3. AŞINMA VE TEST MODELLERİ
3.2. Aşınma Türleri
Analisar a passagem dos alunos da Educação Infantil para o Ensino Fundamental significa estudar uma importante transição ecológica para o desenvolvimento infantil, assim como para todos os demais indivíduos envolvidos com o processo de escolarização da criança. De acordo com Bronfenbrenner (1996, p. 22), “ocorre uma transição ecológica sempre que a posição da pessoa, do meio ambiente ecológico, é alterada em resultado de uma mudança de papel, ambiente ou ambos”.
Frente à intenção de realizar a pesquisa sobre a transição entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, foi realizada uma breve revisão1
1 Esclarece-se que a autora do presente trabalho não considera que a revisão bibliográfica tenha sido
exaustiva para a temática em questão. Ela pode oferecer um panorama dos estudos realizados enfocando a principal preocupação deste estudo.
bibliográfica no banco de teses da Capes, elencando pesquisas desenvolvidas no período de 2000 a 2010. As palavras-chaves utilizadas para a pesquisa foram: transição Ensino Fundamental; Ensino Fundamental e Educação Infantil;
transição Educação Infantil; trajetórias de escolarização; transição Educação Infantil Ensino Fundamental; e entrada no Ensino Fundamental.
Os estudos encontrados que focavam especificamente a temática foram lidos e categorizados em três grupos: (1) Estudos sobre a Educação Infantil e a preparação para o Ensino Fundamental (PAIXÃO, 2004; MESOMO, 2004; SARETTA, 2004); (2) Estudos sobre o primeiro ano inicial no Ensino Fundamental, adaptações e práticas (LOLLATO, 2000; FERREIRA, 2005; SCHMITZ, 2008); (3) Estudos sobre a passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental (ADORNI, 2001; LARA, 2003)2
O primeiro grupo de estudos preocupou-se em analisar as práticas escolarizantes na Educação Infantil e as adaptações realizadas nessa instituição visando a passagem para o Ensino Fundamental. Destaca-se o estudo de Paixão (2004) que analisou e discutiu criticamente as concepções e práticas presentes na Educação Infantil, especificamente, no trabalho pedagógico desenvolvido com crianças entre 05 (cinco) e 06 (seis) anos. O estudo centrou-se nessa idade, por ser este período que antecede a entrada da criança no Ensino Fundamental. Destaca que, apesar de o último ano da Educação Infantil configurar-se em uma fase em que há a preocupação em oferecer subsídios para a alfabetização das crianças, há que se resguardarem as especificidades da primeira infância. Contudo, os dados apontaram que atividades de caráter lúdico como o brincar e o desenhar eram relegadas a um segundo plano, enquanto a escrita mostrava-se como atividade de maior relevância, apesar de se caracterizar em uma ação mecânica, sem significado.
Analisar os aspectos relacionados à escolarização e regulação das crianças entre a idade de 05 e 07 anos, ainda na Educação Infantil, foi o objetivo do estudo de Mesomo (2004). Os dados revelaram que as práticas escolares desenvolvidas no contexto pesquisado não visavam o desenvolvimento da autonomia e da criatividade das crianças, ao contrário, possuíam uma clara intenção reguladora, domesticadora e disciplinadora do
2 Os estudos que abordam a temática de transição no contexto do Ensino Fundamental de nove anos não
corpo dos alunos. Atividades de caráter lúdico e de iniciativas livres eram raras de serem observadas. O estudo conclui que a escola e seus agentes internalizaram como papel a disciplinarização das crianças, garantindo o governo da infância, buscando disciplinar os alunos.
Outro estudo realizado na última etapa da Educação Infantil foi a pesquisa de Saretta (2004), que teve como propósito analisar a transição das crianças para o Ensino Fundamental focalizando os aspectos emocionais dos(as) alunos(as) que ainda estavam na Educação Infantil. A pesquisa contou com a participação de doze crianças do último ano da Educação Infantil. Os dados coletados possibilitaram a criação de sete categorias, que descreviam os sentimentos dessas crianças nesse momento de passagem. As categorias analisadas foram: (1) Aprendizagem; (2) Uso do material escolar; (3) Organização interna de sala de aula; (4) Espaço Físico; (5) Desenvolvimento (físico); (6) Interação com companheiros; e (7) Interação com professor. O que se pode concluir é que os(as) alunos(as) apresentam grande ansiedade e medo nesse momento, considerando essa transição uma grande ruptura entre o modelo de afetividade, ludicidade e acolhimento atribuindo à Educação Infantil em contraponto à ideia de estarem em uma sala com mobiliários e organizações espaciais diferentes do que conheciam, com professores que se envolviam menos afetivamente com as crianças e com grande exigência ao desempenho escolar relacionados ao Ensino Fundamental.
O outro grupo de estudos teve como objetivo também compreender o momento de transição entre Educação Infantil e Ensino Fundamental, contudo, o contexto da pesquisa era a instituição de Ensino Fundamental, especificamente, o primeiro ano.
Lollato (2000) teve como intuito em sua pesquisa descrever e analisar vivências e concepções de pais, professores e crianças que iniciam a primeira série do Ensino Fundamental numa instituição escolar, buscando compreender suas concepções sobre escola, aprendizagem e relações entre família-escola. A pesquisa foi realizada com duas professoras de 1º ano do Ensino Fundamental, doze famílias e seus respectivos filhos por meio de entrevista semi-estruturadas, observações e produção de desenhos das crianças. Os dados demonstram que as famílias valorizam a educação escolar e apresentam expectativas positivas em relação ao desenvolvimento e
aprendizagem dos filhos. As crianças também demonstram satisfação em frequentarem a escola, destacando que é ambiente de grande importância em suas vidas, apesar de haver muito controle de seus comportamentos e poucas possibilidades de desenvolverem trabalhos autônomos e criativos.
A preocupação com a transição para o primeiro ano do Ensino Fundamental e as influências dessa no desenvolvimento das crianças foram também os objetivos do estudo de Ferreira (2005).Participaram da pesquisa 70 crianças, em duas escolas municipais, suas respectivas mães e docentes. As crianças no início do ano letivo foram avaliadas referentes aos indicadores de estresse; ao final do ano foram coletados dados relacionados ao desempenho acadêmico e competências nas relações interpessoais. Com as mães, no início do ano, foram aplicados alguns instrumentos que visavam compreender o ambiente familiar, seus recursos e condições adversas. As docentes responderam ao Protocolo de Avaliação da Competência Social do Aluno e avaliaram o desempenho e o ajustamento dos alunos em sala de aula.
Os dados indicaram que as crianças que frequentaram anteriormente a Educação Infantil apresentaram uma melhor adaptação ao primeiro ano, com menos estresse e com maiores condições de acompanhar os conteúdos estipulados para essa fase. Outro fator importante para a adaptação das crianças foi o suporte familiar. Assim, o estudo conclui que recursos pessoais, suporte familiar e a experiência prévia em contexto escolar podem ser vistos como mecanismos de proteção na transição para o Ensino Fundamental, garantindo às crianças uma melhor adaptação nesse próximo nível de ensino.
Compreender a trajetória das crianças que adentram o Ensino Fundamental foi também a proposta de Schmitz (2008). A pesquisa buscou compreender as vivências espaço-temporais das crianças da Educação Infantil e do primeiro ano do Ensino Fundamental. A pesquisa objetivou analisar por meio da narrativa sobre a trajetória das crianças, informações sobre a organização espaço-temporal, salientando as diferenças que foram sendo construídas em relação a esses dois contextos. Os dados foram coletados por meio de observações registradas em diário de bordo, fotografias, produção de desenhos infantis e anotações das falas das crianças. Pode-se destacar como principal resultado a necessidade de se repensar as rotinas escolares, atentando para as vivências das crianças no ambiente escolar, visando
promover um currículo que garanta a exploração e vivência dos diversos espaços escolares, assim como um cuidado com a utilização do tempo dentro da escola.
O terceiro e último agrupamento de estudos refere-se às pesquisas que buscaram compreender a transição analisando os dois contextos, ou seja, Educação Infantil e Ensino Fundamental, sendo pesquisas longitudinais.
Adorni (2001) apresenta-se como o primeiro estudo desse agrupamento que objetivou apreender como as práticas educativas se desenvolvem no cotidiano dessas duas fases da escolarização, buscando identificar as relações de progresso e continuidade existentes entre ambas. O estudo de caráter etnográfico e longitudinal foi desenvolvido com 20 crianças e seus professores na pré-escola e, posteriormente, no Ensino Fundamental. A coleta foi realizada por meio de observações em sala de aula, avaliação psicopedagógica referentes à leitura e escrita, aplicada no final do período pré-escolar e ao final da 1ª série do Ensino Fundamental, e entrevistas com os(as) docentes.
Os resultados apontam que as crianças apresentam grande expectativa em relação à entrada no Ensino Fundamental, sendo que a ansiedade aumentava quando a docente da Educação Infantil afirmava que no primeiro ano as crianças precisariam comportar-se e permanecer sentados. Constata-se ainda a impotência dos professores para transformar em prática efetiva a proposta teórico-metodológica da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, destacando a necessidade de que os cursos de formação e atualização de professores viabilizem meios para que os educadores tenham mais acesso aos conhecimentos e estudos já desenvolvidos, bem como oportunidades para discutir suas dúvidas e dificuldades para aplicar tais conhecimentos em sala de aula.
Corrobora com esses dados o estudo de Lara (2003), que analisou as rupturas existentes na transição entre esses dois níveis de ensino. Para isso, foi acompanhado, por dois anos consecutivos, um grupo de crianças de 05 a 06 anos de idade, no início da pesquisa, e 07 anos ao término da mesma, ou seja, final da Educação Infantil e entrada para o Ensino Fundamental.
Os dados da pesquisa indicam que, ao entrar no Ensino Fundamental, o lúdico é colocado em segundo plano, apesar de ser considerado importante para o desenvolvimento pleno do aluno. Salienta em suas conclusões que a
participação de alunos, professores, especialistas em educação e pais é imprescindível. Finaliza suas análises indicando como necessário um maior incentivo à arte-educação como vivência indispensável para a criança, sendo incorporada aos saberes escolares, que seria prevista e viabilizada no Projeto Político-pedagógico da escola, sendo esse consistente e direcionado ao desenvolvimento equilibrado e integral do aluno.
A revisão exposta demonstra que a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental apresenta-se como um momento crucial para o desenvolvimento das crianças e que há a necessidade de mais estudos sobre a temática.
Salienta-se que há somente dois estudos longitudinais sobre essa transição, o que demonstra uma lacuna para que se possa compreender como essa trajetória é percebida pelas crianças e como pode influenciar no desenvolvimento infantil.
Não obstante, faz-se necessário ainda compreender essa transição dentro do contexto do Ensino Fundamental de nove anos, sendo o estudo de Schmitz (2008) o único dessa natureza.
Conclui-se, portanto, que é necessário compreender melhor os contextos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, podendo compreender as influências que a transição exerce na trajetória de escolarização das crianças. Assim, o estudo que se pretende é relevante para a educação escolar, uma vez que visa responder tais questões.