Observemos inicialmente o que dizem os pesquisadores brasileiros Eni Orlandi e Marcelo Dascal no que concerne ao discurso polêmico. Orlandi (1987) faz uma distinção entre três grandes tipos de discursos: o lúdico, o polêmico e o autoritário. O discurso lúdico privilegia a pluralidade de sentidos e tende a apagar a dominância de um dos sentidos em relação aos outros; o discurso polêmico põe em relação uma disputa entre os sentidos, em que o privilégio conferido a um deles é negociado e fundamentado; e o discurso autoritário, que absolutiza um dos sentidos em jogo “de tal maneira que ele não se torne apenas o dominante, mas o único”.
Dascal (1998), no âmbito do discurso científico, elaborou uma “tipologia geral das polêmicas”, que as divide em três grandes tipos: a discussão, a disputa e a controvérsia. A
discussão tem como objetivo determinar a verdade dos fatos e para isso serve-se da prova.
Refere-se a um tipo de polêmica no qual os adversários partilham hipóteses, métodos e metas que lhes permitem resolver a situação divergente. Na disputa (os “diálogos de surdos”) o objetivo é apenas a vitória, mas, por outro lado, aqui não se faz ou não é possível fazê-lo
95 Uma bibliografia panorâmica com artigos e obras sobre o discurso polêmico, principalmente na área das ciências da linguagem e da comunicação, mas também no campo dos estudos literários e das ciências políticas, pode ser encontrada no endereço:
<http://www.tau.ac.il/~adarr/index.files/bibliographies/discourspolemique.htm>. Acesso em: 05 ago. 2012. Também no livro États du polémique, Dominique Garand (In: HAYWARD; GARAND, 1998, p. 269-322) apresenta uma bibliografia comentada sobre o(a) polêmico(a) nos estudos do domínio francófono a partir de 1973.
nenhum esforço mais forte que leve o oponente a mudar de posição. Não se chega à decisão por convenção racional, podendo acontecer por uma intervenção externa: um mediador, um sorteio ou o tribunal. Os adversários aceitam a decisão imposta, mas não mudam sua convicção sobre o detentor da razão. O recurso adotado para “ganhar” do oponente é o
estratagema, utilizado com o objetivo de silenciar o adversário, fazendo com que o auditório
pense que ele tenha sido derrotado. Esse tipo de polêmica, com caráter irracional e emotivo, não atende às leis da lógica, apesar de utilizar inferências lógicas. Na controvérsia, que tem por base divergências fundamentais entre posicionamentos, o objetivo do enunciador é convencer o auditório e se serve do argumento para atingir sua meta. A natureza da
controvérsia é complexa; sendo “longa, declarada, não conclusiva e reciclável no curso da história”, difere-se tanto da discussão, que alcança uma decisão, quanto da disputa, de caráter verdadeiramente indecidível, pois de caráter irracional ou emotivo.
Com relação a essas duas abordagens, é forçoso afirmar, no que diz respeito a Orlandi, que no caso do discurso verbomusical e de meu corpus específico, a aplicação separada da classificação triádica da autora fica comprometida, visto que as canções de Belchior analisadas (discurso lúdico) apresentam características ao mesmo tempo do discurso polêmico (colocam o outro em questão) e do discurso autoritário (o cancionista pretende demarcar sua posição).
No que concerne à segunda abordagem, não faz parte dos interesses da tese fazer uma tipologia das variadas formas de manifestação de uma violência verbal ou de uma refutação do discurso e da pessoa do outro, à semelhança do projeto de Dascal. Assim, o que poderia ser chamado discussão, disputa ou controvérsia (DASCAL, op. cit.)96 será generalizado aqui como discurso polêmico.
Para conceituação do discurso polêmico, adoto basicamente as perspectivas de Charaudeau, Kerbrat-Orecchioni, Angenot e Maingueneau, e a partir delas definirei os elementos “sujeitos e objetos” (e suas funções) constitutivos da polêmica a serem analisados na tese (sujeito-agente, sujeito-paciente e sujeito-espectador; arquienunciadores,
adjuvantes e temas).
Para Charaudeau (1998), a categoria polêmica está relacionada a outras, entre as quais “estratégia polêmica”, “atitude discursiva polêmica” e “relações polêmicas”, sendo esta última expressão adotada por mim para abranger o objeto polêmico analisado na tese. Em todas essas ocorrências, o que importa é considerar como polêmico os casos em que o locutor implica o interlocutor em sua enunciação, usando argumentos que põem em questão esse
96 Contudo, ao olhar para o corpus da tese segundo a tipologia de Dascal, creio que o caráter complexo da controvérsia seria o melhor aplicável aos textos das canções de Belchior.
interlocutor como pessoa (argumentos ad personam) e como sujeito que defende (e apega-se a) uma posição, a qual é contestada pelo locutor (argumentos ad hominem). Charaudeau distingue ainda a simples troca de argumentos sobre um tema (a exemplo de um evento acadêmico) de um debate polêmico, que envolve a troca de argumentos que colocam o outro em questão (como nos debates da Política).
Para Kerbrat-Orecchioni, no texto “La polémique et ses définitions” (1980)97, “le discours polémique est un discours disqualifiant, c’est-à-dire qu’il attaque une cible (…), et qu’il met au service de cette visée pragmatique dominante – discréditer l’adversaire, et le discours qu’il est censé tenir – tout l’arsenal de ses procédés rhétoriques et argumentatifs”98 (op. cit., p. 07).
Angenot (1978, p. 255-264), ao falar do discurso polêmico (sátira, panfleto, manifesto, carta aberta, editorial)99, afirma que a polêmica “suppose un contre-discours antagonique présent de façon constante dans la trame du discours actuel, lequel vise dès lors une double stratégie: démonstration d’une thèse, réfutation/disqualification d’une thèse adverse”100 (op.
cit., p. 260). (Chamo a atenção desde já para o fato de que, na tese, considero as pesquisas de
Angenot sobre o discurso polêmico de forma generalizada, sem adotar as especificidades dos variados tipos de polêmica (sátira, panfleto etc.) classificados pelo autor).
Por outro lado, se consideramos a responsividade do discours actuel e polêmico, ele já nasce também como um contradiscurso, na medida em que, na gênese mesma desse discurso, já se ouvem as respostas aos discursos anteriores a ele, mostrando que existem outras
alternativas a um discurso de modo geral colocado como dominante pelo discurso atual.
Pode-se afirmar também que aquilo que Angenot classifica de discours actuel (discurso atual) equivaleria ao conceito de discurso-agente na definição de Maingueneau, ou seja, a enunciação segunda que contesta uma enunciação anterior, como comentarei mais à frente.
Para Angenot (op. cit., p. 261), “le discours polémique général supposait un drame à trois actans: la ‘vérité’, l’énonciateur et l’adversaire”101. No entanto, o autor observa que, na
97 Como todas as citações da autora Kerbrat-Orecchioni serão retiradas dessa obra, passarei a indicar de agora em diante apenas a paginação do trecho referido. Nas citações desse texto adotarei a versão on-line, cuja paginação é 01-27.
98 “o discurso polêmico é um discurso desqualificador, o que quer dizer que ele ataca um alvo (…), e que ele põe a serviço desse objetivo pragmático dominante – desacreditar o adversário e o discurso que se presume ser sustentado por ele – todo o arsenal de seus procedimentos retóricos e argumentativos”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original, mantendo os destaques da autora.
99 Nesse artigo, Angenot apresenta um rascunho das ideias desenvolvidas no livro La parole pamphlétaire (1982), no qual realiza uma “tipologia do gênero panfleto moderno”.
100 “supõe um contradiscurso antagônico presente de maneira constante na trama do discurso atual, o qual visa desde então uma dupla estratégia: demonstração de uma tese, refutação/desqualificação de uma tese adversa”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original, mantendo os destaques do autor.
101 “o discurso polêmico em geral suporia um drama com três actantes: a ‘verdade’, o enunciador e o adversário”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original, mantendo os destaques do autor.
análise do discurso polêmico, não se trata de encontrar A verdade, visto que a polêmica “se refère implicitement à une opinion (doxa)”102 (op. cit., p. 259), o que faz de seu caráter fundamentalmente doxológico e ao mesmo tempo persuasivo. Como mostrou Aristóteles, na Retórica, domínio da opinião e do provável, o ponto de partida de qualquer argumentação não são as premissas verdadeiras, mas sim as verossímeis. “O campo da argumentação é o do verossímil, do plausível, na medida em que este último escapa às certezas do cálculo” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, op. cit., p. 01). Nesta, predomina o raciocínio argumentativo, em contraposição ao demonstrativo, desenvolvido no âmbito da Dialética.
Situar a polêmica no campo da opinião, implica que
la polémique trouve son terrain d’élection dans celui des convictions et des croyances. Elle se développe entre concitoyens, lorsque les tensions civiles, politiques ou religieuses [et aussi artistiques] déterminent la formation de groupes antagonistes. Elle vise à affaiblir l’adversaire, non pas en poursuivant l’illusion de le réduire par la plume, mais en convoquant un arbitre qu’elle prend pour véritable destinataire: l’oppinion, la masse silencieuse de ceux qui n’ont pas pris et qu’il faut gagner.103 (MESNARD,
in: VÁRIOS AUTORES, 1985, p. 127)
Portanto, na via do discurso, as convicções e as crenças do orador nem sempre encontram o caminho livre para chegar ao auditório, pois “dans la polémique, l’enchaînement des ‘raisons’ est perturbé par l’existence d’une parole antagonique qu’il s’agit de réduire au silence ou de circonvenir”104 (ANGENOT, op. cit., p. 260). E é aí que está a natureza das tensões, própria das relações polêmicas.
Nesse ponto, pode-se encontrar outra ligação entre as ideias de Angenot e as de Maingueneau. Para o primeiro, “la vérité n’appartient pas à l’essence de son jugement, mais à la position”105 (ANGENOT, op. cit., p. 260). O que para Maingueneau significa que cada
posicionamento vai criar a partir de um lugar específico, e de sua doxa, a verdade de seu
discurso. Sobre o discurso polêmico, Angenot resume: “il est à la fois recherche d’une vérité opiniable (où il s’agit d’obtenir l’adhésion des esprits à une suite de propositions) mais il est
102 “refere-se implicitamente a uma opinião, a uma doxa”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original, mantendo os destaques do autor.
103 “a polêmica tem seu fundamento nas convicções e nas crenças. Ela se desenvolve entre os cidadãos, quando as tensões civis, políticas ou religiosas [e também artísticas, segundo revela o objeto da tese] determinam a formação de grupos antagonistas. Ela visa enfraquecer o adversário, não seguindo a ilusão de reduzi-lo com uma pena, mas convocando um árbitro que ela toma como verdadeiro destinatário: a opinião, a massa silenciosa daqueles que não tomaram posição e a quem se deve ganhar”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original.
104 “na polêmica, a sequência de ‘razões’ é perturbada pela existência de uma palavra antagônica que ela trata de reduzir ao silêncio ou burlá-la”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original, mantendo os destaques do autor.
105“a verdade não faz parte da essência do seu [do sujeito que enuncia] julgamento, mas está ligada a uma posição”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original.
aussi un acte, une prise de position dans un univers discursif qui n’est pas homogène, par définition”106 (op. cit., p. 260).
Agora, passo especificamente às pesquisas de Dominique Maingueneau acerca do discurso polêmico. Ao longo dos anos de 1970, o teórico trabalhou em uma semântica dos discursos devotos do século XVII, o que culminou nos resultados mostrados em sua tese de doutorado, concluída em 1979, mas somente publicada em 1983 com o título de Sémantique
de la polémique. O livro tem o objetivo de estudar teórica e empiricamente, por meio de uma
análise minuciosa, textos pertencentes a duas formações discursivas antagonistas e dominantes, uma a cada época. Neste momento, é oportuno trazer à cena o livro Genèses du
discours (MAINGUENEAU, 2005b [1984]), elaborado a partir de uma solicitação de Michel
Meyer para a Coleção Philosophie et Langage, que se constitui em uma reflexão a posteriori concernente às ideias postuladas na tese de Maingueneau sobre o discurso polêmico. Nessa obra, recebida como inovadora, em uma época de prevalência do movimento althusseriano da análise do discurso – dominante até então na França – Maingueneau, considerando o mesmo
corpus de Sémantique de la polémique, propõe novas formas e conceitos para se pensar o
discurso, com ênfase sempre na teoria discursiva. Algumas noções novas que foram introduzidas no segundo livro são as referentes a práticas discursivas, comunidades
discursivas, ethos e cena de enunciação. Desde já, é importante dizer que, nessa obra, muitos
dos conceitos utilizados foram posteriormente reformulados pelo autor. É o caso, por exemplo, da noção de formação discursiva, hoje preterida pela ideia de posicionamento, como foi destacado no capítulo 2 referente à identidade do cancionista. Para Maingueneau (1983), a relação polêmica é considerada como fenômeno constitutivo das relações entre formações discursivas distintas. Ao analisar o funcionamento da polêmica entre os discursos jansenista e
humanista devoto, o pesquisador defende a tese do “primado do interdiscurso sobre o
discurso”, segundo a qual um discurso sucessor vai se constituir necessariamente a partir da exploração dos espaços deixados pelos discursos anteriores. A polêmica é, portanto, introduzida como o lugar da “interincompreensão”, ou de uma não resolução das controvérsias do discurso. “Uma maneira de explicar essas controvérsias sem solução é postular uma “interincompreensão” constitutiva, cada um dos posicionamentos se definindo por uma relação regrada com outros, cuja identidade é tacitamente conservada”
106“ele é ao mesmo tempo a busca de uma verdade opinativa (pela qual ele trata de obter a adesão dos espíritos a uma série de proposições), mas ele é também um ato, uma tomada de posição em um universo discursivo que não é homogêneo, por definição”. Tradução de minha responsabilidade, direto do original, mantendo os destaques do autor.
(MAINGUENEAU, 2005b [1984]; e MAINGUENEAU, in: MAINGUENEAU; CHARAUDEAU, 2004, p. 380).
Por esse caminho, os posicionamentos externos negados (os posicionamentos dos outros discursos) criam limites para a posição atual107 que será instituída como interna e que fundará um novo posicionamento, o qual vai se instaurar a partir do constante diálogo polêmico com os posicionamentos anteriores. Maingueneau destaca ainda que, nessa comunicação entre um discurso atual e os discursos passados, uma identidade discursiva (um posicionamento) não lidaria de fato com o Outro propriamente dito, mas, ao contrário, com uma construção particular desse Outro, com um simulacro108, operacionalizada a partir de um processo de tradução109. E é exatamente a tradução de um discurso pelo seu oponente constitutivo que está na base do fenômeno da interincompreensão.
Nesse quadro, a relação polêmica, no sentido mais amplo, longe de ser o reencontro acidental de dois discursos que se teriam instituído independentemente um do outro, é de fato a manifestação de uma incompatibilidade radical, a mesma que permitiu a constituição do discurso. (MAINGUENEAU, 2005b [1984], p. 22)
Vimos que de acordo com as ideias apresentadas tanto em Sémantique de la polémique (1983) como em Genèses du discours (2005b [1984]), a polêmica é postulada como uma ausência de compreensão interdiscursiva constitutiva de todo e qualquer discurso, tese que também emprego na análise de meu objeto: a constituição da identidade do cancionista Belchior em seu processo de tradução da identidade dos cancionistas Caetano Veloso, Chico Buarque de Hollanda e Gilberto Gil.
De acordo com Maingueneau, a categoria polêmica pode ser distinguida em dois aspectos, entre os usos substantivo (“uma polêmica”) e adjetivo (“um texto polêmico”) (MAINGUENEAU, in: MAINGUENEAU; CHARAUDEAU, 2004, p. 379-381). “Como substantivo, uma polêmica é uma sucessão mais ou menos longa de textos que se opõem sobre uma ‘questão’, um tema, um debate ou uma rede de questões conexas”110. “Como adjetivo, ‘polêmico’ refere-se a um certo regime (organização) do discurso em que a fala tem
107 Confrontar com a noção de discurso atual, para Angenot (1978), comentada acima.
108 Segundo Possenti, Maingueneau “torna inteligível porque a polêmica implica a leitura do Outro na forma do simulacro” (Apresentação de MAINGUENEAU, 2005b [1984], p. 09).
109“Cada um conduz o Outro em seu fechamento, traduzindo seus enunciados nas categorias do Mesmo e, assim, sua relação com esse Outro se dá sob a forma do ‘simulacro’ que dele constrói” (MAINGUENEAU, 2005b 1984], p. 22), mantendo os destaques do autor.
110 Kerbrat-Orecchioni (op. cit., p. 16) em seu texto “La polémique et ses définitions” já havia observado que “lorsqu’on parle d’une polémique, cela implique l’affrontement de plusieurs textes polémiques” (quando se fala de uma polêmica, isso implica o confronto de vários textos polêmicos). Tradução e destaques de minha responsabilidade, direto do original.
um claro objetivo de refutação. No âmbito do emprego substantivo da palavra “polêmica”, Maingueneau (1997, p. 124 e 125) fala ainda de uma memória polêmica, constituída pelo conjunto dos embates anteriores e atuais acerca de uma questão controversa, o que implica nesse tipo de polêmica que ela acontece em uma temporalidade, e devido a isso é que analiso o discurso polêmico empreendido por Belchior em uma cronografia que começa na década de 1970 e vai até a década de 1990. Em síntese, na análise do corpus da tese, aplico essa distinção da polêmica em seu uso substantivo e adjetivo, considerando tanto a sucessão das canções em uma cronologia consideravelmente longa, qual seja, 1974 a 1993 (uso substantivo do termo polêmica), quanto o caráter refutativo das canções de Belchior, bem como a própria natureza de seu discurso (uso adjetivo do termo polêmica).
Maingueneau (1997 [1987], p. 123; 2005b [1984], p. 112) classifica a polêmica em dois níveis, um nível dialógico constitutivo, que corresponde a uma dimensão constitutiva do discurso (semelhante ao dialogismo bakhtiniano e à heterogeneidade constitutiva de Authier- Revuz), e um nível dialógico mostrado ou polêmico propriamente dito, que equivale à heterogeneidade mostrada de Authier-Revuz. A citação seria portanto, segundo o autor francês, um dos exemplos mais patentes de manifestação da polêmica.
Na tese, como venho explicitando ao longo deste trabalho, dou continuidade ao propósito da dissertação, no sentido de analisar a manifestação do discurso de outros cancionistas dentro das canções de Belchior. Esse gesto implica, então, em atentar para as formas de heterogeneidade mostrada marcada e não marcada. Recapitulando, no capítulo 2, sobre a identidade do cancionista, vimos a classificação de Authier-Revuz que divide a heterogeneidade mostrada de um discurso em dois tipos: a marcada e a não marcada, onde a primeira é revelada por meio do uso de marcas formais, e a segunda somente é recuperada pelo conhecimento enciclopédico do interlocutor. A partir dessa distinção, analisarei nesta investigação tanto os casos de indicação explícita dessa heterogeneidade (um exemplo é a menção ao nome dos outros cancionistas), como os casos em que a presença do discurso de outros cancionistas (ou a referência a eles em termos de um simulacro) nas canções de Belchior só é identificada através do conhecimento, pelo analista e pelo ouvinte, de enunciados do campo discursivo, o que permite flagrar um diálogo implícito entre os artistas. Na primeira situação, em que se manifesta a heterogeneidade mostrada marcada, considerarei a polêmica como desvelada (ou aberta), ao passo que na segunda, em que se apresenta a heterogeneidade mostrada não marcada, a polêmica será classificada como velada. Neste ponto, destaco o papel preponderante da apreensão do segundo tipo de heterogeneidade para a compreensão do discurso polêmico em nossas práticas sociais, pois como nos ensina Mosca,
“a sociedade, cada vez mais complexa e envolta em problemas, vê-se acossada por jogos de interesses antagônicos, dominados pelos conflitos, ainda que de forma muitas vezes velados” (MOSCA, 2007, p. 300). Sobre o estatuto desses dois tipos de heterogeneidade na análise, pode-se dizer inclusive que o maior desafio do analista é identificar os casos de heterogeneidade mostrada não marcada, pois são esses os repositórios dos conflitos mais profundos entre os sujeitos e nos quais a argumentação opera de forma mais sofisticada. Em resumo, ao preocupar-me duplamente com os casos de heterogeneidade mostrada marcada e
não marcada, pretendo enfatizar que o que se entende por discurso polêmico é uma instância
concreta a ser apreendida em diversos meios: materializada nas canções, nos gestos retóricos, mas também nas informações extra-discursivas.
Pensando no conceito de responsividade postulado por Bakhtin, característica que é constitutiva de todo discurso, todas as manifestações discursivas seriam polêmicas. No entanto, na tese, como polêmico considero um tipo de discurso específico, cuja marca principal não é simplesmente responder o outro, mas colocar o discurso do outro em questão. Assim, entendo a polêmica de forma restrita, como sinônimo de contradiscurso, relativa ao processo que consiste em ressaltar o défault constitutivo que existe naturalmente na relação entre os sujeitos. Assumindo que todo discurso é constituído pelas diversas maneiras de geração de suas próprias fronteiras, a depender do grau de revelação da palavra (do inscritor), da obra (do compositor, do letrista, do melodista, do instrumentista e do intérprete) e da pessoa do Outro (dos cancionistas em termos civis) no discurso de Belchior, a partir da voz agente do enunciador e materializada por meio de argumentos ad hominem e ad personam, a relação polêmica será classificada na tese como velada ou desvelada (aberta). Para balizar esse processo que se forma sempre a partir de uma relação e atentando à reflexão de Maingueneau de que “o discurso não escapa à polêmica tanto quanto não escapa à interdiscursividade para constituir-se” (2005b [1984], p. 122), é que opto por adotar o termo sugerido por Charaudeau (1998) de “relações polêmicas”.
Para abarcar a complexidade dos textos, pretende-se elaborar, em consonância com a análise discursiva, uma tipologia que dê conta da maior parte dos fenômenos (relações