Questionadas sobre quais ações as IES poderiam desenvolver para a reversão do sofrimento no âmbito acadêmico, as docentes pontuaram alguns aspectos como regras institucionais claras; remuneração com base na titulação; reconhecimento do trabalho; respeito na relação IES-professor e que o aluno seja tratado como educando e não como cliente.
Enfrentando a crise e os problemas de frente. Deixando claras as regras do jogo (E2).
Adotar a cultura de responsabilizar o aluno pelas próprias escolhas. Hoje existe subliminarmente a cultura paterna/materna, estão sempre protegendo o aluno, tratando-o como coitado e o mercado de trabalho é bem diferente deste quadro (E4).
Olha, primeiro me pagando como mestre, como a titulação que eu tenho. Segundo, acho que reconhecendo o meu trabalho, existe, a universidade, ela criou um mecanismo para isso, mas quando a coisa às vezes é muito procedimental, você acaba não estando dentro do perfil, sendo que você faz um trabalho decente. Se eu não fiz uma nova pesquisa de iniciação científica, eu não vou incluir ali, no entanto, eu não deixei de trabalhar a iniciação científica. Então muitas vezes eu não conto pontuação fazendo o trabalho. Eu gostaria de ter um reconhecimento desse trabalho. Por exemplo, os alunos foram me defender na coordenação, a coordenação não me notificou isso, eu acho isso desrespeitoso demais, porque você ter uma sala inteira indo falar na coordenação para lhe defender, é muita coisa. E você saber pelo aluno e não pela coordenação, é horrível. Isso quer dizer que a IES não respeita o seu trabalho. Respeitando verdadeiramente o papel do professor. Isto está no discurso deles, mas não na prática, pois já me deparei com situações constrangedoras em que o coordenador coloca o professor na parede diante do aluno, assim como já me vi em situação vexatória em que o coordenador dá a entender que é cúmplice do aluno e que o professor é empregado dele, ou mesmo quando o coordenador tenta transmitir a ideia de que o aluno tem condições de igualdade com o professor, o que não poderia se sustentar do ponto de vista do conhecimento, pois, caso contrário, sua presença e seu papel seriam dispensáveis. É a falsa ideia de que a democracia está em todos os lugares e em todas as situações. A igualdade formal não suplanta as diferenças de conhecimento, é isso que permite que as pessoas possam se aperfeiçoar continuamente, mas passei por situações bastante delicadas nesse sentido. Poderiam também tornar o trabalho melhor oferecendo condições técnicas adequadas. Se minha aula se realizasse em um ambiente em que é possível acessar a internet, fazer pesquisas, junto com os alunos, ou se houvesse projetor disponível sempre o resultado seria bem melhor (E6).
Quanto ao incômodo gerado pelo sentimento de ser refém do aluno, parece existir uma indignação, relacionada ao fato de o professor se sentir submetido às exigências do aluno, que é tratado como cliente na IES. Ressalta-se a perda de autoridade da IES e do professor, na
medida em que a relação professor-aluno se transforma em uma relação de fornecedor-cliente. Rodrigues (2007) já destacava que nunca a fragilidade e o empobrecimento das práticas associativas dos professores foram tão grandes, trazendo consequências muito negativas para a profissão docente. Torna-se urgente descobrir novos sentidos para a ideia de coletivo profissional, encontrando espaços de debate, criando rotinas de planejamento e funcionamento, modos de decisão e práticas pedagógicas que valorizem a troca, a corresponsabilização, a colaboração e a partilha entre colegas professores.
Os espaços de discussão é a proposta de Dejours (2011e) através da Clínica Psicodinâmica do Trabalho em que a organização do trabalho (nas suas dimensões visíveis e invisíveis, prescrita e cognitiva, afetiva, intersubjetiva, política e ética) é conhecida. Identificam-se, nessa clínica, como os sujeitos constroem as estratégias defensivas para enfrentar o real da organização do trabalho. Essa necessidade de um espaço de discussão foi evidenciada nas próprias palavras da entrevistada E1:
Se você resolver fazer, sei lá, fazer um grupo focal depois... Eu acho que vai ser muito legal... hoje o professor é Mais Valia, total... E o que é ser o professor universitário? É o glamour, é o prestígio, mas hoje, esse professor está sofrendo as mesmas pressões que um professor de ensino médio. Eu, um dia, num surto, do que eu queria da minha vida, eu falei: “Meu, se eu quisesse dar aula como eu estou dando, eu teria feito licenciatura em história, eu adorava história...” (risos). Mas é isso, porque é o ser professor universitário? Eu acho que isso você poderia colocar na sua pergunta... É, qual é seu imaginário de professor universitário? O meu imaginário de professor não sou eu, o meu imaginário, se você perguntar o que é, é um intelectual, é uma pessoa que se dedica à pesquisa, aos alunos, e que eu não consigo ser. Eu me esforço, mas por conta de todo esse movimento, o tempo, para, corro atrás do dinheiro, eu não consigo fazer tudo. Então nem eu... Porque eu não vejo eu como um professor universitário, aquele que eu queria ser, não é, aquele que eu acho que é o professor, que eu olho e fico falando: “Nossa...”, tipo, uma pessoa de encontros, uma pessoa com tempo, uma pessoa que consegue(...). recuperar uma memória, não consigo fazer isso, eu consigo promover, eu promovo, mas esse tempo de divagar, de refletir, sabe, eu não estou achando, e olha que eu me esforço (risos). E sabe o que poderia ser interessante, para ver como que cada um lidou com a situação, então tá: “então diante desse problema, como é que você está lidando?”, quem sabe o outro começa a se apropriar dessas outras coisas, também... Para suportar. E para pensar a carreira docente com outro formato, não é. Porque, lógico, você tem aqueles que já se desencantaram, você vê que eles se desencantaram (E1).
A falta de tempo, diante de tantas atribuições da profissão parece ser também um fator de sofrimento entre as docentes.
A pesquisadora atuou como observadora participante, ou seja, estava presente em algumas situações de convívio das professoras na IES B. Essas observações aconteciam na sala dos professores, nos períodos anteriores às aulas, no intervalo e no final delas. Alguns
comportamentos desenvolvidos pelos docentes nessa instituição podem remeter a um sofrimento no contexto de trabalho. Sobre essas observações destacam-se dois aspectos:
‒ Nota-se que os professores demoram a se dirigirem às salas de aulas. Grande maioria dos docentes começa a se movimentar após aproximadamente 10 minutos do horário marcado. Até que cheguem à sala de aula, já podem ter se passado 15 ou 20 minutos, uma vez que no caminho vão conversando com colegas, encontram um aluno, decidem comprar água. Esse tempo, para muitos professores, aparece como um recurso de “fuga” às adversidades cotidianas, ou seja, prolonga-se o tempo de entrada na sala de aula e, consequentemente, reduz-se o tempo de exercício da docência. Acontece também de permutar o intervalo para antecipar o término da aula. Tal fato, para Esteve (1999), pode ser uma forma de reduzir cada vez mais o tempo de se defrontar com a sala de aula e com os problemas que dela advêm.
‒ As professoras na IES B passam o crachá na entrada e na saída da instituição, assim como são obrigados a assinarem uma lista de presença na sala dos professores no início e no final das aulas. Tal fato parece incomodar muito as professoras, conforme comprovado nos trechos:
Aqui não, eu acho que é uma coisa do Brasil, mesmo, mas de qualquer maneira aqui a gente tem muito essa questão da humilhação, assim, você fica, você tem que entrar, passar o ponto, você tem que... Passar o cartão na entrada e saída, depois você tem que assinar uma lista na entrada e saída, você tem que cumprir horário, mesmo não precisando, no caso, como nós estamos aqui, faz duas semanas sem atividade docente, temos que cumprir horário. No final da noite, os professores têm que assinar ponto, ficam tudo em cadeirinha, esperando na fila, que nem... nem sei o que é isso, não tem nem nome, é uma humilhação. Outra coisa que eu também acho que é importante agregar para a entrevista é que eu tenho uma lembrança boa do início que eu trabalhei aqui, as pessoas eram mais unidas, os professores também conversavam mais entre eles. Hoje em dia não existe mais isso, eu tenho um outro professor com quem eu converso, as pessoas não trocam mais, o ambiente de trabalho também está bem ruim, eu acho, assim, não é, bem assim, desmotivante, eu acho que é uma coisa meio generalizada, esse descaso, essa coisa de a gente ser tratada meio como mão de obra, mão de obra, mesmo. Então eu acho que é isso (...) (E5).
O controle excessivo exercido pela IES B parece incomodar muito as professoras, a ponto das três docentes relatarem que visualizam tal fato (do controle excessivo) como uma verdadeira humilhação ao papel central que o professor desempenha para a educação. As professoras da IES B relatam também que, durante o período das aulas, há um funcionário da instituição que vai conferir de duas a três vezes se o docente está em sala de aula e se os alunos também estão.