• Sonuç bulunamadı

I.8. Đntihar

1.8.2. Đntihar Risk Faktörleri

A Henri Parisot

Rodez, 10 de dezembro de 1943.

Excelentíssimo Senhor, escrevi uma “Viagem ao México” cuja parte principal é a “Viagem à terra dos Tarahumaras”. Mas o texto da “Viagem à Terra dos Tarahumaras” fica completo assim com está. Quanto à “Viagem ao México”, forma um livro de 200 páginas ou mais que levei oito meses a escrever, desde Novembro de 1936, data do meu regresso do México, a Agosto de 1937, data da minha partida para a Irlanda, e alias ainda não se encontra terminado.

[...] Quanto aos meus manuscritos, à saída de Dublin é que os vi pela ultima vez. Depois perdi-lhes o rasto. Além do mais vivemos numa época de provações e desgraças e não consigo trabalhar uma vez que não tenho pão o suficiente desde há três meses a esta parte.

No entanto, repito, vou fazer um esforço para vencer todos os obstáculos e rezar especialmente a Jesus Cristo com essa intenção pois d‟Ele se trata em toda a minha Viagem ao México e a Ele, Verbo de Deus, é que os Tarahumaras adoram como pude verificar no Rito do Tutuguri cumprido ao mesmo tempo que o Sol nasce.

Eles próprios o reconheceram e mo disseram quando lhes mostrei duas estampagens do Rosto do cristo. Uma no Pano de Santa Verónica, a outra numa Imagem colhida noutro instante da Sua Paixão. – E onde o Seu verdadeiro Rosto é perfeitamente reconhecível. A classe sacerdotal dos Sacerdotes Índios do Sol considera-se emanação terrestre da sua Virtude e da sua Força e cada sacerdote como que identificação de um dos seus Raios. É preciso vermos a insensata energia com que estes sacerdotes se projetam todos na terra no preciso instante em que o foco solar, desde sempre livre, se liberta perante a consciência índia do aprisionamento das trevas da noite. É preciso ver como cada um dos sacerdotes reproduz com os demais sacerdotes seus irmãos e devido ao lugar onde sabe colocar-se a expansão extraordinária desse foco.Mas so Deus na terra nhbretudo temos que ouvir as Palavras que dirigem uns aos outros com sinais extraídos, ao que parece, dos próprios limbos da Eternidade e feitos para suportar e manifestar qualquer coisa, qualquer coisa que é o Espírito do Verbo a correr como uma bola de chama perante a boca do Senhor Deus, e eles Tara-Humaras se lembram, ao que dizem, de ter sido e serem sua Vontade e seu reflexo.

Mas nessa altura desataram todos a chorar por que “Essa Vontade de Deus”, disseram eles, “da qual somos todos Anjos, quer dizer Raios, quase deixámos de sê-la uma vez que o Mal já passou por nós excessivamente. Ainda não terminou a luta entre o Mal e Deus e para o Reino de Deus chegar à terra temos de ser castos. Somo-lo na medida do possível. Mas os homens por essa terra a fora não são. E para eles chegou o momento de voltar à castidade absoluta. Por que as coisas são feitas pelo sol e como ele, e desse modo feitas assim” disseram-me aqueles sacerdotes com sinais de braços e corpo que constituem as mais extraordinárias atitudes de Dança Religiosa que alguma vez vi.

Entre esses sinais estava o Sinal-da Cruz como os católicos o fazem mas ainda outros numa verdadeira infinidade.

De tudo isso é que falei já nos meus manuscritos e um destes dias vou tentar reescrever.

E enquanto espera tenha certeza dos meus mais calorosos e melhores cumprimentos. Antonin Artaud

Hospital Psiquiátrico, Rua Vieux-Sens, nº 1, Rodez, Aveyron. (ARTAUD, 2000, p.120-1-2-3, ênfases originais)

Final do Espetáculo:

Rodez, 7 de Setembro de 1945. Meu caro Henri Parisot

Há pelo menos 3 semanas escrevi-lhe duas cartas a dizer que publicasse a Viagem à Terra dos Tarahumaras mas acrescentando outra a intercalar no sítio daquele suplemento à viagem onde fiz a imbecilidade de afirmar que me tinha convertido a Jesus Cristo quando aquilo que mais abomino desde sempre é o cristo; e essa conversão só foi resultado de um feitiço pavoroso que a mim próprio fez esquecer que natureza tenho e aqui em Rodez em obrigou a engolir sob a cor de comunhão um número assustador de hóstias destinadas a manter-me o mais tempo possível, e se possível de vez, num ser que não é o meu. Este ser é subir ao céu em espírito e não descer cada vez mais em corpo aos infernos, quer dizer, à sexualidade alma de toda a vida. Quando esse que é cristo leva o ser ao empíreo das nuvens e dos gases onde há uma eternidade ele se dissolve. A ascensão há mais de 2000 anos do chamado Jesus Cristo não passou da subida por infinita vertical onde ele um dia deixou de existir e tudo o que era dele voltou a cair no sexo de todos os homens, feito fundo de toda a libido. Tal como Jesus Cristo existiria ali o que nunca veio à terra por achar o homem

pequeno de mais para ele, ficando-se pelos abismos dos infinitos, como suposta imanência de deus que sem fadiga nenhuma, e como um Buda da sua contemplação, esperava pelo SER suficientemente perfeito para descer e se instalar ali, o que é calculo infame de um cobarde e preguiçoso que não tivesse querido suportar, todo o ser, mas fazê-lo suportar e expulsar essoutro, esse doloroso, e mandá-lo aos infernos depois do alucinado do sofrimento ter feito do ser da SUA DOR um paraíso, bem preparado para o vampiro de preguiça e imundice que se chama deus e Jesus Cristo. Sou um desses dolorosos, sou o principal doloroso a que deus pretende descer depois de minha morte, mas tenho 3 filhas que são outros 3 desses dolorosos e a si, Sr. Henri Parisot, também lhe que em alma seja mais um deles, porque ao pé de deus e do cristo há anjos de pretensão igual à dele e quiseram sempre apoderar-se da consciência de todo os ser nascido, quando afinal se tomam apenas por inato. – É dizer-lhe que não fui procurar Jesus Cristo à terra dos Tarahumaras mas eu próprio, eu, o Sr. Antonin Artaud, nascido a 4 de setembro de 1896 em Marselha , ao nº 4 da Rua do Jardim das Plantas, de um útero que não tinha nada a ver comigo e mesmo antes não tivera, pois isto de ser copulado e masturbado 9 meses pela membrana não é forma de nascer, e a brilhante membrana que devora sem dentes como os UPANISHAD dizem, e sei bem que nasci de outra forma, de minha própria concepção e não de uma mãe, mas a MÃE quis apoderar-se de mim e agora veja o resultado que isso deu na minha vida. – Só nasci da minha dor e também o senhor pudesse, Henri Parisot, proceder d igual modo. E faz agora 49 anos que o útero gostou dessa dor, temos de acreditá-lo, pois quis ficar com ela para si e alimentar-se dela em proveito próprio sob a aparência de maternidade. E Jesus Cristo é o tal nascido de uma mãe que quis ficar comigo para ele e isso tudo muito antes de tempo e do mundo, e às altitudes mexicanas só fui para me livrar de Jesus Cristo como tenciono ir ao Tibet um dia para me esvaziar de deus e do seus espírito-santo. Está a compreender-me? Publique esta carta a substituir o suplemente e devolva-me, por favor, o suplemento. Com a maior amizade,

Anexo II: Processo de criação do espetáculo: Exercícios poéticos

116

.