Esta seção secundária trata da fonte de coleta dos dados para cada variável da pesquisa, bem como a formação de seu constructo, tomado os documentos de referência ao período objeto da pesquisa, que serviu para o tratamento quantitativo.
3.3.1 Fonte de coleta de dados
Após a definição da população e do período do estudo, realizou-se a identificação dos dados e dos documentos necessários para a atividade de coleta, relacionando-os aos construtos
das variáveis da pesquisa, com o intuito de atingir os objetivos, geral e específicos, anteriormente estipulados:
a) Governança Corporativa:
Formulário de Referência, estatutos sociais e demais regimentos da empresa, código de conduta, demonstrativos financeiros, incluindo o relatório de sustentabilidade, disponibilizados no portal eletrônico da BM&FBOVESPA, da Comissão de Valores Mobiliários – CVM e nos websites das empresas ou no bando de dados do GRI.
b) Desempenho superior e persistente:
Demonstrações financeiras das empresas listadas, divulgadas em seus próprios websites, no portal da BM&FBOVESPA, e dados disponíveis no banco de dados do software Economática®.
Além dos dados necessários para desenvolver a pesquisa empírica relacionada a esses dois construtos – governança corporativa e desempenho –, foram ainda utilizados os dados sobre a estrutura de capital (propriedade) das empresas, tomando por base os dados do Formulário Cadastral e do Formulário de Referência, disponibilizados no portal eletrônico da BM&FBOVESPA e CVM, e o setor de atuação da empresa, segundo a classificação da BM&FBOVESPA, para analisar a relação investigada (governança e desempenho) com o perfil das empresas.
3.3.2 Variáveis
Para a Governança Corporativa, utilizou-se como variável um índice de governança corporativa (IGC), adaptado de Silveira et al. (2009) e Lameira (2007), tomando por base as atualizações do IBGC (2009), definido em dimensões, de modo que a sua construção levou em conta a abordagem stakeholders oriented, acrescida, portanto, uma dimensão relacionada aos aspectos da responsabilidade social corporativa.
O Quadro 10 apresenta a composição do IGC utilizado nesta pesquisa:
Quadro 10 – Construção do IGC para a pesquisa
# Item Dimensão
1 A empresa produz seus relatórios periódicos legalmente obrigatórios no prazo previsto e SEM ressalvas? Transparência 2 A empresa utiliza as normas internacionais de contabilidade? Transparência 3 A auditoria é feita por uma das cinco maiores empresas de auditoria em atividade no Brasil? Transparência 4 A empresa divulga informações de remuneração do CEO e membros do conselho em seu
# Item Dimensão 5 O presidente do conselho NÃO é o diretor-presidente da empresa? Administração Conselho de 6 A empresa tem comitês de monitoramento tais como de Comitê de Auditoria e de Recursos Humanos? Administração Conselho de 7 O conselho é composto por maioria de membros independentes? Administração Conselho de
8 O conselho tem entre cinco e onze membros? Administração Conselho de
9 A empresa tem conselho fiscal permanente composto, em sua maioria, por membros eleitos por acionistas não controladores? Ética e conflitos
10
Os conflitos entre sócios e administradores e entre estes e a organização são resolvidos, preferencialmente, por meio da mediação e, se não houver acordo, por arbitragem, previstos
no Código de Conduta? Ética e conflitos
11 O percentual de ações sem direito a voto é menos de 20% do capital total da empresa? Ética e conflitos 12 A relação final dos acionistas controladores dos direitos de fluxo de caixa para os direitos de voto é superior a 1? Ética e conflitos 13
Observando o estatuto da companhia, pelo menos uma das afirmativas é verdadeira: a) cada ação vale um voto?; b) as ações preferenciais têm direito de voto em decisões importantes da companhia?
Direito dos acionistas 14 A empresa oferece tag along além do exigido pelo dispositivo legal? Direito dos acionistas 15 A empresa tem acordos de acionistas que diminuem a concentração de controle? Direito dos acionistas 16 O free-float é maior ou igual ao que é exigido no Segmento de negociação Nível 1 da BM&FBOVESPA (25%)? Direito dos acionistas
17
O código de conduta da empresa define responsabilidades sociais e ambientais, tendo compromisso com o desenvolvimento sustentável formalmente inserido na estratégia da companhia?
Responsabilidade Corporativa 18 A empresa publicou seu balanço social ou relatório de sustentabilidade seguindo uma padronização? Responsabilidade Corporativa 19 A empresa apresentou no relatório as contribuições voluntárias à sociedade? Responsabilidade Corporativa 20 A empresa divulga os resultados de gerenciamento de impactos de suas atividades sobre o meio ambiente, de forma periódica e sistemática? Responsabilidade Corporativa
Fonte: Elaborado pelo autor com base em Silveira et al. (2009), Lameira (2007) e IBGC (2009).
Nesta pesquisa documental (MARTINS; THEÓPHILO, 2009) os dados para a construção do índice de governança corporativa referem-se aos relatórios do exercício de 2013, ou vigentes neste período, nos documentos já indicados no item 3.3.1, (detalhado no Apêndice D). O índice foi construído a partir da soma dos valores obtidos da seguinte forma: i) atribuiu-se 1 (um) ponto para cada questão respondida de forma positiva; e ii) em se tratando de ausência de informações nos documentos publicados ou negativa das questões, foi atribuído valor 0 (zero) para o item respectivo. Desta forma, o valor máximo atribuível ao IGC é de 20 (vinte) pontos para cada empresa.
Na dimensão Responsabilidade corporativa do IGC, a partir da análise documental dos códigos de conduta ou códigos de ética, buscou-se associação de palavras-chave que
evidenciassem políticas de sustentabilidade, quando não claramente disposto nas seções do documento, envolvendo as metas ou ações estratégicas para políticas socioambientais, como: “comunidade”, “impactos ambientais”, “meio ambiente”, “projetos sociais”, “projetos ambientais”, “responsabilidade corporativa”, “responsabilidade social”, “responsabilidade socioambiental”, “sociedade”, “sustentabilidade”, “desenvolvimento sustentável”.
Para determinar o desempenho das empresas utilizou-se o indicador de desempenho Retorno sobre Ativo (Return On Assets – ROA) e o valor de mercado das empresas, disponível na base de dados do Economática®.
Leal e Carvalhal-da-Silva (2005) consideram o ROA como a razão entre o lucro operacional e o valor total do ativo, sendo este mesmo entendimento utilizado por Silveira (2002), Almeida e Santos (2008) e Gallon et al. (2009) – que comparam com definições alternativas para o ROA –, bem como em Azeredo, Souza e Machado (2009), Lameira e Ness Jr. (2011), Lopes (2012) e Navarro et al. (2013), sendo também a definição adotada nesta pesquisa.
O valor de mercado também tem sido utilizado em estudos empíricos como medida do desempenho das empresas na perspectiva de mercado, definido como valor total das ações da firma (SILVEIRA, 2004; FERNANDES; COSTA; CÂMARA, 2007; ANDRADE et al., 2009; GHANI; MARTELANC; CRESCITELLI, 2012). Destaca-se ainda sua utilização como proxy de classificação de melhores empresas, como adotado, por exemplo, na Revista Exame – edição especial “Melhores e Maiores 2014” (EXAME, 2014a), para classificação das 200 (duzentas) maiores companhias abertas da América Latina.
Assim, para medir o desempenho superior e persistente, com enfoque econômico, tanto para a métrica de rentabilidade financeira quanto para o valor de mercado, foram utilizadas as variáveis ROA e valor de mercado, referentes aos exercícios de 2010 a 2013. O construto do indicador das variáveis de desempenho superior e persistente toma por base o conceito de Villalonga (2004), Carvalho, Kayo e Martin (2010), Besanko et al. (2012) e Cardoso (2013), com adaptação, conforme o Quadro 11.
Quadro 11 – Construto das variáveis de desempenho superior
Variável Identificação Operacionalização Referência
Desempenho financeiro superior no ano � � � �− ∑ � − � � � � − 1
Elaborado pelo autor com base em Villalonga (2004),
Carvalho, Kayo e Martin (2010), Besanko et al. (2012) e Cardoso (2013)
Variável Identificação Operacionalização Referência Desempenho de mercado superior no ano � � � � � � ( ∑ � � − � � � � � − 1 )
Elaborado com base em Besanko et al. (2012) e Cardoso (2013), com base
nas variáveis usadas por Andrade et al. (2009) e
Ghani, Martelanc e Crescitelli (2012) Notas: ROA: retorno sobre o ativo. � : número de empresas no setor. VrMerc: indicador de valor de mercado extraído do Economática®, calculado com a cotação da ação na BM&FBOVESPA.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Desta forma, os indicadores iniciais de desempenho, relativo ao ano, demonstram, para o desempenho financeiro, a diferença entre o desempenho da empresa com o desempenho médio das concorrentes do setor em que atua; e para o desempenho de mercado, a razão neste contexto. A necessidade de diferenciação na construção dos valores comparados de ROAS e VMS se deu pelos seguintes aspectos:
O ROA foi formado pela razão entre o EBIT e o Ativo Total, podendo aquele numerador ser um valor negativo, o que leva para o cálculo do ROAS a diferença matemática entre o ROA da empresa e a média de suas concorrentes no setor como mais adequado, semelhante à proposta de Villalonga (2004), replicada por Carvalho, Kayo e Martin (2010). Em quaisquer hipóteses de diferença de valores, envolvendo número negativo, ainda se tem sempre um valor positivo quando a empresa considerada tem desempenho superior em dado ano.
Para o valor de mercado, no entanto, por este ser sempre positivo, mas com valores que se apresentaram elevados demais na amostra dos grupos, a razão se faz mais necessária, favorecendo o resultado de desempenho superior, com base no cálculo do VMS, quando o valor de mercado da empresa é maior que o valor de mercado médio das empresas concorrentes do setor, de todo modo, seguindo o conceito de Besanko et al. (2012).
O setor econômico considerado para a comparação dos desempenhos é o da classificação da BM&FBOVESPA. O desempenho da empresa, em um dado ano, é superior quando seu índice de desempenho financeiro superior no ano (ROAS) for maior que 0, ou quando o de valor de mercado superior no ano (VMS) for maior que 1, e é persistente quando o valor considerado sempre se manteve nesta condição, durante os exercícios financeiros do período analisado (2010 a 2013). A escolha do período de quatro anos para análise da
vantagem competitiva segue os trabalhos de Rumelt (1991) e Carvalho, Kayo e Martin (2010), e permite incluir os efeitos relativos a todo um ciclo de negócios.
Destarte, a população foi dividida em dois grupos, com base no desempenho superior e persistente: grupo 1, composto pelas empresas que possuem desempenho superior e persistente durante os 4 (quatro) anos do período analisado; e o grupo 2, composto pelas demais empresas, representadas por aquelas que não apresentaram desempenho superior e persistente. Frisa-se que, para cada perspectiva de desempenho (financeiro e de mercado) há dois grupos, um referente a empresas com desempenho superior e persistente e outro sem esse desempenho.
Portanto, o construto do desempenho superior e persistente utilizado na correlação com o IGC de cada empresa, decorre da média aritmética do indicador, dentro do período analisado (2010 a 2013). Assim, para desempenho superior e persistente, no enfoque financeiro (DSPF), o cálculo segue conforme a Equação 1.
=∑ �� �
4 (Equação 1)
Para o desempenho superior e persistente, com base no valor de mercado (DSPV), faz- se uso do cálculo conforme a Equação 2.
� =∑ ���
4 (Equação 2).
Portanto, quanto ao desempenho superior e persistente, nas duas métricas, pode-se resumir sua construção através da Figura 3.
Figura 3 – Construto do desempenho superior e persistente
Fonte: Elaborado pelo autor.
Variável operacional Variável de referência
Var. Base de cálculo Métricas
Conceito Desempenho superior e persistente
Financeira ROA ROAS DSPF Valor de mercado VrMerc VMS DSPV
A seguir, são apresentadas as formas de tratamento dos dados considerando os testes estatísticos a serem utilizados para atender aos objetivos e validar a hipótese da pesquisa.