O Auto da catingueira, do qual ‘O pidido’ faz parte, é apenas uma de várias obras dramáticas compostas por Elomar. Para ele, que sempre teve inclinação para composições trágicas ou épicas, a canção sempre representou uma grande limitação. A ópera permitia um desenvolvimento maior das histórias que imaginava desde o começo de seu envolvimento com a música. A criação de um repertório de música dramática sertaneja é um dos direcionamentos da carreira de Elomar. Há cerca de três décadas ele vem dedicando maior esforço para esse projeto estético, após o fechamento da composição do CANCIONEIRO.
Uma das ações empreendidas por Elomar para difundir suas criações dramáticas, de maneira independente, foi a inauguração do teatro Domus Operae, em 2010, dentro de sua fazenda Casa dos Carneiros (FIGS. 34 e35), que fica a aproximadamente 20 km da cidade de Vitória da Conquista, com uma estrada de acesso com trechos de difícil tráfego. O Domus
Operae de Elomar possui certas características em comum com a cidade-teatro de Nova Jerusalém, no Brejo da Madre de Deus, interior de Pernambuco 7, idealizada pelo jornalista e produtor Plínio Pacheco (1926-2002) para encenar sua peça de teatro de título Jesus, que atualmente é conhecida como o espetáculo Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. De maneira semelhante, os dois lugares são isolados da grande capital. Cada um expressa a vontade dos criadores em realizar suas obras de acordo com suas próprias concepções. O lugar, o ambiente em torno da obra é tão importante quanto a própria obra (o ambiente faz parte do cenário). Ambos entendem o caráter ritualístico de se assistir a uma obra dramática, e o esforço que isso demanda, desde comprar os ingressos até o deslocamento. Pude conhecer Nova Jerusalém e de visitar a Casa dos Carneiros, onde assisti à representação do Auto da
Catingueira, de Elomar.
FIGURA 34 – Vista frontal do teatro Domus Operae. Foto: Lucas Oliveira.
FIGURA 35 – Vista lateral do teatro Domus Operae. Aparece na foto um visitante da fazenda. Foto: Lucas Oliveira.
Esse foi um momento significativo, não apenas para esta pesquisa, mas para a trajetória histórica da peça dramática. Pela primeira vez, após décadas de concepção, foi representada na caatinga. A ópera possui um longo tempo de gestação: surgiu ao público há três décadas, no ano de 1984, em álbum duplo de vinil gravado na própria Casa dos Carneiros, quando o Domus Operae ainda não existia. A equipe que fez essa montagem em disco contava com os cantores Dércio Marques, Xangai, Andréa Daltro, o violoncelista Jaques Morelenbaum e o multi-instrumentista de sopros Marcelo Bernardes 8, e ainda a atriz Sônia
Penido.
8 Andréa Daltro é baiana de Salvador. Cantora lírica de formação, transita com liberdade pelo mundo da canção
popular. Ganhou o prêmio de “melhor intérprete” na edição de 2004 do Troféu Caymmi, importante evento de incentivo à cena musical do estado da Bahia. Jaques Morelenbaum e Marcelo Bernardes são músicos requisitados na cena da MPB dos anos 80 até nossos dias. No início de suas carreiras, nos anos 70, integraram o grupo A Barca do Sol, que dialogava com a música de concerto, o rock progressivo e a música rural brasileira. Nos anos 80, Morelenbaum integrou a Nova Banda do compositor Antonio Carlos Jobim, além de ter participado
Segundo Elomar, a concepção do Auto é bastante anterior até mesmo à época do primeiro registro fonográfico. Na folha de dedicatórias do LP, ele fala em Ismar Silveira, “grande Menestrel, que entre [19]64 e 1969, qual parceiro intelectual assistiu o nascimento de cada estrofe” (MELLO, 1984). O próprio disco de 1984 não rendeu representações da peça,
embora para isso, o compositor tenha dedicado grande esforço. Isso só viria a acontecer em abril de 2011, quando ocorreu sua estreia no Palácio das Artes em Belo Horizonte, contando com a presença de três membros da equipe de 1984: Marcelo Bernardes, Dércio Marques e
Xangai, e que foi registrada em DVD.
A apresentação do Auto no Palácio das Artes representa um marco na carreira de Elomar. A crescente importância que vem sendo dada às suas óperas e à fixação em partitura de peças do seu CANCIONEIRO vêm contribuindo para a valorização de seu lado compositor,
antes mesmo da consideração de seu próprio lado performático. Na apresentação que vemos no DVD do Auto, e na que foi realizada na Casa dos Carneiros, a aparição em público de Elomar ocorre apenas ao final da peça, no papel do narrador. Esse papel é realizado, no começo da peça, pelo artista Saulo Pinto Muniz (Saulo Laranjeira, natural da cidade de Pedra Azul – MG, que em sua região norte faz fronteira com a cidade de Elomar). Saulo é famoso por suas imitações e seus personagens humorísticos 9, mas também possui uma longa trajetória como cantor. Na fala que encerra a peça, o papel do narrador é assumido por Elomar, mesmo assim, com seu rosto encoberto por sombras (FIGS. 36 e 37).
como músico de orquestra em centenas de gravações. Bernardes integra a banda do compositor Chico Buarque
desde os anos de 1990.
9 Como exemplo, a Véia Messina, Zé da Silva, o boêmio Sabiá, baseados em tipos populares da sua região; além
dos mais famosos deputado João Plenário e o roqueiro Quelé. Os três primeiros são figuras fixas no programa Arrumação, apresentado por Saulo na Rede Minas. O título do programa é retirado de uma célebre canção de Elomar. João Plenário e Quelé são representados por Saulo no programa A praça é nossa.
FIGURAS 36 e 37 – As duas faces do Narrador do Auto da Catingueira. À esquerda, Saulo Laranjeira; à direita, Elomar. Fotos de Kika Antunes.
Feita a estreia no Palácio das Artes em uma grande metrópole (Belo Horizonte), faltava ainda algo: aproveitar o espaço da Casa dos Carneiros para representa-la em seu local “de origem”: a caatinga. Então, dois anos depois da estreia, a produção de Elomar anunciou a montagem do Auto no Domus Operae em 27 de julho de 2013. Essa apresentação, embora tenha sido também um marco, carregava uma dupla ausência. Um ano antes o cantor Dércio Marques, criador 10 de um dos personagens protagonistas, havia falecido. O papel foi então
defendido pelo cantor e violeiro Pereira da Viola. A segunda ausência foi do cantor Xangai, que, por motivo desconhecido, não participou da montagem, sendo substituído pelo também cantor e violeiro Miltinho Edilberto.
Nessa ocasião, realizei minha primeira viagem à cidade de Vitória da Conquista, onde pude conhecer um pouco da geografia, do clima, do sotaque das pessoas da região; e conheci também a fazenda Casa dos Carneiros. Encontram-se nela dois espaços principais de realização de apresentações musicais: o teatro Escola lírica mineira (que se trata da própria sala de visitas da fazenda, FIG. 38) e, ao lado, o teatro Domus Operae. A Escola lírica é uma pequena sala de recepção, que possui acústica elaborada por Elomar para apresentações e gravações. Lá foram realizadas as gravações do LP do Auto em 1984 e do DVD do cantor
Chico Aafa em 2010 (ALVES, 2010). Foi lá que tive a oportunidade de conversar com Elomar,
no dia 28 de julho de 2013, em companhia dos colegas Glória Lemos de Ledezma e Lucas Dias Dulce, que também realizaram pesquisas sobre o compositor 11. Lá, também conheci o
10 Na área do canto lírico, o criador de um papel é aquele que pela primeira vez encarnou o personagem.
11 Glória defendeu sua dissertação de mestrado, Características do trovadorismo no cancioneiro de Elomar
casal Bruno e Tina Paiva (admiradores da obra de Elomar, que estiveram lá para conhecer a fazenda) e a multi-artista Letícia Regina.
FIGURA 38 – Fachada do teatro Escola Lírica Mineira (Casa dos Carneiros). Ao lado direito, a cozinha da casa; acima, o quarto de Elomar. Aparecem Lucas Oliveira e Letícia Regina.
Foto: Bruno Brim Paiva.
Na noite anterior (27 jul.), assistimos à representação do auto no Domus Operae. Para um expectador de ópera nos moldes europeus, pode causar grande impacto o fato de o teatro utilizar caixas de som para amplificação sonora. O motivo para isso é que a estrutura ainda não está completamente pronta, além de ter as laterais abertas (voltar às FIGS. 34 e 35). Em suma, é um teatro de ópera bastante diferente dos convencionais. Assistimos à ópera com um cenário natural, com a vegetação de caatinga em volta. O lugar possui serras imensas e clima que varia intensamente do dia para a noite (calor durante o dia, frio durante a noite). Assistir a uma ópera dessa maneira também é bastante diferente do convencional.
Apesar do estranhamento, um teatro com esse formato provoca grande diferença na recepção de uma ópera, em comparação com teatros de ópera convencionais, como o Santa Isabel (Recife – PE) e o Santa Roza (João Pessoa – PB). É quase uma conquista chegar a assistir uma apresentação como essa. Essas situações acabam por corroborar um pouco da visão cristã de Elomar, uma visão na qual o sacrifício é algo essencial para uma evolução pessoal no mundo (ele próprio passou por grandes dificuldades para chegar à montagem a qual assistimos).
Apesar das dificuldades, estar nesse lugar, em contato direto com a vegetação da caatinga, com o silêncio da fazenda, traz uma nova noção de escuta para o Auto da
catingueira. Como exemplo musical disso, os silêncios e notas longas incluídos na ‘Tirana da
(MAURÍLIO;RENAULT, 1984) (FIG. 39 e 40). Efeito dramático semelhante acontece na Paixão
de Cristo. O silêncio e o ermo do agreste pernambucano contribuem sobremaneira para o
efeito de cenas como, por exemplo, o suicídio de Judas.
FIGURA 39 – Paisagem das serras na fazenda Casa dos Carneiros. Foto: Lucas Oliveira.
FIGURA 40, exemplo sonoro 42 – Introdução de flauta da ‘Tirana da pastora’ (5º canto do Auto da
catingueira). Edição: Lucas Oliveira, a partir da partitura manuscrita incluída em Mello, 1984 12.
O silêncio é algo importante na ‘Tirana da pastora’, trecho no qual a personagem Dassanta relata sua solidão enquanto trata das cabras de seu pai. Contrasta fortemente com o trecho anterior, conhecido como ‘Dos labutos’, em que se conta a animação com que a personagem aboiava alegremente “chiquê chiquê minhas cabrinha lambancêra” (2º canto, Est. 1), e também seu envolvimento amoroso com o personagem Chico das Chagas.