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3. AŞIKLIĞA GENEL BĐR BAKIŞ

3.2. Aşık Kimdir?

Apesar de determinada pelo aparecimento de Jesus como o Cristo, a Comunidade Espiritual não é idêntica às igrejas cristãs, ou seja, a Comunidade Espiritual aparece também em período preparatório para o Novo Ser. Tillich parte do pressuposto de que “onde atua a Presença Espiritual, e, portanto, ocorre revelação (e salvação), ali também deve haver Comunidade Espiritual”. (Tillich, 2005: 605) Logo, o surgimento da Comunidade Espiritual no período preparatório possivelmente se difere do seu aparecimento no período de recepção. Tillich sugere que esta diferença seja descrita como “o período de latência e o período de manifestação da Comunidade Espiritual”. (idem) O marco desta latência e manifestação, como não poderia deixar de ser, é o evento Jesus como o Cristo, o que estabelece um “antes” e um “depois”, conforme Tillich explica:

A Comunidade Espiritual é latente antes do encontro com a revelação central, e é manifesta depois deste encontro. Estes ‘antes’ e ‘depois’ têm duplo sentido. Eles apontam para o evento da história universal, o ‘kairos

básico’, que estabeleceu definitivamente o centro da história, e também se referem aos kairoi sempre novos e derivados, em que um grupo cultural- religioso tem um encontro existencial com o evento central. ‘Antes’ e ‘depois’, em conexão com a latência e manifestação da Comunidade Espiritual, se referem diretamente ao segundo sentido [kairoi] das palavras e só indiretamente ao primeiro [kairos].” (Tillich, 2005: 605)

A razão pela qual Tillich faz distinção entre latente e manifesto está no seu encontro com grupos fora das igrejas organizadas que mostram o poder do Novo Ser. Ou seja, o Novo Ser não é propriedade exclusiva das instituições religiosas.

Existem associações de jovens, grupos de amizade, movimentos educacionais, artísticos, políticos e, de maneira mais óbvia ainda, indivíduos, sem qualquer relação visível entre si, em que se sente o impacto da Presença Espiritual, embora sejam indiferentes ou hostis a quaisquer expressões claramente religiosas. Eles não pertencem a uma igreja, mas não estão excluídos da Comunidade Espiritual. É impossível negar isto se olharmos para os múltiplos exemplos de profanização e demonização da Presença Espiritual naqueles grupos — as igrejas — que reivindicam ser a Comunidade Espiritual. Certamente as igrejas não estão excluídas da Comunidade Espiritual; mas seus oponentes seculares tampouco estão. As igrejas representam a Comunidade Espiritual numa autoexpressão religiosa manifesta, enquanto os grupos acima mencionados representam a Comunidade Espiritual em latência secular. (ibidem: 606)

Latência, porém, é o estado de ser parcialmente efetivo, parcialmente potencial. Neste estado, deve haver elementos efetivados e elementos não efetivados, sendo esta a característica principal da Comunidade Espiritual latente. Apesar de haver o impacto da Presença Espiritual, o que fica faltando à Comunidade Espiritual em sua latência é “a união transcendente da vida sem ambiguidade tal qual se manifesta na fé e no amor do Cristo”, critério último da fé e do amor. (idem) Esta carência torna a Comunidade Espiritual em sua latência aberta à profanização e demonização, diferente da Comunidade Espiritual manifesta, que tem em si mesma o princípio de resistência e é capaz de aplicá-lo autocriticamente.

Esse conceito de latência pode ser aplicado à totalidade da história da religião, como indica Tillich:

Existe uma Comunidade Espiritual latente na assembleia do povo de Israel, nas escolas dos profetas, na comunidade do templo, nas sinagogas da Palestina e da Diáspora e nas sinagogas medievais e modernas. Existe uma Comunidade Espiritual latente nas comunidades devocionais

islâmicas, nas mesquitas e escolas teológicas e nos movimentos místicos do islamismo. Existe uma Comunidade Espiritual latente nas comunidades que adoram os grandes deuses mitológicos, nos grupos sacerdotais esotéricos, nos cultos de mistério da Antiguidade tardia, nas comunidades semicientíficas, semirituais das escolas filosóficas gregas. Existe uma Comunidade Espiritual latente no misticismo clássico da Ásia e da Europa e nos grupos monásticos e semimonásticos originados pelas religiões místicas. Encontramos o impacto da Presença Espiritual e, portanto, da Comunidade Espiritual em todos estes grupos e em muitos outros. Existem elementos de fé no sentido de ser possuído por uma preocupação última e existem elementos de amor no sentido de uma reunião transcendente daquilo que está separado. Mas a Comunidade Espiritual ainda é latente. O critério último, a fé e o amor do Cristo, ainda não apareceu àqueles grupos. (Tillich, 2005: 606s)

Tillich ainda alerta sobre a importância, para a prática do ministério cristão, de “considerar pagãos, humanistas e judeus como membros da Comunidade Espiritual latente e não como totalmente estranhos que são convidados, a partir de fora, a participar da Comunidade Espiritual”. (ibidem : 607)

Com justiça, pode-se concluir que inclusividade é a palavra-chave para descrever a noção tillichiana de Comunidade Espiritual latente. Apesar de serem “elementos bastante conservadores”, como identifica John Dourley (2002a), estas categorias “ainda são, em parte, criativas e libertadoras, porque Tillich emprega o conceito/símbolo inclusivo de ‘comunidade espiritual’ para descrever a comunidade dos que estão no processo da salvação”, fa zendo parte dela todos os que estão no processo de “essencialização”. Salvação é entendida como “a vida inserida na verdade essencial e prístina inicialmente expressa no dinamismo da vida trinitária”. Aceita-se um certo universalismo através da “compreensão platônica de essência e existência”.

Ribeiro lembra que as igrejas, representantes da Comunidade Espiritual em sua forma manifesta, “são, ao mesmo tempo, sua atualização e distorção.”

Atualização, porque se autocompreendem como efetivação da experiência kairótica decisiva e possuem a sua vivência baseada na transcendente vida sem ambiguidade de Cristo. E as igrejas são, igualmente, a distorção da Comunidade Espiritual porque como tais participam na ambiguidade da religião e da vivência humana em geral. (Ribeiro, 2007)

Enfim, o critério para a Comunidade Espiritual se efetivar continua sendo o reconhecimento do Novo Ser em Jesus como o Cristo. Além disso, o estado de

latência abre uma possibilidade de atuação salvífica do Espírito. A possibilidade de as igrejas, por causa de sua participação na ambiguidade da religião, atuarem também como distorção da Comunidade Espiritual abranda o caráter institucional da irredutível relação entre cristologia e Comunidade Espiritual no pensamento tillichiano.

Conclui-se, pois, este segundo capítulo cujo objetivo foi apresentar as aberturas presentes no conceito de religião proposto por Tillich.

Para recapitular, foram articuladas as seguintes hipóteses:

• há uma abertura no pensamento de Tillich sobre religião;

• o conceito de religião tillichiano é amplo e abrangente;

• isto permite interpretar como próximas a religião e a cultura;

• o encontro das religiões e quasi-religiões revela a maneira de Tillich lidar de modo prático com seu conceito de religião;

• o conceito de Comunidade Espiritual amplia o leque de ação neste sentido.

Para o próximo capítulo caberá o papel de dialogar tanto com o primeiro capítulo, cujo foco está no conceito de fronteira, como com o segundo, cujo foco está no conceito de religião. Fronteira e religião são os temas principais desta pesquisa. Temos mostrado, sobretudo no capítulo 1, a importância da fronteira como um lugar hermenêutico em que se possa situar a religião. No capítulo 2, a religião tem sido vista em uma relação fronteiriça com a cultura, em especial através das aberturas no conceito de religião. O próximo capítulo pretende observar os estudos que se interessam por Tillich no Brasil através destes dois temas. A ideia é que os artigos da Correlatio permitem um diálogo entre estes assuntos, abrindo possibilidades de entender como o pensamento de Tillich é estudado por brasileiros.

A RELIGIÃO NA FRONTEIRA: DIÁLOGO COM PAUL TILLICH NO BRASIL

Neste último capítulo, nosso trabalho é analisar os estudos em diálogo com Paul Tillich no Brasil. Para isso, articulamos as categorias fronteira e religião, apresentadas nos capítulos anteriores, e que servem de fundamento teórico para este momento de nossa pesquisa. Enfatiza-se, em primeiro lugar, o espaço de fronteira dos estudos brasileiros que dialogam com o pensamento tillichiano. Em segundo, o tema religião nas pesquisas brasileiras em diálogo com Tillich, sendo que aqui será encontrada uma análise que quantificou ocorrências de certos termos-chave nos artigos da Correlatio. Por último, é trazida a discussão sobre uma possível contribuição para as ciências da religião no Brasil a partir da ideia de religião na fronteira.

1. O LUGAR DE FRONTEIRA DOS ESTUDOS BRASILEIROS QUE

Benzer Belgeler