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Sem sombra de dúvida, a higidez psicológica é um requisito indispensável à investidura nos cargos públicos. Tem relevância, na espécie, a capacidade mental do candidato, que é o conjunto de elementos de natureza psíquica, sobre o qual recairá a avaliação, a fim de se constatar se o candidato está ou não apto ao desempenho de suas atividades, observadas as exigências de cada cargo.

A mais relevante característica do exame psicotécnico, segundo o entendimento de estudiosos e de Tribunais, reside na necessidade de ter o exame a objetividade suficiente para permitir o controle de sua legalidade, sem aquele subjetivismo que, sob a máscara da discricionariedade administrativa, possa perpetrar favorecimentos e perseguições aos candidatos, caracterizando notório desvio de finalidade, vez que é sempre o interesse público que tem de nortear o comportamento da Administração.

Além disso, tais exames hão de ser revisíveis, reconhecendo-se ao candidato, nesta fase de reapreciação, o direito de indicar peritos idôneos para o acompanhamento e interpretação dos testes aplicados.

Cuidando especificamente desse aspecto, o Egrégio STF, em memorável acórdão da lavra do eminente Ministro Francisco Rezek, decidiu:

Concurso Público. Polícia Federal. Exame Psicotécnico. Entrevista carente de rigor científico. Eliminação de candidato, afinal desautorizada pelo Judiciário, por ilegalidade, em mandado de segurança. Quando a lei do Congresso prevê a realização de exame psicotécnico para ingresso em carreira do serviço público, não pode a administração travestir o significado curial das palavras, qualificando como exame a entrevista em clausura, de cujos parâmetros técnicos não se tenha notícia. Não é exame, nem pode integrá-lo, uma aferição carente de qualquer rigor científico, onde a possibilidade teórica do arbítrio, do capricho e do preconceito não conheça limites.124

Destarte, também para o STF125, conforme o verbete da Súmula nº. 686, o exame psicotécnico só pode ser exigido em Concurso Público se houver previsão legal para tanto.

124 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. R.E. nº 112.676, 2ª. Turma, em 17.11.87, in RTJ 124⁄770.

125 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. SÚMULA nº. 686: SÓ POR LEI SE PODE SUJEITAR A EXAME PSICOTÉCNICO A HABILITAÇÃO DE CANDIDATO A CARGO PÚBLICO.

105 A jurisprudência do STJ126 não é diferente, ao vedar também a realização de exame sigiloso, sem a possibilidade de interposição de recursos. Extrai-se, daí, a finalidade do psicotécnico, qual seja, visa a avaliação psíquica-intelectual do candidato, a fim de aferir sua compatibilidade com o cargo a que pleiteia. Ressalva-se, contudo, a necessidade de previsão legal e adoção de critérios objetivos, evitando-se qualquer preterição de ordem subjetiva do examinador, caracterizadora de eventual ato discriminatório ou segregatório.

Temos, pois, que as denominadas entrevistas feitas, em sala fechada, entre um entrevistador e o candidato, não podem ser consideradas legítimas, pois o que sempre se nota é a presença de elementos emocionais impróprios para a avaliação, como empatia entre entrevistador e entrevistado; atração física, mal-estar do entrevistador, ou do entrevistado; etc. Devem elas servir apenas para a verificação do perfil do candidato, mas nunca para medir-lhe a aptidão psicológica necessária às funções relativas ao cargo.

Não destoa desse parâmetro a decisão do E. Tribunal de Justiça do Distrito Federal, em acórdão relatado pelo Des. Jerônymo de Souza, no qual se ressalta que:

O exame psicotécnico deve ser mais objetivo possível, consistente na aplicação detestes de reconhecido e comprovado valor científico, devendo-se evitar entrevistas do candidato com o entrevistador, de caráter eliminatório, dado o alto teor de subjetividade de seu parecer, geralmente não fundamentado e não submetido ao exame crítico de ninguém, o que pode propiciar intolerável arbítrio e abuso de poder. A Psicologia não é ciência exata e nem o psicólogo é infalível. O candidato reprovado tem o direito de saber porque foi tido como não recomendado e tem o direito de recorrer. Sentença confirmada.127

Por todo o exposto, nota-se a correta sinalização de que é legítimo o exame psicotécnico preso a sua verdadeira natureza, mas, por outro lado, a legitimidade se subordina a certas condições com vistas a impedir a degeneração dos seus objetivos, por isso a publicidade e a revisibilidade do resultado do exame estão diretamente relacionadas com o grau de objetividade que o processo de seleção possa exigir128.

Nesse ponto, o precedente abaixo aduz a posição dos tribunais superiores pátrios:

126 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. ROMS 11679 ⁄ PE. Rel. Min. GILSON DIPP. DJ DATA:05⁄03⁄2001 PG:00187 RSTJ VOL.:00147 PG:00439.

127 BRASIL. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios –TJDFT. Ap. 25.799, 1ª. T. Cív., reg. 16.10.91.

128 A Resolução Nº 001/2002 do Conselho Federal de Psicologia regulamenta a Avaliação Psicológica em Concurso Público e processos seletivos da mesma natureza.

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DIREITO ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. CONCURSO PÚBLICO. EXAME PSICOTÉCNICO. PREVISÃO LEGAL. EXISTÊNCIA. CARÁTER SUBJETIVO E SIGILOSO. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTE DO STJ. RECURSOS ESPECIAIS CONHECIDOS E IMPROVIDOS.

1. É inadmissível a prevalência de sigilo e subjetivismo nos exames de avaliação psicológica, sob pena de o candidato idôneo ficar à mercê do avaliador, com irrogada ofensa aos princípios da legalidade e da impessoalidade. Precedente do STJ.

2. Recursos especiais conhecidos e improvidos.129

Também não há como aproveitar o exame psicotécnico realizado anteriormente por algum dos candidatos, pois a habilitação em qualquer dos requisitos exigidos não poderá ser aproveitada em processo seletivo distinto. Veja-se, nesse particular, o seguinte precedente:

ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO. DELEGADO DA POLÍCIA FEDERAL. EXAME PSICOTÉCNICO. APROVAÇÃO ANTERIOR. REPETIÇÃO. NECESSIDADE. DECRETO-LEI 2.320⁄87.

O candidato que participa do concurso para o cargo de Delegado da Polícia Federal deve se submeter ao exame psicotécnico, mesmo que já tenha realizado esse teste em concurso anterior para cargo de Papiloscopista. Impossibilidade de se aproveitar tal habilitação em processo seletivo distinto daquele em que foi realizada a avaliação, por força do disposto no art. 10, parágrafo único, do Decreto-Lei 2.320⁄87. Precedente.

Recurso provido.130

Uma outra ilegalidade recorrente nesse tipo de exame é quando o seu objetivo não for detectar algum traço da personalidade do candidato que prejudique o exercício do cargo, mas, ao contrário, verificar se o candidato tem o perfil que a Administração quer. Tal fato alcança o absurdo, pois nessa situação, o querer da Administração depende do querer da lei e, não havendo previsão legal para tanto, deve o Poder Público verificar apenas se o candidato tem algum desequilíbrio que o impeça de exercer a função.

Reforçando tais argumentos, vejamos o seguinte julgado:

CONCURSO PÚBLICO. POLÍCIA FEDERAL. EXAME PSICOTÉCNICO. LEGALIDADE.

Segundo o enunciado 239 da Súmula do TFR "é legítima a exigência de exame psicotécnico em concurso público para ingresso na Academia Nacional de Polícia", em razão de expressa previsão constitucional e legal (Lei nº. 4.878/65 e Decreto-Lei nº. 2.320/87).

Viola, contudo, a Constituição a realização de psicotécnico cujo escopo não é apenas aferir a existência de traço de personalidade que prejudique o regular exercício do

129 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 925.909/PE, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, QUINTA TURMA, julgado em 29/08/2008, DJe 29/09/2008.

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cargo, mas a adequação do candidato a "perfil profissiográfico" considerado ideal pela Administração, mas não previsto em lei.

Agravo de instrumento a que se dá provimento.131

Advertindo para essa necessidade, com base nas lições de Celso Antônio Bandeira de Mello132, são ilegítimos os exames psicotécnicos que pretendem enquadrar os candidatos num perfil psicológico tido pelos realizadores do concurso como o adequado aos futuros ocupantes do cargo ou do emprego.

Em todo caso, o descumprimento pelo edital de algum dos elementos expostos configura flagrante inconstitucionalidade e ilegalidade, sanáveis através da via judicial.