5.DÜNYA’DA VE TÜRKİYE’DE KESME ÇİÇEK SEKTÖRÜNÜN GENEL YAPISI Günümüzde çiçek artık sadece süs değil, para kazandıran, gelir getiren bir tarım
5.1. Dünya’da Kesme Çiçek Sektörü
5.1.1. Üretim ve tüketim
Certa vez, numa sala onde eu estava dando uma palestra, Alain Badiou encontrava-se na plateia e seu celular (que para piorar era meu – eu havia emprestado a ele) começou a tocar de repente. Em vez de desligá-lo, ele educadamente me interrompeu e pediu que falasse mais baixo para ele poder ouvir o interlocutor com mais clareza [...] (ŽIŽEK94, 2011a, p. 7)
90
As câmeras de televigilância nas ruas das grandes cidades diferem da vigilância incorporada pelos dispositivos móveis. As primeiras são fixas e não se importam com as pessoas num primeiro momento, são “‘máquinas de vigiar’ que se mantêm ali, presentes em sua ausência, para as quais, muitas vezes, a figura humana não interessa”. (BRASIL, 2003, p. 8). Já a vigilância permitida pelos celulares com sistemas de localização e etiquetas são tão móveis quanto o aparelho e seu usuário.
91
Cf. material sobre arrastão ao bar The Joy, na região central da cidade de São Paulo, em que os ladrões foram interceptados pela polícia graças às informações emitidas pelo GPS instalado em um smartphone
roubado na ocasião. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1108009-arrastao-em-bar- na-regiao-central-de-sp-foi-o-25-do-ano.shtml>. Acesso em: 24 jun. 2012.
92
Pellanda (2009, p. 10) entende por hiperpessoal os aparelhos usados única e exclusivamente por uma só pessoa, ao contrário do computador que não é de domínio pessoal, mas compartilhado ou coletivo, seja ele restrito ou não.
93
Exigência que passou a vigorar a partir da Lei Federal 10.3/2003, de 18 de jul. de 2003, que dispõe sobre o cadastramento de usuários de telefones celulares pré-pagos. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.3.htm>. Acesso em: 3 ago. 2010.
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Slavoj Žižek é um teórico esloveno, expoente atual da crítica cultural e política pós-modernista. Tal comentário é parte da dedicatória da obra.
Compute, ao estresse do deslocamento em transportes públicos, a inconveniência dos alto-falantes portáteis. Celulares, MP3, MP10, todos, invariavelmente, dispõem de alto faltantes, um dispositivo que os habilita para animados campeonatos diários de som dentro de lotações públicas.
O incômodo alcançou tal nível que tramitam em todo o país regulamentações sobre o que é aceitável e/ou suportável dentro de transportes públicos, e estabelecendo a obrigatoriedade do fone de ouvido em tocadores de música e em celulares, quando estes estiverem nessa função. E não estamos falando exclusivamente de passageiros. Na tentativa de impedir no corpo o efeito sintomático de um trânsito lento, quando tudo ameaça parar, motoristas, sejam eles de transportes públicos ou privados - a despeito das penalidades previstas em lei -, também sacam seus telefones celulares.
Sobre o encurtamento das distâncias e o desaparecimento das bordas entre os espaços públicos e privados, Ferraris faz uma reflexão oportuna:
Podemos chamar isso de a queda da vergonha, porque, na verdade, a pessoa que fala ao celular se transforma em um fenômeno interessante que não pode ser analisado somente em termos moralistas, ainda que um pouco de moral e de boa educação é sempre bem-vinda. Mas o fato de a pessoa criar o seu próprio espaço imaginário, o espaço de sua relação com o interlocutor do outro lado, e não pensar no espaço físico em que se encontra ao falar com seu interlocutor, é como se este estivesse presente aqui; ela gesticula como se fosse um louco pelo fato de que fala sozinha, consigo mesmo. Agora, com os celulares, com fone de ouvido, fica a dúvida se a pessoa é louca ou se está com o fone. Pelos celulares, as pessoas dizem coisas muito íntimas, como as brigas de casais [...]. Pode-se dizer que com o celular o privado se faz público de modo exagerado, a privacidade é tirada de dentro de casa e levada para a rua, para o trabalho e para muitos outros lugares. Eu, que também participo deste debate, notei que não são apenas questões sentimentais, mas também de negócios, de escândalos políticos e eucarísticos, muitos dos quais são provocados pelos celulares, enquanto as pessoas continuam falando ao celular como se não fosse a coisa mais “interceptável” do mundo. (FERRARIS, 2008, p. 161)
As cidades de São Paulo e Vitória95, por exemplo, lutam ingloriamente contra o mal do “alto falante portátil”. Em São Paulo, uma placa com o texto da Lei 6.681/6596
95
Em Vitória (ES), um decreto municipal (14.794/09) proíbe o uso de aparelhos sonoros no Sistema Municipal de Transporte Coletivo, no modo “alto falante”, salvo quando há utilização de fones de ouvido. A pena é de “expulsão” do usuário do veículo. Desde 10 de maio de 2012, está em vigor Lei Estadual 9.832, com mesmo teor que a municipal, com multa de 200 (duzentos) Valores de Referência do Tesouro
Estadual - VRTEs. Disponível em: <http://governoservico.es.gov.br/scripts/portal180_1.asp?documento=0198322012.doc>. Acesso em: 19
maio 2012. Iniciativas semelhantes tramitam em Juiz de Fora (MG), Porto Alegre (RS), Sorocaba (SP).
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O texto da lei expresso em placas no interior dos veículos de transporte público da região metropolitana de São Paulo é: “proibido o uso de aparelhos sonoros”.
53 está afixada em toda a frota de transporte público, o que não limita nem intimida o uso dos dispositivos pelos apelidados “DJs97 de Busão”.
Projetos de lei tramitando nas câmaras municipais e assembleias legislativas de todo o país98 preveem multa de até R$ 200,00, seja para passageiro, motorista ou cobrador, além da expulsão a quem atentar contra o sossego alheio.
A liberação é exclusiva aos fones de ouvido, desde que utilizados individualmente sem qualquer difusão externa de som. Afrontas feitas, não há fiscalização da lei, ainda que, em São Paulo, a Secretaria de Transportes da capital disponibilize um número para denúncias99.
Imagem 1: Campanhas em redes sociais, blogs, internet e impressas a favor do fone de ouvido em transportes públicos. Fonte: Bancos de imagens de domínio público (Google e fontes diversas).
97 Da expressão em inglês disc jockey ou do português disc-jóquei, que designa o profissional que de
composições musicais já existentes produz mesclas de novos sons para animar plateias de clubes, boates, danceterias e shows em espaços abertos.
98
Consultar banco de leis da Câmara Municipal. Disponível em: <http://www.camara.sp.gov.br/legislacao.asp>. Acesso em: 3 dez. 2011.
99
Queixas semelhantes são feitas por quem circula em metrópoles estadunidenses, como Nova Iorque e Los Angeles. Motoristas de táxi e ônibus falam acintosamente ao celular enquanto dirigem100, em descumprimento às legislações de trânsito existentes e também às regras de boa convivência.
Tais recorrentes usos vêm provocando mudanças nos hábitos sociais101, promovidas em grande escala a partir do uso civil da telefonia móvel e, nos últimos anos, do acesso móvel à internet102, demarcadoras sim do estabelecimento de uma incompreensão generalizada dos tênues limites entre espaços públicos e privados. Sobre isso, Žižek (2011b, p. 9) problematiza que “quanto mais acesso ao espaço público universal o usuário individual tem, mais esse espaço é privatizado”.
Registros da pesquisa em campo também apontam para outro viés: a praxe entre os usuários de fazerem uso de suas próprias mídias móveis, a exemplo de tocadores de música e games, tanto para não ouvir playlists alheios quanto para evitar eventual contato indesejado com outros passageiros, atitude de quem não quer estar onde está.
Essa estratégia de isolamento, de não querer se relacionar com o outro, assegura Sevcenko (1998, p. 585) ao sublinhar as relações entre as novas técnicas, o rádio e as grandes cidades, liga-se estreitamente à metropolização: ao modo como a experiência de viver nas grandes cidades modernas, planejadas em função dos novos fluxos energéticos e marcadas pela onipresença das novas tecnologias.
Onipresença dada pela possibilidade de estar conectado a vários espaços simultaneamente, com um mínimo de deslocamento físico. Nessa condição, torna-se menos nítida a barreira entre espaço público e privado (PELLANDA, 2006, p. 203), o que altera drasticamente a sensibilidade e os estados de disposição dos seus habitantes, deteriorando o contato físico entre as pessoas (VIRILIO, 2000, p. 87).
100
A profa. dra. Lúcia Leão em 07 de novembro de 2011, durante qualificação desta pesquisa, relatou ter vivenciado essa situação, por mais de uma vez, em transportes públicos e coletivos de metrópoles estadunidenses.
101
Teria o celular livre acesso para a transgressão mesmo quando seu porte não é tolerado, a exemplo de cinemas, reuniões de trabalho, concursos públicos, provas, espetáculos, cerimônias e transportes públicos? Em razão das indiscrições que provoca já passou a figurar em manuais de etiqueta e de estilo, como hábito a ser domesticado. Em inglês, já existe literatura sobre m-etiquette, ou etiqueta móvel.
102
Tanto a internet, com o largo uso que fazemos dela atualmente, quanto a telefonia celular remontam à década de 1990. Em 2000, entrou no mercado a tecnologia da internet móvel. A rede é acessada por meio de telefones celulares com um software simples, o microbrowser, capaz de interpretar mais textos que
imagens. Os microbrowsers foram criados, exclusivamente, para acessar WAP (Wireless Application
55 Afinal, tanto lá, em Frankfurt, como aqui, em São Paulo, coexistem tanto a vida nervosa (SIMMEL, 1967) da metrópole quanto a atitude blasé103 de quem vive nela. Tudo isso promovendo o embotamento de sentidos104, em atitudes impessoais, classificadas como fúteis, desconectadas do humano, despreocupadas com o social e desvinculadas do aspecto romântico (e inocente) decalcado do ser rural.
A essência do caráter blasé é o embotamento frente à distinção das coisas; não no sentido de que elas não sejam percebidas, como no caso dos parvos, mas sim de tal modo que o significado e o valor da distinção das coisas e com isso das próprias coisas são sentidos como nulos. (SIMMEL, 2005, p. 581)
Caiafa (2002) diz que habitar uma cidade é experimentar de alguma forma a vizinhança de estranhos. A que Wirth (1967, p. 109)105 atribui a essa indiferença um mecanismo de proteção contra “exigências pessoais e expectativas de outros”.
Simmel (1967) postulava que o indivíduo e o grupo realizam-se em um ambiente social artificialmente produzido por eles mesmos (a cidade moderna) e onde são dominados pelo aspecto tecnológico da existência. A tecnologia condiciona os ritmos e os ritos da vida moderna nos centros urbanos, bem como afeta a produção da cultura midiática.
O isolamento106 com distanciamento das relações afetivas de que trata Simmel, “durante minutos e até horas inteiras, olhando-se107 face a face, sem se dirigir a palavra” (SIMMEL apud BENJAMIN, 2000, p. 68), aqui apresentado por meio do uso instrumental e original do fone de ouvido, é necessário nos grandes centros urbanos, em que as pessoas estão permanentemente expostas aos mais variados e persistentes estímulos nervosos, para que os indivíduos metropolitanos adotem certa “vida mental” de forma a resistir à vida em sociedade. Portanto, a atitude blasé, quer seja mediada
103
Blasé aqui tem sentido de indiferença, incapacidade de reagir a novas sensações com a energia apropriada. “A essência da atitude blasé consiste no embotamento do poder de discriminar [...] o significado e valores diferenciais das coisas, e daí as próprias coisas são experimentados como destituídos de substância." (SIMMEL,1967, p. 15 -16).
104
O embotamento de sentidos é um meio de preservar a vida subjetiva e a perda da sensibilidade, fruto do bombardeio de imagens e sons no mundo contemporâneo. O excesso de informações e estímulos externos dificultam a reflexão e a contemplação da realidade.
105
Da citação “a reserva, a indiferença e o ar blasé que os habitantes da cidade manifestam em suas relações podem, pois, ser encarados como instrumentos para se imunizarem contra exigências pessoais e expectativas de outros” de Wirth (1967, p. 109).
106
Post do blogueiro Bruno Chagas sobre os incômodos provocados na coletividade por passageiros de ônibus que se arvoram em ouvir música em alto volume. Disponível em:
<http://brneo.wordpress.com/2010/06/21/irritacao-sonora>;
<http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=27208>. Acessado em: 11 nov. 2010.
107
(THOMPSON, 2008) por fone de ouvido ou por outros eletroeletrônicos, é uma proteção à vida em sociedade.
Costumo ouvir muito (munido de um fone de ouvido, claro) no ônibus, seja para me distrair com uma música ou acompanhar emissoras de notícias como a CBN. Mas a utilidade principal do finado gadget [o fone de ouvido – grifo meu] era outra: manter-me alheio ao resto do mundo, tornando a viagem mais suportável. Andar de transporte público em São Paulo é uma experiência surreal em vários sentidos. São superlotações, atrasos, baboseiras proferidas e conversas fiadas de todos os tipos e tamanhos, que beiram os limites da sanidade [sic]. E o mesmo advento de tecnologia que trouxe até
mim os arredios players levou-os também até as outras pessoas. São MP3, 10 ou 200 com som embutido, celulares com rádio, tocadores e TV... Só o bom- senso que não vem incluído no pacote.108
Nessa nova conformação urbana, de experienciação da metrópole, replicam-se signos e mensagens que, em geral, com as atuais condições tecnológicas a partir do uso de gadgets, fragmenta o espaço público em inúmeras unidades privadas. São multidões que circulam entre o espaço da visibilidade (esfera pública) e o espaço de ocultamento (esfera privada). Em busca de lugar e exposto às intensidades e complexidades (de informação, imagens, representações culturais e sociais) da metrópole, seu habitante passa a negá-la, indo do prazer de vivê-la à intenção de se afastar do centro dela.
É da lavra de Caiafa a máxima, que aqui compartilho, de que as cidades engendram todo um meio propício ao movimento.
A experiência com a variedade de estímulos nas ruas, com esses desconhecidos que cruzam nosso caminho – e com quem uma comunicação em alguns casos pode se estabelecer – modeliza afetos, perceptos, produz, enfim, subjetividade. Para admitir os processos urbanos como componentes subjetivos é preciso conceber uma subjetividade fora do sujeito, em constante atualização e processualidade, à mercê de componentes heterogêneos. (CAIAFA, 2002, p. 93)
Uma vez que a comunicação por telefone celular acontece tanto em ambientes públicos quanto privados, pessoal e particular simplesmente passam a ter fronteiras elásticas.
Cônsolo (2008) entende que a interpenetração de público e privado acontece por que aqui, no Brasil, a oralidade, no exercício de mídias móveis, não reconhece nos espaços109 físicos limitações para a sua livre dilatação. Talvez porque aqui se apresente involuntariamente o falatório latino e se cultive, de variadas formas, a intervizinhança
108
Bruno Chagas, idem, post de 21 de jun. de 2010.
109
57 entre mesclas de gente migrante e solar de hábitos contraditórios, de repertório proliferante e barroquizante110.
Seres humanos são frequentemente mais famintos por informações do que por comida. Um telefonema pode interromper subitamente um jantar. Na verdade, é tão irresistível uma chamada telefônica – que pode ser de qualquer pessoa, incluindo a pessoa que mais nós queremos ouvir, seja para lazer ou negócios, até para uma chamada de telemarketing – que pode ter preferência sobre qualquer coisa, incluindo namorar. Teóricos da mídia chamam este efeito como “telephonus interruptus”. (LEVINSON, 2004, p. 44)
Castells111 diz que as pessoas, nessa situação, criam seu espaço privado ignorando aqueles à sua volta. Santaella (2007, p. 247) assevera que isso se dá porque nessa situação produz-se “uma ilha de intimidade no oceano dos ambientes públicos” e “se o espaço privado está sendo erodido na proporção do crescimento da conectividade em qualquer lugar e em qualquer tempo, o inverso também é verdadeiro: com o celular, a vida privada invade o espaço público” (SANTAELLA, 2007, p. 246). Essa intrusão a que fazemos referência só pode ser controlada mediante a vontade de quem opera o dispositivo. Não há lei municipal, estadual ou federal que dê jeito nisso.
110
Contribuição do prof. dr. Amalio Pinheiro em reunião de orientação de 20 de nov. de 2011.
111
Cf. CASTELLS et al. The Mobile Communication Society: A cross - cultural analysis of available
evidence on the social uses of wireless communication technology. International Workshop on Wireless Communication Policies and Prospects: A Global Perspective: 2004. Disponível em: