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f) Ulaşamadığımız Eserler

11) İlmî-Edebî Şahsiyet

Kerbrat-Orecchioni observa que, no discurso polêmico, “numerosos são os actantes que podem desempenhar papéis narrativos e argumentativos variados”. Dentre eles, a autora cita os “adjuvantes”, afirmando que “sua presença parece mais ou menos necessária ao bom funcionamento do discurso polêmico”122 (op. cit., p. 19). Na tese, acredito que, além dos sujeitos fundamentais da polêmica mencionados acima (o agente, o paciente e o espectador), dois conjuntos de outros sujeitos também participam do investimento polêmico de Belchior: os arquienunciadores e os adjuvantes.

Para falar desses dois actantes, será necessário trazer o fator “autoridade” à minha análise. Como observa Oléron, há um tipo de argumento que leva em conta “a personalização que a argumentação comporta: a pessoa do emissor é particularmente importante e pode acrescentar o peso da sua autoridade ao conteúdo das afirmações. A autoridade de outras pessoas poderá igualmente ser invocada no mesmo sentido” (1985, p. 85, com destaques do autor). No argumento de autoridade, o orador busca, assim, ser legitimado pela memória de

122 No original: “Nombreux sont les actants qui peuvent venir entourer, jouant des rôles narratifs et argumentatifs variés (...). Parmi ceux dont la présence semble plus ou moins nécessaire au bon fonctionnement du discours polémique, citons les “adjuvants” (du polémiqueur)”.

Tradução própria: “Numerosos são os actantes que podem desempenhar papéis narrativos e argumentativos variados (...). Entre aqueles cuja presença parece mais ou menos necessária para o bom funcionamento do discurso polêmico, citamos os “adjuvantes” (do polemizador)”.

outro texto e do percurso de outros autores/compositores, o que significa que a atuação da memória coletiva está em primeiro plano. Em minha proposta, o argumento de autoridade se materializará na obra de Belchior por meio desses dois agentes outros que auxiliarão a constituição do posicionamento do artista: os arquienunciadores e os adjuvantes. Vejamos abaixo cada um deles, no sentido de verificar como o posicionamento do artista cearense vai procurar definir sua autoridade enunciativa (de palavra), em diferença aos outros posicionamentos, na medida em que instaura e articula arquienunciadores e adjuvantes ao seu discurso.

A noção de arquienunciador corresponde a uma fonte autoral legitimante do discurso, um modelo que serve de referência a um ou a diversos posicionamentos. Essa noção está imbricada necessariamente à de arquitexto, pois na esfera dos discursos artísticos, para que o sujeito possa se posicionar, ele precisa necessariamente percorrer um “arquivo” (privado ou coletivo), um “cânon”, visto que cada um desses discursos já possui previamente o seu conjunto de textos canônicos, os “arquitextos”, os quais são mantidos pelos aparelhos ideológicos123 de cada sociedade: a Igreja, a Escola, a Cultura, a Imprensa124. O conceito de arquitexto é entendido como “uma inscrição definitiva”, associada a “um patrimônio restrito de obras-primas” (MAINGUENEAU, 2006d, p. 69 e 70). De forma geral, o estabelecimento de um arquitexto corresponde a um tipo de texto que o auditório universal tem conhecimento, sem necessariamente saber o seu autor, o que se liga a uma obra à qual não se pode criticar, uma obra que está além de qualquer refutação, uma obra hors-concours. No campo específico do discurso verbomusical, posso dizer que a postulação de Maingueneau equivale à noção de

monumento (reiterabilidade da obra), para Paul Zumthor em sua Introdução à poesia oral,

bem como à noção de canção matriz, para Stéphane Hirschi em seu Chanson: l’art de fixer

l’air du temps.

O que classifico de arquienunciador na tese equivale ainda ao que Perelman e Olbrechts-Tyteca consideram um argumento pelo uso do modelo. Segundo os pesquisadores

podem servir de modelo pessoas ou grupos cujo prestígio valoriza os atos. O valor da pessoa, reconhecido previamente, constitui a premissa da qual se tirará uma conclusão preconizando um comportamento particular. Não se imita qualquer um; para servir de modelo, é preciso um mínimo de prestígio. (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, op. cit., p. 414)

123 Refiro-me aqui à teoria desenvolvida por Althusser (2001 [1970]) sobre os Aparelhos ideológicos do Estado. 124 Utilizo caixa-alta somente nesse caso em que menciono a Imprensa como um “aparelho ideológico”.

Partindo do pressuposto de que a música configura-se em uma instituição, em um

campo, em um arquivo e em uma memória, isso significa que o gesto de criar implica ao

sujeito que cria atravessar a junção de textos que passam pelo imaginário e fundar uma nova filiação que dialogará constitutivamente com uma tradição já formada. Por causa disso, na análise de qualquer obra, o analista deve buscar restituir os mundos dos autores, sejam eles compositores, escritores, pintores ou qualquer sujeito produtor de um discurso artístico. É preciso, portanto, remontar às fontes individuais do autor para que se chegue ao seu posicionamento específico, igualmente uma construção imaginária. O que nas palavras de Proust poderia ser traduzido por “o posicionamento não é um negócio de técnica, mas de visão” pessoal do autor, sendo mais legítimo o artista que possui uma visão singular no trabalho com as fontes. Em síntese, é necessário analisar os predecessores do autor e investigar a relação entre eles para que nos aproximemos do posicionamento individual do criador.

No caso de Belchior, de acordo com a análise exaustiva empreendida na dissertação (CARLOS, 2007a), sabemos que diversas fontes literárias e musicais interagem na constituição de sua identidade: Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Rolling Stones, Luiz Gonzaga e muitos outros escritores e cancionistas. Porém, neste trabalho de tese só serão comentados o conjunto de arquienunciadores que em alguma medida reforçam a polêmica de Belchior com outros cancionistas e particularmente com Caetano Veloso, como é o caso de Bob Dylan e dOs Beatles, na esfera da música,

precursores, segundo meu julgamento, comuns tanto a Belchior quanto a Veloso. De modo

geral, na parte de análise da tese, discuto como os cancionistas Belchior e Caetano lidam com a escolha de seus precursores e modelos.

É interessante observar que, muitas vezes, a relação entre o criador e os arquienunciadores não é tão evidente como possa parecer, chegando inclusive a ser ambígua. Vejamos apenas um exemplo como ilustração desse fenômeno. Belchior em “Baihuno” faz uma síntese imaginária da obra dos artistas que são unanimemente considerados canônicos pela crítica e historiografia musical brasileira: Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Inicialmente, poder-se-ia pensar que o estatuto dado a esses três compositores pelo orador cancionista é um lugar de arquienunciador, como seria coerentemente previsto pelo auditório particular de todos, assim como pelo auditório universal. No entanto, a análise da canção vai mostrar que a relação entre o orador-agente e o cânon do discurso verbomusical materializa-se não como harmônica ou celebrativa, mas como polêmica, pois o enunciador de “Baihuno” dá

lugar aos renomados cancionistas, criticando-os violentamente com um argumento ad

hominem, combinado a um argumento ad personam.

A última categoria de sujeitos que participa das relações polêmicas na produção musical de Belchior são os adjuvantes. Segundo o modelo estrutural de Algirdas Julien Greimas (em Sémantique structurale, de 1966), “adjuvantes” são actantes secundários de

uma narração, que atuam circunstancialmente na ação. São aquelas entidades que facilitam a

comunicação entre o sujeito e o objeto-valor desejado, considerando a linguagem semiótica. No Dicionário de semiótica, Greimas e Cortés (2008 [1979], p. 23 e 24) registram que o

adjuvante designa o auxiliar positivo quando esse papel é assumido por um ator diferente do sujeito do fazer: corresponde a um poder-fazer individualizado que, sob a forma de ator, contribui com o seu auxílio para a realização do programa narrativo do sujeito; opõe-se, paradigmaticamente, a oponente (que é o auxiliar negativo).

Na tese, tomo como adjuvantes todos os outros sujeitos que auxiliam de algum modo

junto ao discurso do sujeito colocado em posição de agente ou de paciente, com exceção dos

arquienunciadores, segundo ficou precisado acima. Veremos na análise, especialmente no capítulo 3 da seção IV, que os adjuvantes podem atuar ao lado do discurso do protagonista principal da polêmica ou do lado do seu antagonista privilegiado. Nesse sentido, a depender do ponto de vista da análise, falarei dos adjuvantes do posicionamento de Belchior e dos adjuvantes do posicionamento de Caetano Veloso (no subcapítulo 3.2), os quais serão também, além de adjuvantes de Caetano, oponentes de Belchior, entendendo “oponentes”, na esteira também de Greimas, como as entidades negativas que colocam obstáculos na

comunicação entre o sujeito e os seus objetos-valor.

Como disse linhas atrás, a presença de arquienunciadores e adjuvantes implica diretamente na autoridade que é atribuída a um texto/discurso. Na apresentação do conceito

posicionamento, em O contexto da obra literária, Maingueneau (2001 [1993], p. 77 e 78)125

retoma a noção de autoridade, segundo a maneira trabalhada pelo sociólogo Pierre Bourdieu, que se refere especificamente a uma autoridade em um campo ou em um subconjunto de um campo. O analista do discurso observa, assim, que Michel Foucault, em sua Arqueologia do

saber, discute a problemática da autoridade, ao falar de “modalidade enunciativa”. O exemplo do filósofo era a palavra do médico:

125 A mesma reflexão é feita por Maingueneau já na obra Novas tendências em análise do discurso (1997 [1987], p. 36).

Quem fala? Quem no conjunto de todos os indivíduos falantes tem o direito de sustentar esse tipo de linguagem? (...) A palavra médica não pode vir de qualquer um; seu valor, sua eficácia, seus próprios poderes terapêuticos e, de modo geral, sua existência como palavra médica não são dissociáveis do personagem estatutariamente definido, que tem o direito de articulá-la. (FOUCAULT, 1972, p. 68)

Para Maingueneau, na literatura, de forma diferente da ocorrida na área da medicina, não existe um “diploma reconhecido que confere o direito à palavra”. Por outro lado, a

posição é o elemento definidor que diz “quem tem o direito de enunciar”, ou seja, o que é “um autor legítimo”. É essa posição mesma que determinará a qualificação exigida para que o sujeito do discurso tenha uma autoridade na enunciação. No âmbito da canção popular e do discurso verbomusical, essa qualificação ocorre para além da possível obtenção de um diploma de músico em qualquer curso universitário, sendo ela fundamentada muito mais a partir de uma inserção no próprio processo de produção musical, que abrange uma série de atividades “práticas”, dentre elas realizar shows, produzir álbuns, gravar canções de determinados compositores, em um reconhecimento conferido duplamente pelo público e fortemente pela crítica musical. Dentre todas essas atividades, talvez o gesto de gravar um disco seja o passo inicial na fundação dessa qualificação, uma espécie de registro de nascimento no posicionamento de um cancionista. Daí vem toda a importância histórica do objeto material disco na vida dos cancionistas. Além disso, a partir da observação de Maingueneau de que, em alguns discursos, os enunciados se pretendem mais do que textos e mais do que obras, pretendem-se inscrições, pode-se avaliar que no caso da música, o próprio movimento de gravar um disco já o torna uma inscrição no campo musical. Somando-se a essas atividades, posso afirmar sem nenhuma dúvida que essa qualificação do discurso de um cancionista também é constituída de modo especial por meio da atuação dos sujeitos arquienunciadores e adjuvantes desse discurso.

Vistos os dois tipos principais de sujeitos constitutivos das relações polêmicas, os

essenciais e os secundários, deixo claro que esses dois grupos de actantes serão aplicados no

estudo das canções em constante interação com os outros elementos propostos para a análise da autoria na música cantada, os quais foram consubstanciados no quadro Instâncias de