A delegação do exercício da atividade jurisdicional, até por se constituir em exceção ao princípio da indelegabilidade, submete-se à observância de determinados limites, e a definição dos respectivos contornos não dispensa a interpretação das disposições legais que tratam da matéria.
Estão elas contidas, como já destacado, no § 4º do art. 162 do Código de Processo Civil – “Os atos meramente ordinatórios, como a juntada e a vista obrigatória, independem de despacho, devendo ser praticados de ofício pelo servidor e revistos pelo juiz quando necessários.” – e no inc. XIV do art. 93 da Constituição da República – “os servidores receberão delegação para a prática de atos de administração e atos de mero expediente sem caráter decisório;” –, e aproveitam à atividade jurisdicional exercida perante Varas do Trabalho – a primeira, por aplicação subsidiária autorizada no art. 769 da Consolidação das Leis do Trabalho, e a segunda, pela eficácia jurídica que lhe é inerente.
A primeira disposição trata de atos meramente ordinatórios e, exemplificativamente, alude a atos consistentes em juntada e em vista obrigatória.
Com relação à juntada – de novas peças aos autos dos processos –, a interpretação não oferece maiores dificuldades. Tratando-se de peças representativas de (i) atos cuja prática, se tempestiva, é mera consequência de os sujeitos que os realizam (partes ou terceiros) serem cientificados de outros atos processuais já realizados ou instados a praticar algum(ns) ato(s), e (ii) atos cuja prática resulta de iniciativa exclusiva do(s) interessado(s) e não depende de prévia provocação – como, por exemplo, a celebração de acordo, a outorga de mandato, a informação sobre alteração de dados cadastrais etc. –, a sua juntada dispensa intervenção do juiz. Ao revés, tratando-se de peças representativas de atos cuja prática (i) é promovida
extemporaneamente ou (ii) não decorre de prévia provocação, quando dela dependente, a admissibilidade da juntada deve ser submetida ao crivo do juiz – a quem incumbe atuar diligentemente também no sentido de evitar a prática de atos desnecessários.
A vista obrigatória, como outra modalidade de ato meramente ordinatório, está vinculada (i) a disposições legais que, a partir da consideração do(s) ato(s) por último praticado(s), quando a sua admissibilidade independe de intervenção do juiz, já projetam expressamente, como ato subsequente, a ouvida ou mera ciência de uma ou de ambas as partes, ou de terceiros, e, (ii) em âmbito mais amplo, ao princípio do contraditório, que orienta a necessidade de propiciar conhecimento a partes e terceiros que, em alguma medida, possuem interesse relacionado aos atos praticados no processo.
Já os demais atos meramente ordinatórios envolvem aqueles próprios ao aqui denominado automatismo da atividade jurisdicional, ou seja, os atos cuja prática é, a partir da consideração do(s) ato(s) por último realizado(s), (i) previamente definida pela disciplina processual – e cuja identificação não oferece maiores dificuldades, bastando remissão àquela disciplina –, ou (ii) dele(s) mera decorrência lógica – e cuja identificação não dispensa constatar, no caso concreto, a ausência de margem de escolha quanto ao ato subsequente a ser praticado, ou, de outro modo, a existência de possibilidade única quanto ao ato seguinte a ser praticado.
A segunda disposição, por sua vez, trata de atos de administração e atos de mero expediente sem caráter decisório e, a despeito de fazer uso de expressões diversas, pode parecer que retrata mera elevação a patamar constitucional da matéria já tratada no § 4º do art. 162 do Código de Processo Civil. Entretanto, não é essa, ao menos em parte, a melhor conclusão. A regra inserta no § 4º do art. 162 do Código de Processo Civil se encarrega de eleger os atos (“meramente ordinatórios”) cuja prática é delegada aos servidores pelo próprio legislador, tratando-se, pois, de espécie de delegação legal. Já a norma prevista no inc. XIV do art. 93 da Constituição da República, ao entregar ao juiz a tarefa de definir os atos objeto de delegação, institui espécie de delegação judicial e, assim, certamente visa a um campo de incidência distinto daquele ao qual se destina a regra anterior.
Com relação aos atos de administração, pode-se cogitar de dupla destinação da norma, compreensiva, então, de (i) atos envolventes de administração dos órgãos judiciários e, pois, externos aos processos e (ii) atos envolventes de administração do trâmite processual e, pois, internos aos processos – e que nada mais são do que atos de direção e impulso do procedimento, que, por isso, coincidem com aqueles que, na dicção do art. 162 do Código de
Processo Civil, são tratados como atos ordinatórios.
Os atos de mero expediente sem caráter decisório, a seu turno, incluem, sem a necessidade de maiores indagações a respeito, os atos que, na classificação adotada no art. 162 do Código de Processo Civil, são definidos como despachos, os quais, conforme Cândido Rangel Dinamarco, não possuem caráter decisório:
Em toda ordem processual, o juiz tem o poder de comandar e controlar inquisitivamente o andamento do processo e sua regularidade, impulsionando-o em direção ao provimento final a ser proferido (sentença de mérito no processo de conhecimento, entrega do bem na execução), evitando irregularidades e sanando vícios. Ele o faz mediante providências de rotina, como ao mandar que se juntem petições ou documentos aos autos, ao chamar as partes a se manifestar sobre documentos ou especificar provas (arts. 324, 398 etc.), ao designar data para audiência etc. Daí receberem esses atos judiciais o nome de despachos de mero
expediente, ou simplesmente despachos. Eles são manifestações da vontade do
Estado-juiz, mas destituídas de qualquer conteúdo decisório. Resolvem-se em atos
de direção e impulso, a serem realizados mesmo sem provocação das partes (art.
263) e sempre no interesse da regularidade processual.187
Os despachos, assim, traduzem atos voltados à ordinariedade da tramitação do processo, com o seu enquadramento ao desenvolvimento processual previsto em abstrato e, como não se vinculam a atividades essencialmente burocráticas, a sua prática também compete ao juiz – e, por isso, em realidade, são revestidos de algum cunho decisório, conquanto mínimo.
Em princípio, não podem ser incluídos entre os atos de mero expediente sem caráter decisório os atos que, na classificação adotada no art. 162 do Código de Processo Civil, se enquadram como decisões interlocutórias. Esses atos, embora também visem a permitir a marcha normal do procedimento, são revestidos de cunho decisório mais intenso, porque, tendo por finalidade a solução de um impasse momentâneo, implicitamente admitem margens mais largas de atuação discricionária do juiz. Não somente o conteúdo decisório que caracteriza as decisões interlocutórias impede que a sua prática seja delegada aos servidores, mas também essa maior liberdade de escolhas conferida ao juiz quando da análise da situação concreta, já que daí decorre, senão a impossível, a improvável identificação prévia da solução mais adequada – recordando-se que a delegação sempre importa em permitir a prática integral, pelos servidores, do mesmo ato que originariamente seria realizado pelo juiz.
Os esclarecimentos até aqui expendidos a propósito dos atos de mero expediente sem caráter decisório sugerem um alcance bastante limitado da norma prevista no inc. XIV do art.
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DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 494-495, v. II.
93 da Constituição da República, ainda que, conforme já sustentado, superior àquele cogitado no art. 162 do Código de Processo Civil. Todavia, a consideração da natureza da inovação constitucional aponta para conclusão diversa e permite entender que ao juiz é outorgado âmbito maior de atuação criativa no trato da matéria.
Consoante antes explanado, a Constituição da República inclui a duração razoável do processo e a adoção de meios que garantam a celeridade de sua tramitação entre os direitos e garantias fundamentais, e, nessa condição, eles podem ser exigidos como autênticos direitos a uma prestação perante juízes e tribunais, que, então, se submetem a atuar em prol do seu atendimento como típico dever funcional, e não mera faculdade. Não fosse isso suficiente, a própria Constituição da República institui alguns meios capazes de conferir maior celeridade ao trâmite processual, e entre eles está, justamente, a delegação da prática de atos aos servidores, providência que visa a racionalizar a tramitação do processo, a evitar deslocamentos desnecessários dos autos dos processos entre a Secretaria e o gabinete do juiz, e a reservar ao juiz disponibilidade maior de tempo para praticar os atos que efetivamente exigem a sua participação imediata.
Nessa linha de raciocínio, a delegação pode alcançar atos decisórios cujo conteúdo (i) pode ser disciplinado pelo juiz prévia e abstratamente, visando a atender situações concretas cuja ocorrência é mais frequente, ou (ii) pode ser explicitado, na situação concreta, em momento posterior à sua prática, sem qualquer prejuízo à regularidade do procedimento.
Na primeira hipótese pode ser enquadrado, exemplificativamente, o ato afeto ao juiz previsto no § 2º do art. 879 da Consolidação das Leis do Trabalho: “Elaborada a conta e tornada líquida, o Juiz poderá abrir às partes prazo sucessivo de 10 (dez) dias para impugnação fundamentada [...]”. A norma assegura ao juiz a escolha entre assinar às partes, ou não, prazo para manifestação sobre o cálculo elaborado com a finalidade de tornar líquida a condenação imposta em sentença. O cálculo, por sua vez, pode ser elaborado pelas próprias partes ou por auxiliares da Justiça. Com apoio no que normalmente constata na realidade, pode o juiz concluir que, sendo o cálculo elaborado por uma das partes, convém assinar prazo para manifestação à parte adversa, enquanto, sendo o cálculo elaborado por auxiliar da Justiça, em tese mais isento de ânimo, é dispensável assinar prazo para manifestação às partes. A partir daí, basta que as duas situações sejam disciplinadas prévia e abstratamente, por meio de ato normativo, e os servidores, doravante, pratiquem o ato cabível em cada uma das situações concretas, nas quais, então, passa a ser dispensada a intervenção do juiz.
consistente na emissão do primeiro juízo de admissibilidade dos recursos. Conforme estabelece a norma inserta no art. 900 da Consolidação das Leis do Trabalho, interposto o recurso, deve-se assegurar ao recorrido o direito à formulação de suas razões de contrariedade. Considerada essa necessidade, pode-se cogitar de, num primeiro momento, os servidores verificarem o preenchimento dos pressupostos de admissibilidade do recurso interposto e, estando atendidos, de imediato promoverem a ciência à parte contrária, para, querendo, oferecer contrarrazões. Após, oferecidas ou não as contrarrazões, os autos são conclusos ao juiz, para explicitação do juízo de admissibilidade e determinação da(s) providência(s) subsequente(s), num único momento. Trata-se, também, de situação que pode ser disciplinada prévia e abstratamente por meio de ato normativo.
Fora dessas hipóteses, os atos decisórios afetos ao juiz necessariamente se enquadram como indelegáveis e, portanto, não dispensam a intervenção do juiz, mesmo que limitada, conforme explicado linhas atrás, à conferência da redação do seu conteúdo proposta pelos servidores e, com ela concordando, à assinatura do respectivo expediente.