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Şüpheli veya Sanık Hakkında Tesadüfen Elde Edilen Delillerin Durumu

Tendo recebido as denúncias, o Ministério Público do Trabalho criou – com a colaboração de importantes institutos de pesquisa nacionais (como IPEA21, IBGE22 e DIEESE23), instituições multilaterais (OIT), órgãos governamentais (Ministério do Trabalho e Emprego) e organizações não governamentais (como CEERT24 e o Observatório Social) –, o “Programa de Promoção da Igualdade de Oportunidade para Todos” (PPIOT), com o qual se comprometia a estabelecer estratégias continuadas para atuar na promoção da igualdade de oportunidades e eliminação da discriminação de gênero e raça. Além disso, com o PPIOT, o MPT buscava levar as empresas a utilizar ações afirmativas que ampliassem o número de trabalhadores negros (homens e mulheres) tanto na base da organização como nos cargos de níveis hierárquicos mais elevados, bem como o

21 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. 22 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

23 Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.

24O Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) foi fundado em 1990, para desenvolver projetos nas áreas de diversidade no mercado de trabalho, prestando consultorias a empresas, prefeituras e órgãos públicos interessados em implantar políticas de valorização da diversidade e de promoção da igualdade racial. Em sua atuação, o CEERT combina atividades de pesquisas e programas de treinamento, tendo como foco a promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento e a superação do racismo, da discriminação racial e de outras formas de discriminação (site: http://www.ceert.org.br/).

número de mulheres [brancas] nestes últimos (LOPES, 2006, p. 88). Sabemos que diferenças de tratamento nos espaços de trabalho em função de gênero, raça-etnia, idade, compleição física, local de residência, entre outros é uma realidade não apenas no Brasil, mas em muitos lugares do mundo. Apesar disso, o PPIOT visou, em sua versão original, apenas o combate das discriminações baseadas em gênero e raça, assim justifica esse recorte:

Lamentavelmente, como é cediço, ainda persiste no Brasil uma cultura de desigualdade e discriminação, que adquire contornos mais graves quando se trata das desigualdades entre trabalhadores brancos e negros e homens e mulheres na disputa de oportunidades no chamado mercado de trabalho. As evidências dessas desigualdades são ainda maiores que as demais discriminações também presentes nas oportunidades de emprego, sendo patente que as mulheres e as pessoas de raça negra enfrentam importantes barreiras para ascender no mercado de trabalho (MPT, 2005).

Além do fato de a Constituição Federal de 1988 ter delegado ao Ministério Público competência para agir na defesa dos direitos coletivos e difusos, como será visto mais adiante neste capítulo, três outros fatores concorrem para a criação do Programa de Promoção da Igualdade de Oportunidade para Todos. Primeiro, e decerto o mais importante, foi, como já vimos, a mobilização do Movimento Negro que em suas manifestações exigia do Estado brasileiro medidas que visassem a superação das desigualdades raciais, incluindo reivindicações específicas para a inclusão dos negros no mercado de trabalho e para que fossem criados mecanismos que incentivassem as organizações privadas e públicas a adotar práticas com aquele objetivo.

Um ativista do Movimento Negro no Rio de Janeiro relatou em entrevista que, antes do surgimento do PPIOT, os movimentos sociais negros já vinham, desde a década de 1990, discutindo as possibilidades de adoção de ação afirmativa pelo Estado brasileiro. Em seguida, intelectuais negros passaram a se dedicar ao tema e a produzir estudos que fundamentaram as discussões do Movimento. Segundo o relato, havia no início a ideia de que o acesso à

universidade – a exemplo do que havia acontecido nos Estados Unidos, a partir da década de 1960, assim como em outros países – era a prioridade. Mas, logo em seguida, o tema mercado de

trabalho passou a fazer parte dos debates, ao se perceber que a adoção da ação afirmativa na educação iria resvalar na questão do mercado de trabalho. Paralelamente a essas discussões, a Central Única dos Trabalhadores e o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Florianópolis encaminharam à OIT, em 1992, denúncia pelo não cumprimento da Convenção

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111. A denúncia estava fundamentada em estudos e dados estatísticos organizados pelo CEERT. Para o entrevistado, o tema passou a ser debatido com mais ênfase no período em que o Movimento Negro se preparava para a Conferência de Durban e, principalmente depois das medidas que o próprio Estado incorporou no âmbito dos Ministérios e da Justiça Federal. Ao constatar que as ações adotadas pelo governo e pela justiça federal não renderam os frutos esperados, o Movimento Negro passou a considerar outras formas de ação e percebeu que ainda restava o Ministério Público, como instituição à qual podia recorrer: “tinha o Ministério Público Federal e do Trabalho” além dos Ministérios Públicos Estaduais “que, também, podiam estar discutindo isso”. Continua, esclarecendo que foi assim, então, que “o Humberto Adami procurou levar adiante uma coisa que (...), foi requerer ao Ministério Público que tomasse alguma providência contra a discriminação no mercado de trabalho, que é uma das reivindicações mais históricas do Movimento Negro”. Dessa forma, foram as mobilizações e discussões do Movimento Negro que levaram a Federação Nacional dos Advogados (FeNAdv) e o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA) a provocar, como vimos, o Ministério Público do Trabalho para que esse tomasse as devidas providências no sentido promover a igualdade de oportunidade para os negros no mercado de trabalho. A contribuição do Movimento Negro não passou despercebida aos formuladores do Programa no MPT, pois como disse um assessor de seu principal mentor: o movimento social negro teve um papel muito importante na provocação do

MPT, no início de tudo [...], ele teve um papel muito relevante na concepção do programa.

O segundo fator a contribuir para o surgimento do PPIOT foi a disponibilidade de estudos sobre desigualdades raciais, especialmente o impacto daqueles produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas (DIEESE), que vinham desde o início dos anos 2000 produzindo indicadores e análises que evidenciavam as assimetrias existentes entres os diferentes grupos raciais no Brasil (LOPES, 2006, p. 88). O DIEESE, como vimos na seção anterior, havia produzido em 2001 junto com a Confederação Nacional dos Bancários o relatório Os rostos dos bancários – mapa de gênero e raça do setor bancário brasileiro, cuja copia integrou as Representações oferecidas ao MPT, na denúncia

efetuada pelo IARA e a FeNAdv. Em 2004, o DIEESE produziu um novo estudo que confirmava os dados do anterior relativos à baixa representatividade de negros em todas as posições

hierárquicas dos grandes bancos, além de relacionar o fato com uma ausência de responsabilidade social por parte das instituições bancárias (CNB; DIEESE, 2001; DIEESE, 2004).

Na ocasião, era também recente o engajamento do IPEA na produção e publicação de estudos com esse foco, uma vez que foi apenas em maio de 2001, como fruto de lutas anteriores das organizações do movimento social negro, especialmente no período de preparação para a já mencionada Conferência de Durban, que o IPEA divulgou a primeira análise sobre a magnitude das desigualdades raciais no Brasil. O relatório da análise causou grande impacto no governo e na sociedade civil, o que levou o Instituto a aprofundar suas investigações sobre o tema e passar a publicar periodicamente os resultados das pesquisas, além de promover amplo debate público, chamando a atenção para a gravidade da questão das desigualdades raciais no Brasil (JACCOUD; BEGHIN, 2002).

Não que antes não houvesse estudos que tratassem da questão racial no País. Existiam, mas eram em sua maioria estudos acadêmicos e circulavam com menos visibilidade. Entre os estudos teóricos, havia também aqueles que tratavam especialmente da posição que mulheres e homens afrodescendentes ocupavam no mercado de trabalho, evidenciando a relativa ausência de negros no mercado de trabalho formal e em outros setores da sociedade brasileira, assim como a ausência de mulheres (brancas) em posições de alto nível hierárquico nas organizações do País. Tais iniciativas demonstravam que homens e mulheres afrodescendentes ocupavam as piores posições no mercado de trabalho do País, e que quando comparados com os homens brancos, os homens negros com o mesmo ou superior nível de instrução recebiam salários mais baixos, ocupavam cargos de menor prestígio e permaneciam mais tempo desempregados. As pesquisas também revelavam que mesmo quando eram comparados com as mulheres brancas, do mesmo nível de formação profissional, os homens negros encontravam-se em pior situação, estando as mulheres negras nas piores posições nesse mercado (ANDREWS, 1992; CASTRO E GUIMARÃES, 1993; BARRETO, 1998; CASTRO E BARRETO, 1998; SANTOS, 1998; HENRIQUES, 2001; MYERS, 2003). Outros estudos, como aqueles oriundos do Instituto Ethos, confirmavam essa realidade, demonstrando a sistemática sub-representação dos negros nos quadros funcionais das grandes empresas em geral, agravando-se a situação à medida que se elevava o nível hierárquico do cargo ocupado (ETHOS, 2002; 2003).

O terceiro fator a contribuir para a formulação do PPIOT foi certamente o reconhecimento, por parte do MPT, da histórica omissão do Estado brasileiro no estabelecimento

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de políticas públicas que visassem a resolução do problema de acesso ao trabalho por parte da população negra, como bem registra Mario Theodoro (2008). Ou seja, diante da ausência de iniciativas efetivas do Ministério do Trabalho e Emprego, ou outra instância executiva, e de dispositivos legais que visassem a superação das desigualdades raciais e de gênero no mundo do trabalho (como a lei de cotas para pessoas com deficiência), o Ministério Público, como guardião do Estado Democrático de Direito, competência que lhe foi conferida pela Constituição Federal, foi constrangido a adotar as medidas necessárias para a solução do problema.

Assim, podemos dizer que foi a confluência de, pelo menos, esses três fatores – (i) a mobilização dos movimentos sociais negros, (ii) a disponibilidade de indicadores sociais, assim como (iii) uma histórica ausência de iniciativas do Estado brasileiro relacionadas à redução das desigualdades raciais no mercado de trabalho – que levou o MPT, com auxílio direto do IPEA e participação das demais entidades acima referidas, a conceber o PPIOT no período compreendido entre novembro de 2003 – ocasião em que foi provocado pelo IARA e a FeNAdv – e abril de 2005, quando o programa foi oficialmente implementado. O Procurador Geral do Trabalho já havia reconhecido a contribuição dos dois primeiros fatores:

Foi a conjugação de diversos fatores que contribuiu para que o MPT desse mais um passo no sentido de derrubar as barreiras que negros e mulheres enfrentam cotidianamente no mundo do trabalho. Destaquem-se, entre eles, os dados oficiais. Com efeito, os indicadores e as análises produzidos por instituições, tais como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Departamento de Estudos e Estatísticas (DIEESE), não deixam qualquer dúvida quanto à discriminação praticada no mercado de trabalho, tamanhas as desigualdades que desfavorecem negros e mulheres.

(...) outro fato relevante para a elaboração do Programa do MPT diz respeito a iniciativas oriundas da sociedade civil, podendo-se destacar a atuação da Federação Nacional dos Advogados (FeNAdv) e do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara). Em finais de dezembro de 2003, ambas instituições apresentaram ao MPT, em todas as regiões do País, representações, isto é, denúncias, sobre desigualdades raciais no mercado de trabalho, requerendo a instauração de inquéritos civis públicos (LOPES, 2006: 88-89).

Benzer Belgeler