Até fins da primeira década do século XX, as interações entre os sociólogos durkheimianos e o domínio dos estudos greco-latinos passaram por dois expedientes. O
45 primeiro vinha na forma difusa das relações afetivas existentes entre os portadores desses saberes, o que geralmente traziam a reboque trocas intelectuais mais ou menos constantes. O caso de Durkheim é paradigmático nessa direção. O diretor do AS, conhecido em público como o pat ão àda escola sociológica francesa, tinha entre seus melhores amigos, desde o período em que foi professor em Bordeaux, dois estudiosos da filosofia antiga, Octave Hamelin e Georges Rodier. Os três se engajaram lado a lado por ocasião do Affaire Dreyfus, assim como se auxiliaram quando o assunto era a progressão institucional de suas carreiras1. As colaborações intelectuais entre eles, por sua vez, apareceram tanto de forma direta, via citações à obra alheia, quanto indiretas, por meio de sugestões para que os alunos de uns frequentassem os cursos dos outros2. Sabe-se ainda que amizades similares marcaram outros membros importantes da equipe original do AS, tais como Henri Hubert e Robert Hertz. E é muito provável que os demais sociólogos tenham vivido situações similares, uma vez que eles haviam partilhado, enquanto alunos e professores, os bancos das mesmas escolas e universidades com antiquisants.
Para além das relações afetivas, o que não exclui a possibilidade de influências e encorajamentos daí advindos, alguns dos primeiros pesquisadores ligados ao AS produziram, sem terem atuado institucionalmente como latinistas ou helenistas, conhecimento na área dos estudos greco-latinos. O mais antigo deles, ao menos no que concerne à adesão ao projeto científico encabeçado por Durkheim, foi Henri Hubert. Nascido na Paris de 1872, no seio de uma família católica de comerciantes abastados, à qual também pertenceu o historiador da arte Paul Vitry, ele recebeu a melhor educação letrada então disponível. Aluno do prestigioso Liceu Louis-le-Grand desde os dez anos de idade, Hubert aí obteve o primeiro lugar em version grecque no concours général. A vida de écolier prosseguiu com a admissão na École Normale Supérieure (ENS) em 1892, onde ele travou contato, entre seus colegas, com indivíduos que viriam a ser importantes antiquisants como Paul Perdrizet e Paul Jouguet, ambos da promoção
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Sobre a atuação conjunta no Affaire Dreyfus, veja-se a compilação de informações feita por Marcel Fournier em sua biografia de Durkheim (FOURNIER, 2007: 235-375). Veja-se também a correspondência entre Durkheim e Hamelin (tal como publicada em DURKHEIM, 1975b), bem como as referências a Rodier nas cartas que Durkheim endereçou a Salomon Reinach (BENTHIEN, 2010).
2 Aproveitando-se da relação assimétrica que ele manteve com os membros mais jovens da equipe do
AS, sobretudo os pretendentes ao título de agrégé de philosophie, Durkheim os incitou a seguir os cursos de Hamelin e Rodier. Marcel Mauss travou contato com os dois em Bordeaux. Já Robert Hertz e Antoine Bianconi tiveram aulas em Paris apenas com Hamelin (uma vez que Rodier só obteve um posto na capital francesa em 1908). Já quanto às referências ao trabalho alheio, elas foram particularmente marcantes entre Durkheim e Hamelin. Este, por exemplo, faz uma longa discussão sobre a importância da sociologia para o estudo da história da filosofia em seu curso, publicado postumamente, sobre Aristóteles (HAMELIN, 1931). Aquele, por sua vez, se vale da tese de Hamelin em sua Opus Magna – cf. DURKHEIM, 1912: 13 (nota 1).
46 de 1890, ou ainda Charles Fossey, futuro assiriólogo e colaborador marginal dos sociólogos, membro da promoção seguinte. Como professores, o ensino dos clássicos ficava então a cargo de ninguém menos que Gustave Bloch (histoire) e Paul Girard (grec), dois antiquisants que se mostraram na sequência não apenas afinados com os sociólogos quanto a algumas de suas manifestações públicas (o Affaire Dreyfus), mas que também produziram trabalhos próximos às ciências sociais3. Nesse primeiro momento de sua formação Hubert parecia bastante interessado na história da Grécia Antiga, publicando, antes mesmo de sair da ENS, um artigo sobre duas inscrições epigráficas gregas provenientes da Ásia Menor na prestigiosa Revue Archéologique4. Em 1895, ao mesmo tempo em que obteve o terceiro lugar no exame nacional de ag gatio d’histoi e et g og aphie, iniciou estudos sobre o oriente antigo na EPHE. Foi nesse ambiente que ele conheceu, um ano mais tarde, Marcel Mauss, passando a integrar a equipe que já se organizava em torno do projeto de uma revista especializada em sociologia. Hubert também militou ao lado de vários membros dessa equipe por ocasião do Affaire Dreyfus, quando foi signatário da terceira petição dosà i telectuais . Os primeiros postos no sistema de ensino e pesquisa francês, os quais ele manteve até o final de sua vida, apareceram logo depois: um no Musée des Antiquités de Saint-Germain-en-Laye (MAN), onde ele entrou attaché libre (1898) e progrediu ao cargo de conservateur adjoint (1910); e o outro como maître de conférence na seção de ciências religiosas da EPHE (Va seção), assumido por ele em 1901. Hubert ainda lecionou na École du Louvre a partir de 1906, ocupando, como suplente de Salomon Reinach, a cadeira intitulada Archéologie Nationale.
O interesse crescente por antigas religiões do Oriente Médio, sobre as quais ele pretendia escrever uma tese de doutorado, não implicou a distância em relação aos estudos greco-latinos. Viu-se nas tabelas apresentadas no subcapítulo anterior como Hubert foi, no contexto do AS, aquele que resenhou o maior número de textos e livros vinculados a essas temáticas. Mas esse interesse não se fez presente apenas nas páginas impressas editadas por sociólogos: dois verbetes seus sobre as práticas religiosas gregas (Kirèné e Magia) foram publicados no início do século XX no Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines, então dirigido por Edmond Saglio e Edmond Pottier5. Além disso, nas vitrines sob sua responsabilidade no MAN, havia um número considerável de objetos antigos provenientes da
3 Ambos, aliás, tiveram livros e artigos seus resenhados no AS. Veja-se a resenha que o próprio Hubert
fez de um artigo de Girard sobre o mito de Ajax (AS, 1906: 282) e a resenha que Durkheim fez de um texto de Bloch sobre a origem e a organização da plebe romana (AS, 1913: 441-443).
4
Cf. RA, 1894/1: 308-314.
5 Para uma análise desses textos específicos, veja-se o subcapítulo 3.3 da presente tese, dedicado ao
47 Península itálica e grega, sobretudo na sala de Arqueologia Comparada6. Por fim, no que diz respeito exclusivamente aos vínculos institucionais, Hubert se tornou membro ordinário da Associatio pou l’E cou age e t des Études G ec ues e F a ce (AEEG) bastante cedo, ainda em 18987.
Importa salientar que essas investidas no domínio dos estudos greco-latinos vinham atreladas a um plano de carreira na área, uma vez que tal diálogo fortalecia sua posição e promovia a circulação de seu nome no sistema de ensino francês. Ainda assim, havia aí também um interesse intelectual, oriundo da importância que Hubert dava ao comparatismo no âmbito de seus estudos sobre a arqueologia e a dimensão social das práticas religiosas. Prolongar e aprimorar o conhecimento escolar que ele havia acumulado sobre o grego e o latim permitiu-lhe ampliar o escopo de fenômenos disponíveis à observação, como atesta o amplo uso que ele fez de vestígios literários e materiais antigos em seus estudos sobre o sacrifício e sobre a magia, ambos publicados em parceria com Marcel Mauss (AS, 1899: 29-137 e 1904: 1-145). O mesmo poderia ser dito de muitos de seus textos sobre a religião e a arqueologia celta (Hubert, 1925). A acreditar ainda nas palavras de Mauss, os povos da Europa – gregos, latinos, celtas e germânicos – compreendiam o quinhão de Hubert na divisão que ambos fizeram para fins de estudo dos povos do mundo8. Se seus trabalhos posteriores o levaram a privilegiar cada vez mais os povos do norte da Europa, isso não foi feito à revelia dos demais. Tal como sugere a alocução do presidente da AEEG por ocasião da morte de Hubert:
ele [Hubert] at avessouàoàhele is oàpa aà hega àaoà eltis o à ‘EG,à 9 7:àLXIII .à
Outro membro da equipe do AS que se fez presente no terreno dos antiquisants foi Antoine Meillet. Seis anos mais velho que Hubert, ele cursou praticamente todo o ensino secundário longe de Paris, em Moulins, seguindo para a capital apenas às vésperas de ingressar na universidade, quando esteve matriculado como aluno externo no Liceu Louis-le- Grand. Seguiu-se então o bem-sucedido ingresso na Faculdade de Letras de Paris (1885). Uma vez nessa instituição, mas também frequentando cursos no Collège de France e na EPHE, Meillet travou contato com os grandes filólogos e linguistas em atividade na França, tais como Louis Havet, James e Arsène Darmesteter, Sylvain Lévi, Ferdinand de Saussure e Michel Bréal. Bolsista de agrégation, ele obteve em 1889 o primeiro lugar no exame nacional de grammaire,
6 Sobre essa sala e o trabalho de Hubert no referido museu, veja-se o subcapítulo 3.2 da presente tese. 7 Não deixa de ser interessante observar que Hubert se apresentava em L’A e Sociologi ue e na AEEG
de maneiras diferentes. Nesta, ele aparece apenas em seu posto no Musée des Antiquités Nationales, ao passo que naquele o posto referido é o da EPHE.
8 MAUSS, 1979. A ele, Mauss, caberiam os povos primitivos das Américas, da África, da Ásia e da
48 o que lhe abriu as portas da EPHE como suplente de Saussure na cadeira de Grammaire Comparée, onde foi efetivado dois anos mais tarde. Ainda em 1891, ele partiu, como bolsista do governo francês para uma missão científica no Cáucaso, durante a qual estudou as línguas eslavas e o armeniano moderno. Trata-se do início da carreira de quem viria a ser o mais prestigiado comparatista no domínio do indo-europeu na França até a década de 1930.
Com efeito, a ascensão de Meillet foi extremamente rápida e não parece ter conhecido contratempos. Ele se tornou doutor em 1897, discutindo tanto o emprego do acusativo e do genitivo no antigo eslavo (sua tese principal) quanto o significado da raiz indo-européia *men- (tese secundária). Como professor, antes e depois do doutorado, acumulou também as cadeiras de iraniano antigo na EPHE (1894), em decorrência do falecimento de James Darmesteter, e a de armeniano na École des Langues Orientales (1902). A grande consagração de sua trajetória veio cedo, com a eleição para o Collège de France em 1906, substituindo o recém-aposentado Michel Bréal como professor de Grammaire Comparée9. Ele ainda se tornou mais tarde membro efetivo da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres (1924) e presidente da IVa seção da EPHE (1925), além de ter acumulado uma série de prêmios e doutorados honoris causa dentro e fora da França.
Enquanto linguista interessado na família indo-européia, Meillet não podia simplesmente negligenciar os estudos greco-latinos. Sua estratégia, porém, ao menos nos primeiros anos de carreira, foi investir em línguas indo-européias pouco conhecidas, fazendo- as dialogar com os ramos mais tradicionais e prestigiosos dessa família (o que compreendia, além dos troncos latino e grego, o indo-iraniano). Foi sobretudo após sua entrada no Collège de France que seus trabalhos passaram a dar uma atenção especial às línguas do Mediterrâneo Antigo. Institucionalmente, ele se tornou membro da Associatio pou l’E cou age e t des Études Grecques en France (AEEG) em 1908, da qual viria a ser presidente durante a Primeira Guerra Mundial e em cuja revista publicou um bom número de artigos, como se verá mais adiante na presente tese. Já quanto a seus trabalhos científicos mais importantes na área, ele publicou dois livros que se propõem a reconstituir a história social dos antigos gregos e latinos por intermédio de suas línguas. Ape çu d’u e Histoi e de la Langue Grecque e Es uisse d’u e Histoire de la Langue Latine, publicados respectivamente em 1913 e 1928, não só marcaram época, como continuam a conhecer, até o início do século XXI, novas edições e reimpressões. As duas línguas já ocupavam um lugar importante em duas obras anteriores, embora estas não
49 se centrassem nas relações entre língua e sociedade, Les Dialectes Indo-Européens (1908) e Introduction à l'Étude Comparative des Langues Indo-Européennes (1903)10.
O contato de Meillet com os sociólogos teve início após o ingresso de Isidore Lévy, Marcel Mauss e Henri Hubert na EPHE, nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do XX. O clima era favorável a tal encontro em vários sentidos. Durante o Affaire Dreyfus, Meillet tomou o partido dos dreyfusards, como boa parte dos sociólogos. Além disso, do ponto de vista epistemológico, após ter flertado com a teoria da imitação tardeana, ele encontrou na defi içãoàdeà fatoàso ial àdeàDu khei àu à eioàdeàfaze àprogredir a linguística. Com efeito, partindo do princípio que a língua tem também uma existência autônoma aos indivíduos, Meillet elaborou toda uma explicação sociológica para dar conta de sua dimensão histórica. A partir de 1902, ele colaborou em todos os números do AS com resenhas e com longas notas que faziam um balanço do estado atual da linguística na subseção da revista que lhe fora destinada11. Seu texto conceitual e metodologicamente mais importante publicado no AS foi a memória Comment les Mots Changent de Sens (AS, 1906: 1-38). O centro da argumentação recaía nesse caso no conceito de emprunt (empréstimo), o qual postulava que os indivíduos participam ao mesmo tempo de diversos grupos sociais, cada qual com um vocabulário próprio atrelado à dinâmica das relações ali existente. O crucial, para Meillet, era acompanhar a trajetória de idas e vindas de palavras entre as fronteiras desses grupos, modificando as dinâmicas existentes anteriormente (acrescentando novas palavras, mas também modificando o sentido que elas podiam vir a ter no novo contexto). Como as palavras não circulam sem as pessoas, na base da linguística geral de Meillet estava assentada sobre uma linguística histórica sociologicamente informada12. É importante destacar ainda que, tal como ocorria com Hubert no registro da sociologia religiosa e da arqueologia, esse trabalho histórico era apenas possível graças à comparação entre diferentes línguas ou diferentes registros de uma mesma língua. Tratava-se de uma maneira bastante eficaz e por vezes a única possível de definir se uma palavra é natural ou veio por meio de importações.
E aqui o contato entre sociólogos e linguistas durou: para além das relações diretas entre Meillet e os membros da equipe do AS13, Joseph Vendryes, um de seus primeiros
10 Ainda assim, esse livro traz discussões importantes do ponto de vista sociológico em seu capítulo final,
intitulado Vocabulaire. Cf. MEILLET, 1903: 344-370.
11 Trata-se da subseção Le Langage ou Linguistique, situada na última seção do AS, Divers, criada
também em 1902.
12 Sobre o texto citado de Meillet, cf. BENTHIEN, 2011. Já quanto ao fundamento epistemológico de sua
obra, veja-se VENDRYES, 1937, BERGOUNIOUX, 2006 e SWIGGERS, 2009.
13 No Fonds Antoine Meillet, depositado nos arquivos do IMEC-Caen, constam cartas recebidas por ele
de Robert Hertz (MLT 12.111), Émile Durkheim (MLT 12.70), Jean Marx (MLT 13.45), André Piganiol (MLT 13.79), Marcel Granet (12.99). No Fonds Mauss-Hubert, pertencente à mesma instituição, foram consultadas cartas enviadas por Meillet a Henri Hubert (MAS 50).
50 orientandos, era também bastante próximo aos durkheimianos, trabalhando lado a lado com Henri Hubert no que se refere aos antigos celtas14. Ao menos em um plano de continuidade teórica, o mesmo pode ser afirmado quanto a dois discípulos seus mais jovens, Émile Benveniste e Pierre Chantraine.
Ora, foi como linguista-sociólogo que Meillet procurou intervir no espaço dos antiquisants. Seu conceito de emprunt foi amplamente utilizado para tornar compreensível a o ige àdosàdialetosàg egosàeàoàdese volvi e toàhistó i oàdoà g egoà o u ,à e à o o,à oà campo latino, para entender as transformações do latim a partir da expansão romana15. Ainda assim, por certo, havia limites para sua explicação, uma vez que os dados sobre a circulação de pessoas nem sempre eram confiáveis ou mesmo existentes para períodos remotos da história. Em todo caso, mesmo quando existia tal lacuna de informação, argumentava Meillet, era preciso ao menos supor a existência desses circuitos para explicar a singularidade de uma língua ou de um dialeto16.
O terceiro e último colaborador do AS que, sem ser exatamente um antiquisant, investiu nos estudos greco-latinos foi Paul Huvelin. Nascido em 1873, ele não se formou, como Hubert e Meillet, no universo da Faculdade de Letras de Paris e da École Normale Supérieure, mas sim na Faculdade de Direito. Segundo Frédéric Audren, Huvelin se especializou cedo em uma área carente na universidade francesa, qual seja, a história do direito comercial (AUDREN, 2001). Duas conquistas marcaram sua entrada no sistema de ensino francês. Em 1897, ele defendeu uma tese intitulada Essai Historique sur le Droit des Marchés et des Foires, na qual a comparação entre os direitos comerciais greco-romano, medieval e moderno permitia problematizar a especificidade e a autonomia de legislações historicamente dadas frente aos arranjos sociais que as engendraram17. Dois anos mais tarde, ele ainda obteve o primeiro lugar na agrégation de droit (seção histoire du droit), o que lhe permitiu na sequência assumir postos universitários em Aix-en-Provence e, mais tarde, em Lyon (aqui, de fato, ocupando uma cadeira intitulada Droit Romain).
Sem entrar agora em detalhes quanto a seu trabalho de pesquisa, cabe aqui apontar para a importância dos dados jurídicos provenientes de Grécia e Roma Antigas18. Huvelin certamente dominava o grego e o latim desde o ensino secundário, uma vez que tais línguas
14 Vendryes também manteve as posições teóricas de Meillet. Cf., por exemplo, VENDRYES, 1968. 15 Veja-se MEILLET, 1913 e 1928.
16 Para uma ilustração desse tipo de dificuldade, veja-se o artigo que Meillet publicou em 1908 na Revue
des Études Grecques, intitulado La Place du Pamphylien parmi les Dialects Grecs (REG, 1908: 413-425).
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Huvelin considerou mesmo os povos então chamados primitivos em suas relações com os demais. Ele chega mesmo a se valer de exemplos provenientes dos índios do Brasil. Cf. HUVELIN, 1897: 338-346.
51 eram obrigatórias para os exames dos quais dependiam a obtenção de certificados em direito. A atuação no terreno da história do direito tornou necessários estudos adicionais. O diálogo direto com os antiquisants já data de sua tese, quando Adhémar Esmein, um dos mais renomados estudiosos do direito romano, professor da Faculdade de Direito de Paris e da EPHE, tomou parte em seu júri de defesa. Na sequência, Huvelin publicou textos sobre a dimensão religiosa do antigo direito penal romano19, comentou um decreto comercial grego recém-encontrado20, bem como produziu uma série de dez verbetes no Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines, os quais tratavam tanto de história do direito comercial grego quanto de noções específicas do direito penal e comercial romano.
A adesão ao projeto editorial e científico encabeçado por Durkheim se deu em 1903, em meio a esse seu pesado investimento nos estudos greco-latinos. Sabe-se que os primeiros contatos com os durkheimianos foram intermediados por Emmanuel Lévy, colega de Huvelin na Faculdade de Direito de Lyon. Sabe-se também que as primeiras cartas trocadas entre ele e Mauss datam já de 189921. Uma análise das resenhas que ele escreveu para AS e de sua única memória aí publicada dão mostras de que seu recrutamento valorizava o uso e a crítica positiva dos modelos sociológicos para a discussão dos dados provenientes da Antiguidade Clássica22. Ainda durante a Primeira Guerra Mundial, Huvelin voltou ao tema do comércio dos antigos para, discutindo a Segunda Guerra Púnica, espelhar a situação moderna, também ela u aàgue aàdeàusu a à HUVELIN,à 9 7 .àápósàoà o flito,à o tudo,àele mesclou a carreira de professor universitário com a de político, lançando-se para a disputa de cargos públicos em Lyon com um sucesso apenas relativo. Ele falecerá subitamente na sequência, em 1925.
Mas o que concluir a respeito dessas três trajetórias bastante diferentes? Há algo em comum entre elas que permita caracterizar um momento específico da relação entre