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A análise da qualidade do banco de dados de casos de acidentes de trabalho fatais, graves e com crianças e adolescentes evidenciou que todos os esforços despendidos em sua construção e incremento foram vitais, mas ainda são insuficientes para alcançar uma melhor representação e cumprimento da vigilância da situação de saúde do trabalhador dos três níveis de gestão da Vigilância à Saúde. Ainda que a utilização dos bancos de dados para análise venha a contribuir para a melhoria da sua qualidade, é fundamental empreender maiores esforços na identificação das suas deficiências, com maior regularidade e precisão, propondo medidas para o seu aprimoramento contínuo.

Os resultados obtidos por este estudo evidenciaram que, de forma geral, a completitude dos dados foi superior à consistência dos campos. Tal situação pode provavelmente estar atrelada à rotina de preenchimento da ficha de investigação/notificação de acidente de trabalho grave.

O instrumento de notificação, ou seja, a ficha de investigação/notificação tem um grupo de dados bastante semelhantes aos da CAT e suas variáveis, podendo estes instrumentos ser complementares, sem, todavia, um eliminar o outro, cabendo o registro em ambos os instrumentos, de forma distinta, no momento da notificação do evento. A utilização da CAT como base para o preenchimento do SINAN pode ser uma estratégia, mas requer avaliação por parte das equipes do Ministério da Saúde envolvidas neste processo; caso contrário a obtenção de informações agregadas com bases em variáveis tornar-se-á impossível. Vale lembrar que em ambos os instrumentos observam-se campos importantes para decisões legais e/ou operacionais, mas não para ação de vigilância da situação de saúde do trabalhador. Neste trabalho, foi possível encontrar algumas inconsistências nos dados registrados, o que dificulta a avaliação epidemiológica e a intervenção.

É importante citar o cruzamento de variáveis cujos campos não são contemplados na CAT como raça/cor e escolaridade. Outro ponto a ressaltar é a falta de informação para georeferenciamento e análise espacial dos acidentes. Tal fato é

explorado neste estudo e conclui-se que, para trabalhar com esta ferramenta, faz-se necessário uma revisão da ficha de notificação/investigação de acidente de trabalho grave. Outro fator limitador é a inexistência na ficha de um campo para registro do logradouro da ocorrência do acidente. As informações do campo 43 registram apenas o “local onde ocorreu o acidente” (instalação da contratante, via pública, instalação de terceiros, domicílio próprio e ignorado), mas não um local reconhecido pela municipalidade, que não é necessariamente o mesmo da ocorrência. Tal condição impede que os acidentes ocorridos em via pública possam ser georeferenciados. Nesta mesma condição encontram-se as empresas terceirizadas, pois não existe campo para registro do endereço da empresa terceirizada. As informações para acidentes ocorridos em empresas terceirizadas são: CNAE da

empresa principal (campo 47), Código Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) da empresa principal (campo 48) e Razão Social (nome da empresa) (campo 49).

Dá-se ênfase à coleta de informações no momento da notificação e ou da investigação. O local de trabalho, por exemplo, pode não ser o mesmo registrado na carteira de trabalho. Muitas empresas têm seus processos produtivos localizados em áreas industriais ou na periferia de Belo Horizonte, mas seu escritório executivo em áreas centrais da região metropolitana. No momento do registro na carteira, insere- se o endereço do escritório executivo. Pode-se inferir que o perfil urbano dos acidentes de trabalho em Belo Horizonte pode estar relacionado com o registro na carteira de trabalho do escritório executivo e não do local onde o trabalhador realmente excuta a sua tarefa.

Registros incompletos e inconsistentes dos campos que se relacionam com o georrefenciamento provocam perda considerável de dados.

No banco de dados estudado, verificaram-se baixos registros de caso de trabalhadores do setor informal. Considerando a característica universal da notificação compulsória dos acidentes de trabalho grave, percebe-se a necessidade de investimento em capacitação e divulgação junto aos profissionais de saúde para identificação, diagnóstico e correlação entre o evento e o trabalho de notificação.

A porta de entrada dos acidentes de trabalho graves no sistema de saúde concentrou-se em três grandes hospitais de referência para a Região Metropolitana de Belo Horizonte. As definições dos pontos de atenção de uma rede se relacionam com a necessidade de algumas respostas (que também demandam maior concentração de tecnologia e equipe especializada) serem consideradas na formação do fluxo de acesso dos trabalhadores e da conformação de uma rede que interligue, de forma virtual, as notificações dos acidentes de trabalho. É preciso desenvolver estratégias diferenciadas para o enfrentamento de problemas complexos, como os relacionados aos acidentes de trabalho graves, para assegurar a atenção à saúde e um registro de qualidade, pois diversos trabalhadores se acidentam e morrem no local de trabalho, em vias públicas e depois de darem entrada em hospitais. Não cabe resposta isolada e em pontos isolados, sendo importante, em vez disso, a complementaridade e completitude da comunicação e da informação.

Com relação às repercussões do SINAN - versão NET, implantado em 2007, pode- se dizer que o Sistema em geral evoluiu. No entanto, no que concerne à dificuldade de captação do agravo na Rede SUS, justificada pela dificuldade de identificação destes casos e/ou eventos e sua correlação com o trabalho, bem como à dificuldade de diagnóstico e da feitura das notificações, afirmações mais conclusivas serão possíveis na análise das notificações efetuadas a partir de diferentes bancos de dados (de outros municípios), com características semelhantes e/ou diferenciadas de captação de casos, ou seja, de forma ativa ou passiva. Neste caso, estamos chamando de ativa a busca da CAT ou de prontuários para a notificação de acidentes de trabalho fatais e graves no SINAN.

Contudo, se os sistemas passivos de vigilância têm como fonte de informação as notificações compulsórias, o seu lado positivo é o fato de que combinam simplicidade e menor custo; seu interesse, no entanto, não está centrado na obtenção do universo de casos ocorridos num determinado período de tempo, sendo os acontecimentos, portanto, passíveis de subnotificação. Por sua vez, os sistemas ativos de vigilância demandam um contato direto e regular com o corpo da vigilância e as fontes de informação, o que, sendo eles representados por unidades de serviços de saúde, oportuniza ações e ampliação da representatividade. São,

portanto, dispendiosos e trabalhosos em função da necessidade de estrutura e equipe capacitada (WALDMAN; 1998; GAZE et al., 2003). A junção destes dois modelos pode ser uma alternativa para a fixação das notificações de agravos relacionados ao trabalho na Rede SUS, mas requer investimento e vontade política para se concretizar, estando tanto o investimento quanto a vontade ainda longe do ideal. Uma perspectiva otimista implicaria desenvolvimento de estratégias paralelas. A duplicidade de registros foi outro aspecto positivo da qualidade do banco analisado. Isso pode estar relacionado aos aspectos gerenciais e operacionais do sistema de informação pela GESAT. As variáveis definidas no SINAN para identificação da duplicidade – campos-chave (número da ficha, nome do paciente, data e município de notificação) – mostram-se eficazes, mas são ainda passíveis de aprimoramento.

É relevante ressaltar que, independentemente das falhas ditas próprias de programas informatizados, a operacionalização do Sistema e o controle das informações armazenadas, quando efetuados conforme procedimentos e recomendações técnicas, contribuíram para uma melhor qualidade do banco de dados. Esta conduta pressupõe aderência à normatização técnica do Sistema e da vigilância.

Outro ponto é a dinâmica do processo de construção na Rede SUS da captação de casos através de unidades sentinela, sobre a qual pode-se afirmar que é um processo em construção e, portanto, na prática acaba por ficar desarticulado do sistema de informação, que tem sido alimentado por meio de busca ativa e das ações de vigilância em saúde. Esse ritmo impõe aos gestores do Sistema uma melhor organização do processo de trabalho, necessário a uma coleta mais adequada e a uma melhor interpretação e utilização dos dados, que, por sua vez, também acaba por ficar prejudicada em função do clichê, ou seja, da formação de um processo estereotipado da definição e construção de unidade sentinela para notificação de agravos relacionados ao trabalho.

A falta de informações sobre aspectos relacionados à vigilância e seu registro no Sistema é um fator limitante na análise da qualidade de bancos de dados e na geração de informações mais contundentes para a vigilância da situação de saúde. Mesmo com o aumento das notificações de acidentes de trabalho graves, a melhoria da qualidade dos dados, a revisão do instrumento de notificação e o aperfeiçoamento do SINAN, é ainda fundamental uma melhor percepção dos profissionais de saúde sobre a importância das notificações destes eventos, da geração de dados fidedignos e da informação, já que a informação de qualidade depende diretamente dos dados que alimentam o sistema (SANCHES, 2003).

Benzer Belgeler