O pensamento de que o Brasil como democracia racial constitui um exemplo de experimento bem sucedido traduz-se nessa ideologia como um valor, cuja investigação e discussão só são permitidas com reserva.117
Se para Munanga existiam ambigüidades no conceito de mestiçagem, por sua vez,
Kwame Anthony Appiah118 em sua obra intitulada “NA CASA DE MEU PAI – A África na
filosofia da cultura”, diria que também há ambigüidades no conceito de “raça”. E, nesse universo de ambigüidades, ele critica a visão raciologista, exatamente partindo de uma outra afirmação sobre a questão da raça no confronto com a idéia de biologia versus ideologia.
Para Du Bois, o problema do negro é descobrir e expressar a mensagem de sua raça. (...) A plena e completa mensagem negra da totalidade da raça negra ainda não foi oferecida ao mundo. (...) A questão, portanto, é: como será entregue essa mensagem, como se realizarão esses vários ideais? A resposta é clara: pelo desenvolvimento desses grupos raciais, não como indivíduos, mas como raças. (...) Para o desenvolvimento do talento negro, da literatura e arte negras, do espírito negro, somente os negros ligados e unidos, os negros inspirados por um vasto ideal, podem elaborar na plenitude a grande mensagem que temos para a humanidade. (...)119
117
Cf. FERNANDES, Florestan. O Preconceito contra as Pessoas de Cor no Brasil e a Luta Jurídica, p. 105.
118
Nascido em Gana em 1954, Kwame Anthony Akroma-Ampim Kusi Appiah doutorou-se em filosofia pela Universidade de Cambridge em 1982. Assumiu a posição de professor titular de estudos afro-americanos e de filosofia na Universidade de Harvard. Publicou centenas de artigos em revistas especializadas e vários livros, dentre os quais este que tratamos, à parte, alguns conceitos para melhor fundamentar o debate sobre a questão das culturas e da formação das identidades, contrapondo a uma concepção de “raça”.
119
A esse discurso Appiah, em nota acrescenta o seguinte: “Esse discurso sobre a absorção racial e falas similares sobre a extinção racial refletem a idéia de que os afro-americanos poderiam desaparecer porque sua herança genética seria diluída pela branca. Essa idéia pode ser considerada absurda por qualquer visão que acredite numa essência racial: ou bem a pessoa a tem, ou não tem. Mas, pensar dessa maneira é conceber as essências raciais como parecidas com os genes: e a genética mendeliana ainda não fora ‘redescoberta’ quando Du Bois escreveu esse texto. Provavelmente, Du Bois está pensando no ‘fazer-se passar por branco’, que é como os afro-americanos chamam o fato de uma pessoa de tez clara, de ascendência africana, esconder essa ascendência e fingir que é (totalmente) ‘branca’. E, segundo as concepções da herança como mistura do ‘sangue’ parental, poder-se-ia supor que, quanto mais o ‘sangue’ negro for diluído, maior será a probabilidade de que todas as pessoas de ascendência africana nos Estados Unidos possam passar por brancas. Isso seria uma espécie de extinção no negro socialmente reconhecido. Uma pergunta interessante é por que as pessoas que discutiram essa questão presumiram que isso não equivaleria também à extinção dos brancos e à criação de uma raça humana ‘híbrida’. Mas, como digo, essa especulação foi eliminada pelo advento da genética mendeliana” [in: Du Bois, “The conservation of Races”, p. 78-79].
Desta forma, Du Bois propõe aquilo que ele denomina por Academy Creed [Credo filosófico – da academia], que começa com palavras que ecoam quase um século de relaçőes raciais norte-americanas. Vale ressaltar que mesmo sendo próprio de uma cultura norte- americana, a leitura que aqui se desenvolve serve para inserirmos problemáticas à concepção de raça. Pois, neste credo, Appiah reproduz o que seu autor focado determina ser a missão do povo negro, como parte constituinte de uma identidade racial: “(...) Cremos no dever dos norte-americanos de ascendência negra, como um corpo, de manter sua identidade racial, até que se cumpra essa missão do povo negro e que o ideal da fraternidade humana tenha se
tornado uma possibilidade prática”120. E Appiah segue, a partir deste credo, perfazendo sua
crítica à equivocada compreensão deste autor que se dirige a comunidade negra norte- americana:
À primeira vista, o argumento de Du Bois na “Preservação das raças” é que “raça” não é um conceito “científico” - isto é, biológico -, mas sócio-histórico. Cada uma das raças sócio-históricas tem uma “mensagem” para a humanidade, uma mensagem que decorre, de algum modo, do propósito de Deus ao criá-las. A raça negra ainda está por entregar sua mensagem plena e, sendo assim, é dever dos negros trabalharem juntos – através de organizações raciais – para que essa mensagem possa ser entregue.
Não precisamos dos suportes teológicos dessa argumentação. O essencial é a idéia de que os negros, em virtude de sua comunhão sócio-histórica e mediante a ação comum, podem atingir fins valiosos, que de outro modo não serão atingidos.121
K. Appiah considera, no fim deste parágrafo, que os valores da comunhão social e histórica estão pautados nos fins a serem atingidos pelo poder desse mesmo ideal de comunhão. Contudo, ele capta a intencionalidade sobre a interpretação de Du Bois, que entende o conceito de raça numa dimensão ‘mais’ que biológica, inclusive trazendo através deste conceito, um entendimento quase de predestinação messiânica122. Isso se percebe quanto aos fins que ele apresenta sobre uma missão destinada por Deus desde de sua criação. Por isso, reflete que Du Bois define raça como ‘uma vasta família de seres humanos, sempre de história [e] tradições comuns’ e Appiah problematiza essa concepção, dizendo que ‘se
120
Cf. DU BOIS, The conservation of Races, p. 85.
121
Cf. APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura, p. 55.
122
A idéia de um messianismo predestinado a uma ‘conquista’ realizada através de uma luta, ou uma organização da qual se fundamenta um processo de libertação do povo negro, a partir deste mesmo povo.
quisermos entender Du Bois, nossa pergunta terá que ser: o que é uma família (...) de história comum?’123 Acrescentando que este não ultrapassou a noção científica, que pressupõe traços biológicos comuns, em virtude de uma ascendência comum. Assim, por analogia, Appiah considera que uma vasta família humana pode conter pessoas unidas, não pela biologia, mas por um ato de escolha124.
É bem possível que a história nos tenha feito o que somos, mas a escolha de uma fatia do passado, num período anterior ao nosso nascimento, como sendo nossa própria história, é sempre exatamente isso: uma escolha. Embora a expressão “invenção da tradição” tenha um ar contraditório, todas as tradições são inventadas.125
Um dos caminhos para uma melhor fundamentação e afirmação de identidades parece ser o do ‘conhecimento pessoal’ nos processos educativos de aprendizagem. Particularmente na questão religiosa e teológica, pode existir tanto pessoas ‘a favor’ e outras ‘contra’ no que tange uma conscientização geral acerca desse detalhe. Seria possível afirmar-se ou rejeitar-se pessoalmente (ou individualmente)? Como afirmar-se ou negar-se frente a uma história, a ‘raízes’, ‘origens sócio-culturais e religiosas’? Como complemento no campo da psicologia e das humanidades, Erikson (1968/1987), pensou da seguinte forma:
Recapitular o conceito de identidade significa esboçar a sua história (e toda a história) e que para estudar a sua construção será preciso estabelecer algumas dimensões deste problema universal, devendo também ser visto como processo do indivíduo, na cultura, pois é esse processo que estabelece, de fato, a identidade individual e coletiva.126
Um processo de autoconhecimento, enquanto escolha e construção, parte “do que” fomos feitos historicamente, culturalmente, como algo necessário para a afirmação de uma identidade cultural – individual e coletiva, não alienada. Nessa iniciativa prevalece a expressão da consciência na argumentação e contra-argumentação, com a qual o indivíduo passa ser sujeito da sua própria história, como célula ativa e atuante.
123
Ibid., APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai, p. 56.
124
Ibid., APPIAH, Op. cit. pp. 56-57.
125
Ibid., APPIAH, Op. cit. p. 59.
126