ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
2. ĠHLALE NEDEN OLAN MALLARIN ULUSAL VE ULUSLARARASI TĠCARETĠNE KARġI MARKANIN KORUNMASI
2.2. Ġhtiyati Tedbirler 1. Genel Olarak
Illeris (2013) entende a aprendizagem como qualquer processo que conduza um organismo vivo a uma alteração permanente em suas capacidades, adicional ao processo natural biológico. Entretanto tem consciência que o conceito de aprendizagem contempla um amplo conjunto de processos complexos que ocorrem sob condições que a impactam e também são impactadas por ela, argumentando que toda aprendizagem envolve sempre três dimensões: Conteúdo, Incentivo e Ambiente.
Enquanto a dimensão conteúdo é descrita como aquilo que é aprendido, entendida de forma ampla como conhecimentos e habilidades, e de forma mais detalhada como “muitas outras questões, como opiniões, insights, significados, posturas, valores, modos de agir, métodos, estratégias, etc.”, a dimensão incentivo diz respeito à condição básica para mobilizar o aprendiz à aprendizagem, contemplando aspectos relacionados às condições internas do aprendiz, entre eles, “sentimentos, emoções, motivação e volição” (ILLERIS, 2013, p. 18).
Essas duas dimensões são sempre acionadas e movimentadas por conta da mobilização dos processos básicos de interação e aquisição29. Ambas as dimensões são mutuamente dependentes, entretanto podem disparar o círculo virtuoso do aprendizado ou o círculo vicioso de obstáculos. Nesse sentido, num continuum virtuoso, um conteúdo significativo pode
incentivar o aprendizado de novos conteúdos, assim como uma emoção pode levar à busca de conteúdos que podem gerar novas emoções. Por outro lado, numa sequência viciosa, conteúdos de difícil compreensão, ou que não façam sentido ao aprendiz, representam obstáculos à consecução de novos conteúdos, assim como a falta de vontade para a busca de conteúdos frustra o intento por sua obtenção e retroalimenta iniciativas justificadoras para seu não desejo.
Complementando as três dimensões da aprendizagem, a dimensão ambiente, também chamada pelo autor como dimensão interação, é uma das condições externas ao indivíduo, que concorre para impactar o processo de aprendizagem, que pode ocorrer “na forma de percepção, transmissão, experiência, imitação, atividade, participação, etc.” (ILLERIS, 2013, p. 19). O escopo da dimensão interação é o da integração indivíduo e sociedade, integração esta que também pode, necessariamente, ter que ocorrer em função das outras duas dimensões, conteúdo e incentivo.
29
Aquisição na edição brasileira e “Acquisition” na versão inglesa. Talvez uma melhor tradução para o português fosse apreensão.
A busca do indivíduo envolve construir significado e capacidade para lidar com os
desafios da vida prática e, assim, desenvolver uma funcionalidade pessoal geral.
(ILLERIS, 2013, p. 18, itálico do autor e grifo meu)
A afirmação de Illeris sobre a busca do indivíduo na construção do significado vem ao encontro das falas de Moreira (2003), em relação aos fundamentos da aprendizagem significativa crítica e de Charlot (2000) quando este fala que o ser humano, por natureza, é um ser, a priori, social e interativo com o meio social em que vive. Neste sentido, enquanto a dimensão conteúdo, com o significado de conhecimento, entendimento e habilidades, para ser um incentivo à aquisição por parte do aprendiz, precisa apresentar funcionalidade e ou significância, a dimensão interação significa a condição externa, representada pela sociedade, o outro, que pode mobilizar o mesmo na busca de conteúdos alinhados aos valores veiculados pela sociedade, ou condicionados à participação nesta, por meio da dimensão interação, entretanto, condicionados às condições aceitas pelo aprendiz como sensatas e que contribuam para a construção da sensação do equilíbrio mental e corporal do mesmo, representada pela dimensão incentivo.
Illeris (2013) concorda que a aprendizagem é um processo complexo, no qual diversas variáveis podem impactar a sua ocorrência de forma plena, e destaca três componentes em seu processo: Estrutura, Tipos de aprendizagem e Obstáculos.
Uma premissa de sua teoria é que o aprendiz “constrói e interpreta as suas estruturas mentais ativamente”. Conforme Illeris (2013, p.21), tais estruturas são descritas pela comunidade da área de psicologia como esquemas mentais. Isto é, todo ser humano detém uma forma particular e estruturada, cada um a seu modo, de ao tomar contato com algum conteúdo, selecionar partes que pareçam interessantes, processar essas partes conforme habilidades disponíveis, para finalmente absorver e assimilar conteúdos limitados à capacidade cognitiva do aprendiz, naquele momento. Adicionalmente às estruturas ou padrões mentais de aprendizado, Illeris (2013; p. 22) classifica a aprendizagem em quatro tipos: 1.
Cumulativa; 2. Assimilativa; 3. Acomodativa e 4. Transformadora, que podem ocorrer em
situações distintas, exigindo o dispêndio de energia em maior ou menor escala, e gerando resultados específicos.
Sob a aprendizagem cumulativa, também conhecida como mecânica, o autor caracteriza os conteúdos adquiridos, porém que têm uma formação isolada. Nesta aprendizagem particular, o conteúdo aprendido é algo novo, porém o mesmo não apresenta nenhuma relação com qualquer outro conteúdo aprendido previamente. Apesar de ser uma aprendizagem típica da infância, também pode ocorrer na vida adulta, porém em situações
particulares não necessariamente em contexto ou com significado pessoal. Por exemplo, o conhecimento do número do telefone de um hospital, que poderá ser resgatado ou acionado em situações similares à ocasião do seu aprendizado original.
Enquanto a aprendizagem cumulativa ocorre por meio da aprendizagem de conteúdos isolados, a aprendizagem assimilativa, ou por adição, refere-se à agregação de novos elementos a esquemas mentais padrões pré-existentes no aprendiz. A característica básica deste tipo de aprendizagem é ela ser assimilada de forma crescente e significativa aos conteúdos anteriores, de forma que pode ser recordado sem grandes esforços. O exemplo dado pelo autor é o da aprendizagem que ocorre na escola, com séries de disciplinas dispostas sequencialmente e com conteúdos progressivamente mais complexos, entretanto dispostos de forma lógica e sequencial. Entretanto, o resgate desses mesmos conteúdos, quando demandados fora do contexto original, por exemplo, em outra disciplina ou fora da escola, pode apresentar dificuldades quanto ao seu acesso e ou sua aplicação.
Por outro lado, dependendo da relevância, importância dada pelo aprendiz ou interesse que este tenha no assunto, a aprendizagem pode ser do tipo acomodativa. Este tipo de aprendizagem demanda do aprendiz dose extra de superação do seu estágio prévio para a acomodação dos novos conteúdos. Mentalmente esta aprendizagem implica na decomposição de esquemas mentais existentes e consequente adequação aos novos conteúdos aprendidos. Tal tipo de aprendizagem também chamada de transcendente, isto é, uma superação dos limites existentes. Nas palavras do autor, “o indivíduo renuncia e reconstrói algo, podendo ser difícil e até doloroso, pois exige um forte suprimento de energia mental” (ILLERIS, 2013, p. 22).
Completando o quarteto de tipos de aprendizagem, existe a aprendizagem transformadora. Num estágio superior às anteriores, ela caracteriza-se por causar o rompimento com vários padrões de vários estágios pessoais do aprendiz (ILLERIS, 2013, p. 23), causando a mudança na personalidade, ou na estruturação de sua organização e forma de ser. Seu processo é potencialmente traumático, na acepção da palavra, uma vez que pode representar a quebra de vários paradigmas, práticas e valores internos do aprendiz. Em função do alto grau de energia demandada, principalmente mental, apesar de ser traumática, face à superação e transformação propriamente dita do aprendiz, uma vez alcançada, é percebida “como uma sensação de alívio e relaxamento” (ILLERIS, 2013, p. 23.
Percebo no texto de Moreira (2000) três tipos das aprendizagens comentadas por Illeris (2013) – aditiva, acomodativa e transformadora - uma vez que sua evolução decorre de, e implica, mudanças na estrutura cognitivas e ou emocionais do aprendiz.
É através da aprendizagem significativa crítica que o aluno poderá fazer parte de sua cultura e, ao mesmo tempo, não ser subjugado por ela, por seus ritos, mitos e ideologias. É através dessa aprendizagem que ele poderá lidar construtivamente com a mudança sem deixar-se dominar por ela, manejar a informação sem sentir-se impotente frente a sua grande disponibilidade e velocidade de fluxo, usufruir e desenvolver a tecnologia sem tornar-se tecnófilo. [...]. (MOREIRA, 2000, p. 51, grifo meu)
Ainda presente em grande parte do contexto educacional, uma das críticas feitas ao processo de ensino e de aprendizagem é a passividade à qual muitos aprendizes ainda são submetidos. A teoria da aprendizagem significativa não vê o aprendiz como um receptor passivo. Ao contrário, um dos pressupostos é que o estudante, dentro do processo evolutivo, faz uso dos significados já adquiridos de maneira substantiva e não arbitrária, recurso essencial para apreender os novos significados propostos. Os saberes já presentes no aprendiz, progressivamente, são revistos e ajustados de maneira integrativa, permitindo a identificação de semelhanças e ou diferenças, e consequente reorganização e aprimoramento na forma de pensar, isto é, agregando, comparando, adequando, ajustando, enfim, transformando os conteúdos já aprendidos. [...] “o aprendiz constrói seu conhecimento, produz seu conhecimento” (MOREIRA, 2000, p. 50).
À luz da fala de Moreira, fazer parte de uma cultura, mais que simplesmente ser influenciado por esta, significa, ao aprendiz, não aquiescer aos caprichos que este ou aquele nuance da cultura o domine.
Em termos evolutivos, de certa forma em maior ou menor escala, todo ser humano tem oportunidade de experimentar os quatro tipos de aprendizagem. Enquanto a aprendizagem cumulativa faz parte da primeira aprendizagem, caracterizada pela aquisição mecânica de conteúdos, minimamente necessários à aprendizagem assimilativa, as aprendizagens assimilativa e acomodativa são tidas como mais comuns nas fases seguintes à infância. Por outro lado, em vista de implicar na mudança de personalidade, a aprendizagem transformadora só ocorre mediante alto esforço e dedicação por parte do aprendiz, somente justificável frente a ocasiões especiais de alta significância para este.
Illeris (2013), em sua teoria, chama atenção para pontos relevantes na educação, os
obstáculos à aprendizagem. A seu ver grande parte do esforço da comunidade docente não
surte efeito, é ineficiente, ou pior ainda, ineficaz, em função de aspectos cruciais relacionados às três dimensões da aprendizagem, que ele identifica como mecanismos de defesa ou resistência mental do aprendiz.
Segundo Illeris (2013), como uma característica típica da sociedade moderna, os mecanismos de defesa existem como sistemas de proteção frente ao alto volume de
informações e influências externas às quais se está sujeito. Neste sentido, destaca três mecanismos de defesa que comprometem o aprendizado: a consciência cotidiana, a defesa da identidade e a ambivalência.
A consciência cotidiana é caracterizada por comportamentos semiautomáticos desenvolvidos por diversas pessoas, para enfrentar influências indesejáveis. Funciona como um filtro frente a novos conteúdos. Basicamente são preconcepções assumidas pelas pessoas e uma vez instaladas, e quando acionadas por novas influências, têm sua classificação automaticamente rejeitadas ou aceitas com distorções, de forma a adequar-se aos conceitos já estabelecidos.
Essa consciência cotidiana administra o que se quer ou não aprender, funcionando como um anticorpo que atua com as energias das compreensões já instaladas, levando ao segundo mecanismo, defesa da identidade. De certa forma seria a manutenção da identidade existente.
O terceiro mecanismo de defesa, ambivalência, caracteriza-se no comportamento dúbio do aprendiz que quer e não quer assumir um compromisso, que entende como importante, porém gostaria que não fosse tão necessário. Tipicamente, apesar de estarem numa situação e condição de aprendizagem, têm dificuldades para se concentrarem na mesma, e recorrentemente se utilizam de subterfúgios para evitar a aprendizagem.
Com relação à resistência mental, entendido como também um obstáculo à aprendizagem, apesar da dificuldade em distinguir um frente ao outro, Illeris (2013) considera que o mecanismo de defesa é pré-existente à resistência mental. Isto é, para ocorrer resistência mental a uma aprendizagem, todos os mecanismos de defesa (consciência cotidiana, defesa da identidade e ambiguidade) foram superados, podendo-se dizer que o aparecimento da resistência só ocorreu frente a uma situação real de aprendizagem.
O ponto positivo destacado pelo autor é que a resistência demanda, por si só, forte mobilização mental, favorecendo particularmente a aprendizagem acomodativa e também a transformadora.