DENEYSEL ÇALIŞMALAR 4.
5) Ağızlıklara ait değişkenler
A Proclamação da República, com o exílio da Família Real Brasileira, rompeu um vínculo político muito forte com a península ibérica, redirecionando o eixo de influência cultural, sobretudo na imprensa, para a América do Norte. No entanto, este momento de inflexão criou oportunidade para que os artistas gráficos brasileiros pudessem trabalhar com novas experiências estéticas, numa fase de personalização e estilização. Após uma tomada de fôlego, nos anos 1910, o humor gráfico brasileiro realmente deslanchou, pois os alvos e razões da sátira política e social se multiplicaram, como se a República fosse a cornucópia das mazelas do povo, além da criação do “reclame”, um precursor das atuais peças de campanhas publicitárias.
No princípio, a pretensa modernização republicana se valeu de meios autoritários, que muitas vezes causaram extremo mal estar à população. O trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz no combate às doenças endêmicas e epidêmicas do Rio de Janeiro, por exemplo, com aproximadamente um ano de posse no cargo de Diretor Geral da Saúde Pública, culminou com o movimento popular denominado Revolta da
Vacina, em 1904. Correto em
suas preocupações, Cruz era excessivamente severo, sendo impiedosamente atacado por todos os humoristas da época. Esta polêmica acabou gerando uma quantidade imensa de charges e narrativas gráficas, que alavancaram um número representativo de periódicos e artistas, como nunca antes se havia visto no país.
Vinhetas de As aventuras do Zé Caipora, de Ângelo Agostini.
Ruy Barbosa perde a corrida presidencial para o Marechal
Para contrapor a sátira política e atender ao público infantil, que progressivamente estava sendo alfabetizado, foi lançada em 1905 a revista O Tico-Tico, fato que marcaria de forma indelével a produção editorial do Brasil, publicando por 50 anos histórias em quadrinhos infantis, além de jogos e passatempos que encantaram gerações de brasileiros. Iniciou-se sob modelos franceses, mas logo conjugou o trabalho de brasileiros e produções norte-americanas. Além da tradução do material importado, teve uma produção clandestina própria do Brasil, quando os problemas derivados da Primeira Guerra Mundial interromperam o seu fornecimento. O exemplo mais claro desta produção marginal é o do título Buster Bown, batizado no Brasil de
Chiquinho, obra do mesmo Oultcault, mas que prosseguiu suas
aventuras em O Tico-Tico pelas mãos de Loureiro, Augusto Rocha, Oswaldo Storni e Miguel Hochman.
Ainda na primeira década do século XX, já circulavam dois periódicos humorísticos adultos, partindo das terras fluminenses: O
Careta e O Malho, que compartilhavam quase o mesmo time de
colaboradores: Ângelo Agostini, Julião Machado, Fleiuss, Bordalo, Faria.
A Semana de Arte Moderna, celebrada no Teatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922, marcaria todos os ramos da intelectualidade brasileira, inclusive as histórias em quadrinhos que tanto influenciam outros ramos da arte. Inicia-se toda uma nova geração de artistas gráficos, influenciados principalmente pelas inovações do trabalho de Julião Machado: Raul, K . L i s t o , B e l m o n t e ,
Oswaldo, Storni, Seth, Yantok, Luiz Peixoto, e José Carlos de Brito e Cunha, que assinava J. Carlos, um dos mais elegantes e inteligentes artistas gráficos do século. Seu traço perfeito e a sua capacidade
expressiva são, até hoje, alvo de estudos de pesquisadores, artistas gráficos e plásticos.
O Baile Pobre, em original de K. Listo.
Nair de Teffé Hermes da Fonseca, filha de barão e esposa de presidente da república, foi a primeira mulher brasileira a consagrar-se como artista gráfica, sob o pseudônimo de Rian; muito embora convivesse ativamente na imprensa fluminense, não aderiu à estética de Julião Machado, apresentando um traço alternativo e mais próximo aos trabalhos franceses. Publicações fluminenses, como a revista Fon Fon, abriram as portas para Rian no Brasil e congregaram todos os artistas gráficos, fomentando e promovendo internacionalmente o traço e o estilo próprio do Brasil modernista.
Neste período de modernidade, Belmonte, J. Carlos, Luiz Peixoto, Storni, Péricles, Oswaldo compartilhavam a produção de histórias e charges de vários personagens,
como Juca Pato, Zé do Povo, Amigo da Onça, além de recriar histórias em quadrinhos norte-americanas adultas para o mercado nacional. Revistas de atualidades, como O Cruzeiro, compartilhavam em seu projeto gráfico espaços nobres para histórias em quadrinhos, caricaturas e charges, conjugadas com as mais atualizadas t é c n i c a s fotográficas. A elegância fluminense vista
por Rian, nos anos 1910 Rian, em charge de J. Carlos
Cena da vida carioca dos anos 1920, em charge de Raul.
J. Carlos também retrata o almofadinha, tipo que os outros homens desprezam, mas as mulheres acham uma gracinha. Lições sobre a difícil arte de
chaleirar, em página de K. Listo.
Na charge Depois da Festa, de J. Carlos, a pobre velhinha se pergunta: “Qual será a minha casa?”
O traço perfeito de J. Carlos retrata a melindrosa, tipo feminino idealizado nos anos 1950.
No período de 1930 a 1945, contudo, o Brasil foi comandado por Getúlio Vargas, inicialmente em uma gestão que duraria até 1937, posteriormente instaurando a ditadura por meio do “Estado Novo”, no período de 1937 a 1945. Nestes quinze anos, os humoristas políticos sofreram toda a sorte de perseguições, destacando-se especialmente os chargistas e quadrinhistas, o que fortaleceu muito a produção de obras infanto-juvenis, nas quais muitos artistas gráficos buscaram guarida. Vinheta de J. Carlos Arte de J. Carlos. Ilustração de J. Carlos.
Belmonte faz Juca Pato rememorar uma verdadeira cena bíblica, retratando Hitler como Salomé, Mussolini de oficial romano e Neville Chamberlain de Herodes.
Pierre Laval, primeiro ministro francês, tenta convencer sua nação de que Hitler é um bom pretendente, em charge de Belmonte.
Assim, as histórias em quadrinhos infanto-juvenis foram objeto de uma das maiores contendas editorias brasileiras dos anos 1930, entre Adolfo Aizen e Roberto Marinho. Animado pelos resultados editoriais alcançados por Adolfo Aizen, com seu
Suplemento Juvenil, Roberto Marinho lança O Globo Juvenil,
uma publicação em formato tablóide, com 24 páginas e impresso em três cores, conjugando a publicação de histórias em quadrinhos brasileiras e importadas (sempre traduzidas para o Português). De forma pouco ética, Marinho atravessa os contatos de Aizen no exterior e compra os direitos de publicação das histórias em quadrinhos de maior sucesso nos periódicos de Aizen. Com mais recursos financeiros, ainda reservou a última página para a publicação seriada de romances, com uma ilustração especialmente elaborada por grandes artistas gráficos, como Francisco Acquarone, Israel Ferreira, Calmon Barreto, entre outros.
Ainda verificando os resultados da produção editorial de Adolfo Aizen, Roberto Marinho lança a revista Gibi, para concorrer com a revista Mirim, ambas com formato meio-tablóide e 32 páginas. O sucesso da publicação foi tamanho, que o nome
Gibi, que originalmente batizava o garotinho que figurava na
portada da revista, tornou-se sinônimo de “revista em quadrinhos” no Brasil, até os dias de hoje.
Adolfo Aizen, que realmente continuava sendo um editor mais brilhante que seu concorrente, investiu na publicação de séries religiosas cristãs e na quadrinhização completa de romances brasileiros, lançando respectivamente a Edição
Maravilhosa e a Série Sagrada. A editoração de Adolfo Aizen
visava, sobretudo, associar suas publicações aos valores hegemônicos da sociedade brasileira, afastando a imagem deletéria das histórias em quadrinhos. Mesmo não professando o catolicismo, buscava nos ritos católicos a afirmação da positividade das leituras de suas publicações. Na Edição
Maravilhosa de dezembro de 1936, Aizen apresenta sua
publicação buscando referência no calendário católico:
Os sinos estão repicando nas torres das igrejas. Os galos madrugadores estão cantando a sinfonia dos novos dias que vão surgir. Pelos quatro cantos do Brasil, por todos os caminhos do Rio de Janeiro, pelas ruas claras da paulicéia, pelas estradas perdidas e pelos campos onde se consagra a grandeza econômica da nossa terra; por todos os lugares em que há meninos e meninas que sabem ler, estará presente a Edição Maravilhosa. Não se compreenderia uma roseira sem rosas, uma macieira sem maçãs. Também assim não se compreenderia o Natal de 1936, sem a nossa Edição Maravilhosa. (AIZEN apud SILVA, 2003, p. 24)
Capa de Edição Maravilhosa, título publicado pela EBAL.
Capa de Série Sagrada, título da EBAL.
Aizen e sua editora, a Editora Brasil-América Limitada -- EBAL, foram considerados pela imprensa da época como os maiores renovadores da imprensa infantil e responsável pela implantação de métodos modernos na editoração jornalística. A contenda entre Aizen e Marinho durou mais de duas décadas. Ganharam com ela os leitores infanto-juvenis e adultos, por meio da diversidade de publicações e a freqüente melhoria de qualidade.
Até uma incrível história policial, na qual um “bandido serial” executava roubos incríveis e intrigava a polícia, foi publicada na
Gazetinha, antecipando toda uma série de obras literárias e
cinematográficas do mesmo tema, A Garra Cinzenta. Sob o mote “A garra ataca”, esta surpreendente história:
[...] foi publicada na Gazetinha em 37 com invulgar receptividade, refletindo-se no México, Editorial Saylors e em 1939 no Journal Spirou, cobrindo a Bélgica e França, através da Maison d'éditions J. Dupuis, onde foi republicada. O texto era do jornalista Francisco Armond e os desenhos de Renato Silva. Também na Gazetinha, Messias de Melo desenhou Audaz, o demolidor, além de inúmeras criações como Pão Duro.
(MOYA, 1977, p. 219)
O Amigo da Onça, uma série de charges com elementos quadrinhísticos, de Péricles, foi publicada em O Cruzeiro a partir de 1943. Contrariando o romantismo dos “Anos Dourados”, estabeleceu uma imagem pública do caráter nacional brasileiro muito distante da cordialidade, com uma divertidíssima maldade que contrariava a fama internacional do “brasileiro bonzinho”, aproveitando a liberdade de expressão “tomada” das autoridades ditatoriais decadentes. Com o suicídio de Péricles, Carlos Estevão segue na linha
da “malvadeza”, com o próprio Amigo da Onça e personagens próprios, como o Capitão Macarra, persistindo no sucesso até o final dos anos 1960. A importância desta sobrevida se dá na sobrevivência do humor adulto brasileiro, em sua ironia e força expressiva, em meio ao período da ditadura militar, que tentou e s v a z i a r a s n a r r a t i v a s gráficas de seus conteúdos sociológicos. Página de O Garra Cinzenta, com roteiro de Francisco Amond e desenhos de Renato Silva. O Amigo da Onça torna inesquecível o nascimento dos bebês, em charge de Péricles. Charge de Péricles. Charge de Péricles.