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2.1 Ġlgili AraĢtırmalar
A suposta eficácia do atual modelo de desenvolvimento econãmico brasileiro desdobra-se em formas insustentáveis de desenvolvimento territorial, as quais intensificam a economia especulativa da terra, bem como a periferização e segregação socioespacial, dentre outros problemas das cidades e territórios comandados pelos interesses privados e investimentos públicos que sustentam a valorização econãmica do capital. O aumento da escala produtiva do setor formal da construção civil brasileira, em um incremento absurdo da especulação imobiliária e do rentismo territorial, tem sido correlato a um aprofundamento da segregação socioespacial. Consequentemente, observa-se a redução da qualidade de vida nas cidades, especialmente perceptível na vivência cotidiana nas grandes metrópoles em sua acelerada e violenta expansão urbana.
Nessa dinâmica socioeconãmica, aprofundam-se os problemas socioespaciais, os quais, supostamente, as políticas públicas nas cidades se propõem resolver pela dinâmica econãmica. Como visto anteriormente, a realização do “sonho da casa própria” oportuniza a dinâmica do direcionamento de crédito imobiliário para pessoa física, contemplando o “interesse social” com subvenções à baixa renda e investimentos públicos para fomento do sistema econãmico, o que acaba por configurar-se em formas de concentração financeira e repasse de recursos públicos para o setor formal da construção civi. De fato, após a implementação do PAC e PMCMV, acentua-se o crescimento econãmico e a segregação socioespacial brasileira, enfatizando-se características especulativas na economia, especialmente relacionadas ao setor da construção civil e ao rentismo territorial.
Por sua vez, Kapp (2011, p.9) referindo-se à citada análise crítica de Arantes e Fix (2009), considera que, nesse contexto, o PMCMV aprofunda a segregação socioespacial, sociopolítica e socioeconãmica, potencializando-se os aspectos heterãnomos da produção e afastando-se as possibilidades autogestionárias do cenário socioprodutivo brasileiro, “em uma espécie de versão neoliberal de todos os erros cometidos no período do Banco Nacional de Habitação (BNH) e tantas vezes criticados”. Nesse contexto, a produção imobiliária e a de infraestrutura brasileira encontram-se massivamente inseridas na dinâmica da produção capitalista do espaço urbano, tendo como consequência a redução das estratégias alternativas à cultura produtiva heterogestionária.
Assim, segundo Kapp (KAPP, 2012b, p.10), “à medida que aumenta essa ‘sinergia’ entre capital privado e programas públicos é deixada de lado a ideia da autogestão dos empreendimentos de interesse social ou populares pelos futuros moradores”. A própria gestão pública local também passa a coibir posturas contrárias às políticas públicas nacionais, submetendo as pessoas às possibilidades previstas nos direcionamentos do desenvolvimento econãmico em curso. Dessa forma, as experiências do passado, mesmo as mais recentes, vão sendo apagadas e substituídas por um restrito conjunto de práticas autogestionárias, que, mesmo presentes na vida social, estão sendo ordenadas ou dependem da lógica econãmica capitalista para sobreviverem e se manterem ativas.
Por outro lado, não se pode considerar inexistente ou irrelevante o fomento público às alternativas autogestionárias, mas, de fato, ele é inexpressivo e insuficiente frente a esse cenário econãmico em forte expansão. Isso pode ser verificado na própria distribuição dos recursos do PMCMV, que possuem para a versão empresarial a disponibilização de 97% dos recursos, enquanto que para o PMCMV Entidades fica o saldo restante de 3%. Conforme informa Arantes e Fix (2009), “os recursos disponibilizados para a política gerida por entidades sem fins lucrativos, isto é, pelas organizações populares, correspondem a apenas 3% do total do subsídio e é restrita à faixa de 0 a 3 salários mínimos, justamente a que menos interessa às empresas”.
Por sua vez, Lago (2011) informa o quantitativo dessa desproporção no Programa MCMV em sua primerira fase de investimentos públicos direcionados às entidades autogestionárias. De 2009 a março de 2011, o Programa MCMV Entidades realizou a contratação de 9.001 unidades, no valor total de R$440 milhões. Ou seja, em cerca de quatro anos de financiamento federal para a produção autogestionária, foram contratadas 30 mil unidades através dos dois programas, segundo dados do Ministério das Cidades. Para a produção empresarial, vimos anteriormente que o Programa financiou, em menos de dois anos, 449 mil unidades, segundo dados da Caixa (LAGO, 2011, p.8).
As práticas heterogestionárias sendo consideradas as possíveis e eficientes, mesmo que não as ideais, respondem circunstancialmente ao fenãmeno social de carência dos produtos da construção civil, amplamente demandados pelo valor de uso que possuem e pelo valor de troca que alcançam no mercado. No contexto concorrencial, a carência por habitação e infraestrutura se aprofunda e se complexifica ao ser atendida quase que exclusivamente pelo viés econãmico de base capitalista. Além disso, a constante realimentação do sistema econãmico dominante contribui ao incremento da valorização imobiliária especulativa e ao acirramento da segregação socioespacial, constituindo condições sistêmicas para a reprodução capitalista do espaço.
Nesse contexto, em que se encontram extremamente reduzidas as participações de outras lógicas socioprodutivas não-capitalistas, que poderiam conduzir à produção autogestionária do espaço e, consequentemente, favorecer formas de desenvolvimento socioespacial verdeiramente sustentáveis e responsáveis, ficam cada vez mais distantes as possibilidades de construção plural no desenvolvimento territorial, com possíveis resoluções autogeridas pela população local, comandando diretamente a produção da moradia e do espaço público pela autogestão.
Diante dessa ampla conjuntura socioeconãmica relacionada à cultura produtiva heterogestionária, a ideia de autogestão territorial parece ser uma proposição fora de lugar, especialmente ante a “urgência” em resolver o déficit de “unidades habitacionais” e a “necessidade” do crescimento econãmico para atender as demandas socioconstrutivas por “infraestrutura”, assegurando a “competividade” nacional com a expansão econãmica do país. No entanto, essa urgência de “resolução” do déficit habitacional e a “necessidade” da expansão econãmica nacional ocultam a lógica de reprodução social da produção capitalista pelas próprias estratégias de desenvolvimento sócio-econãmico-espacial. A redução dos respectivos valores de uso, envolvidos no desenvolvimento sócio-econãmico-espacial, e a sua reconversão a valores de troca territorializados desestruturam possibilidades autogestionárias e fortalecem o pragmatismo da suposta eficácia da cultura produtiva heterogestionária. Nesse sentido, ressalto ainda que esse encaminhamento para resoluções socioconstrutivas e socioespaciais é extremamente simplificado, tendo em vista a amplitude dos próprios problemas de desenvolvimento sócio-econãmico-espaciais que são edificados nas cidades e configuram entraves sociais, políticos, culturais, econãmicos e espaciais, que se instalam com a produção capitalista do espaço em sua respectiva apropriação privada e segregação socioespacial.
Dessa forma, para estabelecer o contraponto sócio-econãmico-espacial à cultura produtiva heterogestionária do setor da construção civil, encaminho a presente discussão para a análise crítica da cultura produtiva autogestionária.