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Açık Ve Zımni Đrade Beyan

Uma das considerações mais marcantes no conto Meu tio o Iauaretê é a recorrência da oralidade, que se manifesta não na tentativa de representar mecanismos da fala por meio de personagens criados – recurso esse da ideia de oral tão comum em vários momentos da literatura brasileira –, mas, sim, na fala do protagonista Tonho Tigreiro, dando a sensação viva do acontecimento à frente do leitor.

Vários foram os recursos aparentemente utilizados pelo autor para que se aproximasse o mais fiel possível da oralidade – fala-se em tentativa, já que, conforme Preti (2006, p. 126), a “escrita não pode ser, em momento algum, a representação absoluta e fiel da fala”.

Todavia, ainda referindo às contribuições do citado autor, mesmo que seja complexa a originalidade da oralidade para a modalidade escrita – tendo em vista os gestos corporais, as trocas de olhares dos interlocutores ou determinadas situações ou emoções cultivadas no

momento da conversação –, ainda é possível ter a noção, ou outrora dito, a sensação do oral na escrita, tendo em vista alguns mecanismos usados como recursos linguísticos de autoria.

Segundo ele:

[...] é possível fazer chegar ao leitor a ilusão de uma realidade oral, desde que tal atitude decorra de hábil processo de elaboração, privilégio do texto literário. O escritor emprega, na escrita, “marcas de oralidade” (grifo do autor), que permitem ao leitor reconhecer no texto uma realidade linguística que se habituou a ouvir ou que, pelo menos, já ouviu alguma vez e que incorporou a seus esquemas de conhecimento (Tannen & Wallat, 1993), frutos de sua experiência como falante (PRETI, 2006, p. 126).

A presente colaboração teórica vai ao encontro do que se acredita ser a base para a genialidade da “recriação” linguística rosiana, pois, supostamente, JGR traz uma bagagem experimentada em longas viagens pelo sertão mineiro e anotadas em surradas cadernetas de bolso, e no conto Meu tio o Iauaretê ficam claras e quase vivas as marcas do oral.

JGR possivelmente pode ter tido a experiência de registrar inúmeros dialetos regionais nas várias viagens e adaptá-las à fala do protagonista Tonho Tigreiro, a fim de que a diversidade cultural brasileira se manifestasse no sobrinho do iauaretê.

Prova de uma das marcas de oralidade (dentre outras) contidas no conto são as constantes repetições de palavras ou expressões do protagonista ao longo do texto, ora para acentuar a fala, ora para expressar algum tipo de emoção: “[...] Maria-Maria roncou, suaçurana foi saindo-saindo” (ROSA, J.G., 1969, p. 138); “[...] Também, eu nesse tempo eu já tava triste, triste [...]”, “[...] Se algum macho vier, eu mato, mato, mato [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 139); “[...] Mas a Pé-de-Panela tinha comido, comido, comido, bebeu sangue da mula, bebeu água [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 146).

O fato de o protagonista repetir de diversas maneiras certas palavras, segundo Piaget (1983), lembra uma criança que na fase de aprendizagem conversacional, logo, na inocência infantil, remete à ideia da simplicidade do homem sertanejo que tem carência pela aprendizagem ou pelo desenvolvimento adequado quanto à fala ou escrita. Obviamente, essa falta lhe ocorre devido ao fato de viver isoladamente ou por não ver na aquisição de quase um alfabetismo a importância para a plena necessidade e efetividade comunicativa.

Outrora, como um dos recursos estratégicos de JGR para enriquecer o citado conto, nessa identidade simplória sertaneja antes referida também se enquadra o protagonista que se isola em sua cabana e, por não ter contato com outras pessoas, aos poucos perde a habilidade de falar – em outras palavras, a identidade humana –, a ponto de quase mesclar a própria linguagem com a linguagem de um bicho – tal como observado na metamorfose.

Outro recurso de oralidade no conto é o uso de sufixos, tanto em grau aumentativo quanto diminutivo. Este último, segundo Preti (2006), pode ter valor afetivo ou depreciativo, dependente da relação existente entre os falantes ou da situação em que for utilizado. Na sentença “Capim mexeu redondo, balançadinho, devagarim, mansim [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 129), o diminutivo revela o aparente grau de humildade que se manifesta na simplicidade sertaneja observável como coloquialismo. Porém, essa face de ingenuidade do protagonista tão logo se percebe que ora se revela também ser astuta, sagaz, que constrói a fala, ora pelo uso do diminutivo como aparência de afetividade – na tentativa de conquistar a confiança do interlocutor –, ora por ocasiões em que o sufixo “inho” tem o sentido de ironizar, de desdenhar: “Mas então agora pode me dar canivete e dinheiro, dinheirinho [...]” ROSA, J.G., 1969, p. 129). Quanto à estrutura sintática do conto, encontram-se outros vestígios do manifesto da oralidade. As frases curtas são recorrência comum no texto tão utilizadas pelo protagonista Tonho Tigreiro; e, a respeito, segundo Preti (2006, p. 132), mesmo que sejam acentuadas ou não com ponto de exclamação, tais frases são outra particularidade comum na conversa face a face, pois lembram a não organização mental na construção da frase, em que novas informações são construídas e postas sobre as anteriores mediante a situação conversacional: “Eh, mais, nhor sim. Eu gosto. Cachaça de primeira” (ROSA, J.G., 1969, p. 127).

Outra consideração acerca da oralidade presente no conto, tendo em vista a estrutura sintática apresentada, é a organização interna em que as frases mínimas compostas por pausas demonstram dada característica da conversação face a face, pois se tem a ideia, segundo Preti (2006), de um interlocutor que interrompe o protagonista, tendo em vista o reconhecimento da mensagem transmitida. A ocorrência dessas interrupções pode ser verificada, dentre muitas outros, no trecho: “Sair de onça, no escurinho da madrugada... Tava urrando calado dentro de em mim... Eu tava com as unhas... Tinha soroca sem dono [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 149). Percebe-se que a pausa, neste caso, apresenta não apenas a omissão de uma informação, completada pelo auxílio de gestos ou outros recursos na presença dos interlocutores, como também indica espontaneidade conversacional, tal como informado anteriormente.

Portanto, ao observar as diferentes recorrências em Meu tio o Iauaretê sobre algumas particularidades da modalidade oral, pode-se, pois, perceber que JGR trouxe nas falas do protagonista a representatividade do falar sertanejo. Na espontaneidade tão marcada pelo tom coloquial e simples de se expressar de Tonho Tigreiro, o autor proporcionou uma reflexão de que outras formas simples de se expressar se tornam presentes por detrás da fala do protagonista. Assim, percebe-se que a língua está em constante evolução; e pela modalidade oral – sem desmerecer a escrita – é que a efetiva manutenção da língua ganha grandes

proporções de crescimento. A cultura e as tradições regionais são repassadas às futuras gerações veiculadas – segundo constatadas no conto – por meio da oralidade.