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Nossa pesquisa objetivou explicitar o caráter político presente na filosofia de Jürgen Habermas, tendo como referência a ação comunicativa que, por sua vez, possui no conceito de política deliberativa sua tentativa de aplicação prática. Nessa reconstrução do pensamento político habermasiano, apresentamos, no primeiro capítulo, os aspectos fundamentais do agir comunicativo, porque a modernidade torna-se cada vez mais dependente de uma razão procedimental, comunicativa e pós-metafísica: a racionalidade, nos dias de hoje, enfrenta os desafios da multiplicidade de formas de vida diferenciadas.

No primeiro capítulo, vimos como a ação comunicativa contrapõe-se a um conceito de racionalidade instrumental e estratégica. Em verdade, a teoria de Habermas almeja tematizar um modelo de sociedade que associe o paradigma do mundo da vida, com o sistêmico. Isso, aliás, pode ser compreendido, na prática, quando Habermas conceitua sua política deliberativa, por meio da síntese entre liberalismo e republicanismo. Ora, o agir comunicativo discute soluções para as patologias sociais, pois o debate racional e a comunicação estão submetidos, nas sociedades contemporâneas, à lógica dos imperativos sistêmicos. Uma vez que o agir comunicativo depende da linguagem dirigida ao entendimento, os sujeitos tentam definir cooperativamente seus planos de ação, tendo o outro como um momento fundamental para a racionalidade das normas.

Na ação comunicativa discursiva vimos também que as pretensões de validade, levantadas na comunicação ordinária, são postas num debate crítico e argumentativo. Portanto, o sujeito tem que apresentar sua pretensão de validade a todos os demais para o exame discursivo, ao invés de prescrever a todos como válidas uma idéia que ele, individualmente, quer como lei universal. Nesse contexto, vimos que a razão pura não ressuscita na razão comunicativa, haja vista que o processo de universalização não se dá mais no interior de uma consciência transcendental, e sim dialogicamente, por meio dos sujeitos capazes de linguagem. Então, é relevante reforçar que não se trata, aqui, da falência do projeto iluminista, mas sim que este deve ser pensado e refletido em outras bases, à luz de um conceito mais amplo de racionalidade, a saber, comunicativa.

Ora, como mostramos no trabalho, a teoria da ação comunicativa destranscendentaliza o reino do inteligível, fazendo com que as questões caiam do céu transcendental em direção ao chão do mundo vivido, através dos pressupostos pragmáticos inevitáveis dos atos de fala. Diante disso, vimos igualmente o percurso realizado por Habermas, no que diz respeito à superação da filosofia da consciência pela reviravolta

linguística, havendo uma substituição da relação entre sujeito e objeto, por uma relação entre linguagem e mundo. Não há mais uma razão que só posteriormente vista as roupagens linguísticas, e sim uma razão encarnada nos contextos do agir comunicativo e nas estruturas do mundo da vida. O grande problema, tal qual vimos no primeiro capítulo, é que o dinheiro e o poder passaram a ter centralidade na sociabilidade atual, havendo uma colonização do mundo vivido pelos imperativos sistêmicos que, posteriormente, influenciam também a política, tratando-a apenas como uma questão técnica.

No segundo capítulo, já adentrando na filosofia política habermasiana, enfatizamos temáticas ligadas à esfera pública, ao Estado e à sociedade civil. A abordagem habermasiana atual nos permite distinguir uma dimensão de organização dos movimentos sociais, diferenciada do sistema político, mas que ao mesmo tempo se relaciona com ele. A sociedade civil é também capaz, apesar de todos os problemas, de modificar o rumo do poder oficial. Em Habermas, vimos que há uma compatibilização entre esferas públicas fragmentadas e sistema político, pois os movimentos sociais passam também a influir na política.

Como vimos ao longo do segundo capítulo, Habermas, diferentemente de Luhmann, estabelece uma relação de complementaridade entre administração, participação social e racionalidade. Habermas opõe-se à idéia de que o Estado administrativo e as esferas públicas seriam necessariamente instâncias antagônicas e inconciliáveis democraticamente. Ao introduzir os movimentos sociais na discussão acerca da política, Habermas identifica a integração de novos atores, práticas e relações entre Estado e sociedade civil. Nesse contexto, vimos também a articulação do modelo procedimentalista de democracia, haja vista que Habermas expõe tanto os limites do Estado liberal, quanto os do Estado social, rumo a um Estado inserido na política deliberativa, em que os sujeitos são autônomos à medida que se entendem igualmente como autores do direito, ao qual se submetem enquanto destinatários.

Enfim, no terceiro e último capítulo, destacamos o conceito de política deliberativa, bem como discussões envolvendo a relação entre moral, direito e política. Vimos que a política deliberativa fundamenta-se através da síntese entre liberalismo e republicanismo. Em consonância com este último, a política deliberativa defende a importância da comunicação entre os sujeitos, sem, no entanto, entender a constituição jurídico-estatal como algo secundário. Além disso, diferentemente também do modelo puramente liberal, a política deliberativa não opera com o conceito de um todo social centrado no Estado, que despreza a comunicação entre os sujeitos.

A soberania, então, não precisa mais se concentrar no povo, como no republicanismo, nem ser banida para o anonimato das competências jurídico-constitucionais, tal qual no liberalismo. Ela passa a ser interpretada de modo intersubjetivista, tendo igualmente o acréscimo da normatização jurídica no estabelecimento da democracia. Em Habermas, coexistem a idéia de coerção do direito e positividade, com o princípio da autonomia política e deliberação dos sujeitos, haja vista que os direitos humanos e a soberania popular são cooriginários.

Também vimos que há uma interligação entre moral, direito e política, sem que uma esfera se subordine à outra. O direito é destacado por ser um sistema de ação, adquirindo eficácia direta nas questões, o que não acontece na moral, que se limita a ser um sistema de saber e de julgamento. Contudo, o processo legislativo permite que razões morais “flutuem” para o direito, sem que este se subordine à moral. Por conseguinte, o direito não deve se subordinar à política, nem esta última ao direito, porque o poder político constitui o direito e vice-versa. Há, na política deliberativa, ao contrário dos modelos puramente liberais e republicanos, uma relação de complementaridade entre as esferas, e não de subordinação.

Será que Habermas, de fato, consegue estabelecer de forma convincente, através do agir comunicativo, sua política deliberativa? Não resta dúvida que ele soube muito bem defender e justificar o porquê e a importância de uma reciprocidade entre autonomia privada e pública, entre direitos humanos e soberania popular, bem como o papel que o direito possui nesse processo: é de extrema relevância a reflexão feita por Habermas sobre a democracia, o Estado, a esfera pública, o direito e as instituições, temáticas não suficientemente exploradas na tradição da Teoria Crítica.

Habermas, a partir principalmente de Direito e Democracia: Entre Facticidade e

Validade, preocupou-se em dar uma resposta àqueles que acusavam sua teoria da ação comunicativa de algo irrealizável. No entanto, isso não quer dizer que a teoria política habermasiana não seja passível de críticas. A nosso ver, apesar de todos os méritos que a política deliberativa habermasiana possui, há pontos insuficientemente esclarecidos, tal qual mostramos no último capítulo, por meio das críticas de Otfried Höffe e de Karl-Otto Apel, principalmente no que diz respeito à força de coerção de um direito não fundamentado moralmente. Tais objeções poderão, numa pesquisa posterior e específica, ser confrontadas com as perspectivas de Habermas e de outros autores que trabalham tendo em vista a idéia de uma política deliberativa.

BIBLIOGRAFIA

Benzer Belgeler