados Unidos (EUA), no sentido de discutir o mercado de órgãos e seus aspectos ético-legais. Inclusive, existe uma disseminação da ideia de ‘doadores gratificados’ (rewarded donors ou rewarded gifting). Para alguns, a utilização do sistema de compra e venda para resolver o problema de falta de órgãos resume-se a: “To buy or let die” (comprar ou deixar morrer).

Nestes casos, o doador receberia uma espécie de presente, isenções fiscais, algum pagamento, pela doação realizada a título de incentivo para outros igualmente agirem da mesma forma, mas recebendo uma recompensa pelo ato de vontade e coragem, e haveria todo um controle pelos órgãos públicos sobre tais práticas e sobre o pagamento aos doadores. Também seria realizada uma distinção de quais órgãos poderiam ser doados, como também descriminalizaria a venda de partes do corpo, cuja remoção não importasse em perda significativa para o doador, ou redução de sua capacidade laborativa, e de sua saúde, e exemplo de dentes, cabelo, dedo.

No entanto, há uma divisão de opiniões, segundo Garrafa (2009, p. 03), entre “uma minoria médica resistente a qualquer forma de comercialização e um grupo maior de defensores da abertura para o comércio de órgãos e estruturas através de várias formas.”

Infelizmente, observa-se a emergência de correntes de pensamento internacionais, entre pacientes, profissionais da saúde e filósofos, defendendo algum tipo de comercialização de órgãos, o que ameaça o humanitário

princípio da “doação” de órgãos, e tem potencial para aumentar as

desigualdades entre os povos e prejudicar a saúde dos indivíduos de menor poder aquisitivo. (RELATÓRIO DA CPI, 2004, p. 24)

Outro ponto negativo poderia ser a o declínio da confiança nos profissionais da saúde pública, devido ao potencial para favorecimento evidente para os receptores ricos. (MORELLI, 1995, p. 944-945)

A terceira corrente é a que atualmente se pratica no Brasil, ‘Proibicionista’. É considerada mais radical porque criminaliza totalmente qualquer tipo de comércio envolvendo órgãos humanos, tecidos e partes do corpo. Essa corrente, apesar de encontrar a maioria de adeptos, tem causado problemas às vítimas do tráfico, visto que

repreende excessivamente os mais pobres, pois os equipara aos verdadeiros criminosos, numa latente afronta ao princípio da igualdade que estipula um tratamento diferenciado aos desiguais.

Todas essas correntes trazem pontos positivos e negativos, porém, sustenta-se que o Brasil, ainda, não tem condições de sustentar as duas primeiras situações (Abolicionista e Moderada), porque a legislação em vigor no país precisa ser melhor discutida, as políticas públicas relativas à melhoria de condições econômicas, sociais e culturais precisam chegar às pessoas das periferias, a fim de que elas se fortaleçam e façam suas escolhas convictas das consequências. Também os órgãos de fiscalização necessitam de melhor aparato para dar suporte às vítimas e investigar a complexa rede do crime organizado que norteia o tráfico humano.

As vítimas do tráfico de órgãos no mundo ainda são pouco conhecidas. O seu perfil é traçado com base em casos já registrados, mas pouco se conhece psicologicamente sobre a percepção dessas vítimas quanto à sua própria situação, sobre o juízo de valor que fazem ao se lançarem na fila de ‘falsos doadores’ de órgãos, e quais os principais problemas que enfrentam após retorno como vítimas traficadas.

Estudos envolvendo a compreensão da vulnerabilidade das vítimas do tráfico de órgãos e até mesmo da complexidade do fenômeno ainda são pouco conhecidos no Brasil, principalmente “em razão da carência de estudos especializados sobre o tema e deficiente coleta e produção de dados e estatísticas relacionadas ao tráfico de pessoas” (PIOVESAN; KAMIMURA, 2013, p. 108).

Benzer Belgeler