No item anterior demarcamos, em linhas gerais, como se dá a conexão da formação colonial brasileira com a civilização ocidental capitalista, apontando as bases da leitura de Florestan sobre essa formação no âmbito das relações de estratificação social. Também conseguimos avançar demonstrando como, na visão do autor, a Independência contribui com um papel importante para modificar o caráter da ligação da economia brasileira com o mercado mundial, além de também representar alterações importantes nas relações sociais do país. Agora nos cabe dar um passo à frente, indicando qual o estatuto das relações econômicas que se forma no Brasil imperial, e a guinada definitiva dada pela sociedade brasileira no sentido do estabelecimento de relações sociais especificamente capitalistas.
149 específica que se desenvolve na sociedade brasileira do Império, segundo a leitura de Florestan. O foco aqui, é identificar quais as principais características constitutivas do alcance e expansão do “setor novo” da economia, e como ele pode imprimir dinamismos na sociedade que condicionam uma paulatina deterioração do potencial reprodutivo das arcaicas relações escravistas coloniais, e a expansão constante de relações “modernas” ou modernizantes, próprias da lógica capitalista.
Florestan, quando se refere ao caráter da economia da sociedade imperial, herdada da Colônia, denomina-a de “heteronômica”. Com isso, ele quer dizer que essa economia se fundamenta em bases estruturais que não possuem meios próprios de reprodução e diferenciação interna. A “heteronomia”, ou a condição “heteronômica”, faz parte de um par conceitual que ganha sentido em oposição à “autonomia”, no interior do teorização weberiana69. A condição heteronômica concreta da economia brasileira colonial era de que as principais atividades econômicas da Colônia, neutralizavam os potenciais de diferenciação e desenvolvimento econômico interno. Dessa forma, a impossibilidade concreta do desenvolvimento de um “moderno mercado capitalista” no interior do país era uma barreira intransponível, porque não se tinha formas de dinamizar esse mercado. No entanto, a Independência e o fim do “esbulho colonial” não acabam com essa condição “heteronômica” da economia brasileira, apesar de transpor tal barreira à dinamização do mercado. Aqui novamente vem à tona o caráter “paradoxal” dos estímulos modernizantes da Independência. Pois, por mais que se pudesse dispor de uma parcela maior do excedente econômico internamente, mesmo esse excedente, além de ser insuficiente, encontrava entraves internos à diferenciação econômica que barravam o seu desenvolvimento.
Portanto, em oposição à formação do capitalismo nos países centrais, onde a diferenciação do mercado interno encontra grande respaldo na própria expansão mercantil, na acumulação primitiva e, posteriormente, na acumulação interna – no caso, já em fase reprodutiva capitalista –, nos países coloniais a possibilidade dessa diferenciação era mínima, encontrando diversos obstáculos internos que imprimiam um ritmo lento ao desenvolvimento do setor novo. Disso decorre que o vínculo “heteronômico” com o capital externo se mantém no Brasil imperial, apesar de a
69Em entrevistas Florestan reconhece declaradamente que o conceito “heteronomia” é usado em sua análise tendo como referência primária a formulação weberiana. Posteriormente, afirmando que Weber sempre foi
um “grande leitor” de Marx, o autor indica que tal par conceitual também está presente nas formulações
150 economia do país alçar um novo patamar. O avanço do setor novo dependia necessariamente do capital externo para formação de excedente, da importação como forma de compensação da debilidade do mercado interno, e, principalmente, da reprodução da grande lavoura exportadora.
O movimento de “descolonização” feito pela “autonomização política”, foi insuficiente, pois não representou uma “autonomização econômica” de fato. Ele inseriu elementos autonômicos dinâmicos ao lado de elementos heteronômicos estruturais. É o que Florestan chama de “dupla polarização”, o condicionante insofismável de um caminho para o capitalismo que não pressupõe a ruptura com o passado do “Antigo Regime”, mas a continuidade de relações de dependência fundamentais, sob novas formas. O tipo de capitalismo que se constitui sob essa base não se alça à condição capitalista de maneira autônoma, mas é incorporado à ela de maneira dependente, por isso o conceito de “capitalismo dependente”. (FERNANDES, 2005, p. 112-113)
Nosso objetivo, nesse item, é tratar justamente de como Florestan concebe os processos sociais de dinamização da contradição insolúvel do capitalismo dependente, ou seja, quais as conexões que levam ao fim do trabalho escravo, ao surgimento de um mercado tipicamente capitalista e das modernas instituições que corresponde a esse mercado e ao despontar do burguês na história brasileira. No entender do autor esse problema corresponde concretamente ao problema do “desencadeamento da Revolução Burguesa no Brasil”, sendo esta tomada, não como um “episódio histórico”, mas como “um fenômeno estrutural”70 que se reproduz de maneira variada em diversas condições, mas que corresponde à absorção de um determinado “padrão de civilização” como “necessidade histórica” por parte de um país. (Ibidem, p. 37-38)
“Na acepção que tomamos do conceito, Revolução Burguesa
denota um conjunto de transformações econômica, tecnológicas, sociais, psicoculturais e políticas que só se realizam quando o desenvolvimento capitalista atinge o clímax de sua evolução industrial. Há, porém, um ponto de partida e um ponto de chegada, e é extremamente difícil localizar-se o momento em que essa revolução alcança um patamar histórico irreversível, de plena maturidade e, ao mesmo tempo, de consolidação do poder burguês e da dominação burguesa.” (Ibidem, p. 239)
A situação “neocolonial” do período pós-Independência, portanto, engendra um “fator de modernização econômica” no interior do país. O surgimento de toda uma
70Uma crítica ao uso que Florestan faz do conceito de “Revolução Burguesa” em sua obra é feita por Jacob Gorender em D’INCAO, O Saber Militante. Paz e Terra. São Paulo. 1987.
151 estrutura institucional, comercial, bancária e financeira se dá como forma de auxiliar a sustentação da internalização das fases de comercialização do produto da grande lavoura. Ela gera no entanto, um setor urbano moderno que incentiva a diferenciação do papel dos agentes econômicos internos e a transplantação de capitais e unidades econômicas externas para dentro do país. A forma de reprodução interna da economia se modifica, absorvendo um novo padrão de crescimento econômico mais adaptado à absorção dos dinamismos das economias centrais, pautado na coexistência de duas formas de acumulação do capital, uma ligada à grande lavoura e outra ao setor comercial.
Na visão de nosso autor, é assim que uma “condição heteronômica” interna, pode “gerar a sua própria negação e superação” sem no entanto eliminar esse mesmo estado heteronômico. A dominação estamental, sustentada na produção escravista da grande lavoura de café, propiciava a captação de excedente econômico por parte do setor novo, que se desenvolvia minando a “estagnação estrutural” à que estava sujeita a economia colonial. Essa situação representa o surgimento do “palco” do “burguês”, no seio da sociedade brasileira. Relações econômicas secularizadas que exigiam uma “concepção burguesa de mundo” e que, portanto, vão condicionar o surgimento de um sujeito histórico que encarne essas tendências de desenvolvimento socioeconômico.
Para Florestan o surgimento desse sujeito se coloca como uma linha de continuidade nos processos de Revolução Burguesa ocorridos ao redor do globo. Pois ela é sempre movida por “protagonistas históricos que viveram papéis estratégicos para a formação do desenvolvimento do capitalismo”. Tais protagonistas ou personagens, pertencem à “categorias sociais” que preenchem determinadas “funções” na “ruptura com o passado” e na construção da nova sociedade, obviamente variando de uma sociedade nacional para a outra conforme sua concreticidade histórica peculiar. No desenvolvimento dinâmico dessa construção, tais protagonistas aos poucos vão se aglutinando a outros sujeitos históricos e se constituem como uma classe da nova sociedade, no caso específico, a burguesia brasileira.
Nosso autor vai se dedicar ao estudo de tais “protagonistas históricos”, contudo ele o fará por meio de um movimento metodológico que devemos analisar com mais cuidado. Diz Florestan:
“No caso brasileiro, se omitirmos as referidas categorias sociais e
formos diretamente aos agentes humanos que as ocupavam, impregnando-as com os interesses, as aspirações e os valores sociais que davam sentido ou conteúdo históricos às suas ações e relações
econômicas, depararemos, fatalmente, com o ‘fazendeiro do café’ e com o ‘imigrante’. É certo que nem biológica, nem psicológica, nem
152 etnologicamente se poderia falar deles como tipos humanos, presumindo-se caracteres físicos, mentais ou culturais homogêneos e
inconfundíveis.”. (Ibidem, p. 128)
O movimento levado a cabo pelo trecho é cristalino em seu início. Florestan declaradamente admite omitir as categorias sociais, ou seja, as classes, os grupos, os estamentos etc., nas quais se inserem os agentes humanos em questão, o fazendeiro do café e o imigrante. E decide por ir diretamente aos agentes dessas categorias e inserir nesses agentes os “interesses, as aspirações e os valores” que davam sentido às suas ações econômicas, tendencialmente, modernizadoras e capitalistas.
A partir daí, se poderia claramente identificar um movimento metodológico no qual Florestan abandonaria a necessidade de ter que localizar o alcance de cada categoria histórica específica no movimento que ele quer ressaltar, justamente por conceber que a categoria, nesse caso particular, foi menos central do que o agente no interior do movimento histórico em tela, ou que ela foi central justamente por atuação de tal agente, em detrimento de outros, presentes no interior da mesma categoria. A razão desse movimento metodológico se justifica na medida em que o autor concebe que isso aconteceu porque no interior das nuances de comportamentos e interesses possíveis dentro de uma determinada categoria, aqueles comportamentos que, no seu bojo, condensavam o movimento de modernização e desenvolvimento de relações capitalistas estavam restritos a tais agentes destacados, como “protagonistas históricos da revolução burguesa”.
Ora, frente a isso é justo supor que a análise não precisaria trilhar tal caminho de dispensa da categoria social na qual os agentes estão inseridos, na medida em que poderia articular as categorias sociais nos termos de uma tensão, existente em seu interior. A própria oligarquia cafeeira, por exemplo, como Florestan demonstrará seguidamente em diversos momentos de sua obra, era palco de uma tensão que polarizava os agentes de tal categoria por meio de posicionamentos diversos. Isso significa que frente à mesma base material dúbia da decadência da ordem escravocrata e senhorial e da ascensão do capitalismo urbano comercial, modernizante, os diferentes fazendeiros do café reagiram a tal processo ora de um jeito, ora de outro. Os que reagiram absorvendo o espírito capitalista na forma de encarar a organização e a produção da grande lavoura e da economia nacional, contribuíram, segundo nosso autor, como “protagonistas históricos” do processo de Revolução Burguesa no Brasil. Os que reagiram procurando deter as tendências modernizantes de substituição do trabalho escravo, de modernização da
153 produção agrícola e se apegando aos valores tradicionalistas do domínio senhorial, não se polarizaram como sujeitos da Revolução Burguesa, pelo contrário, barraram seus dinamismos até onde lhes foi possível.
O central aqui é que o próprio Florestan não prescinde de identificar essa tensão no seio das categorias sociais em questão, em outros momentos de seus textos. Ele não ignora, simplesmente, essa determinação. Pelo contrário, faz uma escolha metodológica para identificar os sujeitos históricos específicos que foram centrais no sentido de dar vazão à formas de atuação que impulsionaram as tendências de desenvolvimento de relações sociais propriamente capitalistas. De forma que, tal escolha também não justifica, como Florestan mesmo ressalva no trecho citado, tratar os agentes ressaltados como um tipo humano propriamente dito, um “tipo ideal” de sujeito histórico, na medida em que não é possível presumir a existência de “caracteres físicos, mentais ou culturais homogêneos e inconfundíveis, nesses agentes”. São, ao contrário, agentes históricos concretos que, ao caminhar no mesmo sentido das possibilidades e tendências colocadas pelo desenvolvimento histórico, se diferenciam qualitativamente dos outros agentes históricos típicos, mesmo que no interior da mesma categoria.
Dito isso, podemos apresentar os agentes históricos em questão e suas características constitutivas. O fazendeiro do café, diz nosso autor, surge no interior da aristocracia agrária já no período de ascensão da produção cafeeira, e se diferencia do “senhor rural” típico na medida em que “dissocia a fazenda e a riqueza que ela produzia do status senhorial”. A ligação necessária existente entre a expansão do setor comercial interno e realização do produto da lavoura cafeeira no mercado mundial fez com que o fazendeiro do café penetrasse nesse circuito comercial urbano identificando-se com a dimensão burguesa de sua “situação de interesses” e do seu “status social”. Isso acontece principalmente por meio das “pressões do mercado externo sobre os custos da lavoura escravista”, o que condiciona o agente em questão a expandir sua riqueza para fora do contexto da grande lavoura (operando concretamente um incentivo à diferenciação da economia interna), e a renunciar ao seu “status senhorial” adaptando-se à função de “proprietário”, segundo determinações puramente econômicas. (Ibidem, p. 129)
Enquanto predominavam as condições de acumulação estamental do capital, na qual a dimensão senhorial do domínio se mantinha intacta coexistindo com a dominação estamental no nível do Estado nacional, e com o trabalho escravo como base da economia da grande lavoura, o senhor rural pode de fato se furtar a essas pressões modernizantes do mercado no seio de sua atividade econômica. No entanto, a partir do momento em que
154 a ordem competitiva se fortalece internamente, a grande lavoura é condicionada a se flexibilizar para transformar-se na “típica plantação tropical moderna, associada à acumulação comercial ou financeira de capital”. (Ibidem, p. 130)
O interessante é notar como essa viragem se dá no interior do próprio sujeito em questão. A forma de organização econômica colonial atinge seu clímax paradoxalmente quando se livra do julgo colonial, principalmente a partir do ciclo do café. A continuidade da reprodução do status senhorial associado à grande lavoura faz com que para os fazendeiros fosse mais importante a defesa de tal status do que a contínua e crescente apropriação de riquezas. Obviamente que sem as riquezas provenientes do trabalho escravo e da produção agroexportadora o próprio status não teria base de reprodução. O central é que a manutenção do domínio era o principal nexo orientador da organização da atividade econômica. A consequência disso é que as formas de vida e de relações sociais associadas ao desenvolvimento padrão do status senhorial levava o senhor a se negar a absorver dimensões especificamente capitalistas de se lidar com a produtividade e com a organização do trabalho. O exemplo usado pelo nosso autor é o caso da decadência da lavoura cafeeira no Vale do Paraíba, ao final do século XIX. Em plena crise o senhor rural se negava a recorrer a meios de organização da produção e de elevação da produtividade do trabalho (principalmente com a extinção do trabalho escravo) que permitiriam a sobrevivência da plantação. (Ibidem, p. 133)
O último quartel do século XIX foi, portanto devastador para a economia escravista e para a sobrevivência do senhor rural. O crescimento do setor urbano comercial e financeiro, que se estabelecia através de uma contradição frontal com o setor arcaico, absorvia o excedente gerado pela produção agrária e a pressionava no sentido da alteração das condições políticas, econômicas e sociais de reprodução. Somado a isso, as pressões do mercado mundial sobre os custos da produção escravista exigiram mudanças que aumentassem a produtividade e diminuísse os custos do trabalho da lavoura cafeeira. (Ibidem, p. 135)
É nessa conjuntura, para o nosso autor, que os “fazendeiros do Oeste paulista”, passam a atuar diferentemente no que se refere à produção cafeeira. Diversificam as relações de produção, as vezes até substituindo totalmente o trabalho escravo. Mudam as técnicas de produção, e “separam o lar senhorial da unidade de produção”, criando a fazenda de “plantação comercial típica”. Nesse movimento expandem a sua forma de atuação política e econômica para as cidades, se associando muito mais aos interesses do capital comercial e financeiro e legando a fazenda somente à conexão comercial
155 acumuladora que ela deveria ter. Aí é que o fazendeiro se transforma em “homem de negócios”, comandando “a vida política da nação na fase de desagregação da ordem senhorial” e se colocando como “o principal agente humano nativo da revolução burguesa”71. (Ibidem, p. 141) Trata-se, portanto, de um agente que “encarna” uma nova “mentalidade econômica”, na qual se rompem aspectos centrais da tradição senhorial, dando vazão aos “móveis capitalistas do comportamento econômico” e ao nascimento do homo economicus brasileiro, de fato.
Por outro lado, o imigrante surge como sujeito histórico em um período mais avançado de desagregação da ordem escravocrata e senhorial e como uma necessidade de integração e funcionamento da ordem econômica nova que surge nas cidades. Para Florestan o primeiro afluxo de imigrantes decorre especificamente da inclusão do Brasil na rede comercial do mercado mundial, o que previa, necessariamente, a “alocação de firmas subsidiária, agências ou escritórios” em locais estratégicos da economia exportadora, e que alocavam agentes externos na economia nacional. (Ibidem, p. 155- 156)
Diz, nosso autor, que as motivações psicossociais que orientavam o imigrante estavam necessariamente ligadas à acumulação de riquezas por meio de atividades econômicas, o que colidia frontalmente com as formas de acumulação estamental ligadas ao status, típicas da ordem escravocrata e senhorial. Sejam aqueles imigrantes alocados nas cidades, e portanto, no comércio, nas manufaturas, no artesanato, sejam aqueles alocados nas “colônias” ou na lavoura. O imigrante é o principal agente que satura os papéis econômicos surgidos de uma economia de mercado em consolidação, papéis estes menosprezados pelas elites senhoriais, mas que eram estratégicos para a o enriquecimento de seus agentes.
No entanto é errado falar que o imigrante transplanta a “mentalidade capitalista” para o Brasil. Tal “mentalidade”, diz Florestan, cresce e se expande internamente, de maneira peculiar. O imigrante, que vinha da Europa munido dela, efetivamente a punha em ação, mas via seus ímpetos bloqueados pela rigidez da estrutura econômica e social de uma sociedade ainda predominantemente estamental. Apesar desse fato, a
71 Há aqui, na interpretação de Florestan, duas evoluções possíveis do Fazendeiro do Café, que omitimos para não nos alongarmos muito nessa questão específica. Trata-se por um lado do “Coronel”, que compensaria a perda dos elementos do status senhorial através do poder político gerado pela sua situação
econômica. E por outro lado, do “homem de negócios”, que afirmará seu poder economicamente se ligando
ao capital comercial e financeiro. Centramos na segunda evolução justamente atendendo indicações do próprio autor sobre a centralidade desse sujeito no processo de Revolução Burguesa no Brasil. (Ibidem, p. 139-144)
156 “racionalidade adaptativa de sua mentalidade econômica” permitiu com que o imigrante explorasse os incentivos e as irradiações do desenvolvimento comercial e financeiro das cidades no sentido da diversificação do comércio interno e da produção para o consumo interno, o que possibilitou a ele formas de acumulação capitalistas muito dinâmicas e eficientes. (Ibidem, p. 164)
Há que se considerar também que o imigrante e suas atividades econômicas entravam em franco conflito com a ordem escravocrata e senhorial. A acumulação de capital que adquiria com o imigrante a sua “conexão capitalista típica”, na qual dinheiro acumulado era utilizado como fonte de mais dinheiro, funcionam, segundo Florestan, de fato como uma forma de desagregação da ordem senhorial e de expansão da ordem competitiva. O “cálculo econômico racional”, contudo, não poderia se reproduzir em uma economia na qual a ausência de uma integração econômica nacional não criava condições de uma racionalidade tipicamente capitalista. Por isso o caráter adaptativo da mentalidade do imigrante se desenvolve.
Serão esses dois agentes sociais os principais vetores da formação de uma burguesia especificamente brasileira, com características próprias que advém da forma como a classe é forjada no seio do conflito social. Essa burguesia, vai moldar suas formas ideológicas de conceber o mundo, seus interesses no seio da nova ordem competitiva, numa palavra, sua mentalidade, de acordo com tal conflito, o que imprimirá às suas ações uma especificidade72.
Isso nos leva a uma discussão paralela. No início do livro, A Revolução Burguesa
no Brasil, Florestan levanta um debate metodológico fundamental. Quem surge antes: o