Com relação à lista que se encontra em 1Rs 4,2-6 contendo os nomes e funções dos altos funcionários de Salomão, pode-se dizer que trata-se de um documento antigo. Segundo Donner, “também da época do governo de Salomão possuímos uma lista dos integrantes do gabinete (4,2-6). Em comparação com as duas listas davídicas (2Sm 8,16-18; 20, 23-26), ela mostra que, com a ampliação e complicação do sistema, também as lideranças ministeriais se alteraram consideravelmente.” 109
A respeito da burocracia estatal durante o reinado de Davi, há duas listas dos altos funcionários, uma em 2Sm 8,16-18 “Joab, filho de Sárvia, comandava o exército. Josafá, filho de Ailud, era o arauto. Sadoc e Abiatar, filhos de Aquimelec, filho de Aquitob, eram sacerdotes; Saraías era secretário; Banaías, filho de Joiada, comandava os cereteus e os feleteus.” E a outra em 2Sm 20,23-26 “Joab era o comandante supremo do exército; Banaías, filho de Joiada, comandava os cereteus e os feleteus; Adoram controlava a corvéia; Josafá, filho de Ailud, era o arauto; Siva era secretário; Sadoc e Abiatar eram sacerdotes. Além desses, também Ira, o jairita, era sacerdote de Davi.” O modelo adotado foi o das nações vizinhas, principalmente dos reinos das cidades-Estado de Canaã. Além do modelo monárquico, é bem provável que Davi empregou pessoas influentes de Jerusalém em sua administração. Para Donner:
“após a incorporação das cidades-Estado cananéias, outrora independentes, à estrutura dos reinos de Israel e Judá, ele teria tido a possibilidade de assumir e colocar a seus serviços membros da aristocracia Cananéia destituída: homens que tinham atrás de si uma tradição administrativa secular e que certamente tinham capacidade para dar conta das tarefas que Davi lhes quisesse atribuir”. 110
O texto 2Sm 8,17-18 traz alguns nomes importantes na administração de Davi, dois deles eram jebuseus, o sacerdote Sadoc e o comandante militar Banaías, os quais
109 DONNER, Herbert. História de Israel, p. 263. 110 DONNER, Herbert. História de Israel, p. 239.
57 foram incorporados ao quadro administrativo. Provavelmente, Sadoc passou a ser um poderoso e importante aliado de Davi, sendo que nesse acordo entre eles, Davi ficaria com o poder político e Sadoc com o poder religioso. O nome de Sadoc aparece pela primeira vez em 2Sm 8,17 na lista dos altos funcionários da administração de Davi. Sua origem ainda provoca muitas discussões. A confusão surge em primeiro crônicas no qual ele é citado em duas genealogias diferentes. Aparece em 1Cr 24,3 como descendente de Eleazar e 1Cr 5,29-34; 6,35-38 informam sua genealogia completa a partir de Arão e seu filho Eleazar. Mas em 2Sm 8,17 ele é filho de Aquitob, dessa forma ele estaria ligado à família de Eli. Segundo De Vaux:
“essas genealogias de Crônicas são artificiais e é impossível que Zadoque seja um descendente de Eli, pois sua nomeação é apresentada como o cumprimento da maldição pronunciada contra a casa de Eli, 1Rs 2,27, cf. 1Sm 2,27-36; 3,11-14. Há outra marca de desordem no texto de 2Sm 8,17 “Zadoque, filho de Aitube, e Aimeleque, filho de Abiatar, eram sacerdotes”; mas Abiatar era o filho de Aimeleque e não seu pai, 1Sm 22,20. Já a versão siríaca fez essa correção, mas deve-se sem dúvida ir mais longe: Abiatar, em 1Sm 22,20 é chamado de “filho de Aimeleque , filho de Aitube” e pode-se pensar que, em 2Sm 8,17, Aitube tenha sido transferido como pai de Zadoque, acidentalmente ou deliberadamente. O texto primitivo seria então: “Zadoque e Abiatar, filho de Aimeleque, filho de Aitube”. O que deixa Zadoque sem genealogia.” 111
Uma hipótese muito aceita atualmente assegura que Sadoc seria um sacerdote que servia ao templo de Jebus antes de ser conquistada por Davi. A partir de então o templo jebuseu foi transformado em santuário javista, assim pode-se pensar que Sadoc tenha se convertido à nova religião passando a ser sacerdote da corte de Davi. Seu nome Sadoc (tsadôq) é derivado da raiz verbal (tsdq) muito comum nos nomes jebuseus, como por exemplo, Melquisedec (Gn 14,18) e Adonisedec (Js 10,1-3). Sua origem permanece na obscuridade, mas uma coisa é certa, Sadoc acabou por suplantar Abiatar, tornando-se o único sacerdote da corte (1Rs 2,26-27) e seus descendentes conseguiram se manter em Jerusalém até o exílio e todos os sumos sacerdotes também eram de sua descendência até a revolta dos macabeus, quando foi deposto o sumo sacerdote
58 sadoquita Onias III em 174 a.C. (2Mc 4,7), portanto a legitimidade de seu sacerdócio nunca foi contestada.
Banaías, filho de Joiada, originário de Cabseel (2Sm 23,20) aparece pela primeira vez entre os “valentes de Davi” ao lado de Abisai e Asael. Era comandante da guarda real de Davi. Depois da morte do rei, ele assumiu o posto de general do exército.
Se se comparar a lista dos funcionários reais do tempo de Davi com os funcionários de Salomão é possível notar que alguns cargos foram criados e outros passaram a ter maior importância na administração desse monarca. 112
No governo de Davi, o chefe do exército ocupava o primeiro lugar na lista. Ele também exercia a função de conselheiro para os assuntos políticos. É correto afirmar que Joab desempenhou um papel de grande importância junto a Davi. Assim pode-se constatar que o centro da administração estava voltado para as conquistas e à formação do império davídico.113
112 A partir das afirmações de Donner é possível perceber a evolução do sistema administrativo em Israel
comparando-se as etapas em que esteve sob o governo de Saul, Davi e Salomão. Sob Saul tratava-se de um reinado militar. Não há indícios que ele tivesse de administrar a justiça, promulgar leis ou garantir, ou até rever os limites territoriais das tribos reunidas em seu Estado. Relacionado com isso, está o fato de que a monarquia de Saul não necessitava de um aparelho de Estado; sua base era formada pelo contingente recrutado do exército popular das tribos. Quanto a Davi, após o banimento de perigos agudos ou crônicos na política externa, o rei viu-se diante da necessidade da organização de um aparelho de Estado. Dada a amplitude territorial do reino, o controle dos múltiplos assuntos militares e civis não podia a longo prazo, ser exercido só pelo rei. A construção de um aparelho administrativo desses, que tinha seu ponto de partida no rei e estava centrado em sua pessoa, naturalmente tinha como consequência uma sensível perda de poder por parte das tribos israelitas e de seus representantes. Surgiu, assim, um funcionalismo com áreas de competência na administração militar, civil e político- cultual. Desde então tudo que era decisivo era deliberado em Jerusalém. Tais informações encontram- se em DONNER, Herbert, História de Israel, p. 209 e 236.
113 “O império de Davi abrangia, após sua conclusão, praticamente todos os territórios que, na metade do 2º
milênio a.C., haviam pertencido à zona de interesse egípcios. Estendia-se da margem meridional da terra cultivada palestinense até a Síria Central. Esse reino não era assim tão grande em sua extensão; a distância de Berseba até Hamate perfaz apenas aproximadamente 500 km – ou seja, sem comparação com o território de impérios orientais anteriores ou posteriores. Em todo caso, porém, trata-se do primeiro império em solo palestinense e em parte da Síria de que se tem conhecimento. Seu surgimento foi, por um lado, favorecido pela circunstância de que passageiramente, por volta da virada do 2º para o 1º milênio a. C., o corredor siro-palestinense não estava sob o domínio de grandes potências estrangeiras. O vácuo político daí decorrente no corredor foi preenchido por Davi a seu modo.”afirma DONNER, Herbert, História de Israel, p. 263.
59 Na época de Salomão, os sacerdotes aparecem em primeiro lugar na lista juntamente com os secretários. Outros cargos foram criados, como o chefe do palácio, chefe das corvéias e o amigo do rei; bem como os prefeitos dos doze distritos cujo chefe era Azarias, filho de Natã.
A seguir, a relação dos altos cargos no reinado de Salomão: “O rei Salomão reinava sobre todo o Israel, e estes eram os seus principais chefes: Azarias, filho de Sadoc, sacerdote. Eliaf e Aías, filhos de Sisa, secretários. Josafá, filho de Ailud, arauto. Banaías, filho de Joiada, chefe do exército. Sadoc e Abiatar, sacerdotes. Azarias, filho de Natã, chefe dos prefeitos. Zabud, filho de Natã, amigo do rei. Aisar, prefeito do palácio. Eliab, filho de Joab, chefe do exército. Adoram, filho de Abda, chefe da corvéia (1Rs 4,1-6). Esse texto apresenta um problema no que se refere ao nome de Abiatar colocado como sacerdote contradizendo o texto 1Rs 2,26-27 que narra a condenação ao exílio do sacerdote Abiatar decretada por Salomão. Segundo nota na Bíblia de Jerusalém “glosa cuja segunda parte contradiz o v. 2 e 2,26s” 114 Para Donner, “ela
mostra que, com a ampliação e complicação do sistema, também as lideranças ministeriais se alteraram consideravelmente”.115 Ele divide em duas partes o quadro dos
altos cargos da administração salomônica, coloca em primeiro lugar os que já haviam sido instituídos na época de Davi e que permaneciam sob Salomão e os novos cargos que foram acrescentados durante o governo de Salomão. Abaixo estão relacionados os cargos nessa ordem.