1.2 AB’DE KOBİ’LER
1.2.3 AB’de KOBİ’leri Geliştirmeye Yönelik Politikalar ve Teşvikler
Antes de adentrarmos a identificação do estilo de samba partido-alto, vale conhecermos um pouco da origem da expressão, aqui cunhada por Tinhorão (1998, p.282):
A expressão partido alto, aparentemente enigmática, serve para evidenciar [...] a ligação do rural ao urbano no Brasil: partido aí não é a agremiação política mas o nome que na zona açucareira se dava (e em vários pontos do país ainda se dá) à área de terra plantada de cana atribuída a alguém para exploração sob sua responsabilidade, geralmente em terra alheia. Do maior ao menor rendimento dos partidos resultava a maior ou menor prosperidade de seus detentores e, assim, gente do ―partido-alto‖ ficava sendo a que melhores resultados conseguia. Entre os pioneiros do samba carioca ligados à época de preeminência dos baianos, a ―gente do partido-alto‖ era formada, de fato, pelos mais experientes e mais conhecedores das coisas populares da comunidade, em geral, os mais velhos, e, por isso mesmo, mais respeitados‖.
Obviamente que, num meio marcado pela oralidade e, por isso, carregado da imprevisão, da imprecisão, qualquer definição deve ser considerada em sua relação com o contexto e com outros olhares. Por outro lado, o que Tinhorão (1998) aponta remete a uma característica presente nas rodas de partido: um respeito à hierarquia. Relembro, aqui, as palavras de Tantinho da Mangueira (2004) que, em seu depoimento, disse que se chegasse em uma roda e lá estivesse Xangô da Mangueira, ele jamais iria entrar sem permissão ou sem ser convidado, porque reconhecia em Xangô um mestre do partido.
Um dos estudos mais abrangentes sobre o partido-alto é o do sambista e pesquisador Nei Lopes (2005) em Partido-alto: samba de bambas. Trata-se de uma revisitação do cotidiano dos redutos negros da cidade do Rio de janeiro, no início da República – os morros, os subúrbios, a zona portuária. É nesses espaços que se integraram as pessoas vindas do interior do estado com os que vieram do nordeste e de Minas. Essa integração de diferentes raízes culturais permite ver as conexões entre o samba de partido-alto, o repente nordestino, o calango mineiro. Eles se aproximam pelo improviso dos versos, pela dinâmica do desafio. Com essa base, Lopes (2005) define o partido-alto, apresentando as variações que ocorrem dentro do próprio estilo. Para o autor, o partido-alto do passado seria
uma espécie de samba instrumental e ocasionalmente vocal (feito para dançar e cantar), constante de uma parte solada, chamada ‗chula‘ (que dava a ele também o nome de samba-raiado ou chula-raiada), e de um refrão (que o diferenciava do samba corrido). Modernamente, espécie de samba cantado em forma de desafio por dois ou mais contendores e que se compõe de uma parte coral (refrão ou ―primeira‖) e uma parte solada com versos improvisados ou repertório tradicional, os quais podem ou não se referir ao assunto do refrão. [...] Entretanto, transcendendo qualquer aspecto formal, partido-alto é, sobretudo, o samba da elite dos sambistas, bem-humorado, encantador e espontâneo. (LOPES, 2005, p.27)
O samba de partido-alto é o principal representante de certa ancestralidade das matrizes do samba, o que se evidencia de diversas maneiras. Esse pesquisador considera o samba de partido o estilo mais complexo e criativo dentro do gênero.
Quanto à sua formação, [...] o partido é o resultado do cruzamento de diversas práticas musicais e coreográficas que formavam no início do século XX aquilo que José Ramos Tinhorão chamou de um ―verdadeiro laboratório de experiências fragmentadas de usos e costumes de origem rural‖ na cidade do Rio de Janeiro (1998:265). Entre essas práticas, destacam-se as chulas, o lundu, o samba rural paulista, o samba de roda baiano e o calango, gênero de grande força principalmente no interior da região Sudeste, que também apresenta características de improviso e disputa entre os versadores. Todas essas misturas processadas em solo carioca moldaram o perfil e as características do partido desde suas primeiras ocorrências até seus desdobramentos atuais. (LOPES, 2005, apud NOGUEIRA, 2014, p.24)
Esses entrecruzamentos de diversas práticas musicais certamente conferiram a esse estilo variações estilísticas, mas com uma base. ―O partido-alto é um tipo de samba e, como tal, corresponde à definição mais ampla do gênero tanto no aspecto sonoro quanto no rítmico‖. A peculiaridade do samba de partido está no fato de que, enquanto o samba, em geral, pode ser acompanhado por uma variedade de instrumentos de percussão, cordas e sopros, o partido requer pouca configuração sonora, ―sendo privilegiados a marcação do pandeiro e o suporte harmônico do violão e do cavaquinho‖. Além disso, pelo fato de ser ―uma canção em forma de desafio, os instrumentos acompanhadores do partido permanecem em um papel secundário no panorama geral de sua sonoridade, uma vez que há um grande destaque para o improviso do solista‖ (NOGUEIRA, 2014, p.25). A sonoridade é, assim, uma particularidade do samba de partido-alto em relação aos demais estilos de samba, mas não é a única.
Como já demonstrado aqui, o samba que se desenvolveu no Rio de Janeiro se constrói por um padrão polirrítmico, baseado primordialmente (mas não exclusivamente) no paradigma do Estácio (SANDRONI, 2001), executado simultaneamente a um instrumento médio-agudo de condução (pandeiro ou ganzá) e a um surdo atacado no contratempo.
Por sua vez, o samba de partido, que é um estilo que se constitui numa formação mais moderada que o modelo referencial, costuma usar como célula básica uma variante do paradigma de Estácio, executada especialmente pelo pandeiro.
Essa levada caracteriza-se por substituir a continuidade do pandeiro de condução, o que resulta em uma percepção mais quebrada, mais ―dura‖, interrompida, partida. Apesar de a repetição da levada representar um
elemento de continuidade, os cortes mais agudos dos ataques do pandeiro parecem ―frear‖ a continuidade rítmica. A levada de partido-alto associa-se ainda a um andamento mais lento, favorecendo o desenvolvimento do canto tanto do coro quanto da parte versada. (NOGUEIRA, 2014, p.26)
Essa ‗levada‘ é uma peculiaridade do partido-alto, mas não é o bastante para defini-lo, pois não é uma regra fixa, já que nada impede que acompanhamento ocorra a partir do padrão polirrítimico do samba, baseado no Paradigma de Estácio. É o que vemos, por exemplo, em Moro na roça, cantada várias vezes por Xangô, nos vídeos do Puxando Conversa.
Se o referencial rítmico e a sonoridade não são suficientes para definir o samba de partido, temos o recurso da alternância entre solo e coro (refrão), que, embora esteja presente em várias práticas musicais, não exclusivamente no partido-alto, é nele que essa prática ganha especificidade, visto que a canção está no refrão, em torno do qual se revezam segundas partes improvisadas.
É sabido que a adoção de segundas partes fixas e estáveis no samba é um fenômeno que se processou a partir do desenvolvimento de um mercado de gravações musicais, onde a autoria determinada se sobrepôs à criação coletiva e consagrou a forma canção popular como a conhecemos atualmente. Assim, deve-se destacar que as matrizes estéticas do que se popularizou como samba foram construídas a partir de uma concepção de música popular que prescindia de segunda parte. Em outras palavras, a música era o refrão. Este fato pode ser evidenciado tanto na prática do partido como na prática do samba de terreiro, que com freqüência apresenta uma primeira parte forte e cantada em coro e uma segunda parte de estrutura melódica mais estável, porém livre para improvisos. (NOGUEIRA, 2014, p.26)
Considerando essas informações, a autora, em sua pesquisa, conclui que
Possivelmente o que caracteriza com maior eficácia o partido-alto é a presença desta segunda parte improvisada, isto é, ―tirada‖ ou ―versada‖ na hora, no momento da performance. Nesse sentido, o improviso está relacionado a uma habilidade de raciocínio rápido do versador em criar soluções poéticas convincentes respeitando a métrica da canção, as rimas baseadas no refrão e, muitas vezes, mas nem sempre, a sua temática. O caráter de desafio é elemento de grande relevância, pois instaura uma determinada ambiência social nas rodas de partido-alto baseada numa competição recheada de provocações, piadas, jogos de linguagem e muita criatividade. O versador ou partideiro é, portanto, figura de grande respeitabilidade nos circuitos de samba, sendo admirado por seu pensamento ágil. (NOGUEIRA, 2014, p.26-27)
Realmente, como já afirmou Lopes (2005), compor e cantar partido-alto não é para qualquer um. A dificuldade está, principalmente, em improvisar versos, amarrando-os ao tema e dentro do tempo da música. O autor ressalta que esse estilo, que começou nas festas religiosas do jongo, batido nos tambores, especialmente, ganhou
notoriedade no mercado fonográfico, como um ―partido estilizado‖, pois sambas inspirados na tradição do partido foram gravados, sem o improviso, para ter maior transitividade comercial. Martinho da Vila fez muito sucesso, a partir dos anos 1960; e esse estilo continua a impulsionar a carreira de muitos sambistas, como Zeca pagodinho, Dudu Nobre, Arlindo Cruz, que se destacam tanto no improviso quanto no partido estilizado, entre outros e outras sambistas.
Nei Lopes (2005) entende, ainda, que, embora seja o estilo de samba de menor apelo comercial, o partido-alto é o que vivifica as interações de partideiros anônimos, nos pagodes do Rio de janeiro, capazes de ficar horas nesse desafio, e isso independe do mercado (discos, palco). O partido-alto depende, sim, da prática da roda de samba.
Em entrevista, Lopes28, ao destacar alguns de seus estudos sobre o partido-alto, explica por que afirma que o samba de partido-alto é samba para grandes sambistas. Ele ressalta que o estilo requer maior criatividade, picardia e bom humor, tanto no fazer quanto no interpretar. Conta, ainda, que ―grandes compositores que tentaram fazer, pensaram que estavam fazendo, e não conseguiram - porque não dominam o código intrínseco desse tipo de samba, mesmo o estilizado‖. Há, alguns que se destacaram, como os já citados Zeca, Arlindo e Dudu Nobre e, mais recentemente, Xande de Pilares, mas ―de partideiro anônimo, desses que seguram uma roda de improviso durante horas, os pagodes cariocas estão cheios‖.
Nessa entrevista, ele aponta as regras do partido, que, como explica, não são rígidas: no partido-alto, a única regra é ―improvisar de acordo com o tema proposto no refrão‖ porque ―o partido é brincadeira; não é igual ao repente nordestino, que é aquela coisa rígida, fechada, cheia de regras. A cantoria do samba não é desafio: é brincadeira, sacanagem‖. Ao comparar com o repente e dispor sobre as diversas influências, ressalta as peculiaridades desse estilo: ―nele importa mais o balanço, a ginga de samba, a batucada, que se consegue quando, por exemplo, se criam rimas emparelhadas, rimas internas dentro dos versos. O verdadeiro partido-alto busca mais o efeito rítmico‖.
Um dos maiores representante desse estilo, reconhecido por estudiosos do samba, como o próprio Nei Lopes, e por seus pares, é Xangô da Mangueira. No Puxando conversa, ele apresenta alguns de seus partidos, como o já citado Moro na
28 Em entrevista a Bruno Ribeiro, para o Caderno C. Em Campinas, dezembro de 2005. Disponível em
roça (Adaptação de tema popular, de Xangô e Zagaia), e principalmente, Isso não são horas, composição sua, de Catoni e de chiquinho, e que foi cantado em diversos momentos, com a participação de vários partideiros que estiveram presentes no projeto. Interessante, ainda, ver a percepção de Xangô, em um desses programas gravados, quando ele indica ao percussionista qual era a variação de pandeiro daquele partido.
Isso não são horas De você chegar Só pra me contrariar Eu vou lhe abandonar
Já estou cansado de penar (eu falei pra você)
Obra da fatalidade um acontecimento na vida real Pois o homem que é homem não chora, a mulher vai Embora, isso é natural
Essa mulher não me ama, essa mulher não me adora Quando ela me vê no samba, não sei porque que ela Chora (isso não são horas...)
Refrão
Naquelas flores se encontram a liberdade da sorte Uma se encontra na vida,a outra se encontra na morte Alecrim na beira d'água chora a terra em que nasceu Eu também tenho chorado pelo amor que foi meu (isso Não são horas...)
refrão
Sant'antônio pequenino é um santo sabidão
Pedi uma cabrocha pra mim, ele mandou uma porção A mulher para ser minha, tem que ser namoradinha Come pão com banana em casa e diz pra vizinha que Comeu galinha (isso não são horas...)
Nos encontros do projeto, esse partido ganhou estrofes das mais variadas formas, trazendo traços da vida cotidiana, buscando, na maioria das vezes, uma sintonia com o refrão. Mas isso tudo só ganha vida ao ouvirmos a música cantada, especialmente nesses momentos de improviso. É aí que o partido-alto se constrói e se reinventa.
Cabe, ainda, ressaltar que esse estilo, geralmente, segue quatro jogos rítmicos: versos monorrímicos, que repetem a mesma rima; versos em duque, estrofe de quatro versos, dois dísticos, em rimas emparelhadas; versos em quadra, estrofe de quatro versos, com rimas alternadas; sextilha, estrofe de seis versos, com flexibilidade rímica. Essa característica revela que ―na roda de partido-alto há um amálgama da cultura negra e da cultura européia. O ritmo e a dança, de claras raízes africanas, mesclam-se com formas de versificação portuguesa, surgindo, então, uma expressão artística de caráter brasileiro‖ (NOGUEIRA, 2014, p.51)