Mesmo que alguns problemas tenham sido identificados desde o início do programa Cultura Viva, e durante as duas primeiras fases ações tenham sido tomadas para amenizar seus efeitos, um movimento maior de redesenho se dá na terceira fase do programa, que busca amenizar os problemas identificados e ajustar características do programa, processo que acontece no momento de conclusão da presente pesquisa.
Ao longo do ano de 2011 foram realizados mutirões para solucionar o gargalo de prestações de contas pendentes, tanto pela SCDC quanto pelas redes estaduais, bem como contratação de consultorias para complementar o trabalho dos gestores públicos envolvidos, e realização de inúmeros cursos e formações para os gestores de pontos e pontões de cultura (SILVA et al, 2011).
Também nesse período surgem movimentos para aprovação do PL nº 757/2011. Escrito inicialmente pelas organizações culturais durante as Teias55 e apresentado pela deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ), em 27 de julho de 2012 é aprovado na Comissão de Educação e Cultura o Projeto de Lei (PL) nº 757 de 2011, que institui legalmente o Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania - Cultura Viva, sendo que em 28 de novembro de 2012 o PL 757/2011 é também aprovado (por unanimidade) na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados.
Uma ação tomada para amenizar os problemas identificados no programa foi a proposição de mecanismos que viessem a alterar dispositivos da Lei de licitações, garantindo maior flexibilidade para as prestações de contas de organizações culturais. A alteração se dá ao inserir ações culturais na modalidade de objeto especial. Com isso, alguns itens não serão exigidos com o mesmo rigor aplicado, por exemplo, em obras públicas. São estes itens:
55 As teias são encontros periódicos para fomentar o compartilhamento de experiências e encaminhamento de questões afetas aos envolvidos no Programa Cultura Viva.
ausência de estabelecimentos que emitem nota fiscal, ausência de concorrentes, entre outros fatores que dificultam as prestações de contas de organizações culturais. A medida entende que as necessidades de gastos das organizações culturais têm peculiaridades, seja de disponibilidade regional ou da natureza das compras e, portanto tais gastos podem ser interpretados como objetos especiais.
Contudo movimento de mudança maior se dá em 2012, com a formação de um Grupo de Trabalho para o redesenho do programa Cultura Viva (GT Cultura Viva)56, instaurado pela portaria nº 45 de 19 de abril de 2012.
O GT Cultura Viva é coordenado pelo IPEA, sob supervisão do MinC, por meio da SCDC, e traz em si a noção de pluralidade, contando com a participação de representantes de órgãos e entidades envolvidos na política nacional de cultura: IPHAN, Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Fundação Biblioteca Nacional (BN), Fundação Cultural Palmares (FCP), Funarte, Fundação Joaquim Nabuco, Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC), Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), Serviço Social do Comércio (SESC), Comissão Nacional de Pontos de Cultura (CNPdC), Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura; Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Municipais de Cultura das Capitais e Regiões Metropolitanas; Representações Regionais do Ministério da Cultura; e Controladoria-Geral da União (BRASIL, 2012).
A intenção do GT Cultura Viva é construir uma proposta de redesenho juntamente com as organizações culturais que compõem o programa. Para tanto foram realizadas reuniões ao longo do ano, cujas datas foram divulgadas por meios digitais, e os documentos produzidos e as avaliações que embasam as discussões estão disponibilizadas (abertamente) no portal do MinC.
O redesenho toca em um assunto sensível aos pontos e pontões de cultura, dado que a continuidade do programa Cultura Viva, como um todo, e dos projetos, em especial, é uma dúvida que permeia as organizações culturais, como é possível perceber pelo depoimento de um gestor de ponto de cultura, já mencionado, para quem “o aspecto negativo [do programa Cultura Viva] é a burocracia, os atrasos nos repasses e também a falta de perspectiva em se renovar ou não o ponto de cultura” (Depoimento do Gestor 12, em resposta ao survey concedida em 17/10/2012).
56 Informações mais detalhadas podem ser acompanhadas no endereço: http://www.cultura.gov.br/culturaviva/category/redesenho-2/
Algumas propostas do GT Cultura Viva foram divulgadas em dezembro de 2012, por meio do Relatório do Redesenho do Programa Cultura Viva – GT Cultura Viva, e vêm sendo bastante discutidas pelas redes de pontos de cultura em fóruns virtuais.
Dentre as propostas, há a proposta de formação continuada para os gestores de pontos e pontões de cultura, e a de criação de uma plataforma digital capaz de integrar banco de dados, arquivos e memória institucional, bem como parâmetros para a descentralização do programa (GT CULTURA VIVA, 2012). Dessa forma espera-se amenizar os problemas de capacidade de gestão por meio justamente da gestão compartilhada: o fortalecimento das redes, nas quais os próprios pontos e pontões de cultura apoiam-se uns aos outros e ampliam a divulgação e memória de suas ações.
O redesenho sugere ainda a criação de uma cartilha que deve acompanhar os convênios, contendo orientações gerais que, apesar de parecer simplistas, como por exemplo, “organizar documentos em pastas e arquivos próprios; guardar documentos em local adequado, protegido e com segurança, se possível manter arquivo em mídia digital e papel” (GT CULTURA VIVA, 2012), tratam de dificuldades sentidas pelos pontos de cultura durante toda a implementação do programa. As organizações culturais excluídas das formas de financiamento anteriores ao programa Cultura Viva, conforme mencionado, não têm familiaridade com esses procedimentos burocráticos, e em primeiro momento encontraram grande dificuldade para executar os convênios, devido ao desconhecimento das regras.
Além das modalidades de ponto de cultura, pontão de cultura, ponto de rede e pontinhos, descritas no quadro I (página 66), o redesenho propõe a adoção da modalidade de chancela, que reconhece pontos de cultura, instituições e grupos culturais que têm histórico de atuação cultural, sem que convênios sejam firmados. Para tanto são concedidos prêmios e certificados às organizações culturais chanceladas como pontos de cultura. A prática de concessão de prêmios vem sendo cada vez mais adotada pelo programa Cultura Viva, conforme será melhor detalhado com o estudo de caso de São Paulo.
Além destas mudanças, uma das propostas que vem gerando maior discussão prevê verbas proporcionais ao número de habitantes de cada região. Ao vincular os recursos com o número de habitantes, busca-se equilibrar os gastos do programa Cultura Viva, já que há limitação dos recursos financeiros, conforme mencionado, garantindo que os recursos sejam destinados a regiões com maior concentração populacional e, portanto, atinja mais beneficiários. Enquanto atualmente os municípios recebem recursos de acordo com a quantidade de convênios firmados, segundo a proposta do redesenho, municípios de pequeno
porte receberiam proporcionalmente menos recursos, enquanto municípios de grande porte, como São Paulo, receberiam mais recursos.
A proposta de proporcionalidade dos recursos tem como argumentos favoráveis o equilíbrio das contas do programa, conforme já mencionado, e o redimensionamento para aumentar o público beneficiário. Entretanto esta proposta foi duramente criticada, inclusive por Célio Turino57. Dado que municípios com menos de 20.000 habitantes receberão, no máximo, 10 mil reais por ano (GT CULTURA VIVA, 2012), argumenta-se que municípios que já não dispõem de outros equipamentos públicos manterão esta condição, sendo que municípios com maior população contam com maior estrutura e equipamentos culturais.
A maior crítica ao processo de redesenho, no entanto, é baseada no seu enfoque. Conforme demonstrado, o redesenho busca formar gestores, apoiados inclusive por cartilhas, inserir a modalidade de chancela e adotar critérios para distribuição de editais de acordo com o porte populacional do município. Estas ações são voltadas para as organizações culturais, sendo que o maior gargalo do programa Cultura Viva, conforme já apontado, é a baixa capacidade de gestão do próprio programa. Essa crítica é feita por seu idealizador, conforme observado:
Redesenho não trata o principal problema: volta-se para as organizações, mas não tratam da parte técnica – as regras formais que se aplicam tanto aos pontos de cultura quanto a empreiteiras de grandes obras públicas (TURINO, entrevista concedida em 22 de janeiro de 2013).
Por se tratar de um processo em curso durante a fase de conclusão da presente pesquisa, ainda não é possível afirmar em que medida o redesenho modificará o programa Cultura Viva, e quais serão seus impactos. Entretanto é possível destacar que o programa Cultura Viva se dissemina e se altera ao longo desses oito anos.
Importante ter claro o desenvolvimento do programa Cultura Viva para entender as mudanças, no ponto de vista do alcance da política cultural, e do tipo de organização que passa a compor essa política cultural, temas tratados na próxima seção.
57 O pronunciamento de Célio Turino durante reunião de redesenho do programa Cultura Viva (15/12/2011) pode ser visto pelo endereço: http://www.youtube.com/watch?v=4vk2nU_PA4Q