A fim de assegurar a chegada dos fornecimentos provenientes do campo, Salomão criou um eficaz sistema de arrecadação. Dividiu o território israelita em doze distritos. Cada distrito tornou-se responsável pelo abastecimento da corte por determinado mês do ano (1Rs 4,7), da qual também faziam parte os funcionários e o exército. Assim foram nomeados governadores para cada um dos distritos, os quais cuidavam para que os fornecimentos se efetuassem no momento certo e fossem depositados nas cidades armazéns, de lá seguiriam para Jerusalém conforme o mês combinado. De Vaux afirma que:
“O objetivo reconhecido desta instituição israelita era garantir a arrecadação das contribuições. Mas a função dos prefeitos era seguramente mais ampla: eles eram os governadores de seus distritos, que representavam as divisões administrativas do reino. Mas temos que recordar que nas monarquias orientais, antigas e modernas, a tarefa essencial dos administradores consistia, juntamente com a manutenção da ordem, na arrecadação dos impostos e dos dízimos.” 99
Dessa forma, Salomão, habilmente, aperfeiçoa o sistema de arrecadação de tributos, desarticulando completamente o sistema econômico vigente até então. Essa forma de arrecadação resultou numa concentração cada vez maior da riqueza nas mãos da elite. Foi preciso organizar uma burocracia governamental para dar suporte ao novo sistema tributário imposto por Salomão. Com relação à implementação da máquina administrativa há duas listas dos altos funcionários: A primeira lista (1Rs 4,1-6) refere- se a organização da corte, composta por nomes de ministros e altos funcionários de Salomão. A segunda lista (1Rs 4,7-19) traz a relação dos doze prefeitos e seus
99 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2003,
52 respectivos distritos. Trata-se de um documento antigo, talvez da segunda metade do reinado de Salomão. “Essa lista data da segunda metade do reinado de Salomão, posto que dois dos prefeitos são genros do rei.” 100 afirma De Vaux. Segundo Ham, “na
antiguidade são frequentes estas listas de funcionários; por exemplo, nos textos de Ras
Shamra, Mari, inscrições cuneiformes neobabilônicas e persas, e documentos egípcios”. 101 Para Donner, a lista dos doze distritos de Israel (1Rs 4, 7-19) é “um documento de
arquivo com alto valor histórico”. 102
A lista abaixo segue a ordem indicada no texto 1Rs 4,7-19:
Filho de Hur, na montanha de Efraim (1Rs 4,8). Antigo território de Efraim e Manassés. Trata-se do antigo território das tribos de Efraim e parte de Manassés.
Filho de Decar, em Maces, Salebim, Bet-Sames, Aiolon, Bet-Hanã (1Rs 4,9). Situada a oeste de Benjamin e de Judá, na região que originalmente era o país dos danitas, expandido com os territórios conquistados dos cananeus e dos filisteus.
Filho de Hesed, em Arubot, ao qual pertencia Soco e toda a terra de Héfer (1Rs 4,10). Esse distrito estendia-se pela costa do mediterrâneo, na planície de Sarom, desde a filistéia ao sul terminando na divisa com Dor o próximo distrito.
Filho de Abinadab, todo o distrito de Dor. Era casado com Tabaat, filha de Salomão (1Rs 4,11). Situava-se na continuação da planície de Sarom e era limitado a leste pela cordilheira do Carmelo.
Baana, filho de Ailud, em Tanac e Meguido até além de Jecmaam e todo o Betsã abaixo de Jezrael, desde Betsã até Bet Meula, perto de Sartã (1Rs 4,12). Estendia-se de forma irregular por Megido no noroeste, até Betsã a leste e Jecmaam a sudeste. Este era
100 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento, p. 165.
101 HAM, Adolfo, Historia y poder – Comentario sobre El libro de Reyes, Quito, Departamento de
Comunicaciones Del Consejo Latinoamericano de Iglesias – CLAI, 1999, p.31.
53 basicamente o lado mais ocidental de Manassés, com excessão das regiões costeiras da tribo.
Filho de Gaber, em Ramot de Galaad, ele tinha a aldeia de Jair, filho de Manassés, que estão em Galaad; possuía também o território de Argob que está em Basã, sessenta grandes cidades, muradas e com ferrolhos de bronze (1Rs 4,13). Localizava-se do outro lado do Jordão. Era uma extensa área da Transjordânia, ocupando quase que totalmente as terras entre os rios Jaboque e o Yarmuk. Pode-se comparar esse distrito com o lado oriental de Manassés.
Ainadab, filho de Ado em Maanaim (1Rs 4,14). Também estava localizado na Transjordânia, entre o mar de Quirinete e o mar Morto, ficando a oeste do reino dos amonitas.
Aquimaás em Neftali, que também se casou com uma filha de Salomão, de nome Basemat (1Rs 4,15). Situava-se no território original da tribo de Neftali.
Baana, filho de Husi, em Aser e nos rochedos (1Rs 4,16). Estava localizado ao ocidente e incluía o território de Aser e parte de Zebulom. Foi desse distrito que Salomão entregou algumas cidades para Hirão (1Rs 9,11), dessa forma toda a costa ao norte do Carmelo tornou-se um território fenício.
Josafá, filho de Farué, em Issacar (1Rs 4,17). Ocupava praticamente o mesmo território da tribo de Issacar, estendendo-se ao oriente pelo vale de Jezrael e ao norte de Betsã.
Semei, filho de Ela, em Benjamin (1Rs 4,18). Antigo território de Benjamin. Gaber, filho de Uri, na região de Gad, terra de Seon, rei dos amorreus, e de Og, rei de Basã (1Rs 4,19). Abrangia basicamente o mesmo território da tribo de Rúben, localizado na Transjordânia, fronteira com Moabe.
Quanto à posição geográfica dos distritos pode-se perceber que em alguns casos os limites coincidiam mais ou menos com as áreas tribais, mas não parece ter havido
54 uma preocupação em manter as antigas fronteiras das tribos. Cidades cananéias foram incorporadas ao território. Segundo de Vaux:
“A ordem seguida nela não é sempre geográfica, mas corresponde a um agrupamento lógico: a casa de José (I), à qual são associados os antigos territórios cananeus (II, III, IV, V), depois as conquistas na Transjordânia (VI, VII), as tribos no norte (VIII, IX, X), por fim Benjamin (XI) e Gade, que lhe fica de frente do outro lado do rio (XII).” 103
Segundo Soggin, o paralelo mais próximo dessa lista de distritos encontra-se no Egito, na época do faraó Sosenq (segundo o relato bíblico Sisaq), contemporâneo de Salomão. Nesse documento egípcio estão relacionadas as localidades e os nomes dos funcionários responsáveis pela administração de cada uma delas, cujo objetivo principal era fornecer provisões durante um mês por ano ao estado. “Também no Egito a lista menciona primeiro o nome da pessoa e depois a localidade territorial sobre a qual ela é responsável. E podemos definir que tal lista no plano jurídico-administrativo possuía funções evidentemente fiscais.” 104
Um problema a respeito dos distritos de Salomão é que Judá não consta da lista. Alguns autores acreditam que Judá estava igualmente divida em distritos já nos tempos de Davi, conforme uma lista que se encontra em Js 15, 21-62. De Vaux elaborou uma relação mais compacta citando apenas a principal cidade de cada distrito, ele escreve: “assim se obtém uma lista de doze distritos que cobrem todo o reino de Judá. As capitais não são indicadas; entre as cidades citadas escolhemos em cada grupo a que nos parece ter sido a mais importante ou que expressa melhor a posição geográfica do distrito: No Neguebe: I. Berseba, Js 15,21-32. Na planície: II. Azeca, Js 15, 33-36. III. Láquis, Js 15, 37-41.
103 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento, p. 165. 104
55 IV. Maressa, Js 15, 42-44. Na montanha: V. Debir, Js 15, 48-51. VI. Hebrom, Js 15, 52-54. VII. Maom, Js 15, 55-57. VIII. Bete-Zur, Js 15, 58, 59ª.
IX. Belém, Js 15, 59b. (grego, falta no hebraico). X. Quiriate-Jearim, Js 15, 60.
XI. Gibeá, (a ser tirada de Js 18, 25-28) No deserto.
XII. En-Gedi, Js 15, 61-62. 105
Outros afirmam que Judá está implícita em 1Rs 4,19b: “Além deles, havia um prefeito que permanecia na terra”. Nesse caso “terra” estaria se referindo ao território de Judá que talvez tivesse uma administração especial. Ocorre que tal afirmação foi colocada após a conclusão da lista dos doze distritos, portanto, é evidente que Judá não fazia parte do sistema descrito em 1Rs 4, 7-19. Para Donner, esta é “uma questão que ainda precisa ficar em aberto”. 106 No entanto, levando em consideração a hipótese de
que realmente Judá tenha sido excluída do sistema tributário de Salomão, ele conjetura que essa medida teria sido “uma medida equivocada de graves conseqüências na política interna”. 107 Culminando após sua morte com a divisão do reino.
Para Soggin, a argumentação de alguns autores a respeito da lista dos doze distritos de Judá, afirmando que no sul havia uma instituição análoga à do norte com o objetivo da arrecadação de impostos não é convincente. Para ele, “a data desse texto (Js 15,21-61), se situa entre a primeira época monárquica, no que se refere a suas partes mais antigas, e a época de Josias (segunda metade do século VII a.C.) em relação a sua forma final.” Soggin opta por confiar nas informações dos textos bíblicos, conjeturando que apesar de serem pouco claros, os textos afirmam que a divisão em distritos no norte tinha finalidades fiscais, enquanto que a respeito do sul nada é dito neste sentido. 108
105 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento, p. 167. 106 DONNER, Herbert. História de Israel, p. 263.
107 DONNER, Herbert. História de Israel, p. 263.
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