A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar.
(Paulo Freire)
A obra de Paulo Freire foi escolhida para o debate a respeito da subcategoria “diálogo”, inclusa na categoria “aprendizagem de valores” no Programa “Escola 2.0”. A escolha se justifica pela vasta literatura que tal autor escreveu a respeito do tema na educação, assim como a época em que suas ideias e seus ideais fervilhavam está diretamente relacionada ao tempo em que a TV Cultura começou a se preocupar em se tornar uma televisão voltada para a educação de seu povo, na década de 1960.
Foram analisadas cinco obras do autor: “Pedagogia da autonomia”; “Pedagogia do Oprimido”; “Essa escola chamada vida”; “Pedagogia dos sonhos possíveis”; e “Educação e Mudança” e ainda uma obra de Almeida (2009), “Paulo Freire”, que apresenta a história de vida e pensamento de Freire. Esta última contribuirá com este trabalho elucidando as histórias e os conceitos que marcaram seus ideais, as reflexões sobre o “diálogo” na escola e a atualidade das ideias de Freire.
O autor em questão, Paulo Reglus Neves Freire, nasceu em Recife, em 1921, e é considerado um dos pensadores mais ilustres da história da pedagogia no mundo. Preocupou-se com a educação popular e defendia que o método dialético tornaria possível que o aluno construíisse sua aprendizagem, estabelecendo um caminho próprio, caminho este que o libertaria do que ele denominou “educação bancária” em que o professor teria apenas o papel de depositar conhecimentos preestabelecidos em seus alunos. Desse modo, incitou novos papéis para educandos e educadores, mostrando a importância, não apenas de ensinar, como também de permitir a formação de uma consciência política aos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, por meio do diálogo.
Freire afirma que
Toda leitura da palavra pressupõe uma leitura anterior do mundo, e toda leitura da palavra implica a volta sobre a leitura do mundo, de tal maneira que “ler mundo” e “ler palavra” se constituam um movimento em que não há ruptura, em que você vai e volta. E “ler mundo” e “ler palavra”, no fundo, para mim, implicam “reescrever” o mundo. Reescrever com aspas, quer dizer, transformá-lo. A leitura da palavra deve ser inserida na compreensão da transformação do mundo, que provoca a leitura dele e deve remeter-nos, sempre, à leitura de novo do mundo. (FREIRE, 1985, p. 15).
Com isso, o autor salienta a importância da leitura e da escrita enquanto forma de se manifestar significando e expressando ideias, assim, a palavra deixa de ser pensamento e passa a ser comunicada.
Essa dimensão dialógica do pensamento freireano compõe o que ele chamou de “Pedagogia Crítica” e, nela, Almeida (2009, p. 43), alerta que o diálogo “é ponto de partida e de chegada.” Desse modo, não há aprendizagem ou construção de conhecimento sem que haja um diálogo. Ninguém aprende nada sozinho. Mesmo um autodidata busca em livros e outras fontes respostas aos seus questionamentos, e, dessa forma, “dialoga” com os autores lidos, verifica outras experiências e conhecimentos e, a partir daí, adquire novos conhecimentos.
O diálogo faz crescer na medida em que leva seus debatedores a defender seus diferentes pontos de vista e também a compreender o ponto de vista do outro. Dialogando, pessoas com diferentes talentos e habilidades, promovem descobertas de outros talentos nos demais integrantes de um grupo, levando todos a novas aprendizagens.
Almeida (2009, p. 29), questiona então “Como Paulo Freire pode ser chamado para ajudar a desenhar um método de alfabetização crítico-digital?” ao que o autor mesmo responde:
Para estar neste mundo e poder participar de suas potencialidades é preciso dominá-lo. Este domínio não se dará pelo controle simples de seus manuais de instrução ou pela manipulação de seus teclados e softwares – „caminhar sobre as letras‟, como dizia Freire. Tal participação demanda um aguçamento do senso crítico, acompanhando a discussão de seus problemas e de suas perspectivas. Este domínio se desenvolve também com a compreensão de seus instrumentais: navegar na internet, trabalhar com um processador para escrever um texto, poder enviar uma mensagem para o outro lado da cidade ou do mundo, criar uma agência de noticias ou editar jornais comunitários, divulgar seu currículo na rede: tudo isso pode ser um caminho freireano de uso crítico e político. (ALMEIDA, 2009, p. 29).
Com as possibilidades que tecnologias como a internet oferecem, observam- se diversas transformações tanto na forma quanto no espaço da leitura e da escrita. Textos produzidos coletivamente tornam imprecisas as fronteiras que separam leitor e escritor, pois, ao mesmo tempo em que está lendo, o indivíduo pode tecer comentários, propor hipertextos17, produzir novas reflexões. Mesmo apenas como leitor, não necessita fazer uma leitura linear do texto, podendo optar por outros assuntos em novos hipertextos. No texto digital, leitura e escrita se estruturam de forma não linear, tendo como suporte a tela do computador (ou de outra mídia), explorando o espaço virtual de acordo com suas prioridades, interesses ou necessidades, construindo conhecimento com base nas escolhas realizadas.
Outro ponto essencial na obra de Freire é a questão da prática da pesquisa enquanto parte do trabalho docente, sendo fundamental para tornar a dialogicidade possível
Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino, continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar e, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. (FREIRE, 1999, p. 32).
Considerando que a prática educativa é reflexiva e dialógica e que o ato pedagógico é um ato político, acredita-se na força de transformação social do ato de educar. Para tanto, o professor deve ser dinâmico, criativo, atento às questões locais, mundiais e tecnológicas; ser conhecedor das concepções pedagógicas adotadas pela escola, norteadoras da sua ação educativa, como condição essencial para a autonomia e autoria de pensamento. Para Freire, a educação tem caráter permanente e, desse modo, a sociedade está sempre se educando. Para ele, a sabedoria nasce na ignorância:
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17 A concepção de hipertexto surgiu antes do computador. O hipertexto é um texto com conexões. Podemos caracterizá-lo por meio de seis princípios: metamorfose (rede hipertextual está em constante construção e renegociação); heterogeneidade (os nós, as informações e as conexões de uma rede são heterogêneos); multiplicidade (a rede oferece ao usuário um grande número de opções de conexões, de percursos, múltiplas opções de leitura); exterioridade (a rede não possui unidade, tamanho, início ou fim); topologia (tudo funciona por proximidade, por vizinhança.); mobilidade (a rede não tem centro, tudo é móvel). Conceito extraído de “Centro de Investigação em Mídias Digitais” – CIMID – PUC SP. Disponível em <http://www4.pucsp.br/~cimid>. Acesso em 18 maio 2012.
O saber se faz por meio de uma superação constante. O saber superado já é uma ignorância. Todo saber humano tem em si o testemunho do novo saber que já anuncia. Todo saber traz consigo sua própria superação. Portanto, não há saber nem ignorância absoluta, há somente uma relativização do saber ou da ignorância. Por isso, não podemos nos colocar na posição do ser superior que ensina um grupo de ignorantes, mas sim na posição humilde daquele que comunica um saber relativo a outros que possuem outro saber relativo. (FREIRE, 2007, p.29).
Educar-se permanentemente exige diálogo, o qual gera discussão, argumentação, crítica, o que resulta na construção de novos conhecimentos. Assim, um diálogo só é proveitoso quando todos os interlocutores podem aprender com ele. Desse modo, a construção do conhecimento depende do debate de opiniões e, quanto mais diversificadas forem essas opiniões, maior a aprendizagem.
Freire salienta que a educação é exatamente um movimento de busca, de procura permanente
Eu queria, portanto, deixar aqui para vocês também uma alma cheia de esperança. Para mim, sem esperança não há como sequer começar a pensar em educação. Inclusive, as matrizes da esperança são matrizes da própria educabilidade do ser, do ser humano. Não é possível ser um ser interminado, como nós somos, conscientes dessa inconclusão, sem buscar. (FREIRE, 2001, p.171).
O conhecimento é a base de construção de novas relações humanas, de uma nova configuração sociopolítico-econômica e, sobretudo, de uma consciência planetária de conservação da vida. O diálogo nesse contexto abre novos horizontes, permite novas perspectivas e, principalmente, possibilita a liberdade.
4.5 A LIBERDADE: SEGUNDA SUBCATEGORIA DA CATEGORIA