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3. TOPLUMDA KADIN ALGISI

3.4. Ġslam‟ın Kadına Verdiği Statü

Um primeiro descritor da situação das mulheres é a intensidade e constância do crescimento de sua participação no mercado de trabalho nas últimas quatro décadas. No Boletim de 1997 indicava-se que, entre 1989 e 1996, a taxa de participação feminina crescera 8,9%, enquanto a masculina caíra 3,6%. Esse dado não poderia ser lido isoladamente, pois não se deveria ignorar o fato de que os homens ainda têm uma participação bem mais expressiva. Em 1996, 74,5% dos homens faziam parte da força de trabalho. De todo modo, a evidência do crescimento da participação feminina suscitou intensos debates com o fim de justificar que não significaria uma transformação das desigualdades entre homens e mulheres.

A explicação para o fenômeno da ampliação da taxa de participação feminina envolve o conjunto de alterações verificadas nos mundos do trabalho. Uma das modificações decorrentes da precarização dos contratos de trabalho, que se intensificou a partir da década de 1990, foi a elevação das taxas de trabalho a domicílio. Essa forma de ocupação traz conseqüências para a inserção das mulheres

43 Tomo aqui a formulação da Escola Sindical 7 de Outubro: “ a Escola prefere falar não em mundo do trabalho, mas em mundos do trabalho, com o intuito de dar evidência a esse caráter plural das relações de trabalho e das organizações de processos produtivos” (2002, p. 10). Por sua vez, essa formulação é uma referência ao título do estudo conduzido pelo historiador inglês, Eric Hobsbawm (2000), sobre o cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras entre os séculos XVIII e meados do século XX. Cf. HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, 447p.

no mercado de trabalho, já que esse é um dos nichos de ocupação feminina44.

Contudo, a ampliação do trabalho a domicílio explica apenas parcialmente a elevação da presença feminina no mercado de trabalho, e não tem como conseqüência necessária a alteração da forma de inserção. Assumido como possibilidade de conciliação da atividade profissional com a atividade doméstica, principalmente para as mulheres casadas e mães, o trabalho a domicílio implica em dupla jornada, uma de remuneração precarizada e outra, sem remuneração.

Outros fatores de ordem conjuntural explicam melhor a ampliação dessa presença feminina no mercado de trabalho, tais como: as elevadas taxas de desemprego no setor industrial, onde a presença feminina é pequena, e a ampliação do conceito de trabalho adotado pelo IBGE, que passou a incluir, a partir de 1992, as atividades para autoconsumo e produção familiar, historicamente realizadas por mulheres. Cristina Bruschinni (2000, p. 17) considera também o contexto das alterações demográficas, sociais, políticas e econômicas. Para essa autora, o estado conjugal e a presença de filhos, associados à idade e à escolaridade da trabalhadora, assim como a característica do grupo familiar e a posição da mulher na família, são fatores que afetam a participação feminina, mas não a masculina, no mercado de trabalho.

Em relação à renda, as mulheres estão em pior situação que os homens em todas as regiões metropolitanas pesquisadas. A análise elaborada pelo DIEESE

44 Sobre o trabalho a domicílio, é importante consultar as conclusões de Abreu e Sorj (1993). Ao considerar as diferenças no trabalho a domicílio de homens e mulheres, Abreu e Sorj assinalam que não somente o significado que cada um dos gêneros atribui à sua atividade a domicílio é diferente, como também suas práticas cotidianas estão marcadas pela construção de identidades sociais e sexuais que se encontram mais além do mundo específico do trabalho.

(2005), tomou como referência o valor da hora trabalhada, uma vez que a jornada feminina tende sistematicamente a ser inferior à masculina. Em comparação com 1998, em 2004 houve redução da desigualdade entre rendimento de homens e mulheres, em favor destas, no conjunto das regiões analisadas45. No Distrito Federal

e São Paulo, localidades onde se registraram os maiores níveis para o rendimento médio hora, “as mulheres recebem, em média, 77,9% do que ganham os homens em 2004” (DIEESE, 2005, p. 7). No conjunto, a proporção do rendimento feminino alcançou uma variação entre 85,8% e 74,8%. Esse quadro se mostra ainda mais grave quando são consideradas outras variáveis. No cenário brasileiro, a presença da discriminação racial se acumula à desigualdade de gênero, colocando as mulheres negras na pior situação relativa aos demais grupos populacionais – homens não- negros e negros e mulheres não-negras. Os dados apresentados pelo Boletim DIEESE (2003) indicam que os ganhos das mulheres negras, entre os assalariados, alcançam em média 57,8% dos apresentados pelos homens não-negros. Em relação às mulheres não-negras, o salário médio das mulheres negras chega, em média, a 63%.

A despeito do ligeiro aumento da taxa de participação feminina, as mulheres enfrentam, em sua busca por ocupação, maiores dificuldades de inserção que os homens, o que resulta em taxas de desemprego sistematicamente mais elevadas. A sobreposição discriminatória – de gênero e racial –, em um ambiente de

45 A pesquisa de Emprego e Desemprego do DIEESE é desenvolvida nas seguintes regiões metropolitanas: Belo Horizonte, Distrito Federal, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo. Entre 1999 e 2004 o DIEESE produziu os chamados Boletim Especial – 08 de março dia internacional da mulher. Em 2003, além do encarte especial no Boletim, realizou-se o Estudo Especial, com o título Mulheres Trabalhadoras – discriminação e desigualdade no mercado de trabalho. Em 2005 a pesquisa passou a ser divulgada na publicação Estudos & Pesquisas, cujo nº. 6, de março de 2005 recebeu o título Trabalho e Renda da Mulher na Família.

crise econômica, atinge preponderantemente as mulheres negras, que mostram os mais elevados índices de desemprego em todos os níveis (DIEESE, 2003: 9).

Com relação às mudanças no perfil do emprego da mão-de-obra feminina, estudos divulgados no início da década demonstram que, em certa medida, o trabalho industrial tem convocado habilidades desenvolvidas no trabalho doméstico. Helena Hirata (2000, p. 52) constata que “destreza, paciência, capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, são qualificações aproveitadas pela indústria”. A autora analisa o caso da indústria japonesa (eletrônica, têxtil e de confecção) que requer as habilidades da confecção de ikebana no processo produtivo, ou de costureiras para o controle de qualidade de capacitores eletrônicos. Se por um lado essa qualificação, definida pela educação informal por meio da experiência doméstica, permite o ingresso das mulheres no trabalho industrial, de outro lado, em decorrência da introdução de inovações tecnológicas, o lugar ocupado por essas mulheres é em postos secundários, executando tarefas repetitivas e monótonas.

Ao lado dos descritores acima, a concentração em atividades do setor de serviços e no segmento informal, no trabalho doméstico não registrado, na atividade familiar não remunerada ou domiciliar, em setores de baixo status, empregos part-

time ou em postos menos qualificados mesmo quando possuem grau de escolaridade acima do requerido para a função e a predominância das trabalhadoras mais qualificadas em nichos tradicionais femininos (magistério, enfermagem e serviço social), demonstram a persistência da desigualdade. Mudanças e continuidades caracterizam o perfil da mão-de-obra feminina após os anos 90.

Um fator conjugado ao aumento consistente da presença da mulher no mercado de trabalho é o incremento expressivo da proporção de domicílios chefiados por mulheres. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1992 a chefia feminina estava presente em 19,3% dos domicílios. Em 2002 passou a ocorrer em 25,5% dos lares, perfazendo um crescimento da ordem de 32,1% nesses dez anos46. Não se trata de estabelecer uma causalidade direta entre o fenômeno da

entrada da mulher no mercado de trabalho e o aumento da chefia feminina. Contudo, é possível observar relações entre os dois movimentos e a mais evidente delas consta no Boletim DIEESE (2004, p. 1): os domicílios com chefia feminina apresentam constantemente renda inferior àqueles chefiados por homens.

A origem dessa menor renda estaria associada ao próprio perfil da chefe de domicílio, geralmente sem cônjuge, com baixa escolaridade e com maior idade, bem como às dificuldades de inserção feminina no mercado de trabalho, que usualmente expressam maior taxa de desemprego, vulnerabilidade e menores rendimentos.

Se a denominação chefe de família indica a pessoa responsável, inclusive economicamente, pela manutenção da unidade domiciliar, outros dados desse perfil, de acordo com Elza Berquó (2002, p. 246), nos levam a perceber que a chefia feminina possui vários significados:

(...) uma mulher solteira, separada ou viúva, com filhos, tendo ou não parentes e/ou agregados em casa; mulher solteira, separada ou viúva, sem filhos morando em casa, ou porque não os teve, ou

porque, adultos, já saíram de casa ou faleceram, tendo ou não parentes e/ou agregados vivendo no domicílio; mulher solteira, separada ou viúva, morando sozinha, ou mulher casada chefiando a família mesmo tendo um marido ou companheiro em casa.

A pesquisa de Márcia dos Santos Macêdo (2001) focalizou um grupo diversificado de mulheres nessa situação e constatou a diversidade de trajetórias e experiências reunidas sob o dístico “mulheres chefes de família”. Com a ressalva de não ser possível definir uma identidade coletiva para as mulheres, a autora constata, entretanto, que “as mulheres vão construindo uma nova imagem de si mesmas e vão deixando de se enxergar como vítimas das circunstâncias, assumindo cada vez mais o papel de protagonistas de suas histórias e donas de si” (MACÊDO, 2001, p. 77).

A abordagem da situação das mulheres chefes de família possibilita a visualização de uma nova tipologia para os arranjos familiares. No Boletim DIEESE de 2004 há um enfoque específico dessa temática. Em 2005, esse tema ganhou a centralidade na pesquisa intitulada Trabalho e renda da mulher na família. Essa pesquisa considerou quatro tipos de organização familiar: família nuclear, que possui a presença do/a chefe e seu/a cônjuge; família monoparental, que tem a presença do/a chefe, sem cônjuge, com ou sem filhos/as, ainda que contem com outros membros, como pais, irmãos etc.; família unipessoal, constituída pelo/a chefe, sem cônjuge e sem filhos/as. Os indicadores extraídos da PNAD47 demonstram que o

o número total de lares chefiados por mulheres apresentou um aumento maior (72,6%), fazendo com que, em 2003, 28,8% das famílias fossem chefiadas por mulheres. O maior índice de crescimento da chefia feminina é observado no arranjo nuclear com e sem filhos – 367,7% e 385,5%, respectivamente. Embora do ponto de vista geral esses dados percam em significância (representam 2,3% e 8%, respectivamente) e apesar da maior concentração da chefia feminina localizar-se no arranjo monoparental, esse crescimento demonstra um desarranjo do modelo familiar estabelecido. Na verdade, esses dados podem ser confrontados com a indicação de que, “apesar da chefia masculina de família nuclear com filhos ser a mais presente, essa foi a única forma de organização a perder peso no período analisado”. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte registrou-se nessa situação o índice de 55,3% no triênio 1998 – 2000 contra 51,3% no triênio 2002-2004. É possível, então, depreender desses dados a multiplicação de poros que questionam o modelo familiar estabelecido. Tanto a lógica dos tipos de relações familiares, quanto o discurso performático que afirma o lugar da mulher-esposa-mãe vão cedendo espaço para outras possibilidades.

Mesmo que os dados corroborem um lugar desfavorável para as mulheres no mercado de trabalho, não se pode desconsiderar que indicam a emergência de 47 Conforme a publicação DIEESE (2005, 8), “para a realização dessa análise, no que se refere ao Brasil, foram utilizados dados extraídos da PNAD para os anos de 1993 e 2003. Com relação às regiões metropolitanas, foram trabalhados dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). Esses indicadores foram agregados para os triênios: de 1998 a 2000 e de 2002 a 2004, para maior significância estatística. Os dados referentes ao Distrito Federal foram excluídos da análise, dada a dificuldade de desagregação da amostra para as categorias de renda familiar dentro da família, segundo o arranjo das famílias.”.

outra posição. Não me refiro aqui a eventos isolados, quase exóticos, como, por exemplo, a presença de mulheres em funções de mando e de poder (executivas de alto escalão, presidentes de empresa, governantes “mão-de-ferro”) ou a raras presenças junto aos campos científicos e tecnológicos. Refiro-me à multiplicação de poros que questionam a lógica naturalizada das relações sociais. Entendo que aí reside o acento do dispositivo da política de gênero. Esse efeito pode ser observado na conjunção gênero-raça. Os enunciados operavam com a denúncia do lugar subalterno das mulheres negras em relação às mulheres brancas e aos homens negros. Nessa inflexão ocorre a desarticulação da categoria mulher como representante das trabalhadoras. Além disso, o trabalho a domicílio passou a ser considerado em sua particularidade em relação a outras formas de ocupação. Sua principal característica é o peso quantitativo em termos da ocupação feminina. “Segundo os dados da PNAD/2001, ele representa 18,2% do total da ocupação feminina no Brasil”, o correspondente em termos numéricos a seis milhões de pessoas (DIEESE e OIT, 2005, p. 3). Segue-se a esse diagnóstico a evidência da acentuada presença das mulheres negras nessa ocupação: desagregando a cifra total da ocupação feminina por critérios de raça-cor encontra-se o correspondente a 23,9% de mulheres negras contra 14,1% de mulheres não-negras. Outros descritores dessa ocupação referem-se à idade das trabalhadoras: a maior parcela das domésticas possui entre 25 e 39 anos, tanto entre mulheres negras quanto não-negras, “no entanto, há mais prevalência das jovens entre 18 e 24 anos entre as negras” (DIEESE e OIT, 2005: p. 8). A construção desses dados exige que as categorias gerais sejam desagregadas.

Outra evidência que merece destaque entre aquelas trazidas pelos estudos sobre gênero e trabalho com a utilização da divisão sexual refere-se à nova tipologia dos arranjos familiares. A multiplicidade é indicativa do ingresso ou reconhecimento de mulheres em situações de gestão ou manutenção da família, das distintas opções construídas – viver só, assumir sozinha os filhos –, da multiplicidade de possibilidades de ser mulher. Após o emblema “o pessoal é político”, os domicílios foram descortinados e os silêncios das relações pessoais e de trabalho, rompidos.

Seria com a lógica da diferença que a prática discursiva do movimento sindical começa a lidar quando, mesmo em se tratando de dados estatísticos, o efeito pretendido é a desnaturalização? Existem até mesmo os casos em que a categorização abre espaço para perguntas: é possível cogitar a hipótese de arranjos familiares monoparentais homossexuais? Essa forma de articulação saber-poder e gênero me parece elucidativa de uma estratégia que visa não só a compreender a realidade e legitimar disputas, mas produzir a diferença.

Benzer Belgeler