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A Psicologia tem apresentado uma lógica desenvolvimentista, na qual há uma naturalização das etapas da vida. À Psicologia tem sido atribuída a responsabilidade analítica da adolescência, na perspectiva de uma análise mais individual, que parte do sujeito particular. Fica, assim, a juventude a cargo de outras disciplinas das humanidades, como a sociologia e a antropologia cultural (León, 2005).

Ao associar a adolescência a uma fase conturbada e difícil, a Psicologia acabou colaborando para legitimar uma série de concepções acerca do jovem. Tais concepções foram sendo reproduzidas pela sociedade, conferindo aos jovens características como imaturidade, irresponsabilidade e instabilidade, o que era visto como algo enraizado nas mudanças biológicas pelas quais passavam.

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Todavia, essa visão naturalizada não observa que os períodos de desenvolvimento são entidades produzidas socialmente. Gonzáles e Guareschi (2009) fazem uma crítica à lógica desenvolvimentista bastante presente na Psicologia, que estabelece características inerentes para cada uma das etapas da vida e que vê o desenvolvimento como um progresso contínuo

no qual o indivíduo, a partir de seus “estágios iniciais”, vai se desenvolvendo em etapas pré-

definidas rumo à maturidade do adulto.

Foi com a crença na transição dos indivíduos para uma maturidade que, segundo os autores, as ciências humanas e sociais produziram, do século XIX ao século XX, uma juventude de transição a ser controlada e diagnosticada como não maduros e portadores de fragilidades. Também a partir dessa crença, a juventude passou a ser caracterizada como um período de instabilidades e impulsividades, o que demandou atenção e vigilância (Gonzáles e Guareschi, 2009).

De acordo com Campos e Nascimento (2003), os especialismos técnico-científicos são produtores de um saber sobre os sujeitos. Estes saberes, tidos como neutros e objetivos, são vistos como superiores e qualificados em detrimento de outros saberes. Nesse sentido, a Psicologia, com seu instrumental, produziu saberes sobre os jovens, os quais auxiliaram no esquadrinhamento e classificação de suas condutas.

Durante a vigência do Código de Menores, a pobreza era encarada como uma patologia social, devendo ser tratada por medidas terapêuticas. A função da Psicologia no contexto da Doutrina da Situação Irregular era a produção de relatórios técnicos, nos quais se

registravam as causas da suposta “desagregação familiar” e estabeleciam-se diagnósticos que

determinavam o encaminhamento do jovem aos centros de recepção, triagem e observação (Martins e Brito, 2003).

Entre as décadas de 1960 e 1970 houve o que Coimbra (1995) chamou de “o boom da psicologia”: o governo militar promoveu uma reforma universitária, por meio da lei 5.540/68,

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com o objetivo principal de diminuir a pressão feita pela classe média para ascender socialmente via Universidade. Nesta reforma, o governo recorreu ao setor privado, autorizando a criação de cursos superiores a antigos colégios de 1º e 2º graus. Assim, houve um crescimento significativo de faculdades particulares.

Os cursos de Psicologia cresceram de forma expressiva nesse período e desde sua origem apresentaram marcas da tradição positivista: cientificidade, neutralidade, objetividade e tecnicismo. Quanto à profissão de psicólogo, esta foi regulamentada em 1962 e desde aí o profissional era visto como aquele que pode resolver problemas de desajustamento (Coimbra, 1995).

O psicólogo foi incluído no sistema de atendimento ao adolescente em conflito com a lei em 1964, com a criação da FUNABEM. Em sua maioria, as práticas psicológicas consistiam na elaboração de estudos de caso e laudos. Estes continham um olhar moral e periculosista sobre os conceitos de família, trabalho e moradia. Em casos de aplicação de medida de internação, a prática dos psicólogos era a de realizar avaliações e exames de personalidade para justificar o encaminhamento à medida (Martins e Brito, 2003).

Diante do exposto, faz-se necessário que os psicólogos inseridos no atendimento aos jovens que cumprem medida socioeducativa rompam com essa prática que teve início no contexto da Doutrina da Situação Irregular. De acordo com o CFP (2010), o desafio para o psicólogo na unidade de internação é contribuir para planejar, organizar e avaliar o cotidiano institucional, de forma que propicie experiências educacionais e terapêuticas significativas para os adolescentes e jovens. Sua atuação deve sempre levar em conta os processos de subjetivação dos jovens que cometeram o ato infracional.

A este respeito, Vicentim (2005) traz uma discussão sobre o ato infracional como um meio de luta pela própria vida. Segundo os estudos desta autora, o jovem que comete ato infracional passa muitas vezes por um processo de socialização em que impera a lei da força:

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tudo o que possui foi conseguido por violência e tudo o que lhe foi retirado também o foi por violência. Este tipo de vida produziria e reproduziria o ato infracional como um meio de luta pela vida.

É neste sentido que a autora traz a visão de que estes jovens são porta-vozes dos dramas e das contradições sociais e de que seus mecanismos de resistência constituem uma oposição ao conformismo relativo ao processo de institucionalização e um conjunto de esforços para a preservação dos fatores que compõem sua subjetividade.

Este aspecto da subjetividade dos jovens que cometeram ato infracional tem sido alvo de publicações em Psicologia. Yokoy e Oliveira (2008), por exemplo, investigam processos de subjetivação e institucionalização de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de semiliberdade. Por meio de observações etnográficas e entrevistas narrativas autobiográficas, as autoras interpretam as trajetórias de desenvolvimento e os contextos de subjetivação e institucionalização dessa adolescência.

Tavares (2011) faz uma discussão sobre como são produzidas subjetividades

criminosas, partindo da ideia de “dispositivo da criminalidade”, que é caracterizado como um

diagrama de forças que se atualiza por desdobramento nas instituições carcerárias, se constituindo como uma das principais ferramentas de controle social no mundo globalizado.

A temática da criminalização da juventude pobre também tem sido estudada em Psicologia também a partir da utilização da Análise do Discurso. Sartório e Rosa (2010), por exemplo, analisando processos judiciais de Varas da Infância e Juventude de duas cidades brasileiras, identificaram discursos de proteção e de punição, e perceberam que a questão social é comumente ignorada pelos operadores jurídico-sociais. Já Rosário (2004) aborda as possibilidades de intervenção junto a adolescentes que cumprem medida socioeducativa de privação de liberdade, trazendo as relações institucionais, os discursos dos adolescentes e a busca de uma identidade.

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Há também publicações de relatos de experiência de práticas de psicólogos em instituições de medidas sócio-educativas, como o estudo de Soares (2011) que relata a atuação do psicólogo em um projeto cultural direcionado às instituições socioeducativas. Segundo o autor, o papel do psicólogo nas relações com os jovens que cometeram ato infracional caracteriza-se como o de facilitador dos processos coletivos, proporcionando a construção de uma rede de gestão de atividades em prol da defesa dos seus direitos fundamentais.

Diante do exposto, para tentar uma Psicologia que atue de forma a respeitar os direitos dos jovens, é essencial olhar a juventude de uma forma nova, como uma novidade inscrita no espaço público, que é também espaço político e que interrompe processos automatizados e totalizantes. Faz-se importante também pensar em uma prática pautada na ética, que proponha alternativas educativas e sociais a medidas penais, dando lugar às forças de resistência traçadas pelos jovens, e estreitar os laços entre ativistas e pesquisadores, entre profissionais e a academia (Gonzáles e Guareschi, 2009; Vicentim, 2009).

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CAPÍTULO II

Benzer Belgeler