No Brasil, um dos órgãos de maior suporte aos microempresários é o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. A adoção da modalidade de crédito direcionado para apoio às empresas de pequeno porte iniciou-se em 1965, com a criação, no BNDES, do Programa de Financiamento à Pequena e Média Empresa (Fipeme) uma linha de crédito que tinha como objetivo facilitar a aquisição de máquinas e equipamentos pelas empresas de pequeno porte, e, ao mesmo tempo, incentivar o desenvolvimento do parque nacional produtor de bens de capital (Barros e Modenesi, 1973, apud Morais, 2008).
Iniciada essa política, diversos programas de crédito direcionado foram estabelecidos ao longo dos anos, alguns destes ofereciam fundos de endosso para cobrir parte das garantias reais que eram exigidas das empresas para os empréstimos, com o intuito de facilitar a aprovação dos pedidos de crédito. Morais (2008) afirma que devido à utilização dos recursos terem origem fiscal, os programas especiais oferecem prazo para financiamentos de investimentos que podem chegar a 20 anos, e empréstimos para capital de giro com prazos mais longos que os disponíveis no mercado de crédito livre, além de aplicarem taxas de juros consideradas baixas se comparadas às adotadas no mercado financeiro nacional.
Os defeitos do mercado de crédito privado no Brasil, de acordo com Morais (2008), destacam a necessidade de aprofundar o conhecimento da utilização dos recursos dos programas especiais no auxílio aos segmentos empresariais de menor porte, além do debate de ações para o seu aprimoramento.
Morais (2008) acrescenta que esse tipo de avaliação é ainda mais necessário em decorrência da redução recente dos recursos excedentes do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que distribuem o crédito para as empresas de pequeno porte no Proger – Programa de Geração de Emprego e Renda. Os dados e as informações utilizados na análise dos programas foram levantados junto ao BNDES, ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE/FAT), e ao Ministério da Integração Nacional (MI).
Analisando retrospectivamente, conforme Morais (2008), a distribuição de crédito de fontes institucionais às MPEs e às médias empresas é representada pelos seguintes principais programas e fundos, segundo o ano em que foram criados. Alguns desses programas e fundos ainda estão em vigor, enquanto outros, mais antigos, já não funcionam mais.
Criação, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em 1965, da primeira importante fonte de recursos para o financiamento de
investimentos das empresas de menor porte: a linha de crédito Programa de Financiamento à Pequena e Média Empresa (Fipeme).
Instituição, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), em 1970, de linha de crédito para capital de giro para micro, pequenas e médias empresas, cuja fonte de recursos constituía-se pela liberação de uma parcela dos depósitos compulsórios mantidos pelos bancos públicos e privados no Banco Central. As taxas máximas de juros cobradas nos empréstimos e a parcela dos depósitos compulsórios liberados para aplicação eram previamente definidas em normas específicas do Banco Central. Essa medida permaneceu vigente até 1990.
Criação, pela Constituição Federal de 1988, dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), do Norte (FNO), e do Nordeste (FNE), para a concessão de crédito a empresas de todos os portes das três regiões, com prioridade para as MPEs.
Criação, em 1991, do Programa de Financiamento às Exportações (Proex), para suporte de crédito na modalidade pós-embarque às exportações, e a equiparação de taxas de juros em financiamentos de exportações de microempresas, pequenas e médias empresas (MPMEs).
Instituição, em 1995, do Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger), com recursos do FAT, para a concessão de crédito a MPEs, a microempreendedores informais e a outros segmentos com dificuldades de acesso ao crédito, por meio de instituições financeiras oficiais federais.
Criação do “Programa Brasil Empreendedor”, entre 1999 a 2002. O Programa dirigiu as atividades de empréstimos de cinco bancos públicos federais (BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste e Banco do Brasil) e tinha como objetivo expandir, de forma acelerada, a oferta de crédito às MPMEs, acompanhado de assistência técnica e gerencial às empresas, além da concessão de garantias por meio de fundos de avais do governo federal e do Sebrae.
Instituição, em 2003, na Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Pro- grama Pró-Inovação, com base em recursos do FAT, para financiamentos de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I ) de empresas de médio e de grande portes, com taxas de juros subsidiadas; criação na Finep,
em 2004, do Programa Juro Zero, para financiamentos de PD&I de micro e pequenas empresas, também com recursos do FAT.
Adoção, a partir de 2003, das seguintes medidas de apoio ao crédito para mi- croempreendedores: (i) liberação de 2% dos depósitos compulsórios mantidos pelo sistema bancário no Banco Central, para expansão dos recursos para mi- crocrédito e micro finanças; (ii) instituição do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO), em 2005, para empréstimos a microempreendedores com renda bruta anual de até R$ 60 mil, destinados a investimentos fixos e a capital de giro, no valor de até R$ 10 mil; o programa utiliza recursos do FAT e parte dos 2% liberados dos depósitos compulsórios (Lei nº 11.110/2005).
O BNDES foi instituído em 1952, conforme o Banco Central do Brasil (2008), com o objetivo de fornecer apoio financeiro ao desenvolvimento da infraestrutura econômica do País e à expansão dos investimentos fixos das empresas brasileiras. Como banco de desenvolvimento, é considerado a principal instituição para o financiamento de investimentos no Brasil. O saldo dos seus financiamentos à indústria, ao comércio, aos serviços e ao setor rural alcançou, em dezembro de 2007, R$ 160 bilhões, equivalentes a 25,8% do saldo total de empréstimos e de financiamentos do sistema bancário brasileiro a esses setores.
As operações de financiamento podem ser realizadas tanto diretamente, nos casos de crédito de valor acima de R$ 10 milhões, como indiretamente, através de instituições financeiras credenciadas, constituídas por bancos privados e públicos, nas operações de qualquer valor, de acordo com Morais (2008).
De acordo com Dornelas (2008), o Brasil entrou o terceiro milênio com todo o potencial para desenvolver um dos maiores programas de ensino de empreendedorismo de todo o mundo, comparável apenas aos Estados Unidos, em que mais de 2.000 escolas ensinam empreendedorismo.
Morais (2008) ainda afirma que desde 1965, com a criação da linha de crédito Fipeme, o BNDES vem desenvolvendo a concessão de financiamentos às empresas de pequeno porte. A partir de 1974, o banco passou a receber os recursos arrecadados no Programa de Integração Social (PIS) e no Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep), para empregá-los em programas especiais de desenvolvimento.
A Constituição Federal de 1988 modificou a alocação dos recursos dos fundos citados com a determinação do direcionamento dos recolhimentos dos dois programas para o
Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), e o repasse de pelo menos 40% ao BNDES para a aplicação em programas de desenvolvimento, conforme Morais (2008)
Ainda de acordo com Morais (2008), na década de 1980, o BNDES passou a incentivar o microcrédito com a criação do Programa de Apoio à Microempresa (Promicro). Hoje a instituição apoia o desenvolvimento do microcrédito com base nas diretrizes do PNMPO – Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado.
O suporte às MPMEs, assim como às empresas de maior porte, é executado ou por intermédio de linhas de financiamento, como o Finame-Máquinas e Equipamentos, o BNDES automático e as linhas de apoio à exportação; ou através de programas específicos de financiamento, com vigência temporária. Morais (2008) afirma que os financiamentos possuem a diversas finalidades: inversões fixas em instalações em geral; aquisições de bem de capital; capital de giro associado a investimentos; importações de equipamentos sem similar nacional; leasing; aquisições de ônibus e caminhões; e inovação e desenvolvimento tecnológico, entre outras modalidades de investimentos.
Conforme o BNDES (2005), a partir da segunda metade da década de 1990, o BNDES passou a adotar diretrizes especiais para elevar a participação das MPMEs nos seus financiamentos, por meio de ofertas de crédito mais favoráveis em relação às concedidas às empresas de maior porte, como a concessão de maior percentual de adiantamento de crédito e a criação de um fundo de garantia de crédito (FGPC) para complementar as garantias exigidas às empresas financiadas, além da cobrança de menor taxa de spread básico. Diversos instrumentos de crédito específicos para as MPMEs vêm sendo adotados, com condições diferenciadas e favorecidas, com a missão de ampliar as oportunidades de acesso a financiamentos de investimento e de capital de giro, e apoiar as exportações do segmento.
O principal dos novos mecanismos de crédito é o Cartão BNDES, segundo o BNDES (2005), uma linha de crédito rotativa pré-aprovada, de uso automático, criada em 2003, que financia a aquisição de bens de capital e de bens de produção em geral, no valor de até R$ 250 mil, por operação, com prazo de até 36 meses, e taxa de juros em torno de 1% ao mês. O instrumento dispõe de cerca de 5.400 fabricantes credenciados, que vendem por meio do cartão, o qual vem sendo operacionalizado por três bancos credenciados: Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal. Em 2006 o cartão apresentou crescimento de 214% nos gastos em comparação aos do ano anterior, ou R$ 225 milhões, correspondendo a 17,6 mil operações de crédito; em 2007, o crescimento foi de 126% nos desembolsos, que alcançaram R$ 509 milhões. O número de cartões emitidos até janeiro de 2008 atingiu um total de 130 mil, o que corresponde a crédito total aprovado de R$ 3,3 bilhões.
Apesar dos grandes avanços, Morais (2008) aponta que em relação à oferta de crédito aos micro, pequenos e médios empresários, sob o aspecto da participação nos volumes totais de desembolsos em financiamento, a presença das MPEs é ainda bastante reduzida em comparação à sua importância na economia. Essa observação é especialmente válida no caso da indústria de transformação, setor em que as MPEs não incorporam mais do que 1,9% dos recursos totais desembolsados em 2006 em comparação aos 3,0%, em 2002, e aos 4,3% em 2003.
Em 2007, os desembolsos às MPEs e às médias empresas voltaram a expressar crescimento, tendo alcançado 3,1% e 5% de participação no total da indústria de transformação, respectivamente; acompanhando, então, o aumento generalizado dos desembolsos do BNDES, conforme Morais (2008).
Outra dificuldade destacada por Morais (2008) encontra-se nos requisitos de apresentação de uma ampla documentação relacionada à regularidade fiscal e trabalhista com os órgãos e tributos federais, que, além de aumentar os custos burocráticos, representam fator de alongamento dos prazos de aprovação dos créditos, vista a burocracia envolvida nas entregas dos documentos pelos órgãos expedidores. Essas imposições representam fator de aumento dos custos nas solicitações de crédito, que poderiam ser solucionadas através de normas simplificadoras, já que o risco de crédito cabe, em sua totalidade, ao agente financeiro ao aprovar o crédito à empresa.
Outra importante forma de apoio ao empreendedorismo através de um processo de formalização de microempreendedores, segundo Portal do Empreendedor (2014), foi a instituição da Lei Complementar nº 128 de 19 de dezembro de 2008, conhecida como lei do Micro Empreendedor Individual. O MEI é o indivíduo que trabalha por conta própria e que se legaliza como pequeno empresário, cujo programa de regularização será explicado detalhadamente na próxima seção.
3 O PROGRAMA MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL E AS MUDANÇAS NA FORMALIZAÇÃO DOS MICROEMPRESÁRIOS
Conforme apresentado nas seções anteriores, uma das políticas do Governo Federal de incentivo à formalização de empreendedores é o Programa Microempreendedor Individual. A lei do MEI foi instituída oficialmente em 19 de dezembro de 2008, como Lei Complementar nº 128, vindo a valorizar a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas ou Lei Complementar nº 123 de 14 de dezembro ode 2006.
As micro e pequenas empresas, incluindo o MEI, possuem suporte legal na Constituição Federal de 5 de outubro de 1988, de acordo com os artigos a seguir da Constituição Federal, conforme Brasil (1988):
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
IX – tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País.
Art. 179. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dispensarão às microempresas e às empresas de pequeno porte, assim definidas em lei, tratamento jurídico diferenciado, visando a incentivá-las pela simplificação de suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias, e creditícias, ou pela eliminação ou redução destas por meio de lei.
Especificamente, o Microempreendedor Individual, conforme o Portal do Empreendedor (2014), é a pessoa física que exerce uma atividade autônoma de forma individual e pode auferir até 36 mil reais por ano, podendo até contratar um funcionário com carteira assinada, que receba o salário mínimo vigente. Os ramos de atuação desse indivíduo devem se restringir aos setores de indústria, comércio e serviços, excluindo àquelas profissões regulamentadas e consideravas atividades intelectuais como médicos, engenheiros, advogados, dentre outras.
Nas últimas décadas, principalmente durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, verificou-se um aumento considerável da edição da legislação tributária e empresarial, de acordo com Pessoa (2009). Apesar de todo estrutura legislativa estabelecida em apoio à pequena empresa, ainda existe um grande número de indivíduos exercendo a atividade empreendedora, que porém com esse auxílio não conseguem alcançar níveis de faturamento suficiente para dar conta da carga tributária restante.